Aventuras e Desventuras Do Amor
10 Beijos, Beijos e Corações Acelerados
Notas iniciais
Katniss fechou o olho para apreciar o toque da mais nova amiga em seu cabelo, que era ágil ao fazer uma trança. Mesmo com apenas 14 anos, Zoë se mostrou bem madura para determinados assuntos, enquanto conversavam, esperando Peeta e Cormarc voltarem com um peixe.
O Sol estava se pondo quando os dois meninos, ambos sem camisa, vinham segurando um pedaço de pau com um peixe espetado na ponta, cada um. Katniss riu deliciosamente ao ver o primo suado segurando a vara nas costas.
Depois, riu maliciando o pensamento.
– Se eu te conheço, Katniss Everdeen, você está pensando merda — brincou Peeta.
– É claro que estou — ela concordou. — Dois meninos gostosos pra carallho segurando uma vara... Entenda o vara como quiser.
– Gostosos? — perguntou Cormarc, levantando a sobrancelhas.
– Se acostuma — avisou Peeta, jogando a vara aos pés das garotas.
– Estávamos esperando vocês para tomarmos banho — disse Katniss, com um sorriso malicioso nos lábios. — Entenda o banho como quiser.
– Hoje você tá que tá — comentou Peeta, sentando-se ao lado da prima.
– Vou tomar banho — Zoë se levantou. — Vocês vêm?
– Eu vou — Cormarc se jogou na água, sem esperar ninguém.
Essa foi a deixa para Zoë se jogar no lago atrás do primo. Katniss amava a água, mas naquele momento, ela não estava com vontade de ir. Não sabia o que tinha, só queria ficar observando e entender.
Peeta parecia dividir o mesmo pensamento, pois ficou ali, observando os dois primos no lago, enquanto Katniss o observava. Ele tinha músculos definidos e alguns fios dourados passeando por seu abdômen. Seus cabelos loiros estavam batendo incisivamente em seus olhos e por estarem suados, estavam grudados à pele. O rosto meio quadrado e ossudo, o tirava o ar angelical que a maioria dos loiros possuía, dando-o um ar de homem, de maduro.
O primo era muito bonito, ela tinha que admitir. Seus olhos azuis observavam o lago e Katniss se obrigou a fazer o mesmo.
Zoë afundou a cabeça de Cormarc na água, que se levantou e prendeu a cintura dela, fazendo cócegas na prima. Eles pareciam tão felizes. No meio de toda a implicância, pareciam se gostar bastante. Depois do que Zoë disse para Katniss, sobre gostar do primo, ela começou a ver o quanto combinavam.
Ela só queria saber o que sentia a respeito do primo dela, Peeta.
Depois daquele beijo, depois de dias sem se ver, quase morrendo, ela não conseguia pensar em outra coisa por tanto tempo, mesmo que tentasse. Ver Zoë e Cormarc ali se divertindo, deixava-a constrangida ao lado de Peeta.
Ainda mais se ele passou a olhar na direção dela, nada discretamente, depois que ela parou de o olhar.
Enquanto isso, Katniss mantinha a cabeça virada para frente. Agora o céu estava escuro, mas não completamente. O vento parecia gelado batendo na barriga nua de Katniss, que havia tirado o vestido e colocado o short de Zoë, ficando apenas com a peça jeans e o sutiã laranja. Ao seu lado direito, estava o pé de maçãs e o de morangos. Katniss ainda ficava admirada com a beleza daquele lugar. As flores vermelhas na margem e os cipós rodeando tudo; era fantástico.
Katniss sentia sua orelha esquerda formigando, a sensação de estar sendo observada. A morena nunca ficava constrangida na frente de um menino, entretanto não era qualquer menino que estava ali. Era seu primo. Aquele que ela sempre viu o quanto era bonito, mas que nunca havia se sentido atraída. Seu melhor amigo.
Katniss tinha fama de puta na adolescência. Ao entrar no terceiro ano a perdeu um pouco, mas alguns meninos ainda a olhavam como um objeto que qualquer um poderia possuir. Peeta e seus amigos eram os únicos que a respeitavam e mesmo depois daquele beijo, Peeta ainda a respeitava.
Será que ele estaria pensando no beijo também? Será que gostaria de mais um ou será que estava extremamente arrependido de ter o feito?
Talvez fosse um ato de imprudência, ou de desespero, mas Katniss se levantou de onde estava, com a trança balançando em cima do sutiã laranja e se sentou no colo do primo, fitando os olhos azuis dele.
– Porque me beijou?
Peeta desviou o olhar e pareceu surpreso, constrangido e aliviado por ela ter perguntando isso, mas Katniss não saberia dizer o motivo para cada reação. Apenas sabia que sua mão estava suando e que ela gostaria de beijá-lo novamente.
– Peeta, responde.
– Eu não sei — ele murmurou.
– Você pode me achar louca, e por favor me diga se achar, mas eu não consigo parar de pensar nisso.
Peeta abriu a boca e fechou três vezes (ela contou), até Katniss perceber que ele não conseguiria falar nada e continuou:
– Eu estava pensando se... Bem... Oh, céus, eu tô parecendo você. Sabe, sem terminar a frase e gaguejando. Porque a gente não fica junto?
– O que? — ele arregalou os olhos, elevando a voz um pouco. Katniss percebeu que ele estava nervosamente feliz.
