Awaken

2 Nós Tomamos Suco Envenenado


Nico tinha se habituado à viagens obscuras, cães infernais e almas pecadoras presas em campos amarelos, eternamente tentando lembrar quem elas eram ou quem tinham sido, mas aquilo era espetacularmente novo. Ele se sentia ligeiramente diferente, como se algo o tivesse puxado pelo umbigo e levado-o para um tipo de Elísio à parte do mundo inferior, foi o que ele pensou assim que foi empurrado para fora do pavilhão por quatro brutamontes albinos de barbas coloridas — loiras, ruivas e um até tinha a barba branca. Era dia, mas ele se lembrava de que já passavam das onze da noite quando estavam no Acampamento Meio-Sangue. Nico também percebeu outras coisas à priori. Por exemplo; não havia nuvens no céu, ele era apenas um panô azul turquesa extenso e que não mostrava seu fim... Sem sol. Como poderia estar tão claro e não haver um sol? Por outro lado, como acontecia quando ele saía de dia, seus olhos não estavam doendo por culpa da claridade, era agradável estar andando ali se você excluir o fato de que está sendo escoltado por seguranças de dois metros e
sem camisa para a morte. Mesmo que estivesse usando seu sobretudo preto, ele também não sentia calor, a verdade é que ali era frio, não de tremer os dentes, aceitavelmente frio. Nico sabia que estava no lugar errado, ele nunca tinha sido designado para uma missão antes, nem sequer fazia parte de algum grupo — ou queria fazer — e duvidava que seu pai o tivesse mandado até ali, pelo que sabia, a ideia foi de Atena e ele nunca havia ouvido falar sobre pergaminhos que te faziam ficar invisível e te mudavam de lugar quando você os lesse.

Ele não planejava ser um franco atirador na guerra contra Gaia. Aprendeu depressa como seu lugar não era entre os vivos e não tinha qualquer certeza sobre Gaia estar interessada em destruir o mundo inferior; aquilo não era necessário. Talvez ela só destruísse Hades.

Seus pensamentos foram interrompidos quando um dos caras grandes o empurrou para frente, fazendo-o voltar ao mundo físico. Nico teria deixado o queixo cair se ele não estivesse preso em sua mandíbula. O lugar era, no mínimo, majestoso. Um campo aberto aparentemente sem fim com montanhas para todas as direções em que se olhasse, no topo e extensão delas, por serem irregulares, abrigavam-se casas de telhados marrons e pontudos, ele tentou contar quantas, mas era impossível — era mais do que seus olhos podiam captar. O solo não era verde, mas havia grama... Branca, Nico olhou para os pés e entendeu o motivo, era gelo, a grama estava congelada, ele podia ouvir o gelo quebrando abaixo de suas botas de combate. Construído no centro, havia um grande castelo tão branco como quase todo o resto e em torno dele várias pessoas exerciam diferentes trabalhos. Todos pareciam muito altos e estranhamente élficos. Nico se perguntou se eles tinham orelhas pontudas escondidas por baixo dos cabelos compridos, coisa que ele também percebeu — homens e mulheres, quase todos mantinham uma cabeleira extensa. Essas pessoas não olhavam para ele e os outros enquanto andavam, era como se ainda estivessem invisíveis ou talvez fossem muito baixinhos.

