Azar

3 No Elevador


Azar sempre pareceu ser o tema da minha vida. Não era para menos, já nasci amaldiçoada. Se eu sou supersticiosa? Com a minha vida não tem como não ser, né? Ainda não concorda? Eu te provo:

Tinha acabado de entrar no elevador para voltar ao apartamento em que minha mãe vivia — comigo, claro — após ser expulsa de casa por Carlos assim que descobriu a traição.

Meu dia tinha sido longo e tudo o que eu queria era a minha cama, quando entra um servente do prédio:

— Mocinha, espera o de serviço, que eu vou limpar esse agora, tá? — Quase pulei no pescoço do cara, mas, com a minha sorte, é claro que uma coisa dessas ia acontecer e atrapalhar a minha semi felicidade por estar quase em casa.

Fui andando — me arrastando, na verdade — até o outro elevador e apertei o botão para ele descer. Você não esperava que ele já estivesse ali, né? Ele estava no último — décimo — andar, e ia demorar.

Depois de alguns eternos minutos esperando, finalmente chega o bendito — ou maldito, como preferir — elevador e, com ele, um menino que gentilmente segura a porta para que eu entre.

— O-oi... — Cumprimentei-o, sem folego, tentando parecer normal.

— Oi. — Respondeu o garoto mais lindo que eu já tinha visto na vida. — Tudo bem?

Eu sabia que ele só tinha perguntado por educação, mas não importava. Eu queria puxar assunto com aquele "príncipe encantado" de cabelos castanho-claro e olhos verde-esmeralda.

— Tudo ótimo, e com você? — Tratei de abrir um sorriso simpático, que logo desapareceu quando eu me toquei de uma coisa: ele ainda não tinha saído do elevador. Não que eu quisesse, mas, convenhamos, era estranho. — Você não estava descendo?

— Na verdade, eu estava na garagem e queria subir, mas ele desceu primeiro... — Ele riu, envergonhado com o meu mini interrogatório. Mas isso não ia me impedir de continuá-lo:

— Desculpe, mas... Você é novo no prédio, ou está visitando ou...?

— Sou, — Interrompeu-me, por sorte, eu estava prestes a falar um monte de besteira. — me mudei ontem e ainda estou meio confuso... Sabe como é, né? Mudança...

— Sei... — Pensei melhor. — Quer dizer, não sei, — Tentei salvar. —mas imagino!

Ele riu da minha confusão. Ai, que vergonha!

— Meu nome é Eduardo, qual o seu?

— Isabel.

Um momento de silêncio.

— Eu gosto de Eduardo... — Não sei se meu comentário foi apropriado, mas eu juro que não estava pensando em nada maldoso! O nome é bonito, fazer o que?

Ainda estávamos parados no térreo e só então que ele percebeu isso — ou já tinha percebido antes e estava com vergonha de falar.

— Ainda não saímos do lugar. — Olhei em volta e ri da minha distração (para quem estava tão desesperada antes...). — Esquecemos de apertar o andar.

Apertei o botão do nove. Ele, logo em seguida, apertou o dez e sorriu, éramos vizinhos de andar.

Minha mente não conseguia ficar ali, focada naquele momento. Em meus pensamentos eu já estava imaginando o vestido do casamento, escolhendo o nome dos nossos filhos... Tá, tudo bem, exagerei, mas confesso que estava mesmo imaginando como seria bom se nós saíssemos juntos e namorássemos.

E foi nesse exato momento que eu percebi: estava indo tudo bem! Bem demais para ser verdade...

O elevador começou a subir, mas logo parou, a porta abriu-se no play e entrou o garoto mais insuportável da face da terra: Júnior.