– Eu sei que você não sente nada por mim, nem eu sinto por você. Quer dizer, sentimos. Só que não desse jeito. O que estou propondo é só beijo.
– Só beijo?
– Ou só sexo.
– O que?
– Só beijo! Só beijo! – ela garantiu, elevando as mãos em sinal de rendição. — Amizade colorida, ficada... Você escolhe.
Peeta olhou para ela, assustado, e comprimiu os lábios, formando uma linha fina.
– Eu escolho?
– Dá pra parar de repetir tudo o que eu falo?
– Repetir... Ata, desculpa.
Katniss soltou uma risada.
– Tudo bem pra você? — ela se aproximou mais dele, suas intimidades roçando. — Em?
Ele apenas fez que sim com a cabeça, lentamente, e Katniss o beijou. Era coisa de gente doida. Ela não poderia estar realmente gostando de beijar o primo dela. Em outras circunstâncias isso seria, no mínimo, nojento.
Ela se perguntou caso saíssem dali, continuariam com isso? Falariam para os pais e os amigos? Parecia errado.
Katniss riu durante o beijo e se separou do primo, descansando a cabeça no seu peito. O coração do loiro batia descompensado e Katniss riu com isso. Era incrível; enquanto ela era toda atirada, o primo era todo cheio de vergonhas e constrangimentos. Ela podia perceber a tensão no corpo dele.
– Relaxe — ela pediu. — Não é como se estivéssemos namorando.
– Eu sei.
– Então pronto! — ela sorriu se levantando e tirando o short. — Apenas aproveite. Duvido que consiga me pegar!
Ela saiu correndo, passando pelas pedras onde caía a água no lago, e contornou o pé de morangos. Colheu um e lentamente o mordeu, provocando o primo, que a observava milimetricamente.
– Não vai correr? — ela gritou e olhou de relance para o lago, Cormarc observava tudo aquilo com uma expressão divertida. Katniss imaginou o que Peeta deve ter contado a ele para que ficasse assim.
Demorou alguns segundos, mas finalmente Peeta correu. Foi difícil para Katniss se concentrar em fugir dele, considerando o fato que ele estava sem camisa e que parecia muito mordível. Parou alguns segundos imaginando se fariam sexo ali e saiu correndo em seguida, vendo que grande parte da distância entre os dois havia sido quebrada.
Rindo, ela pulou no lago e sentiu um puxão na barriga. Suas costas se chocaram com um peito duro e braços fortes, e logo sentiu as mãos do primo fazendo cócegas em sua barriga.
– Para! — ela pediu, entre as risadas.
Quando se virou de frente e apenas alguns centímetros separavam seus rostos, Peeta parou subitamente e Katniss riu, se inclinando para beijá-lo.
– Ei! — chamou Cormarc. — Que putaria é essa?
– Para de cuidar da vida dos outros — ralhou Zoë.
– Você é linda. Me beija?
– Vai pastar.
– Seis vezes rejeitado, meu amigo — brincou Peeta e Zoë riu.
– Isso não é justo — o mais novo resmungou e mergulhou na água.
– O que aconteceu para essa mudança de pensamento tão... Repentina? — perguntou Zoë.
– Sei lá — respondeu Katniss, enlaçando as pernas na cintura do primo. — A gente tá ficando.
– Decepcionada — foi a única coisa que Zoë disse antes de sair do lago.
Depois de meia hora nadando, conversando e se divertindo, Katniss deixou os dois garotos e foi se sentar ao lado de Zoë, que tentava fazer fogo com dois pedaços de madeira.
– Eu fui escoteira — informou Katniss. — Você está fazendo errado.
– Eu estava pensando em uma coisa... – a mais nova falou, entregando os dois pauzinhos para Katniss esfregar.
– Em que?
– E se não conseguirmos?
– An?
– Sair daqui — ela esclareceu, vendo a pequena chama se acender.
– Não sei. Não parei para pensar nisso.
– Na verdade, estava me lembrando do filme, A Lagoa Azul... O casal de primos criou uma cabaninha legal, teve um filho... Fico pensando se isso não pode acontecer no futuro com a gente. Ao mesmo tempo em que imagino o quanto seria legal, fico assustada com a possibilidade de não tuitar mais nada.
– Seria legal ter um filho com o Cormarc?
– Eu não quis dizer isso.
– Quis sim.
– Eu sei — a mais nova sorriu. — Você deu sorte com o Peeta.
– Sorte? — Katniss riu sem humor. — Peeta é tipo um sapo.
– Um sapo?
– Você sabe... Quando a gente toca em um sapo ele se encolhe e fica parado. É a mesma coisa. Eu apenas propus e ele aceitou.
– Quer dizer que ele é influenciável?
– Ele não gosta de ferir os sentimentos das pessoas. Então, sim, é influenciável.
– Você se aproveitou — Zoë acusou.
– Não! Eu só... Bem... Eu sei que ele queria.
Depois de falar, Katniss viu o quanto aquela frase havia sido autoconfiante e egocêntrica. Ela estava se achando a gostosa e não se orgulhava nem um pouco disso. Mas o que podia fazer? Sabia que os meninos olhavam para ela. Ela tinha pernas malhadas e seios fartos. Era bonita, enfim.