Depois do que pareceu uma hora de caminhada silenciosa, interrompida apenas pelo barulho de espadas colidindo e vozes melodiosas falando em uma língua que Nico não conseguia reconhecer — pessoas treinando e conversando ao longo do caminho -, eles chegaram até a base do castelo, que se erguia mais alto do que qualquer uma das montanhas. Uma longa escada dourada e aparentemente infinita os levava para cima. Ele olhou para o lado e viu Percy tão abismado quanto ele próprio. Chegaram ao topo quando Nico já não conseguia sentir os músculos das pernas e o que encontraram não foi nada menos inesperado. Se possível, o interior do castelo parecia quase tão grande quanto o campo lá embaixo, cercado por mesas prateadas e longas, todas vazias, portas altas com pedras preciosas decorando-as, mais portas do que ele conseguia contar, separadas pelas paredes por quadros imensos retratando batalhas. Nico pensou ter visto um em que um homem de armadura e expressão feroz tinha o braço dentro da boca de um cachorro gigante. Ele não percebeu quando foi parado pelo gigante brutamontes de barba branca até que ele o segurou pela barra do sobretudo, fazendo-o parar de andar. Era impressão ou aquele trono não estava ali da primeira vez que Nico olhou? Agora estava. Ele, Percy, Leo, Annabeth, Piper, Reyna, Frank e os Stoll estavam parados na frente de um trono grande demais para um adulto normal. Entre coisas como "eu vou morrer hoje", "virar jantar de cachorro gigante", "preciso
correr" e "estou sonhando e logo vou acordar", Nico se perguntou como chegaram tão rápido até ali. Parecia longe. Ele olhou para trás e sentiu uma vontade terrível de tossir, em menos de dois minutos eles haviam
andado um quilômetro e onde antes estava a entrada para o castelo, agora não havia mais nada. A parte da frente do lugar sumiu, Nico podia ver todo o campo abaixo de onde estava, ele teve a impressão de conseguia ver muito mais que isso. Então estava entendido. Era uma alucinação. Ou o tempo havia parado ou o espaço não existia.


"Rainha Frigg. Trouxemos os invasores." — Uma voz retumbante disse atrás dele, um dos homens que os tiraram do pavilhão.

Isso fez Nico voltar o olhar à sua frente, vendo que o trono continuava vazio, mas agora uma mulher estava de pé ao lado dele. Ela era loira e seus cabelos longos faziam cachos, não parecia passar dos trinta anos de idade e, junto com um vestido branco e longo, sem mangas, usava uma coroa delicada feita de vinhas. Seu olhos, mesmo distante Nico pode vê-los claramente bem, eram de um azul tão calmo quanto o céu lá fora e os traços em seu rosto pareciam ter sido feitos à mão, como em um desenho.

Frigg apenas assentiu com um aceno de cabeça e os quatro homens deram as costas, fazendo o caminho de volta. A mulher desceu dois degraus da pequena escada — também de ouro — que levava ao trono, aproximando-se mais dos semideuses e olhando-os um por um. Por alguma razão que Nico não soube explicar, ele se sentiu quente por dentro quando Frigg pousou os olhos nele, lembrando-se instintivamente de sua mãe, as poucas memórias que tinha dela. Bianca Di Angelo também veio à sua mente. Sentiu-se protegido.

Agora: isso era estranho. Estou sentindo vontade de abraçar uma mulher estranha que provavelmente quer me matar. Qual é o meu problema?


"Que lugar é esse?" — Annabeth perguntou, mas soava mais como uma pergunta retórica, como se ela já soubesse a resposta.


"Você não fala enquanto a rainha Frigg não permitir que fale." — Uma voz que não vinha da mulher loira, tão calma quanto Nico imaginava que Frigg era, disse de uma das mesas prateadas mais próximas ao trono. Uma garota de cabelos pretos e ondulados, rosto alongado e bochechas altas estava sentada ali. Nico não a havia percebido antes, mas ela parecia estar lá há séculos. Confortavelmente sentada e encarando Annabeth como se ela fosse um arranjo de flores de plástico que cairia bem na sua varanda. Seu tom era doce, mas ele teve a impressão de que ela não seria tão amável se a outra voltasse a falar.


Frigg também olhou para a garota, mas abanou uma das mãos em seguida.


"Está tudo bem, Isabella. Loki estava certo, eles não têm quaisquer ligações com os gigantes de gelo."

"Claro que eu estava certo." — O cara ruivo e cabeludo de nariz comprido apareceu tão repentinamente que se Nico não estivesse acostumado com aparições fantasmagóricas, teria se assustado. Todos os outros não estavam, então ele ouviu o coro de expressões de espanto dos amigos. — "Mas também não são de Midgard."

"De onde você sugere que sejam?" — Frigg dirigiu-se à Loki.


Ele encolheu os ombros e cruzou os braços, recostando-se em uma das pilastras próximas ao trono.


"Do futuro. E a criança impaciente quer respostas." — Ele completou, indicando Annabeth.

