Aventura
3 Uma gatinha
Olá eu sou o Aventura, tenho a certeza que já me conhecem desde que eu era um simples gatinho malhado, mas agora já sou adulto. A minha mamã infelizmente faleceu, e os meus irmãos e irmãs construíram as suas vidas ao lado de quem eles gostam, (gatos e gatas)… Só eu é que continuo sem parceira, mas quando eles precisarem de mim, sabem que eu estou sempre disposto a ajuda-los!
Eu era o único que continuava a viver com a Esmeralda, com o meu dono e a minha dona (os pais da Esmeralda). Sentia-me sozinho e ás vezes nem ouvia a Esmeralda a ler as suas histórias. Durante as tardes brincava com o Arnaldo, o gato da vizinha. Ele era branco e preto, com olhos verdes. Brincava-mos a muitos jogos: ás escondidas, á apanhada e até aos astronautas! Mas o Arnaldo ficou doente, e eu já não tinha ninguém para brincar comigo…
Então a Esmeralda foi falar com os donos do Arnaldo: “Eu sei que parece loucura, mas o meu gato, Aventura, pode cura-lo!”
Quando ela disse isto eu pensei: “Boa vou voltar á acção!”. A Esmeralda explicou-me a doença do Arnaldo, ele tinha asma, e a única maneira de o curar era trazer um medicamento australiano. Mas a boa notícia era que o vendiam na Europa.
Nesse dia, á noite, os meus donos e a Esmeralda ajudaram-me a preparar a viagem até França! No dia seguinte quando acordei vi que já estavam todos levantados, a Esmeralda aproximou-se de mim e disse-me: “Tem cuidado, eu sei que já fazes isto á algum tempo, mas mesmo assim promete-me que vais ter cuidado!”.
Eu disse que sim, mas a minha resposta não pôs a Esmeralda muito descansada… Saí de casa com o estômago cheio, uma mochila de gato no meu lombo e com muita coragem. Apesar de eu e o Arnaldo não nos conhecemos á muito tempo, ele era meu amigo, por isso decidi ajuda-lo.
Já era de noite, e eu estava tão cansado que parei para jantar uma bolacha antes de dormir. Encontrei um buraquito onde me deitei e adormeci… No dia seguinte acordei esfomeado! Tirei da minha mochila duas bolachitas para o pequeno-almoço, lá perto havia um lago onde eu me lavei e matei a sede. Depois de comer e de fazer a minha higiene segui caminho. Já eram 15horas e 38minutos quando vi uma seta que dizia “Espanha”, era um sinal que eu já tinha atravessado Portugal, por isso ganhei mais coragem para conseguir ultrapassar este desafio!
Passaram três dias, quatro dias, cinco dias... Eu estava estafado, quer dizer mais que estafado, estava quase a desistir quando… Vi a ponta da Torre Eifel! Mas que bom!!
Ganhei logo rapidez e comecei a correr direito a uma farmácia. Avistei uma ao lado de um hotel riquíssimo. Entrei mas o dono da farmácia pôs-me logo na rua… Então eu miei muito alto, e o homem percebeu que se tratava de uma imergência. Tirei da minha mochila um papel que a Esmeralda tinha escrito, o papel dizia:
“Este gato tem uma missão, ele precisa do medicamento australiano para asma. É muito importante! Por favor, é uma imergência. Se não o der, este gatinho fez uma viagem desde Portugal, para nada.”. Quando o homem da farmácia leu o papel e entendeu o que se passava disse-me com um sotaque um pouco carregado: “Lamento mas não tenho esse medicamento”.
Eu fiquei de coração destroçado, onde iria encontrar o medicamento? E se eu não conseguisse? E se chegasse tarde de mais? Estas perguntas não me saiam da cabeça.
Andava ás voltas nas ruas de Paris a pensar numa solução, mas não me ocorria nada. Eu estava a passar pela Torre Eifel quando uma coisa veio a correr na minha direcção, nós chocamos com tanta força que até rebolamos! Depois eu disse: “Vê-la por onde anda! Não sabe que…” De repente eu calei-me, e sabem por quê? É simples. A coisa com que eu choquei era uma linda gatinha cinzenta de olhos azuis… O seu pêlo brilhava como diamantes, os seus olhos cintilavam como cristais e tinha uns bonitos e longos bigodes! Ela disse-me com um bonito miado: “Oh desculpa, eu não fiz de propósito…” A sua voz era como mel, doce, eu estava tão encantado com tanta beleza que demorei a responder: “Han, não faz mal… Eu chamo-me Aventura, e tu?” Perguntei.