– Vi o Mark olhando para você — confessou Zoë.
– Sinto muito.
– Pare com isso! Tem noção do quanto sai metida essa frase?
– Eu sei.
– Eu vou preparar o peixe. Porque não volta para o lago?
Katniss queria dizer que não, mas se viu sem escolhas. Queria ir para longe de Zoë naquele momento. Ela havia lhe atingido com verdades que Katniss não estava preparada para ouvir. O pior: tinha razão. Katniss havia se aproveitado da insegurança de Peeta. Estava brincando com os sentimentos dele, talvez. Era fácil para ela beijar sem envolver sentimento, mas será que ele era capaz do mesmo?
Enquanto nadava, pensou sobre isso. No fim, chegou à conclusão que o que Zoë sentia era um misto de ciúmes, por causa do Cormarc, e inveja, porque Katniss estava ficando com o primo e ela não. Só podia ser isso.
Quando Zoë disse que o peixe estava pronto, Katniss teve que soltar uma exclamação. Não havia visto quando Zoë saiu, mas ela havia conseguido abacaxi. A mais nova fizera um molho da fruta e colocara sobre o peixe, com morangos e flores vermelhas ao redor. Parecia apetitoso.
Antes de ir comer, Katniss pegou o moletom cinza e o colocou, pois o frio a havia atingido e o short estava molhado. Percebeu o olhar de Peeta nas pernas nuas dela ao voltar, mas fingiu não reparar. Pegou um pedaço do peixe com as mãos e comeu.
– Silêncio — comentou Cormarc.
– Vamos O Que Você Prefere? — propôs Peeta.
– Não. — Katniss discordou de prontidão.
– Porque não?
– Porque essa é uma coisa só nossa; não para jogarmos em grupo.
– Deixe de besteira, Katniss, apenas uma vez.
– Como joga isso? — interveio Zoë.
– Observem eu e a Kat jogando uma partida. Katniss... O que você prefere: comer uma meleca bem grudenta ou pegar uma pizza do lixo e esfregar a cara nela?
– A meleca é minha, por mais que seja nojento, já a pizza... Bem, a pizza nunca se sabe o que passou lá no lixo. Fico com a meleca! — ela respondeu depois de um tempo. — Entenderam como joga?
– Sim — respondeu Cormarc, e Zoë acenou com a cabeça.
– O que vocês preferem — começou Katniss. — Lamber manteiga no pé de um mendigo ou...
– Você já perguntou isso outro dia! — interrompeu Peeta.
– Eu tô sem ideias.
– Invente outra coisa.
– Comer ervilha com pus ou cheirar a axila de um macaco?
– Criatividade mandou lembranças — ironizou Peeta.
– Não enche.
– Eu acho que prefiro a axila do macaco — foi Cormarc quem disse. — Se ele não me matar...
– Axila do macaco — apoiou Zoë.
– Pois eu prefiro a ervilha — contrapôs Peeta.
– Porque? — perguntou Katniss, com um sorriso brincando nos lábios.
– Porque axilas de macacos são nojentas — ele respondeu.
– E pus não é? — quis saber Cormarc.
– Acho que vou colocar o peixe para fora — informou Zoë.
Em clima de brincadeira, o jantar daquela noite foi devorado. Depois que os primos Zoë e Cormarc foram dormir, Peeta e Katniss aproveitaram a noite com beijos quentes, embora a iniciativa sempre fosse da prima, óbvio. Era incrível como de uma hora para outra Katniss estava desejando tão intensamente ter o primo perto de si.
Katniss foi dormir molhada e tinha quase certeza que não tinha nada haver com seu mergulho no lago.
–-X--
Ela sorriu diante dos beijos que recebia no rosto fino de boneca. Conhecia aquele cheiro e sorriu antes de abrir os olhos.
– Bom dia — desejou Draco.
– Como ele está carinhoso... — ela comentou. — Obrigada por me deixar dormir aqui.
Ele apenas sorriu e se levantou, pegando uma das roupas que comprara recentemente para trocar. Hermione se encolheu mais nas cobertas, com frio, e observou cada movimento do loiro, lembrando-se do quanto ele foi um bom amigo no dia anterior.
O dia anterior... Desviou os olhos para o quarto, perdida em pensamentos. As cortinas estavam fechadas, mas o quarto não estava escuro por conta da lâmpada. A cama do lado, a de Neville, estava desforrada, porém ele não se encontrava lá.
– Ei — Hermione chamou Draco. — Você estava com a Astoria antes de eu chegar chorando e estragar tudo.
– Amizades são mais importantes — ele a confortou. — Não acredito que falei isso.
– Parece que o Malfoy frio está mudando...
– Culpa sua e da Astoria.
– O que conversaram?
– Sobre chocolate — ele respondeu bobo e Hermione sorriu.
– Porque chocolate sempre traz boas lembranças sobre um casal?
– Tem boas lembranças com chocolates?
– As melhores — Hermione suspirou.
– Eu também — ele sorriu, porém o sorriso não era nada apaixonado como o de Hermione, era pervertido. Isso não passou despercebido por ela.
– Oh meu Deus! — ela exclamou. — Vocês não... Meu Deus!
– Pense o que quiser.
– Tarado!
– Ela era minha noiva! Tínhamos intimidade, ué.