Frigg analisou-a com seus olhos azuis, aproximando-se mais dela, o que fez os Stoll, um em cada lado da filha de Atena, se afastarem. Nico pensou que ela fosse abraçar Annabeth e sentiu ciúmes disso, não da garota, da mulher e não de uma forma carnal, mas maternal. Frigg não transpassava simpatia, mas parecia uma mãe acolhedora com a voz suave, o fazia pensar em cobertores e estórias de ninar.


"Mortais não entram em Asgard a não ser que os deuses desejem que entrem, como vocês chegaram até aqui?"

Nico não estava dentro da cabeça de Annabeth, mas ele sabia que ela estava sendo impulsionada a responder, como quando uma mãe pergunta amorosamente se seu filho quebrou o vaso de porcelana da sala de estar.


"Eu não sei."


Segundos de silêncio de Frigg e Annabeth recomeçou.


"Acordamos aqui, estávamos em nosso acampamento e de repente tudo ficou escuro."

Leo encarou Annabeth, sabendo que ela não estava contando dez por cento da coisa toda, ele também tinha sido arrebatado pela aura de Frigg. O garoto de cabelos cacheados pensou no quão rude Annabeth estava sendo com Frigg, ele nunca mentiria para a própria mãe.


Rainha Frigg a estudou por um momento, dando-lhe um sorriso em seguida

.
"Você é afilhada de meu marido, é bastante claro. Não sei de que acampamento está falando, mas..." — Ela voltou a olhar os outros. — "Todos vocês também são apadrinhados." — A mulher pousou um longo olhar em Nico, por último, antes de voltar a falar. — "Inclusive por ramos distantes de nossa família." — Agora ela estava olhando Percy, como se ele fosse um sobrinho de vigésimo grau dela.


Ele retribuiu o olhar e Frigg assentiu, dando-lhe permissão para falar.


"Voc..." — Percy se conteve. — "A senhora disse que só entram aqui quem os deuses escolhem..."


"Vejo suas dúvidas. Você realmente não sabe como veio parar aqui e está se perguntando quem nós somos e que lugar é esse." — Frigg disse da maneira mais doce que Nico jamais ouviu uma mulher falar. — "E seu nome é Annabeth Chase." — Ela olhou para a garota, que parecia pálida, voltando para Percy. — "Percy Jackson, Annabeth Chase sabe um pouco sobre nós, embora seus pensamentos estejam bagunçados e confusos e suas imagens sejam por demais fantasiosas, eu nunca tive o rosto de uma estátua."

A palidez deu lugar à um rosto corado, Annabeth manteve-se quieta. Isso fez todos os outros olharem para ela. Annabeth não ia argumentar? Havia algo errado.

Frigg pareceu entender que aquilo era tudo que eles precisavam saber, dando um último olhar caloroso para o grupo e virando de costas, voltando para onde antes estava. Nico só percebeu que a mulher carregava um molho de chaves em um cinto por causa do barulho que elas fizeram enquanto caminhava. Em um piscar de olhos ela não estava em qualquer lugar para ser vista, ele nem a tinha visto sumir. Também não havia sinal de Loki. Eles foram deixados sozinhos no salão do castelo apenas com a garota morena sentada ao lado.


"Vocês devem estar com fome." — Ela disse, quase como se tivesse adivinhado que Nico acabara de pensar sobre ela.


"Já podemos falar agora?" — Leo perguntou.


Isabella sorriu.


"Desculpem se fui grossa. Frigg merece respeito."


"O que é você?" — Connor perguntou, esgueirando-se por trás do irmão como que tentasse se esconder.


Isabella levantou as sobrancelhas. — "Como assim o que eu sou? Sou uma pessoa."


"Nada disso faz sentido." — Disse Annabeth, aparentemente voltando ao normal.


"Ela disse que você sabia um pouco." — Piper repetiu.


"Minha mãe... Ela me disse para ler sobre mitologia nórdica, disse que seria importante, mas não consigo compreender."


"O que você não consegue compreender?" — Percy perguntou.


Annabeth olhou para ele e então passou os olhos pelas paredes douradas.


"Pessoas veneravam deuses como Frigg, Loki e Thor há eras atrás, milênios... São deuses mortos, esquecidos, uma cultura muito antiga, mais antiga do que Gaia, talvez. A formação deles é diferente da dos deuses gregos ou romanos... Gaia nem sequer existe nesse universo."


