Azar

4 Júnior


— Fala, gatinha! — Falou ele, metido, com cara de quem tinha um balde de merda debaixo do nariz — perdoe a expressão.

— Gatinha é a sua mãe! Para se referir a mim, fale o meu nome. — Repensei. — Ou melhor, não se refira a mim.

— Uuuuh! A gatinha tá nervosiiiinha, hooje! — Não, eu não errei na digitação ele usou todas as vogais escritas, garanto. Bufei sem responder nada, não adiantava discutir com ele. — E ainda rooosna. Que gostosiiinha, essa gatiiinha.

Ele veio chegando para mais perto.

— Não encosta em mim, Júnior! — Quase berrei, fugindo. Ele não desistiu e avançou de novo. Foi então que o Eduardo partiu pra cima dele, me defendendo.

— Você é surdo? Ela mandou ficar longe! — Quase derreti ali mesmo.

Júnior ficou com medo do Eduardo (que era três vezes maior do que ele e nem era do tamanho de um armário, devia ter tipo um metro e oitenta — já deu pra perceber que o Junior parecia uma criança de barba, né?) e ficou quieto, mas não por muito tempo.

*

Preciso fazer uma pausa na história para registrar a minha indignação. Você pode até querer me dizer que eu não sou azarada, mas, olha, com tanto cara no mundo o único que presta o mínimo de atenção em mim é o Júnior? Sério? O Júnior? Eu já disse que ele parece uma criança de barba, mas acho que não ficou claro o suficiente o quão repulsivo ele é. Ele deve ter por volta de um metro e meio – sem brincadeira – anda como um pato, tem uma penugem – que ele chama de barba — horrível que ele insiste em deixar crescer e ele sempre parece que não escovou os dentes. Por que, senhor, essa criatura é a única que olha pra mim, por quê?

Ok, agora que eu desabafei, podemos voltar:

*

Segundos depois o desgraçado botou a mão na minha bunda. Eu dei um pulo pra frente, gritando feito louca (de susto) e ai virei para dar um tapa nele, só que ele desviou e o meu tapa bateu na cara do Edu (eu não tinha intimidade com ele para apelidos, mas ele não precisava saber que mentalmente eu o chamava de meu Eduzinho, né?), que tinha se curvado um pouco para amarrar o tênis, ou seja: ele estava em um pé só! E, com o meu tapa, que não é fraquinho, ele se desequilibrou e foi se apoiar na porta. Júnior caiu no chão de tanto rir.

Sem grandes desastres até então, só que, é claro, a porta do elevador abriu e o Edu não teve tempo de se pôr de pé. Quando o vi caindo, fui tentar ajudar, mas ele é – obviamente – mais pesado que eu e, ao invés de erguê-lo, eu cai junto com ele, quer dizer, em cima dele.

— Ai, meu Deus! Você tá legal? — Perguntei, me levantando toda troncha, enquanto a porta do elevador, tentando fechar, ficava batendo na minha bunda — reparou o grande abuso da minha pobre bunda nesse dia? — e nas pernas dele.

— A-acho que tô... Talvez tonto.

— Você bateu com a cabeça? Melhor a gente não te mexer, eu vi que quando a pessoa cai...

— Relaxa, eu não quebrei nada. Espero... — Retrucou, levantando devagar, quase como se checasse que os ossos ainda estavam onde deveriam estar.

— Você devia pôr gelo nessa cabeça! Espera ai que eu vou ali em casa buscar! — Gritei enquanto começava a correr para casa, mas ele me interrompeu:

— Não precisa, eu moro aqui em cima. — Ele falou como se fosse óbvio e, bem, na verdade, era.

— Ah... Tá, então... Desculpa! Mil vezes desculpa! — O remorso estava me corroendo... E, para variar, eu sabia que tinha estragado todas as minhas chances com ele.

— Tudo bem... Relaxa... — E entrou no elevador, onde o Junior ainda ria da desgraça alheia.