Azar
2 Na Educação Física
Você deve ter percebido que minha vida não começou muito bem e, como uma criança amaldiçoada e fruto de uma traição, não posso dizer que tive uma infância muito feliz.
Hoje, com meus 16 anos, tento viver o melhor possível e curtir cada momento de alegria. Já aprendi que eles duram pouco, muito pouco.
Como na última terça-feira:
Eu estava na educação física (o que já é ruim para começar — eu não tenho coordenação para esportes, simplesmente não tenho) quando o Pedro me chama:
— Isabel! — Acordei de meus devaneios num estalo. O que o garoto que eu, humilde mortal, considerava um Deus Grego queria justamente com essa que vos fala?
— Oi? — Perguntei, atônita, quando o vi acenar para que eu fosse para junto dele.
— Vem cá! — Falou ele, em alto e bom som. Fui, claro.
Nos dez passos que dei até ele, imaginei muita coisa: que ele ia se declarar para mim e nos beijaríamos ali, no meio da aula — o que seria meio estranho e nada romântico, mas eu estava achando o máximo — ou que ele me diria que me achava linda (mentira) e me chamaria para sair, ou que ele, sem dizer uma palavra, iria me beijar ardentemente, causando uma comoção geral na turma, ou... Você entendeu, né?
Cheguei ao lado dele com o coração na boca, me segurando para não dizer: "Eu também te acho perfeito e é claro que eu quero namorar você!" antes da hora e ele disse:
— Te escolhi pra minha equipe de vôlei, tá? Você fica ali. — E apontou para o outro lado da quadra. Cheguei no "meu lugar" devastada, com todos os meus sonhos destruídos, tanto que não vi quando a bola veio em minha direção e me derrubou que nem uma fruta podre no chão.
Resultado: Acordei na enfermaria, com um galo gigantesco na testa e, quando voltei para a quadra, todos riam de mim e, adivinhem quem quase se mijava de tanto rir?
O Pedro, claro!
E essa é a minha vida, basicamente. Bem vindo ao inferno!
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