"Você está querendo dizer que nós trocamos de planeta?" — Leo parecia estar achando engraçado, ele provavelmente estava.


"Não, n..." — Mas Nico a interrompeu.


"Nós voltamos no tempo."


A ideia alcançou cada um dos nove semideuses ali reunidos. Frank Zhang e Reyna sequer tinham aberto a boca.


"Como Gaia não existe? Então há coisas mais antigas que ela?" — Travis perguntou, ele não parecia tão bem humorado agora.


"Não é assim que funciona. Existem culturas muito diferentes, elas se moldam à crença de seu povo. Se você acredita, é real. Gaia é a manifestação grega da mãe-terra, aqui as coisas funcionam diferente."


"Como funcionam?" — Reyna falou pela primeira vez depois que deixaram o pavilhão.


"Eu não me lembro, não li tanto assim." — Annabeth assumiu, voltando a sentir o rosto queimar.


"Se nós acreditarmos que Gaia não existe, ela vai desaparecer?" — Um Connor esperançoso perguntou.


"Ótimo. Então estamos presos em um outro tempo, sem ideia do por quê ou se vamos voltar e nem sabemos quem nos mandou aqui." — Piper disse, ela estava irritada provavelmente porque Jason não estava ali.


"Minha mãe nos mandou aqui. Ela nos deu uma profecia. Atena é a deusa..."


"Da sabedora e da estratégia, nós já sabemos." — Travis ataca novamente.

Isabella observava a discussão em silêncio, mas, Nico notou, seus olhos se moviam para cada um que falava rapidamente, como se ela estivesse absorvendo o que eles diziam, uma ou duas vezes a garota sorriu,
principalmente quando Annabeth descreveu seus deuses como antigos e mortos. Era um sorriso que dizia "você não faz ideia do quão errada está".


"Posso assumir que nenhum de vocês está mesmo com fome?"


Percy foi o primeiro a olhar para a garota sentada, ele teve consciência de como não comia há uns... Bem... Três mil anos.


"Nós não vamos morrer se comermos algo daqui, digo, estamos no passado e a comida vai apodrecer no nosso estômago?"


"Frank, fique calado." — Reyna mandou, não pediu.


Piper olhava para eles atordoada.


"Vocês acham isso normal? Viagem no tempo? E se tiver algo a ver com Cronos?"


"Cronos está morto." — Nico disse muito rapidamente.


"Não tem nada sobre Cronos aqui, eu já disse, estamos em outro universo." — Annabeth falava pouco, mas sua mente trabalhava à mil.


"Você disse que viajamos no tempo, agora viajamos no espaço?" — Connor decidiu que seria bom não ficar em pé e simplesmente sentou na mesa onde Isabella estava, mas na outra extremidade, por segurança.


"É provável." — Ela disse simplesmente. — "Ainda não sei como isso trabalha."


Annabeth odiava não saber.


"Então até você descobrir, podemos comer algo, certo? Tenho a impressão de que vamos ter tempo para colocar para fora nosso almoço antes de conseguirmos voltar." — Leo disse, olhando para Frank e fazendo um "legal" com a mão, algo como "estou contigo, cara".

Todos olharam-na esperando uma resposta. A profecia tinha vindo à Annabeth, ela provavelmente era a líder da missão, mas Nico lembrava de algo sobre "e o martelo os guiará", ele só preferiu não falar sobre isso agora e começar outro debate, também havia percebido como uma viagem no tempo poderia te deixar faminto.


"Vamos comer." — Ela cedeu. — "Não consigo pensar de barriga vazia."


"Essas foram palavras sábias." — Frank disse, indo até a mesa mais próxima.

Nico não sabia como a comida ia chegar até eles, talvez fosse como no Acampamento, ele jantou lá uma ou duas vezes, mas antes de descobrir, alguém entrou no salão e ele pensou ter ouvido trovões, mas eram apenas passos. O garoto não sabia desde quando a pessoa estava andando, só conseguiu notá-la quando estava próxima o suficiente para assustar todos os presentes.


"Hva i helvete er de fortsatt gjør her?!"

