Awaken
1 Nós Conhecemos Os Deuses Sem Adagas
O Natal se aproximava. Havia uma fina camada de neve sobre as folhas das árvores na floresta e por cima do teto dos chalés. Annabeth sabia que provavelmente nevava muito mais fora dos limites do Acampamento Meio-Sangue e que a neve lá dentro fazia parte de algum encantamento, lembrando os campistas de que já era quase vinte e dois de dezembro, o solstício de inverno. O toque de recolher já havia sido dado, mas ela gostava de ler fora da cama ou do ambiente lotado com seus irmãos. Não a entenda mal, ela os adorava, mas costumavam ser tão barulhentos quanto inteligentes. A garota postou-se à beira do refeitório, na mesa dos filhos de Atena, com o notebook de Dédalo ligado e relendo pela incontável vez mais um de seus arquivos. Ela só não conseguia cansar de fazê-lo. Era um extenso esquema de arquitetura, descrevendo a base da cidade que ela, um dia, desejava construir. Com a guerra tão próxima, ela precisava se distrair ao menos um pouco ou seu cérebro explodiria. Era estranho para Annabeth constatar como as ideias de Dédalo pareciam encaixar nas dela.
Mal dos filhos da deusa da sabedoria, quem sabe? Ela rolou o dedo indicador pelo touchpad, passando mais uma página e estirando os braços em seguida, exprimindo um bocejo ao levar uma das mãos até os olhos, coçando-os e imaginando que deveria ser tarde. Annabeth nunca chegou a ler a primeira linha da próxima página, antes disso, a voz entediada do Sr. D soou em seus ouvidos.
"Eu deveria dar você de jantar para as Harpias, Annie Bell."
Ela quase teve um surto cardíaco, tendo a figura corpulenta e o repentino cheiro de uvas à sua frente. Sr. D simplesmente se materializou ali.
"O que?"
"Já passou da hora de dormir, não é permitido ficar fora dos chalés."
"Eu sei, eu só perdi a h..."
"Tanto faz." — Ele rolou os olhos, encarando o notebook de Dédalo como se fosse um chapéu de festa brega que ele nunca usaria. — "A garota com ferrugem quer falar com você."
"Quem?"
"Pelos deuses, e te colocaram no chalé de Atena?" — Sr. D não parecia nada diferente do que sempre foi. Impacientemente irritado. — "O oráculo."
Annabeth não respondeu, estava tentando pensar no motivo pelo qual o deus do vinho viria dar um aviso à ela, ainda tentando se recuperar do susto. Antes que falasse qualquer outra coisa, Sr. D deu-lhe as costas e
estendeu um dos braços, mostrando uma lata de Coca-cola na mão direita.
"No chalé do Peter Johnson. Se eu fosse você, ia depressa. Realmente dei passe livre para as Harpias te devorarem."
Annabeth não precisou ouvir duas vezes. Ela quase tropeçou com o notebook, tentando não correr até o chalé de Poseidon. O que Hades?! Embora a visita inesperada do Sr. D fosse perturbadora o bastante, a ideia de uma dúzia de harpias tentando arrancar um pedaço de seu corpo foi o que realmente a fez chegar lá em poucos minutos. Não havia ninguém na frente do chalé, mas pelas janelas baixas, ela pode ver luzes acesas do lado de dentro. Ela só tinha entrado ali uma vez antes, na inspeção, mas quando empurrou, de leve, a porta, o lugar não parecia o mesmo. Tyson havia feito um ótimo trabalho da última vez. Agora o lugar cheirava à salmoura com roupas amontoadas em um canto e muitas embalagens vazias e amassadas de doces espalhadas pelo chão.
"Annabeth, você também?"
Aquela foi uma visão surpresa. Amontoados no chalé três estavam pessoas de vários outros chalés. Annabeth reconheceu rapidamente Travis e Connor Stoll, filhos de Hermes, Nico di Angelo, filho de Hades (e que nem sequer fazia parte do acampamento), Piper McLean, filha de Afrodite, Leo Valdez, filho de Hefesto e Percy. A maneira como ela descreveu Percy em seus pensamentos não incluia nada como "filho de Poseidon".
Foi ele quem fez a pergunta. Ela tomou o cuidado de fechar a porta antes de responder.
"O que está acontecendo? O Sr. D me disse que Rachel queria me ver no chalé de Poseidon..."
