Ava & Os Bluebirds
4 Três
Ruffles caiu de cima da cômoda cor de tabaco da televisão, se atrapalhando ao tentar pegar a bola de tênis que rolou para perto da cama de casal baixa de Theo encostada horizontalmente na parede branca.
— Gato idiota – ele resmungou, voltando a prestar atenção ao seu violão preto todo riscado por conta das unhas do felino. Sentiu o gato siamês fincar as unhas em sua perna coberta pelo jeans escuro, fazendo-o grunhir de dor – Que merda! Natalie! Quando é que a Holly volta?
Ouviu a risada da mulher sendo abafada pelas paredes altas da casa, e revirou os olhos, pensando em como ter uma mãe quase nova demais para ser sua mãe era complicado às vezes. Ela fez barulho ao atravessar o corredor do segundo andar com seus saltos finos e desconfortáveis, dando a Theo a convicção de que estava prestes a entrar em seu quarto. Natalie era dona de uma beleza fenomenal, além de um sorriso estonteante. Os cabelos da mulher de trinta e oito anos eram da cor do fogo, além de brilhantes, sedosos e compridos. Seus olhos eram verdes e brilhantes, grandes e mergulhados em uma animação que não era muito vista no rosto de Theo, mas sim no de Holly, a irmã um ano mais nova do ruivo. A face da mãe era quadrada e completamente livre das rugas, fazendo com que os amigos de Theo – principalmente Owen – chorassem rios pelo fato de aquela mulher ser mãe dele.
Isso não é nem um pouco justo, pensavam os meninos quando estavam na casa dos Goodman e a viam saindo para trabalhar. Como Theo ousava ter uma mãe daquelas? Owen sentia-se inútil ao lado de Natalie pelo simples fato de senti-la tão perto, mas ao mesmo tempo, tão longe.
— Por que a raiva do Ruffles? – perguntou ela ao botar um pé para dentro do quarto do filho, franzindo as sobrancelhas claras.
A mãe de Theo era dentista e sabia muito bem fazer jus ao seu trabalho quando abria um sorriso. Os meninos nunca pensaram ter visto um sorriso tão perfeito quanto o da bela ruiva de olhos verdes.
— Ele fica me mordendo, mãe. Odeio esse gato. – Theo fez questão de cuspir as palavras na cara do felino, que o ignorou completamente, trocando-o pela bola de tênis esverdeada.
— Que pena, sua irmã só volta depois do Ano Novo – a ruiva deu de ombros e jogou seus cabelos amorangados na direção de Theo, que bufou alto – Foram dois anos, já era pra ter acostumado! – gritou antes de voltar a andar pelo corredor branco em direção ao seu quarto.
O britânico respirou fundo e repousou seu violão Carvin que antes fora de seu pai, mas este resolveu dá-lo a Theo quando montou seu próprio closet repleto de guitarras e violões de diversas marcas como Rickenbacker, Fender, Les Paul... o sonho de qualquer músico, mas que ficava em Manchester, na Inglaterra, local onde Simon (pai de Theo) atualmente morava, e onde Holly, sua irmã, se encontrava naquele instante, fazendo um intercâmbio de dois anos para uma das melhores escolas da Inglaterra. Sentia falta da irmã, mesmo tendo Natalie para preencher o vazio, mas que nem sempre estava em casa por conta das consultas de durações infinitas. Holly era descontrolada e completamente impossível de ser domada, assim como a mãe, enquanto Theo se assemelhava mais com seu pai por conta da tranquilidade e da ranzinza encontrada em ambas as faces pálidas e acentuadas pelos cabelos amorangados.
— Theo, já estou indo! – Natalie vociferou enquanto descia as escadas em direção a enorme sala de estar dos Goodman. – Tem alguns hambúrgueres no freezer, no caso de você sentir fome.
— Tchau – Theo gritou em resposta, franzindo as sobrancelhas para o teto branco e iluminado pelo pôr-do-sol da Califórnia. Sentia os ventos salgados entrando pela sacada aberta, e aquilo o incomodava de certa forma. Não gostava do clima quente de Newport Beach, muito menos das praias escaldantes e do fato de sua pele sempre ficar avermelhada por conta da intensa exposição ao sol. Sentia falta do frio da Inglaterra, e em alguns momentos desejava voltar para lá, depois de nove anos fora. Mas ao considerar a possibilidade, não sabia não pensar imediatamente em seus amigos, e de como gostava da vida no Condado de Orange, mesmo detestando o calor.