Era uma outra garota brandando furiosamente. Ela tinha uma aparência guerreira. Seus cabelos vermelhos estavam penteados em uma trança e sua pele era muito branca, com olhos negros e observadores. Fez Nico lembrar sobre águias e quando esse pensamento passou por sua cabeça, ela tornou os olhos até ele, examinando-o como se fosse um inimigo de guerra. Tinha uma aparência voraz, como se qualquer um oferecesse perigo. Ela e Isabella engataram uma conversa, olhando até os semideuses de vez em quando, Nico tentou ler seus lábios, mas falavam em outra língua. A garota ruiva estava visivelmente irritada. Talvez por isso, a sua aparência continuava sendo forte e ela parecia irradiar poder. Não era só como se ela visse um inimigo em Nico e nos outros, ele também aparentava estar pronta para reduzí-los à pedaços de filhos bastardos de deuses.

Isabella concordou com a cabeça e olhou de volta para os semideuses.


"Essa é Felicia Haraldr, afilhada de Týr. Creio que eu também não me apresentei formalmente. Sou Isabella Hjördis, afilhada de Hel. É a vez de vocês."


"O que ela disse?" — Percy indicou Felicia, que continuava de pé e olhava para eles como se fossem pedaços de carne que andam.


"Que vai cortar suas cabeças se não saírem do salão de Odin, mas vamos, se apresentem."


Muito reconfortante.


Eles não pensaram em fazer algo diferente do que dizer seus nomes, mas aquilo ainda era bem incomum. Como se a comida tivesse sido esquecida, Annabeth perguntou.


"Afilhadas? Como assim?"


"Os deuses escolhem os mortais mais promissores para fazerem parte de seu exército ou legião. Freya, por exemplo, escolhe os mais atraentes, Thor, os mais habilidosos, Týr..."


"Týr escolhe os mais corajosos." — Felicia completou, agora em um idioma que todos conseguiam compreender. — "Vocês vão sair daqui agora, tenham suas conversas fora do solo sagrado de Odin." — Ela não estava pedindo.


Os nove semideuses caminharam para fora do salão, mais escoltados do que guiados pelas duas garotas.

A briga de egos ainda não havia começado, mas Reyna não gostou de receber ordens, ela obedeceu, pois estava em território desconhecido, mas se iam ficar ali por algum tempo — e pela profecia, não seria pouco, digo, eles tinham voltado milênios antes da guerra com Gaia, tempo havia de sobra -, as coisas não iriam continuar assim.

Isabella explicou calma e graciosamente, Leo grifou, quem era sua madrinha enquanto desciam as escadas douradas. Hel, a deusa de Niflheim. Nico sentiu algo de familiar na garota, mas não fazia ideia do que ou quem era Niflheim. Disse que ela, Hel, havia lhe dito que convidados estavam chegando e que seria interessante para Isabella estar no salão do trono naquele dia, que seria trabalho dela dar as boas vindas. Seja lá quem essa Hel fosse, Nico pensou, ela sabia que eles estavam ali, ela poderia ajudar.


"Týr me encarregou de mantê-los vivos." — Felicia disse com sua voz firme. Enquanto Isabella denotava suavidade, ela traduzia força. Não agressividade como os filhos de Marte e de Ares, mas fortaleza. Isabella era como uma brisa quente de verão e Felicia parecia uma tempestade de gelo.


"Por que? Estamos em perigo?" — Reyna questionou, sentindo o vento gelado em seus braços.


"Depende de com quem você vai falar." — Ao dizer isso, Felicia olhou significativamente para Isabella. — "Então fiquem próximos e não f..."


Loki a interrompeu, se materializando exatamente na frente dela com seus braços abertos, sorrindo para os semideuses.


"Olá, pupilos!"


Dessa vez até Nico se assustou.


Loki olhou para trás, vendo Felicia e Isabella e adoravelmente ignorando-as, voltando para os semideuses.


"Ah, não. Se vocês vão ficar, vamos em uma tour comigo. Cheiro de morto e suor para começar não soa muito como uma recepção agradável."


