Azar
10 No Ônibus
O elevador chegou e dele saiu uma família com direito a cachorro e tudo, que fez questão de nos encarar por algum tempo, esperando uma briga. Ou um beijo, talvez, mas não importa. Mesmo que eu quisesse aquele beijo eu ia sumir da vida dele e ponto final. Não ia me meter em mais confusão por causa de um garoto, mesmo que ele fosse o cara mais lindo que já se viu na Terra. Estava decidido.
— Não... Tchau, Eduardo. — Sussurrei, sem forças para falar num tom normal, entrei no elevador e vi a porta se fechar na cara atônita e linda dele.
Amanhã vai ser outro dia. Era o que eu repetia mentalmente, eu ia deixar aquela bobagem de meu Eduzinho para trás e me concentrar em garotos alcançáveis: nenhum.
Cheguei em casa, tomei um banho longo e quente, na esperança de lavar a vergonha, e cai na cama, ainda tinha um domingo tedioso pela frente. Acontece que o domingo não foi tão tedioso assim. Na verdade, eu não vi o domingo passar, quando eu acordei eram seis e meia da tarde. Levantei, comi um pacote inteiro de biscoitos e fui dormir de novo, me dando conta de que não tinha visto a minha mãe o final de semana inteiro.
Acordei duas horas antes do despertador e fiquei rolando na cama até ele tocar, sem o menor sono. Me arrumar para o colégio pareceu mais fácil, provavelmente porque eu já estava acordada há algum tempo, e eu consegui sair de casa sem nenhum acidente. O que não durou muito.
Assim que desci vi que chovia mais do que chuveiro ligado e eu, é claro, não tinha levado guarda chuva. Saí sem ele mesmo, não podia chegar atrasada de novo, senão levaria suspensão. Entrei no ônibus encharcada, tendo que ir de pé até o colégio, onde eu era o centro das atenções: claro, eu era a louca que tinha chegado no colégio toda molhada e com cara de que nada havia acontecido.
Assisti às aulas congelando — sala com ar condicionado mais eu molhada igual a desastre. Quando bateu o sinal para o intervalo eu já estava quase seca e com um mau humor do cão, que persistiu até a saída.
— Ei! Isabel! — Virei, sem reconhecer de primeira àquela voz.
— Pedro? — Perguntei, o que aquele Semideus grego (eu tinha mudado a minha concepção de Deus grego depois de conhecer o Edu) queria comigo? De novo!
— Esperava outra pessoa?
— Não, não esperava ninguém. — E ri, lembrando de que tinha decidido que "ninguém" era o melhor namorado do mundo: nunca está lá, mas você também nunca espera por ele. O Pedro me olhou por uns segundos sem me entender e, quando ia começar a falar, seu celular tocou e começou a chover mais uma vez. Eu já não estava num momento muito simpático e sabia que, vindo dele, não era coisa boa, então recomecei a andar até o meu ponto de ônibus, que até passou rápido.
Assim que pisei no ônibus meus olhos se encontraram com os da única pessoa que eu não queria ver: O Edu! Dessa vez vocês adivinharam antes de eu falar, né?
Meu olhos voaram para os meus pés, como uma criança que foi pega fazendo merda e eu tentei parecer segura e decidida. Não deu certo: antes que eu sequer terminasse de subir os degraus do ônibus, pisei baixo demais e acabei chutando o degrau e tropeçando. Soltei uma risada ligeiramente histérica e levantei a cabeça, evitando olhar para o Edu.
Passar da roleta não foi muito problemático, o problema mesmo veio depois, quando o ônibus andou e o meu tênis escorregou no chão do mesmo. Fiquei patinando, enquanto me segurava nas barras para não cair e depois de alguns segundos embaraçosos, consegui – finalmente – me equilibrar e continuar andando até o fundo do ônibus.
Sentei do lado do corredor, deixando o espaço ao lado da janela vazio — claramente dizendo "não quero ninguém do meu lado, nem tente" — abri a mochila, peguei um livro e me enterrei no mundo mágico das palavras.
— Com licença? — Perguntou uma voz masculina, me tirando do meu mundo literário. Deixei-o passar, contrariada e sem nem olhar para cima e voltei para o meu livro. Não consegui ler nem meia frase. — Você vai continuar fingindo que não me conhece, dona Isabel?
Olhei para a pessoa ao meu lado, assustada. E, você, como é mais inteligente que eu, já sabe quem era.
— O que você quer, Eduardo? — Respondi, meio grossa demais.
— Queria saber se você esta bem. — Disse ele, era a sua vez de abaixar a cabeça. Admitiu bem baixinho, olhando nos meus olhos, logo em seguida. — Fiquei preocupado com você...
— Eu estou bem, disse para não se preocupar. — Aquele papo estava meio pesado e resolvi melhorar o astral. Comecei a gesticular tentando pensar em algo divertido para falar, o livro voou da minha mão e foi rodando até a cabeça careca de um homem sentado mais a frente, batendo bem forte nela — Ah! Não acredito! Desculpe, senhor! Mil desculpas!
Eu fui ficando cada vez mais vermelha e aí passei pra roxo, vinho, púrpura, devo ter feito todas as escalas de cores possíveis.
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