Depois de um longo silêncio ela respondeu-me: “Aventura!? Que bonito nome, eu chamo-me Tyara!”
O nome dela era lindo, quase tão bonito como ela… Eu estava cheio de curiosidade a cerca dela, por isso perguntei um pouco tímido, afinal ela podia não gostar que lhe fizessem aquela pergunta: “Onde moras?” Ela calou-se e o seu lindo sorriso desapareceu. Depois disse-me a medo: “Eu…moro…numa casa muito…rica…” Eu fiquei espantado! Claro que uma beleza daquelas tinha de morar numa casa rica, por isso não questionei. Pus-me a pensar… Ela é de França, por isso deve saber onde encontrar o medicamento australiano! Então disse-lhe: “Tyara, podes ajudar-me? Ando á procura de um medicamento para a asma, é australiano.” Ela respondeu de seguida e o seu sorriso voltou: “Sim posso, na verdade conheço uma farmácia que deve vender isso. Nessa farmácia costumam vender todo o tipo de medicamentos, por isso devem vender esse também!” Ao ouvir aquelas palavras a minha coragem voltou, ela podia ajudar-me a salvar o Arnaldo. E se calhar podíamo-nos conhecer melhor, então perguntei: “Óptimo! Podes-me levar lá?” “Sim posso, mas só se for contigo! Sabes não tenho nada para fazer…” Disse-me. Eu fiquei tão feliz por saber que ela queria vir comigo!
Seguimos o caminho muito calados, e foi então que ela perguntou envergonhada: “Se já és adulto já deves ter uma família, não é?” Pelos seus olhos reparei que ela se sentia só, por isso respondi com naturalidade: “Não, na verdade, não. Só os meus irmãos e irmãs é que têm a sua família. Eu ainda não encontrei a gata dos meus sonhos…” é claro que já a tinha encontrado, era a Tyara!
Quando chegamos á farmácia ela disse-me: “Pronto, aqui estamos. Perece que é agora que nos separamos…” Eu nem queria acreditar no que ouvia. Não nos podíamos separar! E se nunca mais a visse? E se ela tivesse namorado? E se ela não gostasse de mim? Estas perguntas andavam a passear pela minha cabeça. E quando olhei a Tyara já não estava lá…
Mas o certo é que a Tyara tinha razão, nessa farmácia vendiam o medicamento australiano para asma. Era de noite e eu ainda estava em Paris, quando vi uma gata. Parecia a Tyara, mas depois pensei: “É impossível ser a Tyara! Ela é riquíssima, não andava a vaguear pela rua durante a noite.” Mas estava enganado, aquela gata era mesmo a Tyara, eu chamei: “Tyara! Tyara! Sou eu o Aventura!” Ela olhou para trás e andou na minha direcção. Depois desse-me: “Olá… O que estás aqui a fazer? Não devias ter ido andando?” Eu respondi: “Sim, mas não fui. Eu queria-te agradecer pelo apoio que me deste. Mas porque estás aqui fora? Não devias estar em tua casa?”
Ela mal conseguia olhar para mim, e disse baixinho: “Eu sou…vadia…” Depois destas palavras a Tyara começou a chorar. Eu estava estupefacto! Então perguntei-lhe: “Porque é que me mentis-te?” Ela olhou para mim e disse: “Eu pensei que gostavas de mim só por eu ser rica…” “Isso é mentira! Para ser sincero acho que…és muito…bonita”
Admiti eu. Ela olhou para mim já com o seu lindo sorriso na cara, Fez-se um longo silêncio, e por fim ela respondeu: “Eu também te acho…muito…bonito…” Eu fiquei tão feliz com aquelas palavras que lhe fiz a seguinte proposta: “Queres vir comigo para Portugal?” Ela ficou radiante, os seus olhos azuis cintilaram como nunca e as suas orelhas macias rebitaram. Ela respondeu de seguida: “Sim sim sim! Oh, obrigada Aventura! És meu melhor amigo!”
No dia seguinte quando acordamos comemos duas bolachinhas e fizemo-nos á estrada. Já eram 17horas e 3minutos quando vimos uma placa que dizia “Portugal”, por isso acelerámos os nossos passinhos para ver se nos despachávamos. Era de noite e nós estávamos estafados, por isso parámos para jantar e dormir.