A garota ruiva ia falar mais alguma coisa, mas Loki conjurou uma ventania, fazendo os nove adolescentes cambalearem para frente, afastando-o das duas outras garotas. O deus pôs-se no meio deles, como se fizesse parte do grupo, e continuou caminhando. Já haviam descido as escadas que levavam ao castelo e agora caminhavam na mesma grama congelada de antes.


"Então vocês vieram mesmo do futuro, que formidável. Já que Frigg resolveu não jogá-los à Fenriz, creio que vamos nos divertir enquanto ficarem."


"Fenriz?" — Percy massageava o pescoço, ele foi o que o único que tropeçou com o vento.


"O lobo indomável e gigante que arrancou o braço de Týr. Ele também é meu filho, mas essa estória eu conto mais tarde."


Ok, Nico pensou, o cara tem um filho que é um lobo e que arrancou o braço de um deus. Fichinha.


Loki não parecia um deus aos olhos do filho de Hades, era como um cara regular se você ignorasse a roupa esquisita, o cabelo até a cintura, vermelho como o de Felicia, e os olhos perigosos. Ele lembrava os gêmeos Stoll, a mesma malícia divertida, o brilho insano no olhar, como se estivesse sempre prestes a te pregar uma peça que provavelmente ia te levar à morte, mas ainda seria engraçada, na opinião dele.


"Do que podemos te chamar? Senhor?" — Travis perguntou, examinando Loki.


"Criança, tenho cara de Odin? Podem me chamar de mestre."


Silêncio.


"Brincadeira, me chamem de Loki. Prazer, sou o deus do fogo."


Annabeth olhou de Percy para Nico, como se quisesse falar algo, mas permaneceu calada.


"Deus do fogo?" — Um Leo animado perguntou.


Loki o encarou, medindo-o da cabeça aos pés e estalando os lábios.


"É, eu sei, você tem algo como... Consegue conjurar fogo. Senti o cheiro de carne queimada. Mas não temos qualquer ligação, criança. Você cheira como cria de Thor."


"Cria de Thor? O que é uma cria? Quem é Thor?" — Valdez pareceu desapontado, então o seu... Uh... Padrinho nórdico havia acabado de rejeitá-lo como se ele fosse o resto da pizza da semana passada.


"Cachorros não dão crias?" — Percy perguntou logo depois de ouvir seu estômago roncar.


"Também. Afilhado. Apadrinhado. Queridinho. Azarado. Depende do ponto de vista. Thor é meu irmão robusto, mundialmente famoso por seu cérebro de azeitona. Logo vão conhecê-lo. Sua amiga irritante já teve uma conversa cabeça com ele."


Pelo que Nico lembrava do que Annabeth descreveu, foi esse Thor quem tirou-lhe a adaga.


Eles tinham acabado de passar por bastões longos de madeira fincados ao chão, no topo dos dois, estendendo-a, estava presa uma faixa com os dizeres: Hail To The Hammer! e Nico podia ver também como não havia apenas um pavilhão como o onde eles acordaram, mas centenas espalhados entre as mesmas casas de teto pontudo que ficavam nas montanhas. Era uma vila medieval em escala gigantesca.


"Mmmm. Senhor Loki?" — Frank arriscou temeroso.


"Diga, criança estranha."


Frank franziu a testa, mas estava faminto demais para retrucar. — "Nós não comemos há algum tempo, será que o senhor não poderia...?"


Como mágica prontamente solicitada, cálices prateados apareceram nas mãos dos nove. Nico sentiu o cheiro doce, tentador que vinha da bebida dentro deles.


"Hidromel. Sirvam-se." — Loki exclamou, juntando as mãos e sorrindo, como se estivesse oferecendo veneno para um grupo de ratos.


"Não. Isso tem álcool." — Annabeth reconhecia o nome da bebida, já tinha lido sobre ela.


"Sério?" — Connor segurou seu cálice melhor entre as mãos.


Loki girou os olhos, respirando fundo, então a bebida mudou, virou algo vermelho como sangue.


"Suco de tomate. Satisfeita?"

Eles continuavam caminhando, ocasionalmente olhando para os lados, examinando coisas e pessoas.


"Senhor Loki." — Piper o chamou timidamente, também segurava sua taça, mas ainda não a levou aos lábios, como todos os outros estavam fazendo. — "Por que estamos aqui?"