Todos estavam de pé, com excessão dos Stoll que pareciam muito interessados nos lençóis de Percy.
"Acordei com uma galinha de metal cantando o hino da independência." — Percy realmente parecia sonolento. Estava próximo da sua fonte quebrada, o rosto inchado e a pele dele marcada pelas dobras do travesseiro. Annabeth varreu de sua cabeça rapidamente o pensamento sobre como ele continuava bonito.
"Desculpe, cara. Não consegui evitar, você estava roncando." — Leo disse em um tom divertido, mexendo no que deveria ser a galinha em miniatura que Percy descreveu.
Nico não acompanhava a animação de Leo. Tinha olheiras abaixo dos olhos e a pele estava mais pálida do que Annabeth lembrava de ter estado. Sob a luz fraca do lugar, ele parecia dez vezes mais cansado que Percy. — "Por que estamos aqui?"
Todos olharam para ela como se esperassem que lhes dissesse a resposta, mas Annabeth também não sabia. Alguns segundos de silêncio desconcertante em que um dos gêmeos de Hermes riu baixo e escondeu algo por baixo da camisa laranja do acampamento antes de Rachel Elizabeth Dare entrar no chalé como se estivesse fazendo uma caminhada noturna, olhando todos de maneira amigável.
"Oi gente!"
Ninguém respondeu. Ao que parecia, todos foram acordados por espíritos da natureza, sombras do mundo inferior ou deuses entediados. Nenhum deles parecia exatamente bem humorado. Rachel manteve o ritmo casual.
"Estão todos reunidos?" — Ela correu os olhos de um por um. — "Ótimo!"
Annabeth notou tinta no cabelo da garota assim como em sua camiseta, mas preferiu não perguntar. — "Rachel, aparentemente todos nós fomos mandados até aqui porque você pediu, qual é o problema?"
Rachel não estava prestando atenção. Ela parecia ter percebido, tanto quanto Annabeth, como Percy estava aquela noite. A garota não estava tentando disfarçar o interesse e isso fez Annabeth pigarrear.
"Oh, sim? O que disse?"
"Você me ouviu."
"Não, eu estava..."
"Annabeth." — Piper disse em um tom calmo, mas de alerta. Percy e os outros não perceberam como Annabeth soou ríspida, mas aceitando que Piper fosse uma filha de Afrodite, a garota pegou no ar os sintomas de
ciúme.
"Eu estava no bunker nove trabalhando em um projeto realmente legal contra Gaia, é um protótipo de asas de cobre que não derretem, mas cobre derrete, então eu estava criando um cobre 2.0..."
Piper lançou quase o mesmo olhar para Leo.
"Você não me deixou terminar, rainha da beleza. Eu estava dizendo que ia criar a invenção do século quando um dos filhos de Hypnus apareceu, eu acho que ele estava dormindo, não sei como conseguiu entrar lá, mas me disse que estavam dando ferramentas polidas no chalé do Percy."
"Aí nós encontramos o Leo no caminho." — Connor disse.
"Não, vocês me fizeram tropeçar no caminho."
"Foi o que ele disse." — Travis, o irmão de Connor, disse na mesma voz, com a mesma aparência. Pareciam cópias de um fax.
"Você veio correndo que nem uma hiena na hora do jantar, segurando o cinto e com aquela chave de fenda na mão."
"Cara, você estava pedindo pra levar um tombo."
"Digo, quem acredita que estão distribuindo ferramentas?"
Leo ia responder, mas Travis continuou.
"Acho que a pergunta não é por quê estamos aqui. A pergunta é: cadê as flores de lótus?"
"Quê?" — Percy perguntou, acordando do cochilo que estava dando encostado na parede. Só o nome "lótus" o trazia más recordações.
"Um dos nossos irmãos nos disse que estavam dando flores de lótus no seu chalé. Eu pesquisei na internet e vi que a coisa era da boa."
"Vocês podem usar internet?" — Foi Annabeth, tendo aparentemente esquecido sobre Rachel.
"Não." — Os dois responderam em uníssono.
"Esperar por cores de louros não é melhor do que esperar por ferramentas." — Um Leo ressentido disse.
"Flores de Lótus, cara, não Cores de Louros."
"Gente!" — Piper aumentou a voz.