Hermione se sentou na cama, com preguiça de levantar, mas mesmo assim tinha que fazer. Quando Draco abriu a porta para sair do quarto, ela se levantou num pulo, sentindo os pés em contato com o chão gelado, e seguiu para seu quarto e de Silena, para pegar uma roupa e tomar banho logo depois de Draco.
Aquele dia seria longo. Molly, mãe do Rony e sua ex-sogra, chegaria ali às dez horas para ver o filho e Hermione. A castanha estava ansiosa, mas ao mesmo tempo com medo do que Molly fosse pensar quando visse que Hermione ainda amava Rony. Era o tipo de coisa que só Molly perceberia.
Ao passar pelo corredor, Hermione esbarrou com Rony, que estava com uma cara divertida de sono e o cabelo em pé.
– Bom dia — ela desejou.
– Bom dia, Mione — ele respondeu. — Dormiu bem?
– Sim. E você?
– Bem também.
– Está lembrado que sua mãe hoje vem aqui?
– Sonhei com ela essa noite — ele confessou. — Venho me lembrando de umas coisas.
– O que sonhou?
– Estávamos eu, Gina e ela limpando a casa. Não acho que tenha sido um sonho... Era uma lembrança. Você apareceu nela.
– Tínhamos doze anos e eu acabei estourando produto de limpeza no chão?
– Foi.
– Isso é ótimo, Rony! — Hermione se animou, abraçando o ruivo. — Quer dizer que sua memória está voltando aos poucos.
– Mas são memórias antigas. Jamais sonhei com o Percy ou Peeta, que é quem você diz que são meus atuais melhores amigos. Sonhei com você e com o Harry, duas vezes, mas o máximo de idade que tínhamos era doze anos.
– Seus sonhos sempre estão ligados a mim — ela constatou, constrangida.
– Realmente faz parte da minha vida.
Os olhos de Hermione marejaram e ela assentiu, aninhando-se ao peito dele e o conduzindo para o café da manhã. Era bom o ter perto novamente, abraçando-o e tendo seu conforto. Sentia as constantes borboletas no estômago e isso era bom.
Melhor ainda foram os olhares que recebeu de Astoria, Silena e Neville, ao entrarem na sala de jantar, para fazer o desjejum. O Sol que irrompia a janela estava brilhante, ou poderia ser o humor de Hermione. Há quanto tempo não ficava assim com Rony?
– Que novidade é essa? — perguntou Astoria, silenciosamente, apenas mexendo os lábios.
Hermione apenas sorriu e disse em alto som, para todos:
– Bom dia.
– Bom dia — respondeu cada um em seu tempo.
– O que vão fazer hoje? — quis saber Astoria.
– A mãe do Rony está vindo dos Estados Unidos — informou Hermione. – Vamos passar o dia com ela, acho.
– Desde quando você e o Rony são amigos? — perguntou Astoria.
Hermione quis se bater. Praguejou mentalmente por ter esquecido tal detalhe. Astoria achava que ela e Draco foram sozinhos para o cruzeiro, curtir os anos de namoro.
Ela sorriu amarelo e respondeu, rezando para fugir do assunto:
– Desde sempre.
Rony pareceu entender, porque interveio:
– Que horas minha mãe chega?
– Dez horas — a castanha respondeu. — Preciso tomar banho.
Comendo dois pãezinhos de queijo e um copo de leite, Hermione pediu licença e se retirou da mesa. Ao passar por Draco, deu um tapinha no peito dele e entrou no banheiro.
Ao encarar a imagem no espelho, gostou do que viu. Seu sorriso iluminava e a deixava com uma expressão de quando tinha doze anos de idade; parecia uma menina levada.
Ligou o chuveiro e... Ah, a água estava perfeita. Nem gelada, nem quente.
Aquele bom humor estava começando a irritar.
Ao sair, foi para o jardim e se sentou na grama, esperando a senhora Weasley chegar ali. Havia um formigueiro ali perto, mas ela não se importou. Deitou na grama seca e encarou a grande árvore que tinha ali, segurando o balanço de pneu. O clima parecia ainda mais quente do que o dia anterior.
Foi quando um táxi parou de frente para a casa e uma senhora de aproximadamente 50 anos adentrou os jardins. Ela vestia uma blusa vermelha e saia. Era gordinha e tinha os cabelos ruivos. Seus olhos e sorrisos brilhavam bondosos de longe.
Hermione sorriu à visão da ex-sogra.
– Senhora Weasley — Hermione berrou, levantando-se e abanando o short, tirando a grama que havia grudado ali.
– Meu Deus, Hermione — a senhora a apertou em um abraço de sufocar. — Você está tão diferente desde a última vez que te vi! Está tudo bem?
– Tudo bem sim, senhora Weasley.
– E essas roupas, querida?
– São de Daphne, uma das hóspedes da pensão.
– E o Rony, querida?
– Está bem.
Assim que a velha tocou no nome de seu filho, os olhos de Hermione brilharam de nostalgia e, assim como havia previsto, não passara despercebido pela senhora Weasley. Molly pegou as mãos pequenas e delicadas da garota e olhou dentro de seus olhos castanhos chocolate.
– Ainda o ama, Mione?
