Ayhalar

1 Capítulo I - Lágrimas Vermelhas


Eu venho de longe, muito além destes anos, muito além destas terras, venho de onde o Sol brilha de verdade, onde matas pulsam em vida, eu vim de onde suas valorosas civilização e arte não passavam de nossas presas, de onde montanhas sempre tentavam cortar o horizonte, mas toda manhã a luz solar passava entre elas e nos enchia de vida para outro dia.

Vim de terras fantásticas, selvagens, onde não era um humano ou um elfo o rei, mas sim vários bandos e tribos disputando liderança, onde banhos de sangue eram comuns, e era estranho os negar, sangue e brutalidade fazia parte de nossa cultura, faz parte de nossa natureza, os fortes naturalmente irão sobreviver, já os fracos merecem morrer, assim a natureza se mantém sempre forte, sempre viva, sempre bela, e não adianta negar, está em seu sangue, não ache isso medonho ou assustador, é natural, tanto predador quanto presa estão cientes disto, mas se aceitar como presa ou predador é outra coisa, presa só se torna presa no momento de sua morte, nunca existiu predefinição.

Demorou muito para que eu aprendesse isso, pois onde vivia, era uma questão já natural, nós éramos predadores e tudo ao redor, nossa presa, principalmente a mim, éramos quase mutações, coisas que nunca deveriam ter existido, éramos mais que uma matilha, éramos lobos enormes pela nossa própria natureza, poucos eram os que nos questionavam, nosso líder era conhecido como Lobo de prata, conhecido pela sua sagacidade, paciência e sabedoria, um dos mais velhos de nós, sua pelagem sempre foi única desde o dia em que nasceu, lendas dizem que a mãe natureza o abençoou, e que seu destino era fazer de nós muito mais que assassinos.

Graças a ele, conseguimos terras que nunca pensamos que conseguiríamos, nos aliamos a druidas de diversas raças, elfos, humanos, até mesmo os pequenos e bem entusiasmados gnomos, ele era mais que o nosso líder de nosso bando, ele era como um pai de cada um de nós cuidou de cada um, nunca deixou alguém para trás, e nos tornou fortes para assumirmos quando a hora dele chegasse, todos nós sabíamos que um dia ele se partiria, mas sinceramente, no dia em que ele se foi, nenhum de nós conseguia acreditar.

Apesar de tudo não tinha o que culpar, ele teve uma longevidade admirável, e quando ele se foi, naturalmente deveríamos lutar entre nós para decidirmos o líder, ou, que foi o nosso caso, decidir entre nós, sem sangue irmão a ser derramado.

Três dias se passaram, competíamos entre nós quanto caçada, força, velocidade, entre outros... Após três dias nos encontramos com uma das druidas que tínhamos boas relações, em forma de uma enorme onça, se transformando em sua verdadeira forma, uma elfa, estava pasma, pois estávamos ensopados de sangue, havíamos caçado tudo e a todos, os meses que se passaram em desejo ao posto do Lobo de prata mexeu com todos nós, em alguns meses, de caçadores, viramos assassinos, naquele dia não precisávamos de nenhum sermão, apenas seu rosto de desaprovação havia sido o bastante para todos nós.

"No que vocês se tornaram? Não é a mesma matilha que conheci", ela olhou para cada um de nós e logo após se virou, nós deitamos ali mesmo, demorou um dia para a matilha em geral se recuperar, já para mim, demorou três meses.

Suas palavras pesaram, e então, optamos por decidirmos entre nós quem seria o novo líder, era difícil para nós, pois no caso do Lobo de prata, ele era incomparavelmente escolhido para a tarefa, mas depois que ele se foi, era como se estivéssemos de igual para igual, e se lutássemos valendo nossas vidas para tentar assumir a liderança, haveria um banho de sangue.

O escolhido foi o lobo negro, um dos mais velhos e impiedosos de nós, todos nós acreditávamos que ele terminaria o que o Lobo de prata começou, mas sem saber saltamos em um precipício de dor e aflição.

Fomos, em duas semanas, liderados por um tirano, com apoio de quem tanto lutamos para manter longe de nós, Lobo negro tinha o apoio de uma tribo de orcs, e ao longo dos anos levemente nos arrependíamos.

Éramos sempre separados em pequenos grupos de caça, cada grupo continha 3 de nossa matilha e 7 orcs, e em mais uma tarde caçávamos animais para nossa matilha e para a tribo dos malditos orcs. Nosso grupo estava indo rumo a um povoado de humanos, e no meio do caminho havia um velho senhor, como ordenado, os orcs se prepararam para atacar antes de perguntar.

Ao sacarem os machados o senhor começou a falar: "caçar por comida apenas? Não quer algo a mais?" "Quanto do ouro que seu líder prometeu, vocês orcs viram?", ao terminar de dizer aquilo, os orcs guardaram o machado, mas eu farejava algo de estranho neste velho senhor, alguém comum não os convenceria tão facilmente, por mais que fossem apenas orcs.

"E como prova do que eu digo é verdade, ofereço-lhes agora uma pequena amostra do que está por vir, caso decidam me seguir", o senhor jogou para cada orc um saquinho repleto de moedas, "e digo que precisam apenas se ajoelhar a mim", levemente, os olhos daquele senhor começaram a possuir um brilho incomum, assim como o dos orcs, sorrindo, o senhor olhou para mim e para os outros dois lobos e disse: "poucas fêmeas em sua matilha? Vocês não precisam viver assim, não precisam servir a um tirano, juntem-se a nós, e sejam livres, tenham quatro ou até mesmo cinco fêmeas para cada macho em sua matilha, tenham caça em abundância, precisam apenas vir ao meu lado". E eles foram.