"Por que estamos aqui, Rachel?" — Annabeth voltou a velha forma.
"Sim, certo, mas estava interessante, como você parou aqui, Piper?" — A garota ruiva pareceu negligenciar a pergunta da filha de Atena de um jeito muito sutil
.
Piper McLean corou violentamente, mas aquilo não foi muito visível por causa da iluminação ruim.
"Bem, eu... Ouvi uma voz nos meus sonhos me dizendo para vir até aqui."
"Só isso?" — Connor perguntou, endireitando-se na cama e apoiando os cotovelos nas pernas, olhando sem pudor para Piper.
"Conte mais." — Travis completou.
Piper lançou um olhar mortal para os dois, o que só os fez sorrirem de volta. Connor piscou um dos olhos para ela.
"Jason. Ouvi Jason me dizendo que queria falar comigo no chalé três, que tinha..." — Ela parecia estar escolhendo bem as palavras. — "Uma surpresa para mim. Perguntei por quê não no chalé um e ele disse que seria muito óbvio e que, bem, o Percy não estaria aqui."
"Mmmmm. Romance." — Vez do Travis.
"Nico?" — Rachel pousou os olhos na pessoa mais calada do chalé. O garoto magro de roupas escuras apenas encolheu os ombros, cruzando uma perna na outra e de pé. Não havia necessidade de saber quem — o termo apropriado provavelmente era o que — tinha dito a Nico para ir até lá. Ele vivia rodeado por fantasmas, eles sabiam de coisas que os outros não.
"Vamos acabar logo com isso."
Annabeth olhou de Percy para Rachel só para ter certeza de que ele não estava olhando para ela, então concordou com um aceno de cabeça. O ar no chalé de Poseidon era rarefeito, como se você pudesse sentir o gosto da água do mar só por respirar, era um lugar consideravelmente frio se comparado ao chalé de Atena, de Hermes — sempre com muitas crianças — ou o de Hefesto. Annabeth só percebeu que os pêlos dos braços estavam arrepiados quando fez-se silêncio. O único que não parecia estar incomodado com o ar era Nico.
"Eu estava lendo um artigo sobre Harvard lá na caverna, vocês sabem, minha caverna. Apolo me trouxe umas boas revistas." — Rachel mediu o que acabou de dizer, balançando a cabeça e retomando. — "E então senti uma vontade estranha de escrever. Vocês sabiam que existem pergaminhos só para mim? Eu não, mas existem. Tinha uma pena também, nunca escrevi em algo como aquilo, mas foi divertido."
Ela percebeu como ninguém estava, de fato, interessado, mas isso não a fez parar.
"Depois disso eu não lembro de mais nada." — Foi o desfecho dramático de Rachel Elizabeth Dare.
Nico cruzou e descruzou os braços, respirando fundo.
"Você está dizendo que nos chamou aqui e não sabe a razão?"
"Eu não colocaria dessa forma, mas é."
"Então nós podemos ir dormir agora?" — Percy disse mais como um pedido do que uma pergunta.
"Cobre 2.0 precisa de mim, eu sinto isso." — Leo agora não brincava mais com uma mini galinha, de algum jeito os pedaços de ferro em suas mãos haviam se tornado um cupcake metálico.
"É uma piada?" — Annabeth estava irritada. Eles estavam no meio de uma guerra, ela havia encontrado tempo entre pilhas de preocupação, treinamento, cansaço e trabalho para fazer algo que adorava — ler, e Rachel havia estragado isso.
"Não, não é uma piada." — Então a única pessoa ali que não tinha parentesco com qualquer deus estirou o braço, mostrando um pergaminho cuidadosamente fechado para Annabeth. — "Sua mãe lhe mandou isso."
O cérebro de Annabeth trabalhava formidavelmente bem. Pergaminho, do grego pergaméne, similar à cidade grega de Pérgamo. Ela acumulava as informações enquanto, paralelamente, raciocionava em cima da situação.
"Se o pergaminho é para mim, por que estão todos aqui?" — Ela estendeu a mão, passando seu notebook com cuidado para Piper, que estava mais próxima, e segurando o pedaço de couro de carneiro enrolado como se estivesse envenenado.
"Não sei." — Rachel respondeu, simplesmente.
"Como você sabia que nós tínhamos que vir?" — Travis perguntou, parecendo inofensivamente curioso.
