Azar

14 As Desculpas


Fui.

No caminho ele não falou nada e eu não tive coragem de — ou sequer sabia como — começar. À medida que passávamos um cômodo ele o indicava.

— Banheiro.

— Quarto dos meus pais.

— Quarto do Matheus.

A estrutura da casa era mais ou menos a mesma da minha. A diferença estava nos móveis, na organização, no carinho de fazer daquele um lugar confortável.

— Meu quarto. — E então ele parou e, pela primeira vez, me olhou nos olhos. — Quer ver?

Se tinha um lugar para pedir desculpas era o quarto dele, longe das mães olhando e se metendo. Respirei fundo.

— Quero.

Ele entrou e eu segui. Era azul claro. Tinha um pôster enorme na parede, acima de sua cama. Era do filme Star Wars e parecia ser antigo. Nunca tinha visto. Além do armário, tinha uma estante e uma prateleira cheias de livros. Reconheci o livro que tentei ler no ônibus... Será possível que isso tinha sido apenas dois dias antes?

— O que achou? — Ele interrompeu meus cálculos mentais.

— Do quarto? — Ele acenou com a cabeça. — É legal, não teria imaginado ele assim, mas é legal.

— Como assim, ‘não teria imaginado ele assim’?

— Não sei, é diferente. Não sabia que você gostava tanto de ler, ou desse filme... Na verdade eu não sei quase nada de você. — Decidi que, já que as coisas não iam muito bem para o meu lado, era melhor ser o mais sincera possível e acabar logo com aquilo.

A parte estranha é que ele riu. Esse menino certamente tem um – ou muitos – parafusos faltando.

— Faz sentido.

Depois disso ficamos em silêncio, eu encarando a sua extensa coleção de livros para não ter que olhar para ele e ele... Bem, ele eu não sei, afinal, eu não estava olhando. Era a hora. Virei para ele, criei coragem e, assim que eu abri a boca:

— Edu, querido! Seu pai chegou! — Marianne o gritava de algum outro cômodo da casa.

— Estamos indo! — Respondeu ele, pegou a minha mão e me rebocou levemente para fora do quarto.

Quando estávamos saindo, meus olhos caíram em sua escrivaninha pela primeira vez desde que entrara ali. O reflexo da janela em um objeto pequeno chamou minha atenção. Olhei melhor e... Não pode ser. Era. Os brincos que eu tinha usado na noite anterior estavam sobre sua mesa de madeira, bem ao lado do computador. Instintivamente levei as mãos às orelhas para constatar o que eu já sabia: eu estava sem brincos. Como eu não tinha percebido antes? E o que meus brincos estavam fazendo na casa do Eduardo?

Pouco antes de chegar na sala, Edu soltou a minha mão, mas eu estava apenas fisicamente ciente do que se passava ao meu redor. Não conseguia tirar os brincos, a noite anterior (ou o que restava dela), a minha casa limpa, os retratos de família, a mãe dele me chamando de Zá da minha mente. Era tudo muito estranho. Eu me sentia tentando montar um quebra-cabeças com uma peça de cada imagem diferente.

Me senti congelada, presa ao chão. A sensação que eu tinha era de que ia me encolher em posição fetal ali mesmo e nunca mais sair. Parecia que a minha cabeça ia fritar. Isso tudo sem contar que eu ainda estava de ressaca, então minha cabeça doía, meu estômago estava embrulhado e as coisas giravam um pouquinho se eu me mexesse muito rápido.

Não aguentei mais:

— Com licença. — E voltei pelo caminho que tinha pegado, terminando mais uma vez no quarto dele.

Parei apoiada na escrivaninha onde estavam ainda meus brincos e respirei fundo, aquilo não podia estar acontecendo. Ouvi passos em minha direção e comecei a tentar parecer ocupada, o que não deu muito certo e, quando o Edu entrou, eu estava alternando o peso entre os pés e olhando ansiosamente para nada. Ele me segurou, me forçando ficar parada, sentou na sua cama e me puxou para seu lado.

— Como está se sentindo? — Perguntou ele, delicado.

— Terrível, — Assumi. — e você?

— Bem, eu não bebo...

— Nem eu... — Respondi, num tom de desculpas. Ele riu de leve.

— Acredito.

Olhei para as minhas mãos, que não conseguiam ficar paradas. Ficar ali, em silêncio, no mesmo espaço que ele me incomodava mais do que devia, mais do que eu queria. Ele segurou minhas mãos, minha cabeça e me deitou no seu peito.

— Obrigada... — Murmurei em resposta ao seu colo.

— Não agradeça, é um pedido de desculpas. — Retrucou ele, num tom que parecia ser... Carinhoso? Não fazia sentido...

— Por quê? — Levantei a cabeça, dessa vez querendo olhar para seus olhos. — Achei que quem tivesse que pedir desculpas aqui fosse eu...

— Você até devia, mas eu te desculpo, parte da culpa é minha, mesmo... — O encarei, como quem não entendia o que ele estava falando e, antes que eu pudesse perguntar, ele respondeu. — Eu te levei, certo? Então eu devia ter cuidado de você. E eu sei que você é menor de idade e não podia beber e, mesmo assim, deixei. Além disso...

Esperei ele concluir o pensamento e, quando ficou claro que ele não ia, a curiosidade falou alto demais:

— Além disso...? — Ele me olhou nos olhos por um segundo antes de responder.

— Além disso, eu devia ter realmente te impedido, só isso.

— Tem certeza? — Ele não parecia nem um pouco seguro do que falava e, pelo modo com que ele me olhou nos olhos, eu sabia que tinha algo a mais.

— Tenho. — Retrucou, após uma breve hesitação.

Silêncio constrangedor.

Silêncio constrangedor.

Silêncio constrangedor.

De repente lembrei dos brincos, da mãe, da minha crise.

— O que os meus brincos estão fazendo aqui? E por que a sua mãe me chama de Zá?

— Nossa, você não perde tempo.

— Eu preciso de explicações, só isso.

— Ok, vamos lá: os brincos estão aqui porque você os colocou na minha mão ontem, pouco antes de vomitar nos meus sapatos. — Merda. Disso eu não lembrava. Fiz uma careta involuntária a essa informação. — Está tudo bem, eu já limpei. Estão no sol agora.

Isso não me reconfortava nem um pouquinho. Ele continuou.

— E minha mãe te chama de Zá porque eu comentei com ela que seu apelido é Zá.

— Tá. E porque falou de mim para ela? — Eu estava tentando não voltar ao assunto do sapato vomitado, já que eu ainda estava meio enjoada e era capaz de vomitar de novo. Credo!

— Nada de mais, ela perguntou se eu já tinha feito amigos e eu falei de você, só isso. Chega de interrogação, detetive? — Ele estava tentando me fazer me sentir melhor, mas não estava funcionando muito.