Avatar: A Lenda de Kay
17 A Viagem de Volta
Notas iniciais
A viagem até a Nação do Fogo parecia interminável para o Avatar. Desde que zarparam do Reino da Terra, Kay sofria uma crise de enjôos e náusea. Navegar era deveras seu ponto fraco e parecia também que o mesmo mal acometia seu fiel mascote, Lucky, a topeira-texugo. O oceano além de deixar-lhe tonto, deixava-lhe cego. Para evitar que o pobre animal cambaleasse pelo navio, Kay o segurava pelo braço, tinha a cara tóxica e a cada momento ia a bombordo para vomitar.
— Tsk... Dobradores de Terra... — riam os dominadores de fogo que passavam pelo garoto.
Vários Falcões decolavam da ponte do navio naqueles dias. Levavam consigo a notícia do esperado retorno da herdeira do fogo, Quenever, a Lady Dragão. A princesa herdeira ainda era muito querida e presente no imaginário popular. Alguns diziam que o seu retorno viria quando o novo cometa se aproximasse do planeta. Ela teria poder suficiente para triunfar sobre o reino da terra e fincar a Bandeira do Fogo no Palácio Real de Ba Sing Se. Os que imaginavam tal jornada ficariam decerto desapontados ao ver Quen regressando de mãos vazias, mas o Império insular do Fogo a necessitava mais do que nunca agora.
No alto da torre principal, Tenmo atualizava Quen sobre a situação política da Nação do Fogo. Contava-lhe que seu pai, Senhor do Fogo Linus, estava muito doente, e já fazia alguns anos que os encarregados de fato pelo governo eram os Generais do Fogo, sendo o mais proeminente deles o General Dao Ming, o homem mais rico da Nação do Fogo, proprietário das maiories siderurgicas e estaleiros de navios do mundo. As Indústrias Ming, presidida por Dao e principal fornecedora de materiais do exército, remonta mais de 100 anos atrás, quando a tecnologia dos navios de aço a vapor produziu uma verdadeira revolução em uma época em que até mesmo a fragata da Nação do Fogo era composta por navios a vela.
Dao Ming tinha um plano muito bem executado para a invasão do Reino da Terra. No dia do cometa, ancoraria seus navios na Baía do Camaleão ao oeste do Reino e daí marcharia com um exército até as portas de Ba Sing Se, enquanto na frente leste desembarcaria através de um único navio na costa territorial de Omashu. Este navio era conhecido como o "Vulcão de Aço" Jiajun, uma estrutura monumental que mais parecia uma ilha flutuante de metal que um navio a simples vista. Era a maior criação das Industrias Ming e a arma mais poderosa da história segundo prometia o próprio Dao Ming.
— Então são verdadeiros os rumores sobre esse tal de Jiajun...
— Milady, esses rumores disseminados pelo General Ming são um grande insulto a Vossa Graça! Dispositivos de aço e máquinas jamais superarão a nobre arte da dobra de fogo. Não há mais poderosa arma na nação do fogo que a maior dominadora de fogo de todos os tempos, você Milady — disse Tenmo de maneira inflamada, Quen deu um riso debochado.
— Dao Ming certamente se aproveitou do seu desaparecimento para convencer a nação do seu novo "trunfo" para o exército. O que não concorda com a postura que a honra exige de um general — disse o embaixador com um tom formal.
— Embaixador, sei que sua intenção foi lisonjeadora, mas sempre odiei ser vista como uma arma de guerra e sinto que, a exceção de uma pessoa, foi assim que todos me viram durante toda minha vida, até mesmo meu pai — disse Quen séria, Tenmo ficou absolutamente pálido.
— Perdão milady, eu... — gaguejou o homem.
— Tudo bem — disse Quen e se levantou da mesa para gritar na janela — Kay, suba agora!
Kay se mantinha a bombordo da embarcação abraçado a Lucky com muita náusea.
— Já vou... — balbuciou o Avatar e logo se pôs a subir as escadas com um andar vacilante.
— Então Dao Ming tem cada vez mais influencia para alçar-se sobre autoridade do meu debilitado pai, não? Surpreendo-me se ele já não estiver articulando uma manobra para se tornar o novo senhor do fogo agora mesmo — continuou Quen pensativa.
— Nunca, absolutamente nunca. Jamais um não-dominador poderá alçar-se ao trono, milady! Os cidadãos de bem da Nação do Fogo jamais permitiriam! O povo se lembra de vossa graça com muito carinho, a dinastia dos Lordes do Fogo perdura já há séculos, um aventureiro não-dobrador nunca poderá usurpa-la — disse o Embaixador outra vez inflamado.
— Não-dobrador huh? — murmurou Quen ainda mais pensativa — Embaixador, temo que já esgotei demasiado seu tempo por hoje. Obrigada pelas informações.
— Milady, eu quase esqueci. Deveria mandar um falcão para o mestre Yani também? — disse Tenmo quando já estava por descer as escadas encontrando o moribundo Kay que as subia.
— Não será necessário — disse Quen de forma direta.
— Tudo bem, com licença, milady — susurrou o Embaixador antes de fazer uma reverência e abandonar o recinto pelas escadas.
— Pelas barbas do Dragão! Você não se acostumou ainda com a viagem? Você é o avatar, garoto, não me decepcione tão cedo — disse Quen ao ver a cara destruída de Kay.
— É tudo tão longe da terra firme... Eu e Lucky... Odiamos água... Acho que vamos morrer — balbuciou Kay de forma confusa, baba escorria pela sua boca.
— Crie força! Esteja seguro que você enfrentará coisas mais terríveis que um navio oscilante.
Kay então se colocou de forma mais aprumada limpando a boca com o braço.
— Bem, eu lhe chamei para falar sobre outra coisa.
— Está tudo bem não mandar um falcão para seu irmão? Segundo entendi faz muitos anos que vocês não se vêem — comentou Kay preocupado.
— Eu e meu irmão temos outra formas para nos comunicar, Kay. Mas indo para o assunto que nos importa, queria falar com você sobre o seu disfarce quando chegarmos em casa.
Quen explicou que assim que estiverem só no palácio real e o embaixador e sua tropa zarparem de volta para o Reino da Terra, Kay assumiria a identidade de um servo de Quen que busca ser um dominador de fogo. Como servo ele poderia residir no palácio real e ter aulas de dominação em segredo com a princesa. Não obstante, Quen alertou Kay que estaria muito ocupada nos próximos dias já que a Nação passava por diversos processos burocráticos com a iminente guerra a caminho e Quen temia que apesar de ser a princesa legítima do trono, teria que fazer articulações sólidas para parar as ambições do General Ming de destruir o Reino da Terra.
Enquanto isso Kay não poderia atrair nenhuma atenção para si. Conforme explicou Quen, a Nação do Fogo era um local tão perigoso quanto o Reino da Terra para revelar a identidade do avatar, a única vantagem ali é que Kay poderia dominar o fogo sem atrair muita atenção, mesmo assim, suas aulas com Quen deveriam ser mantidas em segredo para não despertar nenhuma desconfiança de que a princesa encontrou o novo avatar. A versão deles a partir de agora seria que Quen decidiu tomar Kay como servo quando este lhe foi útil durante sua vinda no navio do embaixador, mas Kay trabalharia como mais um dos servos do palácio real para não gerar a suspeição que ele tinha algo pessoal com a princesa.
— Eu fico imaginando... Que tipo de lugar será a Nação do Fogo.
— Em breve você verá garoto, em breve você verá...

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