"Eu só sabia. Não me façam perguntas difíceis, essa coisa de oráculo não é tão simples quanto pode parecer. Eu não sei o motivo pelo qual elas acontecem, elas só acontecem."
"Você não vai abrir?" — Percy disse. Ele ainda parecia ter caído da cama. O cérebro dos filhos de Poseidon precisava de uma folga para começar a trabalhar.
"Tem certeza que isso é da minha mãe?"
"É seu, sua mãe mandou."
Annabeth analisou o embrulho cor de pele nas suas mãos, crispando os lábios. Ela não estava gostando daquilo. Atena não podia ter contato direto com seus filhos, como nenhum outro deus podia, mas há cerca de dois meses, Annabeth tinha sonhos com a voz de sua mãe, ela sabia que era dela porque já haviam se encontrado no Olimpo, sugerindo-lhe coisas. Dando-lhe coordenadas que não pareciam fazer sentido. Ela cogitou que aquilo poderia ser mais um truque de Gaia, mas agora com isso...
Ela começou a desfazer a fina fita de cetim preto que mantinha o pergaminho fechado enquanto Rachel se sentava ao lado dos gêmeos Stoll, na cama de Percy.
"Ei, o que é isso debaixo da sua camisa?"
"Nada, Percy." — Connor cutucou o irmão, passando algo pelas costas até ele sem que Percy percebesse. Travis pareceu atordoado, levando ambas as mãos para frente e olhando Connor com um ar de "não fiz nada", até que Percy sentiu Contracorrente de novo em seu bolso.
"Não teve graça."
"Droga de caneta infernal."
"Calem a boca." — Annabeth disse, seu tom de voz diferente o bastante para que os Stoll realmente se calassem e que todos ali olhassem até ela. "É... É uma profecia."
"Claro que é uma profecia. Sou o oráculo, eu repasso profecias." — Rachel disse como se a constatação fosse óbvia.
"O que diz? Estamos nela?" — Leo aproximou-se de Annabeth, tentando ler.
"Jason deveria estar aqui também, você não o chamou?" — Disse uma Piper em um repentino tom preocupado, encarando Rachel.
"Não. Todos que deveriam estar, ao menos aqui, já chegaram."
"Mas ele é o líder do acampamento!"
"Não lembro disso." — Os Stoll falaram quase ao mesmo tempo.
"CALEM A BOCA!" — Annabeth alteou a voz sem perceber que o fez, algo no pergaminho, sua mãe mandando-lhe uma profecia, Gaia se fortalecendo à cada dia e a insegurança ainda forte acima do Acampamento Júpiter, sem saber se eles conseguiriam se aliar ao Meio-Sangue. Aquilo definitivamente não era bom. Ela passou os olhos nas primeiras linhas ali escritas em grego antigo, mas que, para ela, eram perfeitamente claras. Fez-se silêncio novamente e a atenção voltou para ela quando começou a recitar o que lia, dando um olhar nervoso e silencioso para Percy antes.
"Os deuses adormecidos nove devem despertar
No caminho até as eras em que reinavam o fogo, o gelo e o ar
Elos há muito perdidos terão de encontrar
Atando-os aos mortos, à trapaça e ao mar
Resgatando a juventude para os que escolheram esperar
Força e coragem haverão de se transmutar
Quando no passado um se perderá
Carregados serão pela criança de Asgard
E guiados pelo martelo, assim será."
Annabeth disse cada frase pausada e separadamente e quando levantou os olhos para os outros, eles pareciam tão confusos quanto ela.
"Então o que?" — Leo perguntou, guardando agora um cupcake mutante com braços e pernas que brilhavam no escuro dentro de seu cinto.
"Asgard? Isso é um lugar?" — Nico parecia tão expressivo quanto a própria morte.
"O que significa?" — Percy se referia à Rachel, mas a garota brincava com os cadarços de seus tênis e nem sequer olhou para ele ao responder.
"Eu já disse, eu não sei."
"Tem de haver algum sentido em Atena ter pedido para que nós nos encontrássemos aqui e ter nos dado uma profecia. Tem de ter relação com a guerra. Os nove." — Annabeth contou rapidamente os presentes, excluindo Rachel. Eles estavam em sete. — "Deuses adormecidos, resgatar, encontrar..."
"Um se perderá." — Piper a interrompeu.