"Asgard é a terra dos deuses nórdicos, é o mundo deles." — Annabeth começou a responder como se a pergunta fosse direcionada à ela.


"Reino."


Ela olhou-o confusa.


"Reino, não mundo. É o reino dos Aesir, nossa raça."


"Então por que existem mortais aqui?" — Piper continuou.


"Porque escolhemos que venham. Eles vão e voltam de acordo com nossa vontade."


"E eles não viram... Bem, cinzas quando os veem?"


Loki reparou na filha de Afrodite e exprimiu uma risada alta; ela era tão metálica quanto sua voz.


"Por que virariam?"


Annabeth lançou um olhar de "não continue" para a garota antes de esconder o rosto por trás de seu cálice.


Para uma tour, Loki era tão bom agente de viagem quanto era musculoso. Caminharam e, Nico teve a impressão, deram voltas pelo lugar; isso só o fazia parecer maior, mas o deus não explicou o que era o que ou quem era, ele não parava de fazer perguntas sobre os semideuses, de um em um. Ninguém, além de Piper, parecia mais disposto a perguntar ou responder coisa alguma. O suco de tomate dos cálices parecia nunca acabar e Frank já tinha arrotado em alto e bom som mais de três vezes, até que chegou a vez dos Stoll.


"Sabe, tenho um bom pressentimento sobre esses dois. Já mataram alguém?"


"Valendo ou no CS?" — Travis perguntou, virando seu cálice e constatando que o suco não derramava.


"CS?"


"É um jogo de computador. Nosso pai, Hermes, ele inventou a internet, você se conecta com pessoas de todo o mundo e pode matar a versão virtual delas quantas vezes quiser." — Connor começou a explicar para o deus, que imediatamente se pôs entre os dois irmãos, jogando seus braços em volta dos ombros dos dois e apertando-os para ele, como em um abraço em grupo lateral.


"Não faço a mínima ideia do que estão falando, mas sinto que vamos nos dar bem." — Loki disse em um tom feliz, olhando de Travis para Connor.


Annabeth observava em silêncio, seus pés doíam e ela se sentia estranhamente cansada, talvez fosse a caminhada interminável.


"Teve aquela manga dourada no chalé de Afrodite..."


"Juntamos uma boa quantia verão passado vendendo mapas para o Acampamento Meio-Sangue..."


"... Que obviamente davam no Brooklin."


"Genial."


"Pode crer."


Loki olhava de um para o outro enquanto conversavam, os olhos claros brilhando com — Nico tentou reconhecer — orgulho.


"Então está decidido. Eu vou apadrinhar vocês dois."


Reyna também se sentia sonolenta, mas ainda assim levantou os olhos até o deus. — "Mas você não sabe se vamos ficar, quem somos e disse que é o deus do fogo, qual é a relação com os Stoll?"


"Stoll?" — Loki mediu. — "Nome incomum. Ok, Stoll 1 e Stoll 2 e..." — Ele olhou Reyna.


"Reyna." — Ela disse seu nome, sua voz saiu empapada, e ela teve a sensação de que, a partir daquele ponto, responderia qualquer coisa que Loki perguntasse.


"Reyna, pois bem, eu também sou o deus da inteligência."


Annabeth também prestou atenção. Loki estava escondendo coisas, ela sabia desde o começo. Frigg havia dito-lhe que ela era apadrinhada por Odin. Ele era o deus supremo, o pai de todos e se... Por que estava tão difícil pensar agora? Suas pálpebras fechavam como seu cérebro, apagando as luzes, dificultando o raciocínio... Ela encarou a bebida que nunca sumia de seu cálice e ainda teve tempo de se amaldiçoar por tê-la bebido.


Nico não se sentia muito diferente, suas pernas estavam dormentes e ele não sentia mais o cálice entre seus dedos. A última coisa que ele ouviu antes de fechar os olhos foi a voz distante de um dos Stoll contando à Loki sobre a profecia que provavelmente destruiria ou salvaria o mundo e em seguida, o ressoar quase cintilante da voz do deus em seus tímpanos, como se ele estivesse dentro da cabeça do garoto.


"Profecia e morte? Ah... Isso vai ser interessante."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.