Hermione pensou em mentir. Pensou em desviar o olhar, sorrir para o nada e contar sobre Draco, mas ela sabia que não enganaria aquela mulher. Ela era sábia. Não de matérias como matemática ou química, mas tinha um enorme conhecimento da vida, saberia reconhecer o que era mentira e o que era verdade. Por isso, com um suspiro, Hermione confessou:
– Cada célula do meu corpo.
– Oh, querida. Ele não se lembra de você?
– Esse não é o problema. A Lilá está aqui.
– Aquela cascavel — e se inclinou para frente, sussurrando: — Prefiro mil vezes você com o Roniquinho.
Hermione soltou uma risadinha, mas logo depois olhou confusa para o nada.
– Como posso ter o Rony de novo? — a mais nova perguntou.
– Eu não deveria falar isso, mas aproveite essa perda de memória.
– O que?
– É, Hermione. Não inventar mentiras. Não, claro que não. Estou falando de começar de novo, entende?
– Estava tentando isso.
– Pois continue!
– Paris me trás um ar tão... Romântico!
– Vou à delegacia hoje, explicar todo o acontecido com vocês... Se for possível, porque não ficam por mais um mês aqui? Aproveitando. E, é claro, pagando a dona desta casa pela hospedagem.
– Tudo bem para a senhora deixar o Rony aqui?
– É para o bem dele. Você fazia tanto bem ao Rony, querida... Eu a vejo como uma filha, sabia?
– Obrigada, Molly.
Hermione e Molly entraram na casa, e Hermione foi mostrando cômodo por cômodo. Apresentando pessoa por pessoa. Quando chegaram ao quarto do Rony, onde o ruivo havia avisado que estaria, a senhora Weasley contou até três e pediu para entrar sozinha. Hermione apenas assentiu, imaginando o quanto seria difícil para uma mãe saber que seu filho não se lembra direito dela.
Sentou-se na sala da TV, encontrando Nico Di Ângelo ali. O garoto era esquisito, mas com apenas algumas frases, ele havia se aberto com ela. Não totalmente, mas o suficiente para o início de uma amizade. Não próxima, apenas uma amizade.
– O que está assistindo? — perguntou Hermione.
– Helena de Tróia — ele respondeu, sentando-se ereto no sofá marrom. — Começou agora.
– Atena está morena nesse filme — Hermione fez uma careta, olhando a televisão e se sentando ao lado do moreno.
– Também não gostei disso.
– A Vênus e Hera ficaram perfeitas — opinou Hermione.
– Você fala Vênus – Nico observou. — Prefiro Afrodite.
– Oh, desculpe, é por conta de um livro que li. Conta justamente a história da Guerra de Tróia por personagens secundários.
– Quem?
– Polixena — Hermione respondeu e Nico levantou uma sobrancelha. — Irmã de Páris. Filha de Príamo. Noiva de guerra de Aquiles.
– Eu sei.
– Ah...
Ficaram em silêncio por um bom tempo, apenas assistindo o filme. Aquele silêncio a estava perturbando, principalmente porque internamente ela estava agitada querendo saber o que a Senhora Weasley conversava com Rony. Como seria esse reencontro?
– Mione? — Rony colocou a cabeça no cômodo e a castanha se levantou em um salto.
– Já volto, Nico — avisou Hermione e Nico assentiu.
Ela saiu com passos rápidos, querendo saber o mais rápido possível o que havia acontecido. Ao fechar a porta atrás de si, encontrou a Senhora Weasley com um sorriso cúmplice.
– Imagino que queiram ter roupas de vocês — falou a velha. — Porque não passam a tarde comprando roupas hoje? Tomem um cartão de crédito. Não se preocupem com dinheiro, o valor do cruzeiro foi reembolsado e ainda há uma indenização.
– Roupa? — perguntou Hermione, embora soubesse o que a Senhora Weasley queria: um dia de Rony e Hermione sozinhos. Ela sorriu para a ruiva.
– Sim, roupa, querida. Vão! Imaginem o quanto vai ser divertido. Ainda me lembro quando o Rony chegou em meu quarto pedindo um terno para o baile, o qual ia com você. Passamos a tarde fazendo compras, nós três!
– E o Rony queria ir com aquela gravata ridículaxadrez — comentou Hermione, rindo. — Desculpe, Ron. Você não se lembra...
– Tudo bem.
– Então, queridos, vão às compras — mandou a matriarca e entregou-lhes um cartão de crédito azul.
Hermione e Rony pegaram um táxi antes das onze e meia e pediram, ou melhor, Hermione pediu em Francês, para os deixarem em uma loja boa de roupas e acessórios. Em pouco tempo estavam em uma loja cujo nome era Le 66.
– Meu Deus! — exclamou Hermione. – Isso aqui é o paraíso.
– Ahn... Não são só roupas?
– Só roupas? Tudo bem que não sou tão ligada à moda assim, mas... Isso aqui é incrível. Vamos começar por você, que é mais rápido.
Foram para a sessão masculina e Hermione, segurando a mão de Rony, o arrastou para alguns corredores. Enquanto ele escolhia calças e bermudas, ela olhava algumas blusas para ele.
Uma moça de blusa de seda azul e calça jeans clara foi falar com o ruivo. Rony ficou repetindo “non compreendo” até Hermione chegar e o salvar do mico que pagava.
– Nous sommes Américains, désolé. Nós somos americanos, desculpe – pediu Hermione.
