Aventura
1 A aventura de um gatinho
Ao nascer da barriguinha da minha mãe não sabia o que me esperava, não sabia o quanto era o mundo cruel.
Mas logo fique a saber, os meus irmãos e irmãs não me deixavam mamar. Eram muitos gatos e poucas mamas, é claro que a minha mamã não tinha culpa disso, mas por fim lá consegui!
Os meses foram passando e eu crescendo, eu era feliz e os meus irmãos e irmãs também. A minha mãe cuidava de nós muito bem e claro que também era feliz; mas certo dia aconteceu uma coisa inesperada, a nossa mamã...tinha adoecido.
Eu fiquei muito triste, e fui espreitar a conversa dos meus donos:
-Tu sabes que a nossa filha adora aquela gata, e os seus filhotes. -tinha dito a minha dona, e era bem verdade ela adorava-nos!
-Mas tu sabes que a cura para a gata é a erva de rapina! – era verdade! A erva de rapina era uma erva especial própria para curar algumas doenças de animais. Quando ouvi “erva de rapina” fiquei logo a pensar numa maneira de salvar a minha querida mamã.
Então fui para a minha cama a pensar numa maneira de encontrar um plano.
O dia nasceu e eu continuava sem um plano, nós não podíamos continuar sem mamar; por isso a Esmeralda, que era a filha dos nossos donos, dávamos leite pelo biberão. Ela tinha 14 anos e adorava dançar, às vezes dançava para nós; mas como a nossa mamã estava doente ela perdeu a vontade de dançar. Eu tinha de arranjar um plano para salvar a minha mamã, então fui em direcção á porta, talvez se fosse lá para fora e apanhasse ar fresco o meu cérebro trabalhasse melhor.
E foi isso que eu fiz, mal pus uma pata fora de casa tive logo uma ideia amalucada; eu não gosto de fugir, mas nesta ocasião era mesmo preciso. Não ia fugir de cobardice, mas sim fugir para salvar a minha mamã; ia buscar a “erva de rapina”.
Ao anoitecer fui para a cama como era habitual, os meus irmãos e irmãs não sabiam de nada; eu nem dei a entender que ia fugir a meio da noite.
Estava a dormir profundamente quando ouvi as 12 badaladas, lembrei-me ” Ah! A erva de rapina, tenho de a ir buscar”, saí da cama devagarinho sem acordar os meus irmãos e as minhas irmãs; e fui até á cozinha:
-Mamã não te preocupes eu vou buscar a “erva de rapina” – disse eu baixinho, e fui em direcção à porta.
Mas havia um pequeno problema…como saia de casa? De repente senti uma corrente de ar, vinha do quarto da Esmeralda; que sorte a janela estava aberta e não era muito alta; por isso consegui saltar. Quando dei por mim estava no jardim, no escuro da noite ouvi uma voz que me dizia:
-Por favor pode sair da frente? Por favor? – disse uma voz muito fininha.
Não sabia o que era, mas saí do lugar onde estava:
-Muito obrigado, sabe é que eu estou muito atarefado! Adeus e obrigado mais uma vez! – tinha dito aquela voz de novo, continuava sem saber o que era ou de onde vinha, mas segui em frente.
O dia estava a nascer e eu continuava a minha jornada sem olhar para traz, já me sentia cansado; então enrosquei-me em cima de uma pedra e dormi um bocado.
Quando acordei já era dia, o sol estava a brilhar tanto que parei para o ver!
Mas não podia parar por muito tempo a minha mamã estava doente e a única cura era a “erva de rapina”; por isso tinha de seguir viagem.
Estava sempre a andar e as patas já me doíam, mas a vontade de salvar a minha mãe era tanta que me dava força para continuar. Lá em casa toda a gente estava à minha procura, não queriam acreditar que um dos gatinhos tão indefeso tivesse desaparecido como por magia! Lá por casa era mistério.
Mas para mim não era mistério nenhum, sabia perfeitamente o que estava a fazer; apesar de não saber o lugar, ou o aspecto dessa tal erva.
O meio da tarde era sempre quente e abrasador, nessa altura eu costumava estar em casa no fresquinho da sala; mas como estava no meio do nada não sabia onde me esconder deste calor. De repente avistei um buraquinho á sombra, e claro que me fui lá meter; mas mal lá entrei começou a chover:
-Que raio! A Esmeralda comentou com os meus donos que ia estar calor!? – Tinha dito eu muito espantado, se chovia? É claro que chovia, mas continuava a estar calor.
No fim de a chuva ter parado segui viagem, ao longe vi uma árvore e aproximei-me devagar:
-Está aí alguém? – Perguntei.