No dia seguinte acordei em primeiro lugar, a Tyara ainda estava a dormir, por isso fui procurar um lago que estivesse perto. Avistei um ao lado de uma grande casa cor-de-rosa. Olhei para a casa e reparei que era a primeira casa do nosso quarteirão, fui a correr avisar a Tyara e esqueci completamente o lago: “Tyara! Tyara acorda! Já estamos perto! Rápido!!” Ela acordou com um grande salto e disse-me sobressaltada: “O quê!? Moscas! Ratos! Doninhas! O que aconteceu?” Eu expliquei tudo muito bem, e quando acabei ela exclamou: “Mas que maravilha! Vamos arrumar as coisas e correr o mais que conseguir-mos! O teu amigo precisa de ajuda!”
Dito e feito. Nós corremos com tanta rapidez que quando chegamos a casa do Arnaldo as nossas patas tremiam como varas verdes. Virei-me para a Tyara e expliquei o nosso plano: “Ora bem o plano é este! Tu vais a minha casa, aquela ali, e chamas os meus donos. Eu vou a casa do Arnaldo e dou-lhe o medicamento. Alguma dúvida?” “Não senhor. Vamos” Disse-me ela. O nosso plano funcionou na perfeição! O Arnaldo abriu os olhos e olhou em volta, estavam lá todos: Eu, a Tyara, a Esmeralda, os meus donos e os donos do Arnaldo.
No dia seguinte estava tudo normal, á excepção da Tyara, que continuava em Portugal. Eu e a Tyara fomos ter com o Arnaldo, ele parecia bastante melhor: “Obrigada Aventura!” Disse-me. Mas eu respondi logo de seguida: “Também devias agradecer à Tyara. Sem ela eu não teria conseguido, ela é que me disse onde estava o medicamento australiano.” Olhei para a Tyara e vi que estava corada. Era o momento perfeito para lhe dizer o que sentia realmente por ela: “Tyara, acho que chegou a altura de te dizer uma coisa…” “Ai sim!? E o que é?” Perguntou, eu respondi um pouco tímido… OK, muito tímido: “Eu nem sei como dizer-te isto… Pronto aqui vai. Tyara tu inspiras-me, dás-me coragem, esperança e alegria, eu gostava de sentir isso o resto da minha vida. Tyara aceitas ser a minha companheira até que a morte nos separe?”
O seu rosto resplandeceu de alegria e disse-me quase aos gritos: “Sim sim sim, claro que aceito!!”
Na semana seguinte, a minha irmã Lisa veio visitar-me. Ela trazia a sua família, o marido Chico, o filho Leo e as filhas Clara e Lara. Ao vê-la fiquei…bom nem tenho palavras para descrever a minha alegria. Contei-lhe tudo, mostrei-lhe tudo e apresentei-a à Tyara. A lisa e a Tyara ficaram grandes amigas nesse mesmo dia. Brincamos, rimos, e a Lisa contou-nos as histórias das suas viagens, ao Alasca, ao Havai e a Nova Iorque. Já era noite, e eram horas de a minha irmã regressar a casa: “Adeus a todos, Aventura, foi um prazer rever-te. Adeus Tyara, gostei muito de te conhecer. Para a próxima vão vocês lá a casa. Adeus, adeus!” Disse ela. Depois os seus três filhos disseram em coro: “Adeus tio Aventura, adeus tia Tyara.” Eram 3 da manhã, eu e a Tyara fomos para a cama, e ela virou-se para mim e disse-me: “A tua irmã é muito simpática, e os pequeninos são um verdadeiro amor.” “Tens razão, eu estou muito cansado, é melhor ir dormir. Até amanhã, querida.” Concordei.
No dia seguinte, a casa estava um verdadeiro alvoroço, então a Tyara perguntou-me: “Bom dia estava a ver que nunca mais acordavas! Já agora, o que é que se passa?” “Bom dia, é o aniversário da Esmeralda. Esqueci-me completamente! O que é que lhe ofereço?” Respondi. É verdade, como é que eu me pude esquecer de uma data tão importante? Disse á Tyara: “Tens alguma ideia? Não sei o que lhe oferecer…” A Tyara respondeu de seguida: “Porque é que não colhes uma flor?” A Tyara era um génio, dei-lhe um beijo e parti á procura de uma bonita flor.
Aquele dia passou a correr, tal como as semanas, os meses e os anos. A Tyara estava grávida de quatro gatinhos, mais propriamente de três gatas e um gato. Eu amava, amo e vou continuar a amar, a Tyara!
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