Azar

11 Zá


O senhor virou para trás com uma cara de raiva que eu pensei "Pronto! Chegou a hora! Vou apanhar aqui mesmo!". Com isso, fui escorregando no assento até ficar quase deitada — completamente torta — naquele minúsculo espaço entre o meu banco e o da frente. Edu se meteu:

— Desculpe, senhor. Espero que não tenha machucado. Ela é meio desligada, mal consegue ficar em pé, segurar um livro, então, é uma aventura! — E riu um pouco para o careca que eu tinha quase atacado. O mesmo olhou do Edu para mim – voltando a ficar roxa de tanta vergonha – de volta para ele e, com uma leve pitada de pena de mim, sorriu.

— Tudo bem... Eu vi como ela entrou no ônibus... — Com essa frase, o ônibus inteiro começou a gargalhar. Sim! Gargalhar! E de mim!

Afundei mais e mais, encarando uma gota de chuva na minha blusa, até começar a sentir dor da posição em que estava. O careca pegou o livro e devolveu, agradeci timidamente e voltei a olhar para a gota. Como eu queria sair daquele ônibus!

— Nessas horas é melhor levar pro humor, as pessoas ficam menos agressivas se você se sacaneia... — Disse o Edu, levantando o meu queixo até eu olhar para ele. — Agora sente-se direito, vamos.

Obedeci sem dizer uma palavra, o que não era comum — eu tinha resposta para quase tudo. Fiquei um tempo brincando com o zíper da minha mochila, sem nenhuma coragem de olhar pra cima.

— Ei! Não fica assim! Essas coisas acontecem, você sabe... — Murmurou ele, depois de ver que eu me recusava a levantar a cabeça. Apenas olhei para ele e sorri um sorriso amarelo. — Ah, não! Não vou te deixar ficar assim, Bel...

Suas palavras me deram um choque. Olhei para ele com os olhos completamente arregalados, eu não podia acreditar: ele tinha me dado um apelido!

— Que foi? — Perguntou ele, assustado com a minha reação.

— Um apelido! Você me deu um apelido! — Soltei quase sem pensar e, quando pensei, vi que tinha feito merda.

— Dei... Acho o seu nome bonito, mas não consigo não criar apelidos, você não gosta de Bel? Prefere Isa?

— Não, acho Isa muito normal, Bel é legal... — Parei de falar, era melhor ficar calada, já tinha falado merda demais por um dia. Só que, como você deve imaginar, não consegui impedir a minha boca de sair tagarelando. — Pode me chamar de Bel, mas ninguém me chama assim... Na verdade, me chamam de Zá.

— Zá? — Perguntou ele, com uma cara tão atônita que eu achei que aquela era a gota d’água e que ele ia fugir pela janela. Não foi o que aconteceu.

— É, Zá. Foi um apelido de escolinha que acabou ficando, na verdade... — Me senti na obrigação de explicar, coisa que não tinha feito a mais ninguém. — Eu sempre fui assim, de cair e tropeçar e pagar mico e, a verdade, é que eu sou bem azarada, sabe? Então um menino passou a me chamar de Zá, do brilhante trocadilho “A Zá — azar”. Eu tinha uns 7 anos, eu acho. Até hoje lembro o nome dele: Rodrigo.

— Nossa, e durou até hoje? E você gosta disso?

— É... Estudei a vida inteira na mesma escola, e continuo sendo azarada, então... — Parei de falar, sem saber exatamente o porquê de estar contando parte da minha história de vida para aquele quase completo estranho que eu estava disposta a esquecer.

— Você não respondeu a minha outra pergunta: Você gosta desse apelido?

— Vai parecer estranho, mas eu gosto. Combina comigo... — Dei de ombros, olhando pela janela para fugir de seu olhar de interesse.

— Bem, se você gosta, então tá tudo certo.

O assunto morreu e foi enterrado, mas ele parecia decidido a ressuscitá-lo. E conseguiu:

— Nunca me chamam de Eduardo... Quer dizer, tirando você... — Ele ficou vermelho ao dizer essa última parte e eu me senti quase impelida a confessar:

— Bem... Na verdade... — Travei, não sabia como admitir aquilo.

— Na verdade...? — Ele acenou com a cabeça, sugerindo que eu continuasse.

— Eu te chamo de Edu... Quando penso em você... — Se eu estava vermelha? Não, eu já tinha passado dessa fase há muito, muito tempo.

— Então porque me chama de Eduardo quando fala comigo? — Perguntou ele, ignorando completamente a pergunta inquietante: "Eu pensava nele?" A resposta? Pensava... E muito mais do que necessário.

— Porque eu não sabia se você gostava de Edu... — Ele riu.

— Você adivinhou no apelido, detesto Dudu, sempre detestei. Parece nome de cachorro! — Ri com ele. Finalmente o papo estava leve.

Depois disso simplesmente ficamos em silêncio, não tínhamos muito mais o que falar no quesito “nomes e apelidos”.

— Hmm... Edu? — Quebrei o silêncio, mesmo sem ter o que falar, agora quem não queria deixar o papo morrer era eu.

— Fala, lind... Fala, Zá. — Ele ia me chamar de linda? Sério isso? Perdi completamente a concentração.

— Vo... Você ia me chamar de linda?