-Está sim, quem é? – Tinha respondido uma voz que vinha de dentro do tronco.
-É um gatinho! – disse eu um pouco assustado, afinal não sabia quem é que estava lá dentro.
-Não me comes? – perguntou aquela vozinha um com tom de assustado.
-É claro que não, eu ainda sou pequenino – estava mais aliviado, pois se me perguntou se eu o comia é porque é mais pequeno que eu.
Quando acabei de falar, uma pequena porta que estava no tronco abriu-se; e de lá de dentro saiu um esquilo castanho e branco:
-Ah! Que gatinho tão querido como te chamas? – Tinha perguntado o esquilo com um certo entusiasmo. Eu não sabia o que responder, pois não tinha nome.
-Bem…sabes eu não tenho nome. – disse um bocado triste.
-Sinto muito! Eu cá chamo-me Zézé! – Tinha dito o pequeno esquilo. Zézé era um nome bonito, mas eu não nem sequer “gatinho” me chamava.
-Diz-me lá Zézé, sabes dizer-me onde fica a “erva de rapina”? – perguntei entusiasmado.
-Sim, sei! Mas porque perguntas? – dizia ele um bocado curioso.
-Sabes, a minha mamã está doente e eu preciso de encontrar essa erva. – expliquei-lhe com esperança de ele me ajudar.
-Podias ter dito mais cedo, não podemos deixar a tua mãe ficar pior do que já está! – Tinha a certeza que ele me ajudaria.
-Então por onde é? – Perguntei decidido, e com força na alma!
-Segue até à “ponte do ferreiro” e depois até ao estábulo. Não te esqueças de cantar! – disse o esquilo.
-Cantar!? Para quê? – Eu estava confuso. Cantar!? Para que seria?
-Depois vês! Agora tenho de ir jantar; adeus gostei de te conhecer! – Exclamou ao mesmo tempo que fechava a porta.
Eu continuava a dar voltas à cabeça, para saber quando era preciso cantar; para quê? Quando dei por mim estava na “ponte do ferreiro”, e comecei a atravessa-la sem olhar para traz. Estava no meio da ponte quando ela começou a abanar sem fim.
-Ah! – comecei a ficar com medo.
-Socorro! – gritei, mas depois pensei; se eu cair a minha mamã não se cura por isso tenho de conseguir!
E com equilíbrio consegui chegar ao fim da ponte:
-Agora tenho de ir para o estabulo. – Revi o que o meu amigo me tinha dito para fazer.
Então fui para o estabulo; à entrada não avistava ninguém, mas entrei.
De repente à minha frente apareceu uma vaca; parecia estar zangada então perguntei:
-O que tens? Pareces zangada!
-É claro que estou zangada à dias que não durmo!! – disse mesmo irritada.
-E porquê? – Perguntei curioso.
-Porque estragaram-me a minha caixinha de adormecer. – Disse a vaca um pouco triste.
Então eu lembrei-me do que o esquilo me tinha dito “ Não te esqueças de cantar!”; e talvez tivesse de cantar para adormecer a vaca:
-Queres que te cante uma canção? – Perguntei.
-Adorava! — A vaca tinha logo reagido.
-O que me dás em troca? – Disse entusiasmado.
-Hum! E que tal a “erva de rapina” – Sugeriu a vaca.
-De acordo! – Meu deus a “erva de rapina”, era mesmo o que eu precisava.
-Vou começar! – preparei-me para cantar…
-Que tal me saí? – Perguntei no fim de ter cantado.
-Lindamente!! Toma a “erva de rapina” adeus! – Disse a vaca emocionada.
Era verdade a “erva de rapina” estava mesmo na minha boca; agora era só voltar para casa.
“MIAO, MIAO” miei eu à porta de casa; a pessoa a abrir a porta foi a Esmeralda.
Ao ver-me com a “erva de rapina” na boca ficou espantada!
-Mãe, pai! O gatinho desaparecido tem a “erva de rapina” na boca! – tinha gritado ela.
Os meus donos vieram logo a correr para a porta:
-É verdade! – disse o meu dono.
-Pois é! – concordou a minha dona.
Cansado como estava fui direitinho para a cama, e quando acordei a minha mamã estava ao pé de mim; sã e salva. Mamei e depois fui ter com a Esmeralda:
-Olá gatinho! Já dei nome aos teus irmãos e irmãs, mas a ti não. – disse-me e continuou.
-Vou-te chamar…Aventura!!!
Que sorte, agora tinha a minha família toda bem; e também tinha um nome...
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