"Qual o problema? Não quer se juntar a nós?" disse ele um tanto intrigado, naquele momento meu coração dizia severamente que aquilo seria um pecado imperdoável, minha mente dizia que negar naquele momento seria minha morte, com um tanto de medo em meu coração, eu disse para ele aguardar, pois eu iria trazer alguns de meus irmãos para que estes também se juntassem a ele.

Sinceramente, eu não conseguia entender como ele acreditou em uma mentira como aquela, naquele momento eu deixei meu coração me guiar, me guiar para uma pessoa que saberia o que fazer, eu tinha que me encontrar com aquela elfa druida. Completamente exausto pelas horas que percorri sem descanso, mas consegui chegar antes do anoitecer, ela ainda guardava rancor em seu coração, mas se dispôs a me ouvir, ao terminar, ela ficou horrorizada, mas disposta a me apoiar.

Já ao amanhecer, estávamos prontos para nos defender, eu sabia que seria caçado pelo Lobo negro, pelos orcs e pelo velho senhor, eu precisava fugir dali, o quanto antes. Entretanto uma boa surpresa, finalmente, ao me despedir da druida, ela me abraçou forte e disse: "obrigada por ser diferente dos outros, obrigada por ser o que Lobo de prata foi".

Aquelas palavras soaram melhor do que milhares de promessas vindo daquele velho senhor, precisava fugir por um tempo, mas eu não sabia para onde, apenas precisava esperar as coisas se acalmar por um tempo.

A elfa druida me orientou para que eu me encontrasse com outros amigos dela, era um tanto distante, mas era necessário, e para lá eu fui. As duas semanas que eu fiquei fora foram extremamente difíceis para mim, na verdade deve ser para qualquer criatura que nasceu e foi criada para agir apenas em grupo.

Ao menos todos aqueles druidas eram de extrema bondade (com exceção de alguns, era engraçada a diversidade de estilo entre eles), a grande maioria deles carregavam símbolos de um majestoso unicórnio, uma devoção provavelmente.

Ao fim das duas semanas eu retornei, no meio do caminho passava uma bela moça, cabelos longos e olhos levemente avermelhados, ao me encontrar olhou para mim e me disse: "criatura feral, trago-lhe péssimas notícias sobre sua matilha, há uma grande luta a sua frente", o caminho para minhas terras ainda demoraria algumas horas, então a convidei para percorrer ele comigo, naturalmente mais rápido que ela, para que eu não me atrasasse, e deixei subir em mim para me acompanhar.

Perguntei quem ela era e como ela me conhecia, ela dizia que era uma andarilha de muito longe daqui, e disse que sempre ouviu falar do Lobo de prata, e que, depois de sua ida, eu era o favorito dela.

Após o agradecimento, perguntei a ela como ela sabia de tudo aquilo, ela me respondeu que viu tudo aquilo... Mas que não precisava ser daquele jeito, eu não precisaria enfrentar minha matilha, ela disse que conhece gente que poderia me ajudar. Logo após ela pediu que eu parasse, me deu um colar e disse que caso eu precisasse, era apenas eu falar o nome dela, "Devvot Sidak", que ela e seus amigos apareceriam para me ajudar.

Ela saiu e me desejou sorte, disse que eu precisaria, e logo após se retirou, minha jornada continuava, finalmente cheguei as minhas terras, marcadas com muito sangue e cadáveres de orcs, eu achei que finalmente nos livramos deles, mas quando cheguei vi a cena, Lobo negro junto a todos de minha matilha e a maioria dos orcs rodeando o tal senhor, que estava acima em um pequeno monte, junto aos druidas, ele estava segurando a elfa druida, que estava muito ferida, apenas rosnei, todos me olharam, todos os machos da matilha me olharam notavelmente alterados, e me atacaram, pouco a pouco, mordida por mordida, eles me derrubaram, meu sangue escorria sobre minha pelagem branca (similar à cor de neve), em desespero gritei "Devvot Sidak", e como o prometido, ela apareceu.

Um grupo de estranhas criaturas surgiu de imediato, poderosos demônios enfrentavam os orcs, o Lobo negro e o velho senhor, que assumiu sua verdadeira e grotesca forma, uma briga de demônios, que em poucos minutos causou uma chacina, imediatamente eu joguei tal colar no chão. Ao nosso lado, assassinos impiedosos surpreendendo nossos inimigos atacando pelas costas, assassinos conhecidos como Babau, já o velho senhor era na verdade um enorme demônio, conhecido como Glabrezu, foi uma luta curta, porém sangrenta.

De nossa matilha, restou apenas eu (dos dez machos, incluindo Lobo negro), duas das seis fêmeas e nenhum de nossos filhotes, de resto, todos os demônios morreram, isso tudo parecia até algo pessoal entre ele, pois lendas dizem que estes costumam fugir. Não sendo o suficiente, seis orcs sobreviveram, e dos druidas restou apenas a elfa druida, as ordens dos orcs foram bem claras: "venha a mim, junto as suas fêmeas, ou matamos esta elfa", infelizmente eu não tinha forças, nenhum de nós quatro tinha, colocaram focinheira em nós e amarraram as mãos da tal druida.

E assim caminhamos, após meia hora de marcha forçada, uma das fêmeas tombou, era a mais jovem, Asyl, muitas foram as chicotadas, ela gemia de dor, não podendo vê-la sofrer, coloquei meu corpo entre ela e os orcs, que me chicotearam até eu cair, este ato infelizmente foi simbólico, pois a chicotearam também.

Pela minha "desobediência", jogaram a elfa druida encima de mim, me obrigaram a carregar ela, foi terrível tanto a jornada quanto o tempo em que fomos escravizados por estes malditos vermes. Dormíamos quando o sol caia e acordávamos quando ele se mostrava novamente, comíamos metade do que quando éramos a matilha do Lobo negro, e um terço do que comíamos quando éramos a matilha do Lobo de prata, e uma vez por semana, eles tinham a tradição de um tipo de ritual para louvar a noite, e um escravo era tido como escolhido pra executar parte deste maldito ritual.

Não me foi nenhuma novidade quando eu fui escolhido, e a cada semana eu teria de fazer algo diferente, que ia desde ficar parado encima de brasas (inclusive deitar nelas), até carregar cargas excessivas, quanto mais tempo eu resistia, menos chibatadas eu recebia.

Após duas semanas, por algum acaso, eles começaram a me tratar bem, eu comia mais que todos, inclusive da própria tribo, eles escovavam minha pelagem, os xamãs com sua espiritualidade curavam minhas feridas e cicatrizes, todo este tratamento foi o bastante para me restaurar, durando 6 semanas, mas, ao fim destas acordei com uma focinheira e acorrentado, mais um dos sujos planos desta raça.

Levaram-me adiante, para bem longe de lá, me ajoelharam e assim fiquei durante cerca de duas horas, todos nós ajoelhados, eis que finalmente apareceu a tal suserana que eles serviam, uma estranha criatura com o corpo metade de mulher, metade serpente, com seis braços e uma arma branca em cada um deles, eram quatro orcs comigo, os quatro cantavam algo em sua grotesca linguagem, até que a criatura ergueu uma das mãos e todos pararam.

Quando todos pararam ela ordenou que tirassem minha focinheira, e assim que o fizeram, ela começou a falar: "Então eis aqui o Lobo metálico, descendente distante do Lobo vermelho, que por sua vez morreu para que o Lobo de prata vivesse, e depois de tantos anos, eis que me deparo com o único macho sobrevivente de sua matilha...", de imediato respondi "o que desejas de mim, demônio?", ela me respondeu batendo com o porrete que segurava em uma das mãos em minha cabeça.

Ao perceber meu silêncio, começou a discursar: "Assim como você, Lobo vermelho possuía fortes ideais de bondade, mas nunca teve coragem para assumir a liderança, eis que o Lobo de prata o fez, quando ele caiu, era pra ter sido você a assumir o poder, mas nunca teve coragem para tal, fraco como Lobo vermelho, totalmente a mercê de sua própria sorte, você está aqui, mas ainda há uma chance de você conseguir sobreviver, caso nos aceite."

O plano consistia em servir a ela, os orcs e quaisquer demônios que ela comandava, ao abaixar minha cabeça para pensar sobre, eles começaram a entender que eu havia aceito, parecia o plano perfeito para uma armadilha, e assim foi.

Ao tirarem as correntes comecei a agir como se tivesse aceito a proposta, ela disse que o ritual seria feito ao centro da aldeia orc, eu concordei e fui junto a ela e aos orcs rumo a aldeia, ao chegarmos eu pedi que tanto Asyl quanto Sersoy (irmã mais velha de Asyl) pudessem, livres, presenciar o ritual, e a tal criatura demoníaca aceitou a condição, ao reunir as duas perto de mim, as abracei forte, e sussurrei no ouvido de cada uma "me acompanhem, preparem-se para correr".

Os orcs ainda não haviam feito o círculo em volta de nós, foi o momento oportuno, corremos, fugimos, e na fuga esbarrei na criatura demoníaca e percebi que não passava de uma ilusão, os orcs ficaram confusos demais para tentar nos perseguir ou atirar lanças e azagaias, fugimos para onde os druidas anteriormente me acolheram, mas eu sabia que a dona da ilusão me caçaria, finalmente chegamos, já se fazia uma semana desde que fugimos, eu comecei a não conseguir dormir, Sersoy, ao perceber se aproximou de mim, deitou-se ao meu lado e perguntou- me a razão de eu estar assim, eu comentei sobre minha preocupação quanto ela e Asyl, mas também ao fato de estarmos sendo caçados também, comentei sobre a briga entre demônios ser minha culpa.

Ela disse que se preocupava com sua irmã, e que sentia falta de sua matilha, mas que não sentia ódio ou rancor de mim, na verdade disse que este ato a salvou, pois ela seria a fêmea vendida aos orcs pelo Lobo negro, algumas lágrimas escorriam pelo rosto dela, já haviam se passado algumas horas desde que a lua nos veio, eu me deitei mais perto dela, ela encostou sua cabeça em meu ombro e adormeceu, não tardou para que eu adormecesse também, pela primeira vez em anos, eu dormi tranquilamente.

Acordei com Asyl ao meu lado, Sersoy ainda estava dormindo, ela me falou que um druida requeria minha presença, uma elfa druida para ser específico, com todo cuidado do mundo, sai sem acordar Sersoy, ao me ver, a elfa veio correndo e me abraçou com toda a força que possuía.

"Ayhalar, você está vivo..." disse com lágrimas em seus olhos, sem entender muito como ela saiu com vida da aldeia orc, eu a perguntei, então ela me explicou que a distração causada pela quebra da ilusão foi o bastante para que ela pudesse fugir.

Ela disse que precisávamos sair daquelas terras quanto antes, pois os demônios comandados por aquela criatura demoníaca iria nos perseguir, disse também sobre terras um pouco distantes e sobre uma criatura mística que poderia nos ajudar, conhecida como Larnazull.

Acordei Sersoy, que ficou surpresa e muito feliz com a notícia, estávamos todos animados para viagem, o sorriso de Asyl e principalmente o de Sersoy sempre me encantaram, "talvez seja esta a resposta não é mesmo? Recomeçar... provar nossos valores e honrar nossos ancestrais a todo custo...", disse a Sersoy enquanto caminhávamos, e por alguma razão acredito cegamente que ela esteja certa, fazer história realmente não é para qualquer um, talvez seja a hora de acontecer com a nossa matilha o que já fizeram tantas vezes conosco, talvez seja a hora de nos integrarmos a outra matilha.

Para conseguir manter um ritmo mais acelerado, Yesmae (elfa druida) subiu em mim, andávamos cerca de 40km por dia, para chegar a costa demorou oito dias, mas não tínhamos dinheiro para pagar a passagem para partir rumo ao continente da tal Larnazull, para nossa (in)felicidade, dois orcs nos seguiram, e os assassinamos, apesar de relutante, Yesmae aceitou que assim fizéssemos, fomos em um navio repleto de humanos que não parava de nos olhar, mas conseguimos suportar mais estes 18 dias, quando chegamos estávamos consideravelmente fracos, tanto pela alimentação quanto pela falta de atividade física, mas estávamos extremamente alegres por finalmente ter chegado.

Na verdade, nossa primeira reação foi apenas deitar calmamente e descansar, eu me dava bem com Sersoy e com Asyl desde que éramos apenas filhotes, estarmos juntos com a sensação de liberdade em nossos corações era maravilhoso, nos lembrava o tempo em tínhamos tamanho de gatos domésticos e corríamos um atrás do outro, rolávamos e deitávamos logo após, e posso afirmar com toda a certeza que a presença delas ali, Sersoy, Asyl e até mesmo Yesmae foi a força que eu precisava para suportar tudo aquilo.

Ao anoitecer conseguimos chegar a uma mata fechada e caçar para nos alimentar e conseguirmos nos recuperar, não faltava muito para nos encontrarmos com Larnazull, pelo menos era o que Yesmae prometia a nós, todos os druidas daquelas matas eram assim como Yesmae, pelo menos ao meu julgamento.

Durante o dia, Sersoy e Asyl eram responsáveis a patrulhar e eu a proteger as matas, tendo direito à carne de infratores, durante a noite nós éramos recompensados, bem tratados assim como todos, e tratávamos bem todos eles, não éramos como reis, mas sim como irmãos, nós nos sentíamos bem com eles.

Enquanto fazíamos nosso trabalho, Yesmae procurava informações sobre Larnazull, após alguns dias ela finalmente conseguiu alguém para nos guiar, e então fomos rumo a tal criatura.

Um jovem e humano druida era nosso guia, apesar de jovem, parecia conhecer e dominar aquelas terras com tanta facilidade quanto Yesmae, mais alguns dias e finalmente chegamos às planícies que prometiam abrigar a tal Larnazull.

Sersoy foi a primeira a vê-la e a nos avisar, e ali estava Larnazull, com suas enormes asas impecáveis de ponta a ponta, leve coloração prateada, corpo esculpido por anjos, rosto divino, sorriso encantador, olhos azuis como o mais vivo oceano (confesso que Asyl teve de me empurrar para que eu voltasse ao meu normal).

"Fascinante eres, nobre anja" disse Yesmae, Larnazull se virou de imediato e sorriu, logo após perguntando quem nos éramos, e após uma longa conversa, explicamos tudo que aconteceu, apesar de tudo que fizemos, ela era incrivelmente gentil, bondosa e graciosa, e conseguiu nos perdoar, a mim principalmente.

"Admiro vossa sinceridade, admitir tais erros, mesmo desta gravidade pode ser o passo essencial para a redenção, não vejo maldade e malícia em seus corações, apenas o medo e desespero vos levaram a cometer tais atos, e por isso estou disposta a lhes dar uma chance para vocês se redimirem" dizia Larnazull.

Sabíamos que esta era a nossa chance, mas ainda estávamos incertos quanto aos demônios e os orcs, tínhamos certeza que eles já não descansariam mais até que derrubassem cada um de nó, um por um, da forma mais cruel possível.

"Hoje será um dia marcante a vocês, pois hoje começará sua jornada em busca de redenção" disse Larnazull ao perceber nosso leve temor.

"Gloriosa será nossa nova matilha" disse Asyl, animada e inspirada.

"Risos e alegrias ao invés de lágrimas e angústias se espalharão entre nós durante nossa existência" disse Sersoy, sorridente.

"As florestas de todo mundo conhecerão os lobos filhos do Lobo vermelho, conhecerão os filhos do Lobo de prata", disse Yesmae, empolgada.

"As nações de todo o mundo irão nos conhecer, irão saber de nós." Bradei firmemente, logo após sorrindo.

Daquele dia em diante eu tinha a certeza de que seria livre, eram poucos os momentos em que ficávamos juntos, seguros e felizes, ainda mais com a gratificante companhia, quanto aos demônios, vão para o reino de Solaris, lá eles irão proteger vocês.

Solaris aceitará todos vocês, caso não haja como animais selvagens, ao amanhecerem vocês precisam partir, e se o destino assim quiser nos encontraremos novamente.

E assim partimos ainda animados, sempre ouvimos sobre as terras de Solaris e sonhávamos em tê-las para nós, para mim é extremamente difícil de descrever a sensação, eu sentia, como qualquer um sentiria, medo, saudades de minha matilha, desconfiança e insegurança, mas sentia também, alegria, liberdade, prosperidade, estava confuso, mas ansioso.

Naqueles dias em que caminhávamos, Sersoy conversava comigo enquanto eu caçava para nós, na verdade caçávamos juntos, ela era muito mais do que uma amiga para mim, a voz dela vinha em minha mente assim como a chuva vem a terra, e lavava minha alma como os intermináveis rios e lagos do paraíso.

Toda vez que falava com ela sentia uma necessidade de permanecer forte a todo o custo, e sentia vontade de tal também, aquele era o sentimento mais puro que já senti, tão belo quanto águia aos céus contemplando sua liberdade.

Intenso era o que eu sentia, eu poderia afirmar, belo e intenso, Sersoy sempre foi linda, encantadora, uma grande loba, tanto em tamanho tanto em espiritualidade, se não fosse contrária as nossas crenças, eu a escolheria como líder.

Rainha para mim ela era, sabe? Cada palavra que ela dizia era um desafio pessoal para tentar não me perder em seu rosto e prestar atenção no que ela falava.

Entretanto aprendi que já não era certo eu explicar tudo a ela, não ali, não naqueles momentos, poderia ser bom sim, mas também poderia por tudo a perder.

Isso tudo que eu sentia poderia ser passageiro, nossa sobrevivência dependia em boa parte de mim, eu teria de ser forte a todo custo.

Se tudo desse certo, se realmente chegássemos a Solaris, se eu tivesse uma garantia, eu teria a certeza e a confiança de dizer o que sinto, se durasse até lá, então seria o certo.

Uma vez que chegássemos a Solaris, as coisas iriam se acalmar e eu tinha certeza de que poderia organizar tudo melhor.

Ao fim de três dias, finalmente chegamos, as terras de Solaris, encantadoras terras de Solaris, clima temperado, não muito diferente do que estávamos acostumados, terras quase mágicas na verdade, muralhas enormes, tudo muito bem edificado, a maior cidade que já presenciei, demoramos uma tarde para achar os templos, toda a cidade em homenagem ao culto da bondade, liberdade e força.

Força aquela, na verdade, representada por uma divindade regente, denominada Kord, seus templos eram diferentes dos outros que eu conhecia, mais rústicos, seus sacerdotes eram lutadores de primeira linha, e seus cultos baseavam-se em rodas de luta, não tão bárbaras e selvagens a ponto de valerem a vida, mas ainda respeitáveis.

Ao anoitecer, conseguimos uma "audiência" com os sacerdotes, onde Yesmae falou tudo o que aconteceu conosco, os sacerdotes mandaram-nos aguardar, após uma longa conversa entre eles, eles disseram que as terras ao leste nos garantiriam nossa segurança.

Leste, um lugar desconhecido para nós, era estranho a nós, essencialmente a mim, eu esperava um acolhimento e defesa naquelas terras, ao ouvir que nossa jornada até lá foi em vão, questionei a sugestão deles, então um dos sacerdotes respondeu:

"Tais criaturas não devem permanecer aqui, as ordens de Kord foram claras, vocês precisam migrar para o leste, entretanto poderão passar a noite aqui, ao amanhecer, retirem-se."

"Ao leste rumarão em busca da ordem de paladinos, somente eles os livrarão destes demônios" complementou outro sacerdote, parecendo a melhor opção, eu aceitei, entretanto Yesmae, Sersoy e Asyl não pareciam muito contentes com a ideia.

Custou para que nós adormecêssemos naquela noite, estávamos confusos e inseguros, parecia uma boa ideia conversar com Larnazull antes de qualquer coisa, aquela foi de fato uma noite ruim, alguns trechos de sonho extremamente confusos, nós acordamos mal, indispostos, mas precisávamos partir, quando o sol se ergueu, nós já estávamos nos retirando da cidade.

Uma coisa não saia de minha cabeça, por qual razão os demônios ainda não nos pegaram? Por qual razão ainda os orcs não nos acharam? Tudo isso estava confuso demais em minha mente para que eu pudesse ter uma resposta, o certo naqueles dias para mim era apenas vagar rumo ao destino.

"Isso tudo chega a ser curioso não é mesmo Ayhalar? É como se fosse algo planejado pelos deuses, como se fosse nosso próprio destino" dizia Sersoy, eu olhava para ela constantemente e sorria, "destino ou não, agradeço que fez isso tudo" murmurei baixo o bastante para que ela não ouvisse, em nossa "formação" eu e Sersoy íamos na frente para garantir a segurança enquanto Asyl e Yesmae iam atrás, em breves pausas eu era o responsável pela caça e alimentação carnívora do grupo, enquanto Yesmae cuidava de colher frutos e água para o grupo, não tínhamos muito a reclamar quanto a isso, era mais do que imaginávamos que iríamos conseguir.

Dias se passaram, finalmente reencontramos Larnazull, contamos a ela tudo, exatamente tudo que aconteceu, ela estranhou o tratamento dos sacerdotes, mas concordou quanto a encontrar os paladinos no leste.

"Eu acredito que eles não hesitarão em ajuda-los, os paladinos do leste são conhecidos por travar constantes batalhas contra orcs", dizia Larnazull, e bem, se assim era para ser, então assim seria.

Dado então o destino, nós partimos rumo ao leste, sem temor, em uma marcha um tanto mais rápida, até nos depararmos com um pequeno grupo, mercantes, pareciam rumar para o Leste também, ao nos ver pararam e disseram:

"Ei vejam só quem encontramos, se não é Yesmae, ouvimos falar muito se seus pais" era um grupo de pequenos gnomos, Yesmae ficou surpresa, e eles continuaram a falar: "Sabíamos que você estaria aqui, não foram necessárias muitas magias para te rastrear, estamos indo para o Leste também, quando soubemos de você, decidimos te esperar aqui, o que estão esperando? Juntem-se a nós", ao nos aproximarmos, eles começaram a mudar a conversa para palavras em um estranho idioma.

Naquelas palavras havia magia, uma magia de teletransporte, conseguimos chegar a uma vila próxima a ordem dos paladinos, estava começando a anoitecer, agradecemos os gnomos e fomos rumo à ordem de paladinos, paramos perto de um lago, estava anoitecendo, nos preparávamos para dormir.

Yesmae e Asyl preparavam armadilhas improvisadas para caso alguém se aproximasse, enquanto Sersoy estava deitada perto do lago observando o luar, eu me sentei perto dela, me sentia um pouco estranho apesar de tudo, mas desde o momento em que começamos a viajar juntos, meu sentimento por Sersoy crescia gradativamente, ao me perceber, comentou sobre o luar e convidou-me para sentar do lado dela.

"A noite está bela não é mesmo?" dizia ela, era quase impossível não reparar que o reflexo da lua destacava sua pelagem, eu mal conseguia falar com ela, "algo lhe incomoda?" ela me perguntou, "nada demais, apenas a maneira que tudo está acontecendo" respondi, estava nervoso, me sentindo terrível, mas naquele momento pensei "já está tudo incerto e arriscado, por que não?"

"Lobos só ganham seus títulos quando se tornam mestres de suas emoções, é uma questão de honra Ayhalar" era o que sempre me diziam, e se sempre diziam, talvez era por estarem certos, não é mesmo? Tentar, arriscar, e então comecei a dizer a ela:

"Algumas vezes sinto-me inseguro com esta situação, sabe? Sinto falta de minha matilha, sinto falta do Lobo de prata, e confesso que sem você seria impossível suportar tudo isso, carismática, cintilante, brilhante, você conforta meu coração a cada vez que sorri, me enche de esperança toda vez que fala sobre vida e futuro, desde que tudo aconteceu, algo em mim começou a ter vida, um sentimento tão profundo, e que se intensifica a cada vez que te vejo, que me perco em seu olhar, que admiro sua beleza, é como se os céus caíssem lentamente em forma de chuva sobre nossos corpos, lavando nossa alma, como se o propósito de seguir fosse cada vez mais claro, como se o próprio destino sussurrava, como se ele cantasse, como se os céus, os deuses, o tempo, conspirasse nossa união, sinto meu coração acelerar, lágrimas escorrerem, sorriso engrandecer a cada momento junto a ti, sinto algo tão bom, que gostaria de compartilhar contigo, Sersoy, eu estou apaixonado por ti, o que me diz, Sersoy? Me daria esta chance?".

O luar se intensificava a cada momento, meu coração acelerava, ela virou o rosto, eu pensava que seria uma negação, por mais que eu deveria esperar uma negação, mas ela virou novamente, sem muito jeito me disse:

"Sabe Ayhalar, não há palavras que possam expressar o que você me fez, é claro que aceito" disse-me e após isso subiu em mim, sua pelagem, seu rosto, aquela noite, tudo maravilhoso, tudo perfeito, aquela foi uma das melhores noites de minha vida.

Dado o amanhecer então, estava ao lado de Sersoy, Yesmae e Asyl estavam na minha frente, nem eu nem Sersoy sabíamos como reagir, eu dei um riso baixo, Sersoy me acariciou com a sua cabeça. "A noite estava boa, não?" disse Yesmae em tom irônico.

Rapidamente Sersoy (que estava deitada encima de mim) se levantou, eu demorei um tanto mais, Asyl e Yesmae riam baixo, dessa vez Sersoy e Asyl foram na frente enquanto eu e Yesmae fomos por último, conversávamos sobre Sersoy, sore o que eu sentia e como deveria ser, e não duvidava nada que elas falavam do mesmo a frente, mas Yesmae concordava com isso, e dizia que, eu sempre teria o apoio dela, logo após me abraçou forte, engraçado que, em toda vez que ela fazia isto eu sentia algo engraçado de dizer, algo bom, uma energia positiva, logo após avistamos a vila dos paladinos.

Asyl foi a primeira a avistá-los, não era uma vila muito grande, mas muito bem edificada, havia um grupo de soldados bem equipados ali, um deles em patrulha nos achou, Yesmae conseguiu conversar com ele, e enfim, conseguimos entrar, fomos muito bem recebidos lá, conversamos sobre o que aconteceu e eles nos convidaram a ficar lá, pois naquela vila seríamos adequadamente protegidos.

Gyazyel Heletor se chamava aquele que nos acolheu, nunca me esquecerei deste nome, sua bondade e compreensão, finalmente achamos um lugar seguro para ficar, finalmente as coisas poderiam fluir naturalmente.

Os paladinos conseguiam manter uma admirável ordem e organização no local, em vários horários, dos meses que passamos lá, essa foi a parte mais difícil, adequar-se as normas locais, passamos cerca de três meses lá, e nesses meses acredito que devo dizer que, nestes meses o melhor de minha vida.

Entre os três meses, eu e Sersoy estávamos cada vez mais próximos, até quando o destino nos uniu, nada neste mundo me fará esquecer deste dia, fazia perto de um mês que estávamos na vila dos paladinos, era uma tarde um pouco vaga, eu estava deitado vendo o sol se por, Yesmae e Asyl sentaram-se ao meu lado, disseram que precisavam falar comigo.

"Sersoy está grávida, Ayhalar" disse Yesmae, após uma longa conversa, meus olhos brilhavam em uma mistura de alegria, medo, insegurança e orgulho, em nossa matilha, era tradição de, caso isso acontecesse, ter a escolhida para a vida toda.

Escolhida, colocação interessante esta, o mais interessante é que as outras raças sempre consideraram isto uma prisão, para nós sempre foi uma dádiva, muito mais que uma questão honrosa, apesar de partir disto também. Após me falarem isto, pedi para que eu ficasse a sós com Sersoy, pedi para que a chamassem, e após alguns minutos ela veio, a leve coloração azul de sua pelagem me encantava.

Sersoy, de nossa linguagem, significava "coração celeste" enquanto Ayhalar significava "chama eterna", quando nós éramos mais novos, Lobo de prata contava que, quando Sersoy nasceu, os próprios anjos jogaram parte do céu sobre seu corpo, e que seu destino era acalmar um coração tomado por ódio e sede de vingança, Lobo de prata contava ainda que, meu destino era manter quem eu amava vivo a todo custo, e que no fim, eu daria meu lugar no céu a alguém.

Estas lendas sempre mexeram comigo, pois acreditava que Sersoy estaria ao céu em meu lugar, mas Lobo de prata sempre negava.

"Um membro de uma raça odiada por tudo e por todos tomará seu lugar aos céus, e você assim fará em um momento de total sanidade, com toda sinceridade ao seu coração" era o que ele me dizia, toda vez que perguntava a ele, ele nunca mudava uma letra sequer.

"Grande destino nos aguarda, não é mesmo Ayhalar?" disse Sersoy ao deitar ao meu lado, "e como será daqui pra frente?" me perguntou logo em seguida, "ficaremos aqui o quanto der, tentaremos formar nossa nova matilha, quanto ao resto, será como sempre foi, ficarei contigo até a morte ousar me enfrentar" respondi, ela sorriu, e me acariciou com sua cabeça, se deitou em mim e dormimos lá.

Raiando o novo dia, procurei Gyazyel, pedi a ele para que me explicasse sobre os demônios especificamente, passei o dia ouvindo-o falar, essencialmente da criatura que descrevi a ele, se chamava Marilith, uma criatura de extrema influência, uma general dos abismos.

Uma hora após o fim da tarde, busquei incessantemente por conhecimento sobre alguém a se opor à Marilith, o único tipo de demônio "abundante" que achei foi uma criatura conhecida como "Balor", caso tudo desse errado, eu já saberia como reagir.

Para todos os efeitos, eu deveria utilizar ele apenas como último recurso, no outro dia os paladinos informaram que bastava mais dois meses para sermos "purificados". Em dois meses, eles nos aconselharam a partir para as terras selvagens perto de Solaris, esta poderia ser nossa nova chance de conseguir nossa nova matilha.

Os dias se passavam, minha esperança florescia, nós já estávamos totalmente recuperados, ao fim dos dois meses, fomos ungidos com água benta Gyazyel envolveu um colar em Sersoy, com um símbolo de um sol, e disse que ajudaria a nos proteger, agradecemos e partimos.

Pelas matas deste imenso continente nós andamos, rumo às terras selvagens, em um ritmo mais calmo desta vez, demorou cerca de um mês para chegarmos a tais terras selvagens, mas poucos lobos haviam, ao menos, poucos com uma inteligência notável, a maioria das raças estavam organizadas em tribos de detestáveis bestas como goblinóides, gnolls e orcs, passamos uma semana nos certificando que, não havíamos errado o local, ao final de sete dias, encontramos um rapaz, aparentava ser um humano de vestes velhas e rasgadas, já com seus 30 anos, ele disse que vem de muito longe, mas que sabe onde poderíamos recomeçar nossas vidas, disse que seu nome era "Shaya" e que era um enviado, disse também, que sabia minha situação com os orcs, e adicionalmente fez uma marca com água em minha testa, dizendo que em problemas, ele poderia me ajudar.

O melhor nisso tudo era que, tendo a ajuda dele, eu não precisaria apelar para um balor, ele nos guiou até mais uma semana de viagem, eram vastas e selvagens terras, logo após sumiu, seu nome nunca mais foi esquecido.

Infinitas foram as vezes que sonhei com um lugar como este, como uma situação como esta, naturalmente, com o passar das semanas, começamos a nos dar bem com os druidas da região, com o passar dos meses, percebemos que nossa espécie era única, ou ao menos rara, pois nenhum lobo como nós foi encontrado novamente.

Sersoy dizia que o fato de sermos únicos, era por que fomos escolhidos pelos deuses para governar nossos parentes menores, quando nosso filhote nasceu o chamamos de Blakda, de nossa língua, "rei", esse era o começo da melhor parte da minha vida, ou da pior.

Ao amanhecer, fui acordado com gritos, Sersoy, Yesmae, Asyl, Blakda e eu estávamos imobilizados, a minha frente havia uma marilith, apontando suas seis armas para mim, atrás dela, garantindo que ninguém pudesse reagir, havia quatro harpias abissais conhecidas como vrock, ao perceber que acordei, ela começou a falar:

"Sabe lupino? Tudo poderia ser mais fácil se você não fizesse aquilo aquela hora, se não me obrigasse a vir pessoalmente aqui, a esta hora, os orcs devem estar destruindo os paladinos do leste e os demônios invadindo Solaris, tudo e todos que você um dia amou, definharão, seu filhote, sua companheira, sua matilha."

"Shaya" gritei com todas as forças que ainda tinha, logo após alguns risos foram ouvidos, "Shaya? Isso é tudo que tem?" zombou a marilith, logo após as harpias começaram a rir, eu olhava pra baixo, temendo o pior.

Imediatamente após eles retomarem posições, uma lâmina flamejante atravessou o coração da marilith, tal como garras atravessaram os corações das harpias, haviam três esquelética e aterrorizantes criaturas conhecidas como babau para cada vrock, e o tal Shaya era um balor.

"Marilith, os balores sempre foram mais fortes" disse Shaya, rindo, tal como os babaus assim que viram os corpos dos vrocks caírem, ao fim de tudo aquilo eu estava pasmo, Sersoy, Asyl, Yesmae e Blakda estavam desmaiados.

Cada corpo morto, tal como cada babau sumiram de lá, restando acordados, apenas eu e Shaya, ele libertou todos nós de nossas correntes, mas cuidou magicamente que o resto continuasse desmaiado, se virou para mim e disse:

"Outros de sua espécie ou abominariam a ideia ou nunca teriam coragem, ou no seu caso, o desespero de se aliar a um demônio, e a enganar quem ama, Ayhalar, conheço muito sobre você, exatamente por isso eu sabia como te ajudar, e sabia que você toparia mesmo sem sequer souber o preço, que normalmente seria sua alma."

"Mas, pra que ter tanto trabalho em transformar-te em um demônio insignificante se podemos fazer um acordo? Você serve diretamente a mim, até que minha alma seja banida deste plano, e enquanto me servir, toda sua família, toda sua matilha, todos a quem você tem afeição estarão protegidos por mim e pelos meus lacaios."

Os corpos e o sangue me faziam repensar tal proposta, mas ainda não conseguia chegar a um resultado, muito menos esboçar uma reação, e então ele continuou:

"E nenhum outro demônio abaixo de mim poderá lhe dirigir ordens, você será um lobo de guerra das infinitas camadas do abismo, você estará diretamente ligado a mim longe da guerra do sangue, iremos espalhar o caos aqueles que merecem."

"Unido a ti, demônio?" eu perguntei curioso, e então ele respondeu:

"Exatamente, lupino, abaixo de mim e dos soberanos, nenhuma marilith ou algo assim poderá lhe incomodar, podemos nos dar muito bem caso você aceite, o maior de todos os lobos que qualquer um já ouviu falar, tenha certeza de que Sersoy se orgulhará de você."

"Logos todas as nações irão reconhecer-lhe, a nova matilha não será soberana apenas de um pequeno bosque, mas sim de todo este mundo, abaixo apenas de mim."

"Entretanto, lupino, caso recuse a proposta, as consequências serão terríveis, piores do que qualquer coisa que já vivenciou, faça sua escolha sabiamente, lupino."

"Saberei a resposta em breve, demônio" eu respondi, ele se virou e disse: "hoje ao anoitecer eu voltarei", "então que assim seja" eu respondi.

Terminando o feitiço, Sersoy foi a primeira a acordar, assim como os outros, ela acordou tranquilamente, mas eu estava manchado de sangue, e ela perguntou a razão, eu respondi que foi resultado de uma caçada mal sucedida, ela perguntou se eu estava ferido, e sorri e neguei, ela sorriu e me acariciou, esta foi a última vez em anos que receberia carinho de qualquer fonte, foi a última vez que a veria acordar sorridente.

"Eu estive pensando Sersoy, tantos dias que estamos procurando, caçando, por que não simplesmente passamos este dia apenas nós dois?"

"Asyl e Yesmae entenderão?" ela me perguntou, e respondi firmemente que sim, ela aceitou e passamos o dia caminhando ao redor, trocamos carícias e alegrias, mas perto do anoitecer, quando eu tinha certeza de que não havia tempo o bastante de me impedirem, mas também que havia tempo o bastante de me despedir de cada uma delas, e de meu filhote.

"Mas você não pode simplesmente nos deixar, Ayhalar, deve ter outro caminho, algo que podemos passar juntos, você não pode simplesmente me deixar à minha própria sorte." Falou desesperadamente, "não há mais escolha, Sersoy, se eu tenho de fazer isso para garantir seu bem estar, então que assim seja" respondi, Asyl e Yesmae apoiavam Sersoy em diversos sermões.

Ao anoitecer, Shaya apareceu, o silêncio foi imediato, "e então, lupino?" ele me perguntou, e como último desejo neste plano, eu pedi para me despedir, as lágrimas e fortes abraços delas cortavam meu coração, "sentirei falta deste lugar", era tudo que conseguia pensar que não me desse a incontrolável vontade de chorar ou morrer, "então vamos Shaya" foi o que disse.

Meu coração gritava que o pingo que eu tinha de honra caiu junto com as lágrimas que arranquei delas, mas eu tinha de fazer aquilo, e que fique marcado ao mundo, eu voltarei.