É, não sairia de lá tão cedo.
Levantou-se em um salto, procurando pelo seu celular ao perceber que estava completamente entediado e o fim de semana estava a meio passo de distância. Queria ligar para Angus e para os outros, perguntar a eles se por um milagre daria certo eles praticarem alguma coisa juntos naqueles dois dias livres, mas já sabia a resposta. Ninguém na banda sem-nome sabia algo sobre escrever músicas, e por um momento parecia que ninguém se importava, o que deixava Theo tremendamente irritado. Todos haviam se comprometido com o desafio de tornar aquilo concreto e irreversível, mas percebera que nada daquilo realmente aconteceria se continuassem naquele ritmo ridículo.
Theo também não se sentia no direito de reclamar muito, já que não sabia como criar uma música sem pegar referências de outras de seus maiores ídolos, como Bruce Springsteen e John Lennon. Sempre que se sentava para escrever algo decente, compunha versos que de algum modo misturavam letras de músicas como Stairway To Heaven, Civil War e Imagine. E por ser naturalmente aborrecido com tudo, desistia, jogando o caderno para o lado e se controlando para não chutar tudo a sua volta, o que podia incluir até mesmo Ruffles, que adorava ficar em seu caminho.
Acordou de seus pensamentos ao ouvir seu celular tocar, e tirou as almofadas da cama para ver se o encontrava por ali. Sem sucesso, percorreu o seu quarto, andando em círculos ao tentar seguir a direção e o sentido do som, o que o fez encontrar o aparelho dentro de uma gaveta de sua mesa de escritório preta. Não se surpreendeu ao ver o nome de Angus na tela do seu celular, e apertou o ícone verde depois de entortar a boca.
— Já ia te ligar, eu... –
— Não, não! Não fala nada – a voz de Angus estava mais desesperada do que o normal, fazendo Theo pensar que alguém havia tomado um tiro ou algo parecido. – Só me ouve.
— Tá tudo bem?
— Cara, só me ouve!
— Eu já tô te ouvindo, Angus – ele rosnou – Vai falar ou não?
Silêncio do outro lado da linha. O garoto de cabelos amorangados revirou os olhos, batendo um pé no chão coberto pelo carpete cor de creme. Quando era assim, o assunto era Ava, algo que Theo literalmente não precisava e nem queria saber.
— Tenho uma música pronta.
Ele não conseguiu deixar de arregalar seus olhos verdes.
— Defina ter e pronta.
O moreno de olhos negros bufou alto no telefone, ensurdecendo Theo por alguns segundos.
— Eu escrevi uma música dois dias atrás.
— E como isso aconteceu?
Angus hesitou.
— Eu estava inspirado.
Theo franziu as sobrancelhas ruivas, sem acreditar no que estava ouvindo. Sabia que Angus era frustrado em escrever algo para a banda, mas não tinha ideia de que ele seria o primeiro a apresentar a primeira música para o resto do grupo. Na verdade, estava contando com Lisa por ela ser um pouco mais... sentimental e sensível do que os outros.
Ok, nem tanto quanto Angus.
É, só tinha como ser ele.
— É tão difícil assim de acreditar? – o garoto do outro lado da linha perguntou com um tom debochado em meio a um sorriso torto perceptível.
— Não tanto – Theo respondeu rapidamente, sentando-se na cama e observando Ruffles, que se espreguiçava no meio do carpete de seu quarto. – Ok, eu quero ouvir ela, chego aí em vinte minutos.
∆∆∆
Ao estacionar sua bike em frente à casa de tintura amarela de Angus, Theo logo viu o Mini Cooper azul-marinho de Lisa parado do outro lado da rua, atrás do Chevrolet Vega 1974 preto do irmão de Owen, de quem o garoto havia roubado o carro naquela tarde. Theo sorriu torto com a imagem do Vega, imaginando a cara do irmão mais velho de Owen ao entrar na garagem e perceber a sua vaga vazia.
— Você quer mesmo foder com o seu irmão – murmurou sozinho, se referindo ao amigo e repousando um lado da bike no canto da pequena grade preta que compunha a frente da casa de Angus. Os garotos nunca gostaram de Ângelo, e adoravam ver Owen sacaneando seu irmão mais velho, que sabia muito bem como ser inconveniente e arrogante em momentos confortáveis e divertidos. Às vezes até mesmo aprontavam para cima dele, pois vê-lo humilhando Owen era algo inadmissível para todos do grupo (até mesmo para Lisa, que confessava achar Ângelo uma graça.)
