Azar

13 A Família Normal


Notas iniciais
Peço desculpas pela demora de postar, tive problemas familiares que me deixaram longe do computador esses dias. Obrigada a todos os leitores que não desistiram de mim por isso. Dedico esse capítulo a vocês.

Eu devia ter sido muito má com ele na noite anterior... Teria que pedir desculpas, mas esse era o menor dos meus problemas: a minha cabeça parecia ter sido revirada por um furacão e eu sentia como se tivesse sido atropelada por três carros, dois tratores e um trem. No mínimo. Além disso, acertar o buraco da fechadura era uma missão impossível — sabe o filme? Imagina aquilo multiplicado por cinco e não chega nem aos pés do trabalho que eu tive para conseguir.

Quando finalmente entrei em casa me deparei com um ambiente completamente diferente: estava tudo tão... Limpo e organizado. Eu sei o que você está pesando “A sua casa nunca é limpa e organizada?” e, na verdade, não é. A minha mãe odeia limpar a casa e trabalha demais para ter tempo para isso. Não é que a gente viva na sujeira nem nada, não somos porcas, afinal de contas, mas a casa não é das mais certinhas. Por isso, eu limpo e arrumo o meu quarto e tento ficar a maior parte do tempo nele.

Mas eu já me desviei muito do rumo da história o fato é: a casa estava limpa e arrumada demais. Me perguntei se estaria no lugar errado, mas a voz da minha mãe veio me garantir que era a casa certa:

— Isabel? É você? — Quem mais seria? me perguntei, mas respondi de um jeito menos agressivo:

— Sou.

— Ah, que bom! Venha até aqui, tenho novidades! — Gelei. As novidades da minha mãe eram sempre ótimas. Para ela. Eu acabava mal quando ela dizia essas duas palavrinhas. Fui, temendo pelo pior.

Me deparei com uma sala mais limpa e arrumada que o hall de entrada e levei um tempo para me acostumar ao novo ambiente, exageradamente iluminado e até com fotos enfeitando os móveis. Fotos! Só dela, claro, mas fotos! Você acredita? Eu ainda não.

— O que houve, querida?

E aí estava a prova de que estava numa realidade paralela ou algo assim: ela me chamou de querida, e ela só me chamava assim quando queria alguma coisa.

— Eu só queria saber porque... — Parei. Me deparei com uma senhora irreconhecível sentada no sofá e me encarando curiosamente. Lembrei, então, que eu estava um caco, tinha dormido pouquíssimas horas e bebido mais do que eu achava humanamente possível até um dia antes. — Ah, oi...

— Bom dia. Meu nome é Marianne, eu sou a mãe do Eduardo. — Comecei a me sentir derreter por dentro — se é que isso é possível.

— Hmm... Bom... Dia. Eu vou... Eu vou. — E, com essas brilhantes palavras, corri para o meu quarto, meio abalada.

Ninguém me seguiu ou veio me perguntar se eu estava bem, o que foi bom. Tomei um banho em paz e me arrumei o melhor possível para parecer uma pessoa normal, ou pelo menos uma tentativa fajuta. Tomei o café mais forte que eu consegui fazer — o que significa uma água suja e horrível — e voltei para a sala.

Edu estava lá agora, ao lado da mãe.

— Agora estou apresentável. — Sorri, tentando parecer engraçadinha. Não deu muito certo.

— Que bom, querida. — Minha mãe sorriu, sem graça. Percebi, então, que ela estava usando uma roupa chique demais para ficar em casa. — Porque a Marianne e o Eduardo vieram nos convidar para almoçar na casa deles.

Claro! Era exatamente isso que eu queria! Como recusar o convite de almoçar com o cara que eu talvez tenha agredido ontem?!

— Ah, tá... — Foram as únicas palavras que saíram da minha boca. A essa altura, a mãe do Edu devia estar achando que eu tinha alguma deficiência mental que me incapacitava de falar.

A casa dele parecia ser naturalmente limpa. Era cheia de fotos de família – de verdade – que mostravam Marianne, Edu, um senhor que eu supus ser seu pai e um menino que devia ter uns seis, sete anos. Por algum motivo não conseguia parar de encarar as fotos. Era uma família bonita, muito bonita, mas não era isso. Tinha algo a mais e eu simplesmente não conseguia determinar o que. Marianne me pegou encarando e apontou para os dois desconhecidos:

— Esse é o Carlos, meu marido, e Matheus, meu outro filho. Uma família só de homens lindos. — E riu, genuinamente feliz com a vida e a família. Me perguntei porque ela estava andando com a minha mãe. Talvez não conhecesse mais ninguém do prédio.

Sorri de volta para ela. Eu não entendia muito bem aquele conceito de família funcional, mas ficava feliz pelo Edu. Falando no diabo...

— Liguei pro papai e ele disse que está chegando. — Informou o menino à mãe e voltou-se para mim. — Logo você vai conhecer a minha família toda.

Não tive tempo de pensar numa resposta que sequer fizesse sentido — na minha cabeça só tinham interrogações – e Marianne me interrompeu:

— Enquanto esperamos, porque você não mostra a casa pra Zá?

Ele deu alguns passos e, de repente, parou e virou-se para mim:

— Você não vem?