"Não é o tipo de coisa que eu ia gostar de ler." — Leo disse como se estivesse desgostando do menu de um restaurante.
"Calma, precisamos pensar." — Annabeth voltou a enrolar o pergaminho, atando-o na mesma fita de cetim preto enquanto Piper colocava o notebook da garota loira por cima de uma escrivaninha.
"Talvez Rachel esteja errada, talvez não seja sobre nós. Não diz nada sobre filho do deus da morte aí."
"Por que Atena ia pedir para que nos encontrássemos no chalé do meu pai? Eles se odeiam."
Tanto Percy quanto Nico tinham um argumento. Nada daquilo tinha lógica.
Rachel percebeu a movimentação, abandonando seus cadarços.
"Se alguém errou, foi Atena, eu só passei o recado."
Ela conseguiu a atenção de Annabeth.
"Minha mãe não erra, Rachel Elizabeth Dare."
As duas se entreolharam e logo aquilo se tornou um encontro de olhares constante e sem trégua, mas Rachel mudou de expressão, piscando os olhos rapidamente.
"Annabeth!"
"O que agora?!" — A outra disse impaciente, estava pensando em muitas coisas ao mesmo tempo e ainda tinha uma mortal falando mal de sua mãe e arruinando sua noite.
"Você está desaparecendo!"
"Quê?"
"Todos vocês!" — Rachel olhou em volta atordoada, afastando-se de Travis, o Stoll mais próximo na cama como se ele tivesse lepra.
"O que você está querendo dizer?" — Piper perguntou, mas quando virou os olhos para Nico, Percy e Leo, ela também viu o que Rachel estava vendo, o que a fez soltar um grito.
Annabeth olhou até ela, vendo-a apenas como uma versão quase transparente de Piper. Ela estava ficando invisível.
"Não é bom. Não é bom." — Percy disse, soando terrivelmente como seu meio irmão, Tyson.
"FAÇA ALGUMA COISA!" — Annabeth gritou até Rachel, mas essa foi a última coisa que ela fez antes de tudo tornar-se escuro como o mundo inferior e ela perder a consciência.
–---
"O que você fez, Loki?!" — Um voz forte e grave, nitidamente masculina brandou.
"Por que sou eu que tenho que ter feito isso?" — Agora outra, também masculina, mas severamente diferente da primeira. Essa parecia metálica. Retinindo nos ouvidos de Annabeth.
"Porque é sempre você!" — Uma mulher disse, seu tom era quase tão intenso quanto o do primeiro homem, mas ela era com certeza uma mulher.
"Ora vamos, Sif, pare de defender seu marido." — O homem com voz metálica retrucou.
"Eu deveria cortar sua língua aqui mesmo."
"Sif, menos." — Lá de novo, a voz do primeiro homem.
"Está do lado da língua de chumbo, agora?" — A esposa dele, pelo que o outro disse, vociferou. Annabeth pode sentir a saliva dela espirrando.
"Não estou do lado de ninguém!"
"Ela está abrindo os olhos!" — Loki exclamou.
Annabeth estava tentando se conscientizar de onde estava sem precisar fazer qualquer movimento, sua cabeça latejava como se ela tivesse batido-a repetidamente contra a parede por horas. Lembre-se! Lembre-se! Ela dizia à si mesma sem falar. Sr. D, Percy, chalé três, Nico, reunião, Rachel... Profecia. A maldita profecia. Ela tinha lido o pergaminho e todos começaram a desaparecer, realmente desaparecer, ficando invisíveis como fantasmas então ela apagou. Uma armadilha. Ela sabia. Annabeth reconheceu o que estava por baixo de seu corpo, era feno, ela estava deitada e quem quer que fosse que a enviou ali, estava falando à sua frente. Ela pensou tão rápido quanto levou à mão à sua adaga, presa no cós da calça jeans, abrindo os olhos e impulsionando seu corpo para trás, instintivamente se afastando do inimigo e empunhando sua arma. Ela era treinada para isso. Não importava quem tinha feito aquilo, ela iria lutar.