Theo abriu o portãozinho da entrada da casa dos Jenkins, andando preguiçosamente pelo trajeto decorado com pedras brancas por cima da grama viva e reluzente. O sol estava quente naquele final de tarde, mas tal fato não fez Theo desistir de vestir uma camiseta de manga longa e cinza-escura, junto de calças pretas e sneakers também acinzentados e bem sujos.
Ele não tocou a campainha ao ficar de frente com a porta preta dupla de janelas centralizadas, sabendo que esta já estaria destrancada e que ele tinha permissão total para entrar e sair daquela casa quando quisesse. Conhecia Angus há tanto tempo que Audrey e Benedict já o haviam adotado, e o adoravam como se ele fosse irmão mais velho de Angus, mesmo eles tendo a mesma idade.
Subiu os dois degraus do hall de entrada da casa, saltando no segundo degrau da escada curvilínea, e subindo-a com rapidez. Já conseguia ouvir a conversa alta dos amigos no quarto de Angus, junto das risadas frenéticas de Owen, que não sabia mesmo como se controlar. O ruivo atravessou o corredor de paredes brancas e portas de mogno escuro, chegando ao último quarto e abrindo a porta com indelicadeza.
Angus estava encostado em sua estante de livros, enquanto mantinha Tonkin em seu colo. Ele vestia apenas a calça jeans que usara no colégio naquele mesmo dia, parecendo um pouco desconfortável com o calor. Lisa tomava conta de sua cama, ela tinha um pequeno sorriso no rosto e deitava desajeitadamente, fazendo com que seu vestido branco deixasse boa parte de suas coxas magrelas e pálidas à mostra. Blake sentava-se na extremidade esquerda do colchão, apoiando os cotovelos nos joelhos e rindo histericamente junto de Owen, que parecia estar completamente sem ar há mais de dois minutos, enquanto se sentava na cadeira de couro preta de Angus. Seu rosto estava vermelho e seus olhos lacrimejavam sem parar.
— Perdi alguma coisa? – aquela fala de Theo fez Blake soltar um berro e se jogar na lateral da cama não ocupada por Lisa, sendo um tanto quanto exagerado demais para a sua personalidade controlada. Ela ergueu os olhos para aquela cena, mal reconhecendo seu próprio namorado. – Ok, vou fingir que não. – concluiu, fechando a porta logo atrás dele.
— Eles acabaram de chegar, estão zoando com a minha cara – Angus bufou com os olhos voltados para os próprios joelhos.
— E por quê?
— Porque eu liguei pra eles depois que liguei pra você – ergueu as sobrancelhas, rindo de si mesmo – E daí que estão inventando letras pra música que eu escrevi.
Theo deu um sorrisinho debochado.
— Vocês já ouviram?
Lisa riu secamente.
— Como se ele quisesse mostrar antes de você chegar – ela se ajeitou na cama, sentando-se com as pernas em forma de borboleta. – Depois ninguém sabe o porquê de eu achar que vocês namoram escondido.
— Você só fala merda, Lisa – Angus resmungou, revirando os olhos negros pra amiga.
Theo apenas ignorou a garota, sentando-se ao lado de Angus e flexionando seus joelhos.
— Cadê?
— Cadê o quê?
— O meu beijo – a sua seriedade ao dizer aquilo fez com que Owen e Blake parassem de rir imediatamente, e Lisa deu um risinho sofisticado e constrangido. – A música, idiota, onde você escondeu?
Gus lambeu os lábios, repousando Tonkin no pedestal ao seu lado e se levantando desajeitadamente, enquanto demonstrava apreensão. Todos dentro daquele quarto sabiam que ele acabaria sendo o compositor da primeira música da banda, mesmo o garoto nunca demonstrando tantos dotes poéticos, apenas matemáticos. Pois bem, estavam errados, Angus também era bom na poesia.
Ele caminhou até o criado-mudo ao lado direito da cama, retirando da primeira gaveta o mesmo caderno de notas que havia usado duas noites atrás com Ava. Seus dedos tremiam e sua pele congelava – mesmo ele suando e estando quase quarenta graus em Newport Beach naquele final de tarde. Passou por algumas folhas rabiscadas, sentindo o silêncio dos melhores amigos esmagando seus pulmões.
Olhou por um momento para os versos passados a limpo com sua letra rabiscada e totalmente corrida. A música ainda não tinha nome, mas Angus sabia que este seria providenciado logo. Se Ava abrisse a janela novamente.