– Pas de problème, puis-je vous aider? Sem problemas, posso ajuda-los?
– Nous allons bien, merci. Si nous devons, appeler. Estamos bem, obrigada. Se precisarmos, chamarei.
– Mon nom est Romilda Vane. Je serai à côté du comptoir. Meu nome é Romilda Vane. Estarei perto do balcão.
Com isso, a moça foi embora e o casal de ex-namorados caminhou até os provadores, com Rony admirando o fato de Hermione saber falar francês fluentemente. A cabine era pequena e a luz acesa demais, entretanto, Hermione sentou-se quieta no banco de estofado preto e esperou Rony se trocar.
Ao sair, Rony vestia uma calça jeans e uma blusa vermelha que possuía no centro um asqueroso olho verde com veias vermelhas por sua extensão. Hermione riu quando Rony fez uma careta engraçada, tentando imitar o olho da camisa.
Com outra calça jeans e uma camisa azul escrita “Keep Calm and Carry On”, Rony começou a dançar Michael Jackson, fazendo Hermione aplaudir de pé.
Ele trocou de roupa, ficando uma blusa bege cujo centro tinha como ilustração um cachimbo e mais abaixo, a frase “Ceci n'est pas une pipe”. Vestia uma bermuda xadrez e tentou fazer uma cara misteriosa, juntando dois dedos e os levando a boca, simulando estar fumando. Como resposta, Hermione mordeu os lábios, sedutoramente.
Quando saiu com a última combinação de roupas, uma calça cinza e uma blusa preta com uma arma carregada no centro, Rony fez uma arma com as mãos e passou a atirar no vento. Hermione abriu a boca em um O e levou a mão esquerda e delicada até lá.
– Porque você não pegou aquela camisa do esqueleto? – perguntou o ruivo, ao saírem do provador, apontando para o manequim masculino.
– Não tinha o seu tamanho.
– Essas camisas criativas parecem combinar tanto comigo.
– Você só usa desse tipo.
– Ei, o que é aquilo?
– Faça sua camisa – Hermione leu a placa. – Talvez seja personalização.
Os dois andaram até o balcão e uma moça loira explicou, em francês, óbvio, que consistia em uma frase “I ♥ ...” onde o cliente poderia escolher a continuação que quisesse. Depois de algum tempo pensando, ele mandou colocar Hermione Granger.
– Por favor, use essa camisa na frente da Lilá – mandou Hermione, sorrindo. – Acho que vou fazer uma eu amo Ron Weasley.
– Falando na Lilá, terminei com ela.
– O que? – Hermione quase deixou cair as blusas que estavam em suas mãos. Um sorriso involuntário se formou em seu rosto.
– Não posso namorar alguém que não sou apaixonado. Não me lembro dela e o pouco que conheci... Que garota escandalosa!
– Pois é. Mas Rony... Você gostava dela. O coração não acelerou nem nada do tipo?
– Não quanto acelera quando estou com você.
Hermione petrificou ao ouvir as palavras do ruivo. Aquilo significava o que ela achava que significava? Não podia ser. Ela virou o rosto para a mulher da loja e mandou fazer uma camisa com o I ♥ Ron Weasley para ela. Enquanto esperava, tratou de olhar para as próprias mãos. Tudo para não olhar seus olhos tão azuis quanto os céus.
Depois de avisar que as blusas deveriam ser pagas no caixa e dar uma sacola de plástico para ajudar Hermione a segurar as peças de roupa, a lojista virou-se para outro cliente e Hermione e Rony foram até a sessão dos sapatos, onde comprariam um par para ele e vários para ela.
Ele logo escolheu uma sandália de plástico masculina preta e um tênis branco, porém ela estava na dúvida entre vários modelos. Pegou sandálias, sapatilhas e vários tamancos, cada um mais lindo que o outro.
– Mione, o que acha desses? – sugeriu Rony, parado em frente a uma sapatilha azul turquesa.
– Chamativo demais.
– E esse salto aí do seu lado?
– Não uso saltos.
– Coloque-os! Gostaria de ver como ficam em você.
– Não.
– Por favor.
– Não.
– Por mim.
– Você é uma peste, Ronald Weasley.
Ela pegou um par de saltos vermelhos e os calçou. Sabia que Rony acompanhava cada movimento seu, mas tentou não ficar nervosa com isso, já bastava não saber andar de salto.
Essa era a verdade: Hermione nunca andara de salto na vida. Quer dizer, ignorando as festas de dezesseis anos de algumas amigas e da sua, a qual tinha que trocar a sapatilha por um salto, ela nunca havia usado salto. A última vez, não saberia dizer quando. Ela desequilibrava facilmente e aqueles eram tão finos e altos! Ela se sentiu poderosa, verdade, mas mesmo assim estava com medo de cair.
– Vem até aqui – o ruivo pediu.
De cabeça baixa, Hermione andou lentamente até o ruivo, que estava a uns cinco metros dela. Estava conseguindo andar, mas quase no fim, ergueu o rosto para olhá-lo e encontrou olhos azuis divertidos vidrados nela. Não conseguiu se concentrar e tropeçou.
Sua sorte foi que aqueles mesmos olhos azuis estavam atentos na garota, de modo que a segurou no exato momento em que ia fazer um encontro feio com o chão. Segurando-a pelos cotovelos, Rony a sustentou para cima, levando-a para um pouco mais perto de si.