Se você esperava gigantes e monstros feitos de lama, ciclopes usando mal trapilhos ou rostos encrostados na terra, esqueça. O que a filha de Atena viu não estava na sua lista de "possíveis caras malvados que vou ter que matar". Haviam dois homens e uma mulher. Sim, humanos, seu cérebro deu um foco no termo. Os três olhavam-a tão surpresos quanto a própria Annabeth. Mesmo estando inclinados para ela, a garota soube de primeira que eram muito altos. Todos com peles brancas como a neve, exceto pelo loiro, ele parecia ter tomado muito sol. Um ruivo de cabelos compridos e uma mulher de cabelos negros como a noite. Suas feições eram finas, pareciam ter saído de um livro de contos infantis e usavam roupas antiquadas. O homem loiro e forte usava uma armadura prateada por baixo de algum tecido vermelho enquanto o ruivo vestia uma túnica escura, já a mulher, mesmo usando o que parecia um vestido, tinha uma espada numa das mãos e as pernas, tanto quanto os braços, estavam à mostra. Antes de qualquer ação ou reação, Annabeth não conseguiu evitar o pensamento de que havia caído dentro de uma feira da Renascença do mal.
"Quem são vocês?" — Ela foi a primeira a falar. Sua voz saiu muito mais firme do que ela realmente se sentia estar.
Os três estranhos aindam estavam curvados, apoiados em suas mãos por sobre seus joelhos, examinando Annabeth como se ela fosse um morcego de três cabeças em uma barraca de bizarrices. Não se alarmaram ou sequer moveram quando Annabeth empunhou a adaga.
"Que tipo de arma é essa?" — O homem loiro perguntou, genuinamente interessado.
Annabeth não sabia o que pensar, ela tinha que agir. Deu-se o luxo de olhar em volta na fração de um segundo, vendo algo que fez seu estômago girar. Seus amigos também estavam ali. Percy, Leo, Piper, Nico e os Stoll estavam desacordados e jogados ao canto do que parecia ser um pavilhão com muito feno, como o estábulo de uma fazenda. Mais que isso. A garota reconheceu Frank Zhang e Reyna do Acampamento Júpiter tão desmaiados quanto os outros. Como todos eles vieram parar ali, ela não fazia ideia.
"Eu fiz uma pergunta! Respondam-me ou vou atacar!" — Ela não soava como ela própria. Deveria ter se levantado e feito algo, mas foi tudo rápido demais. Ela estava buscando tempo para arquitetar um plano. Atrás dos três adultos estava a saída, não existia uma porta, era apenas a entrada para o estábulo maldito e ela poderia golpeá-los, os três de uma vez, mas como carregaria os amigos?
"É mortal." — O ruivo disse em um tom conclusivo, como se aquilo encerrasse a conversa. — "Tem cheiro de Midgard, só que bem pior."
"Talvez ela seja uma espiã dos gigantes de gelo." — Sif, a mulher de cabelos lisos e negros disse, aparentemente para seu marido e não para Loki.
"Eu não sou nada dos gigantes." — Annabeth disse, sentindo a adaga escorregando em seus dedos, ela estava suando, deitada num bolo de feno e sendo interrogada por três adultos que fazem cosplay da Idade Média.
"Então você os conhece. Viu? Eu disse. Vamos matá-la." — Sif levantou sua espada, o que fez Annabeth se afastar mais para trás.
"Thor, mande a sua esposa abaixar o espelho afiado dela." — Loki disse em tom zombeteiro, piscando os olhos e sorrindo para Annabeth. Dentes inacreditavelmente brancos e perfeitamente alinhados apareceram para a garota. — "Qual é o seu nome, criança?"
Não responda. Ataque. Vamos, Annabeth, mova-se! Ela repetia para si própria.
"Annabeth Chase. Que lugar é esse? Por que nos trouxeram até aqui? Estão de que lado?" — Ela disse tudo muito rápido.
Thor, o marido de Sif, vendo que não teria resposta, simplesmente arrancou a adaga da mão de Annabeth como se ela fosse um pirulito. Se possível, a garota ficou mais sem ação do que antes. Ela ia morrer e tinha a sensação de que seria pela mão dos três mosqueteiros.
"É curta demais para uma espada, não é inteligente." — Thor disse, passando a adaga de uma mão para a outra, pesando-a. Ele olhou da arma para Annabeth e ela teve a impressão de ver decepção nos olhos dele. — "Inofensiva."
"Gigantes podem ser inofensivos." — Sif disse e Loki imediatamente olhou para o lado, para a mulher, sorrindo amarelo e voltando para Annabeth.