Dois dias. Por dois dias Angus não teve mais vista do quarto de Ava e nem do rabo de Yoko passando de um lado para o outro. Não teve mais o prazer de ver a vizinha girando pelo quarto em plena madrugada, revirando os cabelos bagunçados enquanto balançava a cabeça com suas músicas, que na maior parte do tempo eram melancólicas e serenas.
— Cara, você tá vivo?– Owen franziu o rosto na direção do primo, que parava em pé com o caderno de notas na mão por quase dois minutos, e em completo silêncio.
Gus piscou várias vezes, acordando de seu transe e virando-se para encarar Theo, que tinha os olhos congelados em seu rosto atordoado.
— Não sei se vocês vão gostar, mas é o que... –
— Angus – Lisa interrompeu, balançando a cabeça negativamente – Sem prólogos, por favor.
— Por que não vamos lá pro porão? – Owen encostou-se à cadeira macia de couro preto – Daí a gente fica mais à vontade.
Blake virou suas íris esverdeadas na direção do amigo.
— Você é folgado, hein.
— Meu primo, minha casa, Blake.
Angus abafou uma risada sarcástica.
— Não vai dar, minha mãe e eu estamos pintando as paredes, e ainda não tá pronto.
Owen revirou os olhos negros.
— Faz quanto tempo que você tá pintando esse bendito porão?
— Bastante tempo – ele riu da sua própria maneira de descontrair a pressão em cima de seus ombros. Estava tão nervoso quanto quando estava prestes a ver Ava na escola, e sentia seu almoço e lanche da tarde percorrendo o caminho de volta pelo seu esôfago, chegando à laringe e queimando suas mucosas. Tentou engolir aquela sensação desagradável, voltando a se sentar no chão, agora encostado em sua própria cama.
— Theo, pega a Tonkin pra mim.
Blake bufou uma risada ao ouvir o nome do violão.
— Não acredito que você ainda chama esse violão de Tonkin.
— Você ainda dorme com o seu urso de pelúcia, Blake – ele ergueu as sobrancelhas – Ou acha que eu me esqueci do Pereba?
Lisa berrou uma risada fora do seu normal.
— Meu Deus, o Pereba! – ela colocou uma mão na boca enquanto segurava as gargalhadas – Eu não acredito que você ainda tem ele e não me contou, Blake! – a namorada deu um tapa no ombro ossudo do garoto de cabelos cacheados e castanhos, fazendo-o cobrir o rosto de constrangimento.
— Golpe baixo, Gus – ele murmurou sem olhar para o amigo, que ria levemente da situação – Eu só queria dizer que o Pereba é da família, não é justo me livrar dele, tá legal? É como se eu tivesse me livrando da minha mãe.
— É só um urso – Owen não se conteve em contrariá-lo.
— Um urso que não me julgava quando eu fazia xixi na cama.
Owen apontou para a cara de Blake, rindo histericamente e inclinando seu rosto para o teto, enquanto Theo apenas cruzava os braços e dava algumas risadas discretas, mas que deixavam seu rosto vermelho por conta da força que ele fazia para elas não saírem do controle.
— Ok, chega de bullying – disse, apontando para o melhor amigo com a cabeça – Anda, Angus.
O dono da casa engoliu em seco.
— Tudo bem, espera – ele olhou para o caderno de anotações repousado ao seu lado, tentando memorizar a sequência de notas. Ele já havia as gravado em sua mente há muito tempo, só não queria que nada o atrapalhasse na hora de mostrar o trabalho para os amigos. – Tudo bem... tá. Tá. – repetiu, sentindo o nervosismo tomar conta de todo o seu corpo.
O rapaz de olhos negros e cabelos castanho-claros começou a dedilhar as cordas de Tonkin, calando os amigos com bastante facilidade ao fazer com que a melodia ressoasse pelos acordes. A música não era nem muito lenta e nem muito agitada, e ao contrário do que eles haviam pensado, não era ruim.
Na verdade, era ótima.
A voz grossa e rouca de Gus tomou conta do quarto de paredes brancas, cantando sobre alguém esquisito o bastante pra fazer com que ele se apaixonasse. Sobre saias longas e largas, cabelos esvoaçantes e o silêncio da madrugada, que não era tão silenciosa por conta das vozes que o perseguiam à noite, mas que faziam com que ele não se sentisse tão sozinho. Aquela música era uma mistura de sentimentos, uma mistura de momentos da vida de Angus, e que antes não eram completamente compartilhados com os melhores amigos dele.