– Obrigada – ela murmurou, sentindo o carinho de Rony subir em seu braço.
– Nunca fale quando estiver tão próxima assim de um homem.
– Porque não?
Ele não respondeu.
Apenas fechou os olhos e a beijou.
–-X—
– Esse plano vai dar muito errado – opinou Percy. – E eu não saio daqui sem a Rachel.
– Tem algum plano melhor? – retrucou Annabeth.
– Não. Não falei para não o fazermos, apenas disse que não saio sem a Rachel.
– Pois temos um problema, porque não vou para canto nenhum com uma drogada.
– Então porque vai me levar?
– Porque... Argh, Perseu, não enche.
Ele sorriu malicioso e acariciou a bochecha dela, afastando-se. Enquanto isso, Annabeth bufava. Ele era tão confiante e metido! Aquele jeito metido a gostosão de time de basquete irritava profundamente Annabeth, embora ele não fosse nem jogador de basquete, nem gostosão. O último talvez não fosse necessariamente verdade, mas mesmo assim, Annabeth estava furiosa.
Tivera um plano brilhante para sair dali. Havia um monte de falhas, verdade, mas ela precisava de uma esperança para se agarrar e não deixaria Rachel, uma drogada quase sempre inconsciente, estragar sua fuga.
Porque ela estava querendo ajudar o Jackson, afinal? Ele nunca havia feito nada por ela, apenas lhe causado problemas. Por insistência dele, eles estavam ali.
Não, ela não o podia culpar por isso. Se estava ali, havia concordado com isso, então era tão culpada quanto ele. Além disso, ele a havia salvado de uma queda horrível do telhado. Ela devia isso a ele, inclui-lo em seu plano de fuga, por mais que o moreno fosse um completo idiota.
– Jackson, volte aqui! – ela gritou, dando meia volta. – Meu pai não vai querer pagar sua liberdade. Luna não tem ninguém, preciso fazer isso por ela, também. Eu e Madge sabemos que mesmo que nossos pais paguem, Snow dificilmente vai cumprir sua palavra. Além disso...
– Além disso o que? – ele perguntou.
– Só o fato de que meu pai não pagaria sua liberdade, me faria querer fugir com você – ela murmurou para os botões.
– Eu não tenho ouvido de tuberculoso, Annabeth. O que disse?
– Nada. Não disse nada.
– Já falei que não vou sem a Rachel.
– Você é teimoso demais, Perseu. Ela não vai nem perceber. Morrerá em poucos dias de overdose!
– Não irei sem ela! – ele gritou.
– Pois fique aqui! Morra de mãos dadas a ela. Ou melhor, enfie esse seu pênis nela e morra desse jeito, acredito que os dois adorariam fazer isso.
Diferente do que ela esperava, Percy começou a rir. Ela revirou os olhos, pois já esperava isso. Logo, ela também começou a rir. Estava tão irritada que acabou falando palavras inadequadas. Oh, Deus, ela precisava de um banho de cultura!
– É uma puta sacanagem irmos sem ela – argumentou Percy.
– Ela vai nos atrapalhar, chamar atenção... – ela tentou, mas um olhar suplicante de Percy a fez parar. – Tudo bem. Chame-a aqui.
Demorou algumas horas para Rachel ficar completamente sã e se livrar de toda a dor de cabeça e sono, mas antes mesmo do crepúsculo ela apareceu, com os cabelos ruivos presos em um coque e o esmalte preto comido um pouco.
Annabeth explicou seu plano, que consistia em pular do telhado enquanto os únicos dois seguranças do Snow estavam ocupados fazendo o carregamento de drogas. Esconder-se-iam atrás da casa, mas antes de o caminhão fechar, entrariam ali e se refugiariam, parando em Londres em seguida.
Foi assim que aconteceu. Por incrível pareça, às nove horas do dia seguinte, Rachel não estragou tudo e Luna não ficou encarando o chão, falando sobre as qualidades do pudim.
Annabeth sorria para Madge, com o sangue drenando adrenalina. Tudo que mais queriam era liberdade e agora, finalmente, iam conseguir ter!
– Você nem pense nisso! – Annabeth apontou para Rachel, que olhava fixamente para um pacote à sua direita.
– Não se sente atraída? – a ruiva perguntou.
– Não. Claro que não.
– Não seja tão dura, Annabeth – pediu o Jackson.
Ela revirou os olhos e o resto da viagem seguiu em silêncio. Quando finalmente o caminhão parou, esconderam-se atrás de uma coluna de pacotes e esperaram os rapazes abrirem as portas.
Quando eles o fizeram, o grupo de cinco pessoas presentes ali saltou. Porém, ao invés de correr, Rachel parecia sonolenta. Annabeth praguejou mentalmente, vendo que ela havia consumido um daqueles pacotes.
Quando o mais gordinho, que Annabeth reconheceu ser Goyle, viu os jovens, uma onda de reconhecimento passou por seu rosto e ele tateou o bolso, procurando, provavelmente, uma arma ou algo do tipo.
– Corram! – mandou Annabeth.
Para sorte deles, a arma parecia descarregada. Entretanto, o outro homem foi atrás deles, enquanto Goyle segurava Rachel, que estava jogada no chão. Os pés de Annabeth doíam e ela se perguntou como Percy corria tão rápido, vendo que seu pé ainda estava dolorido. Talvez fosse a famosa força da adrenalina atuando.
