Azar
5 O Rato
Cheguei em casa desolada! Poxa, ele era o único – único! – que ainda não conhecia o meu histórico e eu tinha esperanças de que, quando ele soubesse, já estivesse perdidamente apaixonado por mim e seria tarde demais para desiludir...
Para piorar o meu dia, entrei no quarto e, antes de poder largar a minha mochila, como costumo fazer, dei de cara com um rato gigantesco (daqueles que tem um rabo quase do próprio tamanho, sabe?)! Devo avisar que tenho PAVOR de rato! Também, como não ter? Aqueles bichos nojentos, sujos, que andam por ai com aqueles pézinhos... Ai, credo!
Ficamos nos encarando, eu e ele, por alguns minutos — que me pareceram horas. E resolvi tirar aquele bicho horroroso do meu quarto, que estava limpinho e arrumadinho pela primeira vez em milênios. Taquei a mochila no sofá, na sala, e fui correndo pegar uma vassoura e toda a parafernália. Voltei para o quarto armada: tinha colocado uma panela na cabeça (caso o bicho pulasse), botas da minha mãe — e ela só tem de salto, então você já deve imaginar como eu estava desequilibrada, né? — um casaco de couro velho que eu achei e, para fechar a minha roupa de batalha, uma tampa de panela numa mão e a vassoura na outra. Estava armada e me sentindo a ninja.
Literalmente vestida para matar, me matar.
Fui chegando perto da besta lentamente, tremendo na base antes mesmo da batalha (grande ninja), e, quando o bicho me sentiu perto demais, se mexeu e eu, com toda a minha histeria, comecei a gritar, pular, larguei a tampa da panela e ela caiu no meu pé. Doeu tanto, mas tanto que eu levantei o pé para ver se os meus dedinhos estavam inteiros, nessa hora, o desgraçado do rato, tentou fugir pelo buraco entre o salto agulha e o pé — se é que você me entende. Só de pensar naquele bicho imundo passando perto do meu pézinho, tive um treco, minhas pernas ficaram bambas e eu fui tentar fugir (com um pé só). Obviamente, me desequilibrei, a panela da minha cabeça despencou fazendo um barulho enorme que assustou a mim e ao rato.
Caí em cima da minha mesa que estava toda bonitinha, derrubando todos os papéis de dentro da minha pasta do colégio, aberta por cima de tudo, os meus livros, TODOS os meus absorventes de dentro da bolsinha e meu estojo, espalhando lápis, canetas, apontador, cola — blá blá blá — pelo chão e em cima de mim.
Ouvi o rato guinchando e logo depois o barulho de suas patinhas se afastando. Bem, pelo menos eu tinha me livrado dele, né?
A chave girou na porta e ela se abriu. Minha mãe tinha chegado e ia me ajudar! Ufa!
— Querida! O que houve no elevador? O porteiro me disse e... — Ela congelou ao me ver naquele estado. Logo atrás dela, adivinha quem chegou?
Adivinhou? Não?
Eu te falo: o Eduardo.
Como ele conhecia a minha mãe? E o que ele estava fazendo na minha casa? E porque justo na hora em que eu estava caída no chão coberta de absorvente, papel e material escolar?
— ... eu encontrei o Eduardo pelo caminho. — Terminou a minha mãe, abismada.
— Tinha um rato e... — Tentei em vão explicar o meu estado, mas, convenhamos, não era muito fácil.
Não sei com que paciência divina, Edu entrou no meu quarto e estendeu a mão para me ajudar a levantar. Muito agradecida, levantei, sem nem me preocupar em tirar tudo de cima de mim, ou seja, o meu quarto lindinho e arrumadinho, estava um caos total.
Apenas te lembrando que, quando eu entrei no prédio tudo o que eu mais queria era deitar e dormir. Tão simples... Não com a minha vida.
— Obrigada. — Murmurei, envergonhada, para ele.
— Sem problemas. — Ele parecia quase... confortável com aquela situação, o que não é exatamente normal. Comecei a questionar a sua sanidade e lembrei da batida de cabeça.
— Você tá bem?
— Tô, tô... Eu acho que você devia se preocupar em saber se você está bem, parece que o tombo foi feio...
— Só parece, eu tô acostumada! — Tentei parecer animada, mas não colou nem um pouco.
— Acho melhor você sentar.
— Juro que tô bem! Tô maravilhosa! — Mentira! Mentira! Mentira!
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