Pois bem, talvez aquela fosse a melhor hora.
Mas o que mais se destacava na música era sim a parte em que todos daquele quarto sabiam que falava sobre Ava. Ele demonstrou a garota como uma figura poética idealizada e arrasadora, uma deusa grega, que durante o dia era calada, e durante a noite era despertada pela ação da solidão e do silêncio. Uma garota cheia de alma, sonhos e romances; cheia de segredos, ambições e sofrimento.
Uma garota cheia de vida.
Por meio daquela música, Angus deu à figura de Ava um brilho maior, um destaque além do que Owen, Blake, Theo e Lisa achavam que ela merecia. Mas havia ficado tão bom que todos simplesmente ignoraram, deixando aquilo em aberto, pois o garoto parecia sentir tanto aquelas notas tocando o seu coração, que interrompê-lo no meio de uma quase declaração seria de uma maldade imensurável.
Ele tocou as últimas notas e calou-se rapidamente, abaixando o rosto e esperando alguém dar a primeira opinião. Owen tinha os ouvidos atentos, como se Angus houvesse apenas parado para um descanso, Blake encarava o amigo de olhos negros com as sobrancelhas erguidas, tentando raciocinar com o fato de Angus ser o novo E.E. Cummings daqueles tempos. Theo permanecia de braços cruzados, direcionando seu olhar um pouco cabisbaixo para o carpete de Angus, enquanto tentava pensar em algo além daquela letra que, querendo ou não, havia ficado bem melhor do que as suas versões baratas de músicas como Don’t Cry. Na verdade, estava além do que ele esperava, precisando somente de alguns ajustes na cifra, mas isso ele e Angus poderiam fazer depois.
Surpreendentemente, quem foi a primeira a dizer algo foi Lisa.
— Você tá brincando comigo, não é, Angus?
Ele franziu as sobrancelhas castanhas na direção da tecladista.
— O que você quer dizer com isso?
— Eu quero dizer que você é muito egoísta – ela cuspiu entredentes, cruzando os braços e desafiando Angus com os seus olhos também negros – Nós queríamos uma letra pra banda inteira, e não só pra sua situação com a bonequinha vodu.
— Lisa, por favor... – Theo tentou interferir com a sua falta de paciência, mas resolveu desistir logo de cara ao ver que Angus estava pronto pra revidar aquele novo adjetivo que ela havia dado para Ava.
— Qual é o seu problema com ela?
— Nenhum! – Lisa exclamou em resposta, dando um riso completamente nervoso – O meu problema é com essa letra.
— Mas tá ótima! – Owen se intrometeu, olhando diretamente para Lisa, ignorou o amigo ao revirar os olhos – E, além do mais, é a nossa primeira música, Lisa... –
— Qual é, Lizzie, nós adoramos – Blake tentou mudar a opinião nada convincente da namorada com cautela e delicadeza – Não tem nada de ruim na letra, aliás, eu gostei muito, Gus, acho que devíamos usar ela.
Angus ergueu as sobrancelhas para a fala de Blake, não esperando que o amigo fosse falar algo parecido. Quer dizer, tinha certeza de que ele seria o primeiro a criticar a sua atitude.
— Valeu, cara – respondeu com um sorriso fraco, porém sincero.
— Na verdade, a única egoísta aqui é você – Theo se referiu a Lisa, não conseguindo ficar quieto diante daquele julgamento. – Por que não escreve alguma coisa melhor, então?
Ela virou o rosto na direção do ruivo, parecendo quase espantada com o que ele havia dito. Até mesmo Angus surpreendeu-se com o melhor amigo, pensando que Theo ficaria quieto, já que odiava intrigas por coisas idiotas.
— Porque eu não sou sua escrava.
Owen arregalou os olhos para aquela frase, chegando a dar uma gargalhada nervosa em direção a Angus, que apenas franziu as sobrancelhas sem tirar os olhos dos dois, que se encaravam avidamente.
— Mas foi você quem sugeriu que cada um escrevesse sua própria música – Theo indagou com o seu sorriso mais irônico – Você não fez isso.
— Ninguém fez.
— O Gus fez.
— Ei, vocês – o próprio exclamou em resposta, levantando-se rapidamente e ficando diante dos dois amigos – Eu sabia que isso ia acontecer. Theo, não adianta brigar com ela, e Lisa, se nós queremos algum tipo de reconhecimento, a gente precisa de uma primeira música.
— