Ayhalar

2 Capítulo II - Chama eterna


"E o que será de nós Ayhalar?" "é assim que honra o Lobo de prata, assim que honra a nós?" "o Lobo metálico, Ayhalar, nada deve temer, pois como filho do Lobo de prata a nobreza de seu coração nunca decepcionará a quem ele ama...".

Cada palavra, cada lembrança, rasgava-me através de cada veia que eu tinha, e Shaya sabia disto, após perceber que eu estava prestes a chorar, observou-me atentamente, bastou apenas uma lágrima para que ele me jogasse ao chão, "você não basta, talvez deva ser um cão qualquer no abismo" disse ele, após mais cinco minutos ele parou e disse que o ritual precisava ser feito, para que eu me tornasse um deles, ao perguntar qual ritual ele se referia, ele fez um corte em meu ombro, ele sabia de alguma maneira que eu resistiria ao fogo de seu chicote, e então lentamente, arrancou minha pele, a dor era imensa, mas eu estava em um transe magicamente manipulado por ele, onde eu não podia desmaiar de dor, não podia morrer, não caia, apenas sentia a dor me atravessando.

Demorou cerca de três horas para que ele terminasse de arrancar minha pele, após meia hora começou a ficar insuportável, após duas horas, começou a ficar agradável, comecei a sentir esta dor como natural, envermelhecia meus olhos, um sorriso tomava conta de meu rosto, e ao fim das três horas, ele deu uma chicotada, o fogo rapidamente se espalhou a todo o meu corpo, e disse: "de agora em diante, Lobo metálico, será conhecido como Lobo flamejante, será mais cruel que qualquer outro jamais foi, e terá apenas o direito ao seu corpo novamente quando eu cair, até lá, pertencerá apenas a mim".

Dadas as palavras eu apenas sentia algo diferente em mim, como um desejo de ver alguém sofrer, decidi apenas ignorar, Shaya então arrancou minha alma de meu corpo em outro ritual lento e doloroso, e então jogou-me ao abismo, um lugar totalmente confuso e desorganizado, fui obrigado a permanecer lá por duas semanas, e a cada dia o desejo de crueldade era crescente, ao fim de duas semanas, Shaya colocou uma coleira em mim.

Resisti a princípio, mas se tornava inútil, demorei para aprender que as noções de tempo que lá passei foram diferente que as do plano material, mas dia a dia, com a sensação de meses, pouco a pouco em jornadas cujo único objetivo era destruir, saquear, matar, eu era obrigado a participar, após três meses comecei a não odiar, após três anos, comecei, a gostar disso, e após sete anos, me esqueci de por que faria aquilo, me esqueci de talvez quem seja mais importante, lentamente me esqueci de Asyl, depois de Yesmae e por fim de Sersoy e Blakda.

A cada ano, algo em mim era destacado, eu ganhava nome e poder naquela camada, a cada ano eu gostava cada vez mais daquilo, me identificava mais, me tornava mais, eu e Shaya tínhamos uma ligação cada vez mais forte, éramos dois barões de uma das infinitas camadas do abismo, nada no maldito plano material tinha forças para nos deter, tínhamos riquezas, exércitos, nada, além da inveja de uma rastejante fêmea.

Sunta era seu nome, a marilith que me obrigou a fazer isso, ela não havia morrido, custei para aprender também demônios assassinados em plano material não exatamente morriam, e sim voltavam para o abismo, e para minha sorte, ou azar, Shaya e Sunta eram inimigos disputando o cargo de general desta camada, nenhum daqueles demônios que em vida fizeram-se tão presentes tinha de fato caído.

Era mais uma de nossas tardes em plano material, ele estava, assim como eu, em forma humana, em sua taverna favorita, vestidos como alta classe e cheios de adorno, ríamos e bebíamos, nunca me orgulharei desta fase, mas o que sentia era simples e puro, ganância e sede de sangue, apenas isso.

Tínhamos sempre o mesmo discurso, era uma das tavernas mais pobres da região, sempre que alguém excepcionalmente triste aparecia, eu sentava ao seu lado, sempre dizendo: "problemas parceiro? Sabe, meu amigo ali está recrutando gente para derrubar o governador, ele pagará 20 moedas de ouro para cada semana em missão, com comida e equipamentos fornecidos", geralmente todos estavam razoavelmente bêbados, aceitavam, e então eu os guiava e Shaya assumia.

Após isto, íamos para longe e Shaya os assassinava a sangue frio, ou os dominava mentalmente, horas era escravidão, horas tortura, horas morte podendo ou não aprisionar almas, tudo dependia de seu humor no momento, quanto a mim, no começo abominava, mas com o passar do tempo, fui achando não apenas normal, mas também gostava disto, Shaya e eu começamos anos dar muito bem, um cúmplice do outro, dia após dia, semana após semana, litros e litros de sangue, lágrimas e suor eram brutalmente arrancados.

Lembro-me ainda do dia que conversei sobre Sunta com Shaya, era a mesma taverna, que na verdade, depois descobri que Shaya havia a comprado, era um fim de tarde alaranjado, cerca de 18ºC, bebíamos, estávamos com chapéus de alto padrão, sorríamos, e mostrávamos pequena parte de nossas exóticas belezas em nossos rostos, Shaya notou que eu estava diferente, e então me perguntou: "Ayhalar, meu amigo, o que lhe aflinge?" sorrindo ele estava, e então eu lhe respondi: "Shaya, estou aflito quanto Sunta, quanto Devvot Sidak, quanto ao glabrezu, quanto aqueles que ainda vivem, e que provavelmente se unirão para nos derrubar", Shaya sorriu abertamente a mim, segurou minha mão (a ele era natural, mas era inegável o quanto odiava isto), e disse:

"Ayhalar, não se preocupe, tu eres um demônio assim como eu, e iremos esmagar a eles, pouco a pouco" disse-me com um malicioso sorriso, imediatamente soltei minhas mãos, sempre odiei este lado da personalidade dele, tentei disfarçar meu ódio e desgosto, e disse: "Então que o esmaguemos, demônio".

Ele sorriu e disse que Sunta era vingativa e cruel, mas que alguém como eu iria conseguir me virar, mas que, ele era independente do abismo, "Ayhalar, não sou um demônio comum, sou mais ligado ao plano material do que qualquer outro, eu sou tão humano quanto cada um destes que aqui vivem, a diferença é que eu me aceitei como sou, eu sei o que sou de verdade e não busco em falsos moralismos respostas inúteis".

Nisso eu tinha de concordar, com o passar dos meses com Shaya, eu aprendi muito sobre humanos, o que são e o que podem fazer, aprendi que já não há tanta diferença entre a terra onde vivo e o abismo, humanos podem ser anjos e demônios, mas sempre também serão impressionantes, muitos se denominam poderosos e sua eloquência convence a todos, mas eu vejo ao fundo, muito além do que fala ou aparenta ser, esmagável como uma folha, humanos são assim, alguns fazem a aparência e se mostram como deuses, mas são ridículos, enquanto outros que mantém a honra, muito sofrem e seu valor todo dia couro e sangue arranca-lhes, mas fortalezas interiores possuem.

Foi de assassinato em assassinato que aprendi como homens reagem, e como o poder e dinheiro diretamente afeta-lhes, inocentes sim foram assassinados, mas ao mundo todo assim é, dia após dia, cerca de 3 a 5 homens morriam, mas após um tempo, Shaya começou a me ensinar seus truques, suas magias, seus rituais, era sim possível adiar a morte de alguém, mas, entretanto, quanto mais ferido, corpo, coração e alma de alguém, maiores são as chances de o executor do ritual morra também, mas próxima a alma de um do outro fica.

Shaya sempre me dizia o quão raro e arriscado eram tais rituais, e que nunca havia testado antes, tornando difícil de saber por quanto tempo seus efeitos durariam, Shaya dizia também que adoraria ter uma cobaia a estudo, entre tantos afins, disse que um dia prenderia parte da humanidade, de suas próprias palavras:

"Ayhalar, meu nobre amigo, ainda que eu torture, escravize e destrua inúmeros humanos, ninguém ligará, pois nenhum homem deste deplorável mundo liga de fato para bondade ou justiça, apenas para seu jogo moral, apenas aqueles raros honrosos, mas serão estes que escolherei para fazer um inferno abismal, e digo que ninguém ligará aos rios de sangue, lágrimas e suor que irei arrancar, por que fora dos verdadeiros paladinos, nada mais há além de corruptos, falsos moralistas e vermes repugnantes, Ayhalar, se um dia quiser mudar isto, saiba que assim como eu, eles lutarão ativamente para seu sofrimento e até pelo seu assassinato, pois eles não querem, por mais que precisem de ajuda, de um herói, mas sim, alimentar vossas doenças e pecados até um ponto sem retorno."

Shaya tinha a incrível habilidade de falar a verdade e ao fim alfinetar algo contra mim, parecendo com que tudo fosse de grande amigo a grande amigo, eu já não sabia de quem deveria ter mais medo, Sunta ou Shaya.

Alguns dias se passaram desde então, eu acordei e Shaya estava lá, extremamente bem vestido, sorridente, ele havia metamorfoseado seis dos melhores orcs da aldeia de Sunta, e pouco após eu acordar, a mim também, ele, ao perceber que não estava entendendo, se virou para mim e disse:

"Ayhalar, meu grande amigo, hoje será um dia especial, um dia de acerto de contas, hoje iremos rever, digamos, uns certos...parceiros meus de outrora, agora, vamos, temos muito de conversar com estes companheiros", eu, curioso, perguntei de quem se tratava, ele se virou sorridente e disse: "nós vamos para Solaris, acredito que tenha alguns amigos seus ali também que você precise rever".

Era estranho, pois as minhas lembranças naquela época giravam em torno apenas do que me dava ódio ou desprezo, de primeira instância, lembrei apenas de quem me rejeitou, mas não de quanto amava Sersoy, Asyl ou Yesmae, apenas claramente sorri e disse: "sim, alguns parceiros que eu preciso conversar Shaya".

E então para perto de Solaris nos tele transportamos, lá cerca de 40 ou 50 mercenários, todos iludidos por Shaya nos esperava, mas distante eu podia ver Sunta com 30 orcs nos observando claramente, Shaya via em meus olhos que eu estava disposto a acabar com a vida dela, e então disse: "Ayhalar, se acalme, acredite se quiser, ela está do nosso lado nesta missão, tive um certo tempo de conversar com ela enquanto dormia, sugiro inclusive, que não guarde tanto rancor".

Eu apenas abaixei minha cabeça e disse: "que assim seja então", rumamos para Solaris, era uma fria tarde totalmente nublada, tinha recém chovido e o cheiro e as marcas de tal chuva eram fortes, Shaya me disse: "Irá consistir no seguinte, rumaremos aos fazendeiros, preciso tratar assunto com uma mulher, e marca-la, ela não pode de maneira nenhuma perecer, Sunta irá te acompanhar, junto a ela você irá tratar de seus assuntos e sair com Sunta e a tal mulher, e mais quem quer que seja que você deseje levar consigo, até o anoitecer eu me encontrarei com vocês, os mercenários e orcs rasos irão fazer a distração em uma missão suicida, os seis outros orcs abrirão o portal da camada inferior a nossa, Solaris pagará caro, agora, vamos, Sunta está esperando por você lá".

E assim foi nenhum guarda sequer desconfiou de nós, e então vagamos aos fazendeiros, batemos a porta onde havia uma camponesa, ela sorridente nos atendeu, na sala havia uma nobre, era claramente Sunta, entramos, e Shaya conversava: "Sabe, eu e minha nobre companheira pensamos muito sobre compra-te estas sagradas terras por 500 peças de ouro, mas claro, antes de pensar em aceitar ou negar, pensamos em te dar também uma nova moradia, e adoraríamos que a visse".

E assim, Shaya levou tal plebeia para longe, eu e Sunta estávamos sentados na casa, ambos em forma humana, após uns cinco minutos encarando um ao outro começamos a falar, poucas e objetivas palavras, na hora em que Shaya, apenas perguntamos como proceder e abertamente deixamos claro, separar "profissional" de pessoal.

Shaya voltou com a plebeia desmaiada em seus braços, ele estava sorridente, mas sem sangue em sua face, como esperávamos que seria, entretanto a plebeia estava bastante machucada, e então Sunta pegou a plebeia em seus braços, Shaya saiu e disse "agora os jogos começarão", eu e Sunta fomos ao templo, um a um, em cada lembrança, lentamente eu e Sunta assassinamos os sacerdotes que ali estavam, e então, com a plebeia, eu e Sunta saímos.

O lugar onde Shaya nos indicou era uma trilha em meio ao mato, que por alguma razão me era familiar, paramos e descansamos, estávamos ainda em forma humana, algum cheiro familiar me guiou a uma árvore a poucos metros dali, dentro dela, um bilhete, estava anoitecendo, e no bilhete estava escrito:

"Ayhalar, caso ainda se lembre de nós, Sersoy, Asyl e eu, Yesmae gostaríamos de te passar uma mensagem, que talvez seja a última, sentimos sua falta, migramos para o nosso continente original, Blakda crescerá sem um pai, pois Sersoy nega que outro além de você se envolva com ela, não sabemos por quanto tempo você ficará distante, mas espero de todo coração que não seja muito, ainda que não veremos sua sorridente face novamente, devo dizer que nunca esquecerei de meu pequeno lobo, que rapidamente se tornou um dos maiores, e, tal como as outras, nunca nos esqueceremos de bons momentos, caças e sorrisos ao seu lado, seja lá onde e como estiver, a nós, estará sempre em nossos corações."

Naquele momento me lembrei do que Sersoy sempre me falava: "dado o destino nada mais neste mundo o muda, pode acreditar em tudo que for, mas ele se cumprirá, seu destino é puro e claro Ayhalar, nunca deixe que alguém tire de você o que há de mais belo".

Naquele momento da vida me deparei que para apreciarmos a beleza no nosso grande livro vital, se torna necessárias páginas de dor e sofrimento, e um adiamento do bem, Shaya e Sunta me eram estranhos demais a mim, algo me fazia temer a eles.

Passando duas semanas desde então, eu tinha de cuidar da tal humana, Shaya disse que deveríamos retornar a Solaris e acabar o que começamos, e para as temperadas terras retornamos, estava mais quente do que o comum, a humana suava bastante, o sol brilhava intensamente, refletia em lagos e riacho ao longo do caminho, a humana constantemente gemia de dor, chorava e implorava piedade, além de consecutivamente pedir pausas.

Demorou cerca de 3 horas para que Shaya perdesse a paciência com ela, mas algo dizia que era essencial manter ela viva, após isso, ela percorreu o resto do caminho encima de mim, se não fosse a magia de Shaya sobre mim, eu também suaria muito, e estaria exausto, ao fim da tarde quando cheguei, eu estava encharcado, ela tentava ser cuidadosa, mas sofria para manter o equilíbrio.

Na metade da tarde ela tinha desmaiado por conta do sol e do calor, e então Shaya me disse: "acorde-a, quero conversar com ela", era apenas eu, Shaya, Sunta e ela ali, eu a virei, por alguma razão com cuidado, de barriga para cima, coloquei a pata em seu peito e pressionei levemente, ela acordou ainda tonta, Shaya ordenou que ela se levantasse, ela se apoiou em mim, Shaya a segurou pelo pescoço e a ergueu, estávamos em um monte acima de Solaris, a vista era total, Solaris estava boa parte destruída, ele a fez ver sua família morta e depois, nas profundidades do abismo, depois a jogou no chão, ela gemeu de dor e havia um tanto de sangue.

Alguma voz feminina parecida com a de Larnazull se comunicava comigo, ela dizia "dentro dessa mulher há sua única chance de redenção, bem ou mal, esta é a sua chance de escolha, este não é o único caminho para salvar sua família", Shaya viu que eu estava levemente diferente e disse: "Mate esta humana por mim, Ayhalar", eu via em seus olhos que ele tinha percebido, "vamos Lobo...", e então olhei a ele e para Sunta, "não posso fazer isso...".

Shaya estava com um chicote de couro, Sunta prendeu a humana, e Shaya disse, "então eu o farei", e começou a açoitar a humana, eu tinha a péssima sensação de que tudo que lutei para manter em pé iria desabar, mas fiz o que seria certo a se fazer, pulei encima de Shaya, que por sua vez me derrubou, ele era claramente mais poderoso, mordi ele, mas Sunta soltou a humana, Shaya acertou com a adaga em mim três vezes e Sunta começou a me chicotear, e então Shaya começou a dizer:

"Sabe Ayhalar, desde o primeiro momento, eu e Sunta sabíamos que você era fraco, frágil, inseguro e instável, sabíamos que cederia, por isso encenamos tudo desde o começo, inclusive, sabíamos que esta mulher te lembraria Yesmae, em breve ela irá aguardar um filho, Sagranor Lornax, Sagranor também é um dragão que causará muitos problemas a ele, e bem, quanto a você, é realmente uma pena terminar assim, você poderia ter futuro, mas iremos te assassinar em frente a sua família, após algum espetáculo, se assim posso chamar, Sersoy e Asyl serão nossas cadelas de guerra, enquanto Yesmae será nossa escrava pessoal, Blakda, seu filho, será jogado aos orcs e criado da maneira mais vil por eles, e você, por fim, não passará de um cadáver."

Eu estava com várias marcas das punhaladas e do açoite, meu sangue se espalhava pelo chão e Shaya dizia: "Ah, vamos lá Ayhalar, você não pode morrer sem ver o espetáculo", a humana se consumia em medo, mas mesmo assim veio até mim e deitou encima de mim, e disse com todas as forças que ainda tinha "obrigada...lobo...".

Shaya começou a rir e disse-nos: "Que cena comovente, Ayhalar, você sempre teve vocação para teatro, sempre foi um drama ser alguém tão fraco, e sempre foi uma comédia em todas as vezes que você tentou ser um herói...por que não façamos o seguinte, deixemos que a humana mãe de Sagranor decida entre vida ou morte."

E então eu disse: "Deixe ela livre de seus jogos de palavra, demônio, ela não deve estar nesta maldita guerra". Shaya então colocou com cuidado as garras em meus ouvidos, "mais uma palavra, lupino, faço seus ouvidos sangrarem".

A humana, desesperada, disse então: "deixe-o vivo por favor...", e então Shaya sorriu, olhou para mim e disse, "então assim será, Ayhalar, por mais de 150 anos você vagará sem rumo família ou destino, sua patética existência fará com que todos que você ama sofra, e quando fechar seu milênio de vida, terá tanto desgosto que se tornará um de nós, e quanto ao tal Sagranor, a ele lanço uma maldição, lentamente ele queimará até a morte, caso um dia ele chegue a ser genuinamente bondoso, por hora é isso, Sunta, vamos terminar o que começamos."

E então eles saíram, eu estava sangrando bastante, mas não morreria, minha pelagem cinzenta destacava o sangue que escorria, a noite não estava fria nem quente, entretanto, úmida, a mesma voz que outrora disse para que eu escolhesse, agora disse: "Levante-se e veja sua nova cor", eu me levantei, a humana me olhava espantada, eu me olhei, estava da cor de meu sangue, "lo-lobo, o que houve com você?" ela me perguntou, eu apenas sorri e disse: "ganhei mis uma chance de ser quem sou", ela sorriu, mas sua alegria se foi rapidamente, "não tenho casa nem como viver...", "Venha comigo, vamos, uma nova vida te espera, não tenha medo", respondi, ela hesitou por alguns momentos, mas logo após refletiu profundamente e aceitou, meu ferimentos pouco a pouco cicatrizavam, muitas foram as lendas sobre minha nova pelagem, alguns dizem que ao aceitar meu destino, minha pelagem se igualou ao significado de meu nome "Chama eterna", outros dizem que foi pelo amor de Yesmae e Sersoy que sempre acreditaram em mim, alguns dizem ainda, que isso foi a simbolização de que sou o demônio da nova era, entretanto a mim, sempre teve um propósito maior.

"Vamos humana, em breve a chuva virá e temos de nos proteger...", ela subiu em mim, era impressionante a boa sensação, seja como for, Shaya nunca sentirá o que sinto, desde aquele momento também agradeci por ser um bom caçador, pois se não fosse por isto, nada conseguiríamos.

Passamos pouco mais de duas horas caminhando até sermos domados pelo cansaço, nos deitamos e dormimos, ao acordar eu já estava totalmente curado, acordei cerca de três horas mais cedo do que ela, o sol ainda estava por nascer ao meu despertar, deitei com a cabeça erguida e a observei, cuidadosamente a farejei para ver se não tínhamos cometido o engano de deixar algo ainda com ela que agora nos poderia ser útil, logo após fui caçar, naquela manhã havia conseguido pegar um grande cervo, cervo pouco menor a mim, perto da altura da humana, sentei e fiquei a observando por mais ou menos uma hora, foi quando ela acordou.

O glorioso sol batia por detrás dela misturando a sua imagem, ela se assustou de primeira reação, mas logo se acalmou, "irei vigiar o perímetro, enquanto isso retire do cervo as partes que mais lhe agradam, eu comerei o resto", ela acenou com a cabeça, e vigiar eu fui, fiz a patrulha completa por cerca de duas horas, nada além de alguns predadores que espantei para muito longe, ao retornar, ela estava com algumas pedras perto dela, havia um tanto de pele separado ao lado, e de outro lado grandes pedaços de carne, ela cantarolava, um tanto animada, foi quando avistei dois homens empunhando machados e escudos de madeira, corseletes de couro batido e adagas, se aproximando dela, sem hesitar, ataquei um dos dois, o outro tentou me acertar, mas estava visivelmente abalado pelo medo, o que acertei, assassinei esmagando seu pescoço, o outro assustado simplesmente correu, separei a cabeça do tal humano e me virei para ver como a humana estava.

Ela me olhou muito assustada, eu lambi o sangue em meus dentes, ela tinha deparado grande parte, e então eu disse, "deixe a carcaça, tente fazer uma fogueira para preparar a carne, quando a fizer, faça uma bolsa para que eu carregue o restante", ela estava um pouco assustada, mas assim fez, enquanto preparava as coisas, eu comi a minha parte, ao terminar me deitei e observei-a fazer o que eu havia pedido, ao terminar, ela começou a comer rapidamente me olhando, como se a qualquer momento eu fosse machucar ela.

"Então humana, por que não me conta o que você era antes de te pegarem?", perguntei, descontraindo o olhar para que ela se acalmasse, "eu era uma sapateira, trabalhava cerca de dez horas ao dia para poder me sustentar, meus pais tinham sido assassinados anteriormente por uma criatura que nunca vi rosto e nunca soube o nome, e você, lobo? Qual sua história?".

E então respondi: "Era um lupino de uma matilha por ai, tenho um filho, uma mãe, uma mulher e sua irmã a cuidar, mas por medo de que tudo acabasse, me aliei a Shaya, alguns meses depois comecei a perceber a loucura que estava cometendo, agora ate achei, e vou reencontrar minha família, cuidar de você e deste garoto, e seguir meu rumo..."

"Eu apenas não entendi por que fez aquilo por mim, foi tão arriscado...", ela me perguntou enquanto guardava a carne e os pertences do bandido que tentou nos assaltar, "por que é o que fazemos quando acreditamos em bondade, atacamos o mal sem pensar em consequências, e você me parece uma boa pessoa, fora que uma boa humana é sempre bem vinda em qualquer grupo", ela sorriu a mim e colocou a improvisada bolsa cheia de carne em mim, logo após começou a caminhar ao meu lado, seguimos caminhando até o sol se por, conseguimos achar um gnomo que possuía uma carroça, ele parecia lá ter sua classe.

Com ele vendemos boa parte de nossa carne, o machado, o escudo e a armadura do bandido, o que nos rendeu quarenta moedas de ouro, a humana guardou na algibeira que o bandido tinha, e seguimos por mais uma hora até acharmos um bom lugar a se descansar, no outro dia dispostos acordamos, rumamos a uma vila e achamos um senhor que disse que havia uma águia treinada a percorrer distâncias e enviar mensagens.

Disse-nos que nos custaria 40 moedas de ouro, entretanto se fossemos dar a ele a carne e o couro, nossa dívida seria quitada, e então aceitamos, em uma mensagem escrevi:

"Sersoy, traga Yesmae, Asyl e Blakda para aonde a águia vos guiar, estou bem e precisamos permanecer unidos, acima de tudo, sinto sua falta como sempre senti, mas agora estou pronto a enfrentar meu destino, até quando o vento cantar nossa união novamente", e vi a águia partir, nos fixamos a vila e trabalhamos para aquele senhor.

Demorou dois meses para que as lobas, Yesmae e meu filho voltassem, nestes dois meses conseguimos comida e moradia razoáveis, além de quatro moedas de prata e oito de prata.

Nestes dois meses, muito eu e a humana conversamos, ela se chamava Orsolya, tinha 27 anos, e vivia quase que em servidão, era uma hábil serva, na verdade tinha se tornado uma das melhores, apesar de tudo, ela contava que antes dos 21 era repleta de sonhos, mas quando seus pais morreram, pouco a pouco eles se perdiam.

Apesar de tudo ela ainda era um tanto quanto simpática, apesar de muito temerosa, a tal águia voltou algumas horas antes do grupo, elas voltaram próximo ao anoitecer, primeiro Yesmae, que correu para me abraçar, logo após veio Sersoy, depois Blakda e por fim Asyl, aquele carinho quem ambas sentiam por mim e vice versa proporcionava um alívio incalculável, ainda sim observava Orsolya, estava reclusa em um canto olhando para baixo, e então sorrindo fui até ela, coloquei uma pata em seu ombro, e logo levantei e a abracei, e depois disse: "senhoras, esta daqui é Orsolya, graças a ela, consegui fugir de Shaya, a partir de hoje ela nos acompanhará".

Todas a examinavam e avaliavam com o olhar, entretanto não tardou para aceitarem, Orsolya tinha um tanto de medo delas, demoraria um pouco mais do que o natural para desenvolver confiança, mas o interessante era a confiança que parecia depositar em mim, Sersoy então sugeriu que partíssemos, pois lá, as coisas poderiam ficar perigosas demais.

Agradeci o senhor e então partimos, na viagem contei como tinha sido o abismo, muito terrível, sentia medo, e naquele momento tinha a impressão de que Shaya poderia nos atacar a qualquer momento, mas eu via a tranquilidade, felicidade e serenidade no olhar de Sersoy, e via seu sorriso, Orsolya no entanto estava um tanto insegura, daquele ponto ela percorreu a viagem encima de mim, Asyl começou a cantar, Blakda estava feliz, era incrível presenciar tal milagre.

Olhar o pequeno lobo tentando andar e sentir constantemente Sersoy e sua alegria contagiante era o maior de todos os presentes que eu poderia imaginar que um dia teria.

Caminhamos através dos dias, por sorte aquelas terras eram abundantes e eu conseguia caçar uma quantia muito maior que consumíamos, e, de vila em vila, vendíamos os excessos ou trocávamos por moradia, conseguimos viajar para terras próximas das nossas, entretanto longe o bastante para que nem Shaya ou Sunta pudesse nos incomodar.

Naquela noite a lua refletia em minha pelagem, agora avermelhada, e na pelagem levemente azulada de Sersoy, estávamos deitados olhando o céu limpo, Sersoy se apoiou em mim para que eu prestasse atenção nela, então virei, a encarando, e ela me disse:

"Quando tudo isso acabar, todos nós estaremos lá, junto aos ancestrais, honrando a tradição de nossa matilha, Ayhalar, se um dia vier a se separar de nós novamente, nunca se esqueça de suas raízes, você é um herói, e nada que alguém disser vai mudar isso, não importa quanto tempo passe, em meu coração, você é um herói."

E então eu disse: "Então sempre olharei para o céu Sersoy, mesmo que tudo acabe no pó, mesmo que eu nunca mais lhe veja, sempre que eu olhar para a lua me lembrarei de você, por que sei que você estará aos céus me vigiando, e você terá orgulho de mim". Ela sorriu, e disse: "Eu sempre tive...", de fato, nada renova mais do que o amor.

Na outra manhã acordei sentindo um forte abraço, abri meus olhos e vi Yesmae, sorri, me levantei, mas algo estava errado, Yesmae não tem olhos dourados, me espantei, senti uma corrente que me atingiu e rasgou meu couro, olhei espantado, Sersoy não estava mais lá, nem Blakda, nem Asyl, em Yesmae, nem Orsolya, eram todos os comparsas de Shaya, que apenas botou seu clássico terno branco, mas ainda estava em forma de Yesmae, ele sorria enquanto me olhava sangrar.

"Olhe só, então quer dizer que eu cheguei a tempo de contemplar a cena de amor da noite anterior não é?", disse ele, sorrindo, perguntei onde elas estavam e ele me respondeu "não se preocupe, eu não mexerei com elas, elas já foram vendidas por um bom preço".

Tentei reagir, mas cada um equipado com uma arma diferente me acertou, meu sangue escorria ao chão, "não se preocupe com elas, lupino, meu foco de maldade não são elas, mas sim você, depois que eu te matar, me preocuparei com elas", disse sorridente, e então Sunta apareceu junto à Siddak, e ambos disseram "Shaya, por que não apostar junto a um orc? Damos várias décadas de solidão a este lupino, e então apostamos em um orc, que perderá tudo, se este lupino conseguir criar este orc, estará 'livre', deixaremos o destino nos dizer, esta condição será tão cruel, que ele permanecerá vivo, mas com profundo desejo de morte, a própria situação das coisas dirá isso pra nós, e enquanto observamos e nos divertimos, procuramos outras vítimas".

Shaya olhou levemente admirado e disse "tem razão, por que não? o que acha disso lupino?" eu tossi sangue e disse "esta brecha de não me matar agora será seu fim, seu cretino", Shaya sorriu e disse "fico feliz que tenha concordado, boa sorte".

Ele partiu, simplesmente senti meu sangue se esvaindo, me levando com muito custo e tentei seguir adiante, tipicamente Shaya mentiu, não foram todas que foram levadas, Orsolya estava desmaiada e sangrando, eu a peguei com a minha boca e a arrastei, era um verdadeiro milagre ela ainda não ter perdido sua cria, eu havia sido ferido por uma corrente, uma clava, um machado e uma espada, tinha perdido muito sangue, estava fraco demais.

Minha visão ficava turva e notei algo descendo dos céus, era difícil de dizer o que era, mas a voz era incrivelmente familiar, essa criatura havia me curado, e quando consegui observar percebi, era uma anja, parecida com Larnazull, mas era mais velha, ela tinha profundos olhos azuis, me curou com uma de suas sagradas magias e me pediu que eu cuidasse de Orsolya junto a ela.

Sem hesitar eu aceitei, ela disse que eu deveria cuidar de Orsolya, mas quando Sagranor nascesse ela iria cuidar dele, e eu cuidaria de Orsolya, ela disse que Sagranor era destinado a derrotar Shaya, e a companhia de Orsolya impediria que eu enlouquecesse durante o tempo que eu tinha sido destinado a ficar longe de minha família, eu olhei, o assunto de distância de minha família ainda me feria um pouco, algo me dizia que não iria ser por pouco tempo, tinha até medo de que fosse eterno.

Em algumas noites a fio percebi que tinha algo acontecendo de diferente comigo, o sonho era sempre o mesmo, sempre envolvendo Shaya, pesadelos e pesadelos, ao fim de duas semanas consecutivas com este sonho, finalmente Shaya em sonho disse: "deveria ter dado tempo de você se despedir, pois aquela foi a última vez que você viu sua matilha, lupino, e seu coração hoje está imbuído com vitalidade profana, viverá séculos, e se arrependerá de todos eles."

Acordei em meio a noite, minha pelagem avermelhada estava mais escura do que de costume, tinha acontecido, minha vida já não seria mais normal, olhava constantemente para o céu, em busca de esperança, mas já não sabia o que pensar.

Essa sensação de falsa imortalidade me domina até hoje, mas eu tentei não pensar muito, e no fim dos 9 meses, Sagranor havia nascido, um de seus olhos era azul como o da anja, mas o outro era vermelho, não como o meu, mas eu imaginava, "Shaya tinha o olho dourado...exceto em sua verdadeira forma", eu via aquele pequeno garoto, e via força e esperança nele, mas , como prometido, eu e Orsolya deveríamos partir.

Orsolya sentia muita tristeza por ter de abandonar seu filho, mas ela estava tão confusa que já não sabia se deveria lutar contra, a tal anja então propôs que Orsolya cuidasse de Sagranor até que ele aprendesse a falar, e quanto a mim, bem, eu deveria partir, mas encontraria Orsolya quando fosse a vez dela também.

Sem ter muito aonde ir e com uma péssima sensação sobre futuro decidi ir aos paladinos, mas ao longo de meses rumando, tudo que vi eram ruínas, simplesmente não conseguia aceitar, farejei e busquei onde pudesse ter esperança, e nada me veio, precisava partir para novas terras, mas não sem Orsolya.

Em alguns meses a mais fui adentro da grande mata, apenas seguia o caminho que anteriormente havia seguido para fugir de Shaya, em meio ao caminho lutei contra alguns predadores como lobos e algumas vezes, tigres, sempre seguindo adiante, sem hesitar.

Meu propósito agora era chegar aos portos do norte, onde há vários relatos de cargas diferenciadas, maldito Shaya, ao menos poderia ter deixado todas as vinte moedas de ouro que eu havia reunido.

Já havia feito cerca de três anos desde que havia visto Orsolya pela última vez, finalmente achei uma vila costeira, provavelmente eles sabiam onde ficavam os portos, era o auge do brilho do sol, aparentava ser uma vila de pescadores, mas ao finalmente chegar nela percebi, não era uma vila, era um centro mercante, e para cada mercados haviam dois ou três guardas, não eram mercadores comuns, eram barões, o grande lobo de prata havia nos criado sobre histórias de barões que negociam tudo e com todos, exatamente como ele haviam me contado, a maioria gnomos, os barcos estavam lá, gnomos desciam com vários guardas examinando quem comprava, entretanto sem abuso de autoridade, ao olhar mais atentamente notei, não eram guardas comuns, eram os próprios paladinos, completando mais uma geração aos barões e sua mística guarda.

Gyzael Heletor havia me reconhecido, ele me apresentou o gnomo que por sua vez perguntou o que eu tinha a oferecer, Heletor disse: "este lupino é um grande caçador", as cicatrizes dos tigres e lobo que enfrentei estavam em evidência, o gnomo então falou "ótimo, então por que não me traz algo? Ainda estamos na temporada de venda e compra, permaneceremos mais dois meses por aqui", e fui continuar meu caminho de caça, nestes dois meses finalmente achei Orsolya, que estava arrasada por Sagranor, com o passar do tempo em caças ativas e junto aos paladinos consegui fazer ela se esquecer um pouco da dor, nestes dois meses reunimos oito moedas de ouro, treze de prata e onze de ouro, além de claro, nossa "passagem", o gnomo topou nos levar para longe, e eu tinha reunido comida para todos nós neste período (o dinheiro foi por presas e peles), e enfim partimos para terras mais distantes.

Desde que os contos sobre Evalar se intensificaram, eu comecei a gostar de paladinos, mas rumávamos para outras terras, e quem sabe lá não seriam terras de outras lendas? Finalmente chegamos a outras terras, mas alguns meses após isso Orsolya pegou uma doença, todo dinheiro que havíamos reunido eu investi para tentar curá-la, médicos, sacerdotes, e nada funcionava, a doença a fazia tossir sangue, mas não era sangue dela, era um sangue negro e denso, não houve últimas palavras ou algo do tipo antes que ele se fosse, apenas em mais um dia voltei e ela estava morta, sem marcas, apenas o sangue negro em sua face.

Foi difícil a mim perder mais ela, mas infelizmente era assim, vidas vem, vidas vão, e a única coisa que devemos fazer é aceitar tudo isso, infelizmente, e mais que isso, devemos não apenas aceitar, devemos aprender com os que se foram e valorizar os que estão, e no caso Sagranor ainda vivia, eu precisava ver ele, eu precisava ver quem foi escolhido divinamente pra assassinar Shaya, por mais que eu não acreditasse que esta tarefa fosse de um humano.

Gyzael pagou minha passagem de volta, e disse que ao longo dos anos muita coisa eu veria, enfim, então parti de volta, para Solaris. Ao chegar lá percebi que Shaya havia imbuído o coração de todos os homens com mentiras e ódio, a minha sorte na verdade, foi de ter achado Larnazull antes de tudo, caso o contrário eu seria linchado até a morte naquela cidade, a ascensão de Sagranor já não era mais uma utopia, mas sim uma necessidade.

Então resolvi partir para longe dali, uma nova vida, e tentar achar Sersoy em outro continente, e várias foram as ilhas, e vários foram os anos de que me perdi, até finalmente chegar a um estranho continente, nisso deveria ter se passado cerca de oito anos, tal continente se chama Avyron, e lá comecei minha nova busca a Sersoy e o resto da matilha, minha busca me levou a um estranho dragão vermelho, que curiosamente se chamava Sagranor, ele e seus seguidores se diziam "abençoados", e diziam que o mundo estava a se acabar, e apenas eles seriam destinados a sobreviver.

Fiquei convencido de que o melhor seria saber a fundo sobre isso, pois poderia ser uma chance de recomeço, e Shaya não era um deles, o que me fez sorrir ainda mais.

Me prontifiquei a caçar humanoides a ele em troca de conhecimento, o conhecimento que ele me ofereceu demoraria muito, mas mesmo assim decidi aprender, ele sobrevivia sugando a alma e essência vital das pessoas, e o tal ritual que eu estava a aprender era exatamente o oposto disto.

Não apenas drenar minha energia vital a alguém, mas mesclar sua alma tornando dois como um, o único problema é que uma vez que executado era basicamente impossível reverter.

Os anos caiam e eu dominava a arte de tal ritual, estava quase a apender o ritual de vampirismo, mas, certa notícia derrubou todas as minhas esperanças, acharam Sersoy, Asyl, Yesmae e Blakda, todos mortos, vendidos como escravos, torturados, Blakda nasceu em meio a violência, e antes de sua morte enlouqueceu, assassinando dezenas de homens, pela loucura de Blakda, elas morreram, muito provavelmente obra de Shaya também, pois as marcas eram características dele.

E de mais um grupo fugi, que cômico, minha cabeça sendo premiada em mais um grupo de fanáticos, eis que me veio a notícia, Sagranor havia chegado também a Avyron, e então me veio o dilema, procura-lo ou procurar os corpos de minha matilha?

Qualquer um que tivesse um pouco de sanidade escolheria Sagranor, e exatamente por isso escolhi uma busca arriscada e talvez até sem sentido aos corpos de Sersoy, Asyl, Yesmae e Blakda.

E procurei em vários cantos de Avyron, mas os achei em um dia, junto a alvorada, acordei em uma mata, os corpos estavam intactos a minha frente, e claro, Shaya estava lá, pela primeira vez sozinho.

"Ainda com o péssimo hábito de longo e pesado sono, lupino?" disse ele, sentado em uma cadeira em meio a mata, segurando uma taça de vinho em uma mão e seu fumo em outra.

"Chega a ser incrível o quão clichê consegues ser, Shaya" disse ao me levantar, estava surpreso que não estava ferido ou algo do tipo, "também estou alegre em te ver, lupino" dizia ele enquanto se levantava, "te devia um favor ao vender tanta pele aos gnomos" disse ele, puxando debaixo da carcaça de Sersoy um enorme casaco de pele de tigre.

"Mas veja bem lupino, eu poderia ter feito um casaco com a pele de Sersoy, mas odeio azul", olhei para ele com desprezo e perguntei "e o que me fez ter o desprazer de ver sua cara novamente Shaya?".

"Bem, não é nenhuma novidade que você começa uma nova etapa em sua vida, lupino, gostaria apenas de trazer a sua tão amada matilha para que você se despedisse dela, sabe, do jeito que você é emotivo e desatento poderia se perder facilmente de Avyron e talvez nunca mais voltar, e eu não gostaria que você perdesse a aventura de Sagranor e seu grupo nessas terras".

"Então teve dedo seu para que Sagranor Lornax chegasse aqui... Por quê?" perguntei a ele, ele sorriu e me respondeu:

"Certamente já conheceu o dragão Sagranor, não é? E sabe do que ele quer se livrar, não é mesmo? A ira de Atropos, o deus ancestral agora caído, o clérigo Lornax é a peça chave para que os tantos os planos de Atropos quanto os de Sagranor dragão simplesmente se desfaçam, e claro, como a profecia diz, nós lutaremos, até a morte, além de claro, eu realmente preciso que Atropos caia, por certa dívida com o abismo."

"E de qual dívida se trata, Shaya?" perguntei confuso, ele abaixou levemente a cabeça e me respondeu:

"A alma de Sunta, deve se lembrar dela, não é mesmo? Se Atropos cair, Sunta é assassinada no abismo, e sua alma se dissipa para sempre".

Eu já não entendia mais uma palavra do que ele dizia, e em poucos minutos, ele notou isso, e sumiu apenas via os corpos e sentia uma enorme confusão mental, suspeitava de que havia um forte veneno ou algo assim nele, mas mesmo assim deitei entre eles, minha vontade era de me desfazer em lágrimas, mas sabia que eles estavam no céu logo acima de mim me observando, todos estavam, eu tinha de seguir forte, eu tinha de ser forte.

Me levantei e consegui manter a minha postura, daquele momento em diante começou uma nova jornada, e uma nova vida, naquele momento percebi que o verdadeiro herói é aquele que antes de mudar o mundo, se deixa ser positivamente mudado por ele, Shaya me deixou numa posição delicada demais, mas eu sabia que Sagranor o venceria.

E a minha intuição estava correta, os meses se passavam e nada ficava de pé perante Lornax, Flind, Luckfinder e Sariot, seja reino ou dragão, tudo caia, não foram muitas as vezes que tive a honra de acompanhar as vitórias deste grupo, mas ainda sim tive, a graça de acompanhar algumas de suas vitórias.

E a falta que eu sentia de Sersoy crescia na mesma media que tal grupo se tornava herói, e para acabar com a dor, apenas uma promessa, ser forte e nunca se entregar a nada, nem mesmo a morte, até que tudo se acabe.

O tempo se passava, a ameaça de Atropos crescia, tal como o poder de tal grupo, mas eu também via um pouco de loucura e caos entre eles, os meses se passaram, Sagranor terminou de achar os membros que havia perdido numa expedição, o poder aumentava gradativamente, chuvas caiam em mim, mas eu não sentia frio ou calor por elas, apenas conseguia enxergar em poças como estava o abismo, sempre em mesma coisa, a mesma camada, Shaya nunca estava lá.

Porém em um dia tempestuoso me espantei de ver ele por lá, apareceu apenas para assassinar Sunta e Devvot Siddak, além dos aliados destes, nunca havia visto ele daquela maneira, estava em sua forma verdadeira, e agiu friamente, sem torturas, sem delongas, rápido e indiferente, em questão de minutos os corpos caíram e ele saiu de lá.

Estava perplexo, Sagranor poderia ser assassinado da mesma maneira que Sunta, quando me movi, olhei para o céu, tamanho brilho que me cegou temporariamente, dizem que os próprios deuses viram aquilo, e quando voltei a enxergar, eles desciam do céu, estava feito, a ameaça de Atropos finalmente tinha acabado, mas tanto eu quanto Sagranor sabíamos que não acabaria ali.

Acordei na outra manhã com canções de guerra, um rugido, acordei e logo percebi batalhões se mutilando, era Sagranor contra Shaya, e consegui vê-los ali na minha frente, aconteceu tudo tão rápido, foi tão difícil assimilar as coisas.

O sol mal havia nascido, eu presenciei os dois, cara a cara, Shaya em sua verdadeira forma, Sagranor apenas em alguns segundos fez uma leve prece, eu via energia divina por entre seu corpo, em questão de segundos, explodindo por entre o corpo de Shaya, não houve tortura, nem represaria, apenas em seis segundos, o corpo de Shaya se desfez da face da terra, eu simplesmente não conseguia acreditar no que via, Shaya se desfazendo, o triunfo de um humano sobre um demônio.

Eu simplesmente tremia ao ver aquilo, Shaya, o senhor de mil faces, desfeito em segundos, após a queda de Shaya, o olho vermelho de Sagranor assumiu a cor do olho de sua mãe, eu não sabia se estava livre, apenas vi que as tropas de Sagranor junto a ele saíram e voltaram a sua terra natal.

Shaya finalmente havia caído, agora tudo que eu precisava era salvar a minha reputação que ele havia afundado, precisava achar Larnazull e sua mãe.

E dentre anos corri, corri entre campos, entre montanhas, espalhei a todos que conhecia a notícia, e fui finalmente a Solaris, neste meio tempo deveriam ter se feito dez anos no mínimo, consegui falar com a anja mãe de Larnazull, as coisas se acalmaram, mas Solaris ainda desconfiava de mim.

Em meio aos campos em que procurava Larnazull, uma linda e enorme raposa branca pairava na minha frente, era maior do que eu, o mesmo olhar de Sersoy, e a vi se transformar em uma elfa, por um momento pensei que era Yesmae, mas não era, ainda sim era uma poderosa druida, ela me olhava com um tanto de seriedade, mas era possível notar sua bondade, me sentia bem perto dela, ela olhou para mim e disse que ainda havia parte do destino a se cumprir, eu precisava honrar uma morte que estava por vir, ela disse que eu ainda seria atingido, não apenas por Shaya novamente, mas por um dragão, olhou para baixou, como se pudesse sentir toda a dor que viria a mim, e me abraçou, disse ainda que era, a todo custo, honrar a promessa que eu havia feito a Sersoy.

Eu então pedi a ela que pudesse me livrar do encargo que Shaya havia deixado em meu corpo, ela disse que poderia me ajudar, mas levaria anos, sorri e disse que havia todo o tempo do mundo.

Os anos caiam em mim, e pouco a pouco o vermelho que Shaya havia deixado se esvaia, finalmente minha pelagem se revelava como deveria ser, como sempre foi, prateada, como o grande Lobo de prata, finalmente encontrei paz comigo mesmo, deveria voltar a Solaris para procurar Larnazull.

Era mais um dia quente nas selvas profundas do continente de onde Solaris ficava, eu a vi, bela, reluzente, brilhante, com tom de misticismo, por um consegui notar que momento fiquei pasmo, sua beleza exótica me deixou tão distraído que sequer havia algo de errado dentre as árvores, e sem que eu pudesse ver, detrás dela, um enorme dragão verde surgiu, a devorou e a rasgou em minha frente, como se tivesse rasgado parte de mim também, mas algo, ou alguém o impediu que eu fosse a próxima vítima, ao invés disso ele apenas me jogou longe, meu corpo colidiu com uma árvore, devo ter quebrado umas duas ou três costelas.

Esperava ver, de alguma maneira, Shaya ali, pensava que só podia ser obra dele, mas inacreditavelmente não era, podia parecer engraçado, mas tudo que eu queria era que fosse apenas mais um pesadelo, então olhei para o céu, estava azul, somente uma palavra me veio a mente: "Sersoy", me levantei, a dor era enorme, precisava alertar o clérigo Sagranor do que ocorreu, me arrastei por alguns metros até desmaiar.

Acordei em uma enorme, bela e nobre sala, e ouvi em um tom irônico, "Teve sorte de não ter nenhum pulmão perfurado lupino", me virei e vi Sagranor, estava muito velho, ele me curou com a mesma facilidade que destruiu Shaya, e então me disse:

"Sabe, grande lupino, eu não quero tornar as coisas mais difíceis para ti, mas você é o último de sua espécie, e seu destino é de prosseguir, até que ache outro que será o último de sua própria tribo, e como um, matarão o dragão".

Naquele dia eu não entendi muito bem o que queria dizer, e ainda hoje choro quando me recordo ao perceber o peso que isto tudo teria, mas ao perceber que nada compreendia, Sagranor continuou a dizer: "há algum tempo Larnazull deixou o mundo, mas ela havia deixado uma herdeira, mas ela ficava sempre com a guarda de Larnazull e eu sempre achei melhor assim, mas agora que ela morreu, eu não sei onde minha filha está, se eu tenho um último desejo antes de tudo acabe que seja este".

Não poderia negar um último desejo, ainda mais daquele que derrotou Shaya e me livrou daquele pesadelo, Sagranor disse ainda que sabia em quais terras a garota estava e que poderia, através de magia, me mandar para lá, disse que eram terras selvagens e minha natureza me ajudaria muito por lá, e então, assim foi feito.

Fui lançado em terras selvagem, enormes planícies que eu nunca havia visto, havia tardes nebulosas e noites chuvosas, mas também havia tardes ensolaradas e noites claras, dos meses que passei naquela terra, o mais difícil era se acostumar com a nova temperatura, demorou cerca de duas semanas até que eu achasse a aldeia em que a filha de Sagranor estava, eram humanos primitivos e tribais, mas notei que eram governados por um humano, que se transformava em tigre, todos achavam que era uma divindade, mas eu sabia que era um druida, e era justamente com ele que eu deveria falar.

Por mais duas semanas eu vigiei tal aldeia, caçando alguns animais (especialmente predadores solitários após brigas), comecei a notar os pontos em que ele andava mais desprotegido, e notei também que a filha de Sagranor estava lá, era uma pequena garota, deveria ter seis anos, em uma das tardes, fui falar com tal druida, que naturalmente chamou suas defesas e se transformou, "eu venho de longe em paz, druida, vim a mando do pai desta garota que anseia em vê-la novamente", eu disse, "o pai desta garota sou eu, lupino, pois seja lá quem tenha gerado ela, a abandonou, agora vá embora de minhas terras, antes que eu seja obrigado a agir", disse ele, com a garota atrás, junto a ele, havia mais cinco de seus guerreiros tribais, aparentemente, os cinco melhores, eram os únicos que portavam machado feito de metal (bronze), enquanto os outros usavam lanças de pedra estávamos a cerca de uma hora de caminhada da aldeia, seria tempo o bastante para tentar algo.

"Eu irei pegar esta garota por bem ou por mal, druida" disse, com um leve sorriso no rosto, então avancei contra o tigre, saltando por cima dos bárbaros, mordi em seu pescoço, podia sentir seu sangue fluindo, imediatamente girei, sabia que os bárbaros atacariam e o tigre reagiria, mas ele conseguiu se soltar, ele me atacou com tudo, todas as suas garras, e me lembrou os tempos de Shaya, os bárbaros enfurecidos tentaram me atacar, dois acertaram e abriram profundamente meu corpo, mais uma daquelas e eu sabia que não conseguiria resistir, mas ferido o tigre iria me alcançar em fuga, então ataquei, ao mesmo ponto, e rasguei a carne em seu pescoço, então me virei e separei a cabeça de um dos bárbaros, os outros ficaram aterrorizados, e eu estava tão ferido a ponto de saber que se me movesse, provavelmente poderia se ver algum órgão vital.

"Seu suposto líder foi derrotado, eu apenas anseio a garota, vão, levem os corpos, e não precisamos mais derramar sangue", disse, com a boca cheia do sangue deles, eles então concordaram, mas eu sabia que eles voltariam e seguiriam meus rastros para se vingar depois, a garota estava paralisada, em estado de choque, aterrorizada, então a peguei, ela se aterrorizou mais ainda, peguei a garota pela sua roupa, e tentei leva-la mais adiante, conseguimos atravessar cerca de 18 km em quatro horas, e eu estava exausto, extremamente ferido, e havia um trecho de sangue mostrando onde eu estava, "perfeito", pensei ironicamente ao perceber que estava certo, os malditos tribais me perseguiram, a cerca de vinte metros havia um rio, e eram muitos tribais a se lutar (os quatro portando o machado de bronze e mais 12 com lanças de pedra), então saltei no rio com a garota, mas com as batidas em pedras desmaiei.

Acordei desesperado no meio da noite, estava com algumas faixas e ervas triturada, com o susto derrubei dois ou três frascos, eu estava em uma cabana, e em poucos minutos acordei a garota, que estava perto de mim, percebi uma mulher lá fora, que se aproximou de nós, era simplesmente linda e encantadora, até mesmo demais para uma humana ou elfa, era uma ninfa, uma fada benigna, eu fiquei sem reação ao perceber ela.

"Teve muita coragem de fazer o que fez, lobo, você parece vir de longe", disse ela, a garota ficou perto de mim, me ajeitei para que nós pudéssemos dormir com conforto, "eu não faço ideia de onde fica minha casa daqui, e nem a casa desta pequena garota, vim de Solaris, a mando de Sagranor Lornax", e então ela disse "a sim, Sagranor, ouvi falar muito dele, ao amanhecer eu te levo a ele, agora descanse".

"Uma última pergunta, quanto tempo passei desacordado?" perguntei a ela, que me respondeu que passei seis dias desacordados, seis dias de desmaio, acabei por fim voltar a dormir.

Acordei naquela manhã, a ninfa me observava e me alimentou com frutos (de gosto terrível, mas comi pela gentileza), e nos tele transportou para perto de Solaris, e eu não sei o que a ninfa falou para a garota enquanto eu estava desacordado, mas ela não sentia mais medo de mim.

E caminhamos por um tempo, na maior parte do tempo em corrida, ela tinha de se segurar muito forte em mim, e sabendo disso a ninfa ajeitou uma espécie de sela na garota, em algumas horas nós chegamos a Solaris, o reencontro foi belo, na verdade estes sentimentos predominantemente presentes em humanos são sempre belos, apenas o saudei, estava em partida quando ouvi "lobo, espere", era Sagranor, ele disse que conjurou uma magia para saber como Sersoy, Asyl, Yesmae e Blakda haviam morrido, envenenados por barões, entretanto, Blakda, antes de morrer, surtou, e atacou a todos, terminou em um tamanho rio de sangue que naquele local a lua refletia-se vermelha, "só queria que ficasse sabendo que, antes de morrer, Blakda disse seu nome, Ayhalar", eu apenas conseguia olhar o cenário no momento, mas nada conseguia ver, apenas num estado de vazio.

Após alguns minutos o agradeci e parti, tomei o primeiro rumo que me veio a minha mente, dias e dias de caminhares pesados, cheio de pensares como "se fossem diferente", eu não sabia como continuar, achar a ninfa, talvez? Mas não fazia ideia de como chegar lá, "dia difícil?" disse a grande raposa branca, me assustei levemente ao perceber ela, mas sorri ao nota-la, "aquilo tudo que disse sobre achar mais alguém que perderia tudo, se referia a garota?" perguntei, a druida sorriu, e disse que não, "seu destino ainda será sofrido e árduo" disse ela, "obrigado pela motivação", respondi, sorrimos, ela disse que um grande destino me aguardava, e que eu lutaria por algo que eu sequer consigo entender agora.

Olhava para o céu com a esperança de que meu ânimo voltasse, mas não me foi tão fácil, a raposa se deitou perto de mim e ficou olhando o céu noturno junto a mim, engraçado, a presença dela havia aliviado um tanto da dor interna daquela noite.

Mas ao amanhecer ela já não estava mais lá, segui andando por entre matas para ver se ela estava por perto, mas não estava, apenas estava escrito no chão "siga o rio", e assim eu fiz, segui o rio por um pouco menos de uma semana, até achar uma planície, que me chamou a atenção, e desta planície, a mais três dias, um mar, não fazia ideia do que tudo aquilo significava, mas após um tempo achei ao chão "siga o marinheiro", e assim esperei algum barco, procurei, e de noite achei um marinheiro, seguimos por vários dias, até eu finalmente conseguir a chegar nas terras da tal ninfa, e no chão estava escrito "este é seu último passo de purificação".

Pisei nas terras, estava mais fofa que o comum, eu andei por alguns minutos, a ninfa estava por lá, de costas, observando o lago de cima de uma pedra, cheguei perto dela, "nos encontramos novamente não é mesmo?" disse, enquanto sentava perto dela, ela se virou para mim com um olhar calmo e sereno, "eu quero que entre neste lago, ao centro dele", disse ela, em uma voz calma, nunca gostei muito de água, mas eu entrei pelo menos aquele lago foi um contraste ao calor imenso daquelas terras, nadei lentamente ao centro, parecia mais um cão gigante naquelas águas do que um grande lobo, a ninfa entrou pouco tempo depois, "pare de nadar, se jogue ao fundo", disse ela, por um momento hesitei, mas seus olhos esverdeados eram tão profundos quanto os bosques que nasci, passavam uma tranquilidade e confiança imensos, então me deixei cair, preso naquelas águas profundamente, abri meus olhos ao fundo e via e lia pensamentos, principalmente de Asyl e Sersoy, o amor de Sersoy e a admiração de Asyl, de sentimentos tão nobres, e repentinamente veio, a pequena garota, seus sorrisos, sua vida, eu tinha de criar ela, em meio ao azul claro, sentia e via, ainda tinha muito a servir, a garota tinha de ser minha chance ao renascimento espiritual.

E quando me senti pronto, subi, a ninfa estava na mesma pedra que eu a havia encontrado, me observando, e então eu nadei de volta para a terra, "imagino que tenha encontrado o que procurava", ela me disse, sorrindo, "encontrei tudo que desejaria encontrar em um lago" respondi, enquanto me chacoalhava para tirar o excesso de água que corria em mim, em cinco anos Sagranor morrerá, como diz a profecia, "e ela diz algo sobre mim?" perguntei, "ela termina com um ser quadrúpede como ti levando uma garota para longe de Solaris, bem, quanto mais pra frente, posso não conhecer muito sobre você, mas algo me diz que seres como você costumam fazer seu próprio destino", ela me respondeu.

Perguntei a ela sobre o que deveria fazer durante esses cinco anos, se eu poderia ficar lá com ela, ela disse que precisava de ajuda com a tribo do antigo druida tigre, que eu havia matado, e os cinco anos eu passei em ataques contínuos contra a tribo, emboscadas e emboscadas, enfraquecendo-a, até que todos os malignos caíram.

Ao fim, apenas crianças, mulheres e idosos restaram, não seriam fortes o bastante para continuar, a ninfa então os orientou, e eu, durante dois anos, segui como líder, apesar de bem ausente, pois nestes dois anos, procure em todo lugar algum povo, até que, em fim de um dia, achei uma caravana de escravos, não muito protegida, eu e a ninfa conseguiríamos facilmente derrota-la, estava em rota a nossa tribo, foi perfeito.

O ataque, o sangue, a morte, os ferimentos, eu estava acostumado com aquilo, aqueles humanos escravagistas não eram nada as garras de tigre que haviam me rasgado ou a insanidade de Shaya, eram aspirantes a guerreiros, e foram abatidos, quinze escravos foram salvos, era o bastante para um recomeço da tal aldeia, lento, mas suficiente, e no fim, a ninfa conseguiu me curar, me despedi dela, sabia que sentiria um pouco de falta, e segui por entre contorno, demorei sete meses mais do que o esperado para chegar em Solaris, o povo aparentemente havia superado o sentimento de luto, eu não fazia ideia de como conseguiria a garota, então fui aos aposentos onde Sagranor, os guardas me pararam, e atrás de mim uma voz: "Profecias mentem, não é?" me virei, Sagranor, apoiado em um bordão, com a garota, nós entramos em seus aposentos, eu não entendia muito bem o que estava acontecendo, bem, ele seguiu mais a frente, "profecias nunca mentem lupino, mas muitas vezes são mal interpretadas, mas seja como for, quero que leve e cuide dela, e...nunca deixe que alguém retenha seu instinto lupino"

A tal garota, agora um tanto crescida, deveria ter seus 13 anos, ela se parecia muito com Orsolya, com leves traços de Larnazull, "ela leva apenas o sobrenome Lornax, pois sabia que você iria nomear ela" disse Sagranor, ela se despediu, e em três dias partimos, rumo a uma nova vida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.