"Ela não é uma gigante, muito menos uma espiã deles. Ela cheira como humana." — Annabeth não sabia o que estava acontecendo ou do que eles estavam falando, mas sabia que por mais que o tal Loki parecesse estar tentando ajudá-la, ele não estava. Não havia interesse nas palavras dele, ele só estava constatando.
"Veremos. Leve-os para Frigg."
"Por que eu?" — O homem ruivo protestou, lembrando à Annabeth sobre como seus irmãos menores brigavam em casa.
"Porque sim. Ela saberá o que fazer com essa e os outros, tenho com o que me ocupar."
Com isso — e sem devolver a adaga -, Thor levantou-se e deu as costas à Annabeth, deixando o estábulo, mas parando perto da saída. Sif seguiu seu exemplo, dando uma última olhadela de desprezo para o homem chamado Loki e alcançando Thor.
"Da próxima vez que algum mortal aparecer sem motivo aparente, não saia gritando como uma donzela por minha ajuda, irmão." — O homem loiro disse em um tom orgulhoso, não irônico, e deixou o lugar ladeado por Sif, sua esposa.
"É, certo." — Loki resmungou repentinamente mal humorado. — "Vamos conhecer a minha mãe." — Disse à Annabeth, levantando-se e dando as costas à ela como fizeram os outros. Loki não fez menção de ajudá-la ou pará-la e Annabeth ainda estava tão confusa quanto poderia estar, mas um pouco antes de Loki desaparecer do pavilhão, ela viu-o estalando os dedos e, mais por palpite do que por instinto, ela olhou para seus amigos. Eles estavam acordando simultaneamente.
É, certo, ela repetiu como Loki, mas nada estava certo. Algo estava acontecendo e eles seriam levados para alguém chamado Frigg, isso definiria se viveriam ou morreriam. Nada que ela já não tenha feito antes. A garota levantou só depois de parar de ouvir os passos do lado de fora, quando teve certeza de que estava sozinha ali. Era estranho já que Loki disse que teriam que ver Frigg, mas assim mesmo, deixou-a com os outros onde estavam. Annabeth limpou o feno de seu jeans, sabendo que estava desarmada, mas talvez todos os outros ainda tivessem suas armas. Foi até o grupo de adolescentes que começavam a levantar e que pareciam tão perdidos quanto nunca estiveram.
"O que Hades..." — Um Leo coberto por terra disse, tateando o cinto só por precaução.
"Annabeth? Você está bem?" — Esse era Percy.
"Estou. Está tudo bem, eu acho. Mas não sei onde estamos."
"Minha cabeça dói." — Piper nem havia tentado levantar.
"A minha também." — Os dois Stoll, sentados e zonzos, completaram.
"Que lugar é esse? Como viemos parar aqui?" — Nico parecia mais alerta do que nunca, foi o primeiro deles a levantar, mas ainda assim estava visivelmente tonto.
"Como eles vieram parar aqui?" — Annabeth perguntou, apontando Frank e Reyna, aparentemente seus amigos não o tinham visto até então e o choque foi quase tão grande como quando Annabeth se viu encurralada por três adultos com roupas da época dos piratas.
Todos começaram a falar ao mesmo tempo quando Annabeth explicou rapidamente sobre as três pessoas, como acordou e como estava desarmada. Falou sobre Frigg, seja lá quem ela fosse enquanto Reyna e Frank Zhang voltavam a si e se juntavam aos outros, tentando compreender, quando os dois explicaram sobre ter recebido uma profecia de Minerva, a versão romana de Atena, e ao lerem, desmaiaram, acordando ali. Então algo começou a apitar no fundo da cabeça de Annabeth, algo que estava voltando à sua mente. Sua mãe a estava contatando, sugerindo títulos de leitura sobre algo que ela não entendia muito bem para o que serviria. Ela disse à Annabeth para ler sobre mitologia nórdica, conhecer suas estórias e deuses, que isso a ajudaria. E a realização veio como um trovão. Loki. Thor. Sif. Frigg. Midgard. Gigantes de gelo.
Annabeth Chase havia acabado de conhecer três deuses tão e talvez até mais antigos do que Gaia, os deuses nórdicos, e estava à caminho de conhecer mais uma, a mãe deles.
"Ai... Meus... Deuses..."
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