– Annabeth, venha! – ele gritou, quando ela parou um pouco o ritmo.
– Meus pés estão doendo!
– Me dê a mão!
– Não vou correr de mãos dadas a você.
– Vai querer brigar agora? Dê-me logo a merda da mão.
Ela se forçou para correr mais rápido e quando seus dedos roçaram aos dedos da mão estendida de Percy, ele as segurou com tanta força que Annabeth foi puxada para frente, forçando-se a aumentar o ritmo.
No meio ao movimento de pessoas, Percy puxou Annabeth para um beco das ruas de Londres. Viu quando Madge e Luna passaram correndo, mas não se preocupou com isso. Percy se jogou no chão, massageando o pé e fazendo uma careta.
Porém, não era isso que Annabeth olhava.
– Que volume é esse na sua calça?
– O que? – ele sorriu.
– Não malicie o que eu falei! O que tem no seu bolso?
– Nada.
– Perseu Jackson, o que tem no seu bolso?!
Ele colocou a mão ali e tirou, timidamente, um pacote de drogas.
– Peguei no caminhão – confessou baixinho, levantando-se do chão com esforço.
– Não acredito! Você é um estúpido! Porque pegou isso?
– Porque eu quis.
– Eu deveria saber que no lugar de um cérebro você tem uma ervilha.
– Quer que em pare de cheirar essas coisas? – ele jogou o pacote nos pés da loira enquanto gritava. – Eu não vou parar!
– Você tem que parar! – ela gritou, mas logo sentiu os olhos arderem e se condenou por ser tão fraca. Ela não choraria novamente na frente dele. Perseu Jackson não merecia uma lágrima sua.
Ele deu um passo a frente e tocou em seu rosto. Ele tinha uma expressão culpada e ela, provavelmente, desesperada. Percy fez um carinho em sua bochecha e ela fechou os olhos, apreciando toque e logo uma lágrima solitária marcou o seu rosto. O moreno a limpou com o dedão e chegou mais perto.
– Eu não consigo parar – ele colocou a outra mão no rosto dela; Annabeth já podia sentir as borboletas se agitando no estômago.
– Por mim, Percy, pare. Eu vou lhe ajudar – ela murmurou. Annabeth tocou em seu rosto com o dedo indicador e só ali Percy pareceu perceber que estava chorando. Ela tirou as mãos dali, constrangida. Percy fez o mesmo com as mãos no rosto dela e deu mais um passo a frente.
Ela podia sentir o hálito de Percy contra seu rosto, como das outras vezes, mas agora era diferente. Não sentia nenhuma vontade chutar suas bolas ou afastá-lo, como quando caíra do telhado. Muito menos estava se sentindo necessitada de juntar seus lábios, como quando o ajudava no banho. Era diferente. Ela se sentia diferente e sentia que ele também estava diferente.
Ela não aguentava mais vê-lo naquele estado deprimente. De depender de algo, querer sair, mas não poder. Outra coisa que contribuía nessa necessidade de ajudar era a culpa. Por causa de uma briga, ele se drogou. Era responsabilidade dela agora tirá-lo das drogas.
Ou será que não? Ele fez o que fez porque quis, não?
Havia uma briga interna ali. Duas Annabeths brigando pelo mesmo coração. Um cheio de ódio, o outro cheio de amor para dar a Percy. Por hora, a parte amorosa falava mais alto. Ela decidiu que não ia virar as costas para ele. Há dias ele deixara de ser apenas um inimigo.
Ela se afastou dele, empurrando-o de leve. Estava completamente confusa!
Percy agora não estava como das outras vezes que havia sido rejeitado. Não estava perdido, como no chuveiro, nem sofrendo, com a mão entre as pernas. Ele parecia cansado, apenas.
– Como pretende me ajudar? – ele olhava em seus olhos.
– Deixe-me ser sua droga – pediu.
Ela se surpreendeu com as próprias palavras, ainda mais vendo que a ideia havia agradado seu corpo, que estava todo arrepiado. Enquanto isso, Percy passava os olhos por todo o rosto de Annabeth e, quando ela esperava uma resposta afirmativa, ele balbuciou:
– An?
– Uma vez lerdo, sempre lerdo... Isso, Percy — Annabeth empurrou Percy no muro à sua direita. – Isso é o que eu quero dizer.
E quando ele se preparou para um soco, ela o beijou.
Sim, ela o beijou e não poderia ter ficado mais maluca. Ao perceber o que Annabeth tinha feito, ele segurou a cintura dela e desencostou do muro, colocando-a ali. Ele pediu passagem com a língua e vendo-se sem opção, ela apenas cedeu. Não tinha mais forças pra dizer não. A garota sentia o muro quente de uma casa ou estabelecimento e sentia um choque em seus lábios. Pareciam dormentes. Ninguém nunca a tinha beijado daquele jeito antes.
– Eu te odeio com todas as minhas forças – ela xingou, irritada, e saiu do muro, andando para longe dele, com passos fortes.
– Eu também te odeio, Aninha! – ele gritou de volta, às suas costas, e Annabeth tinha quase certeza que ele sorria.
Porque era exatamente isso que ela estava fazendo.
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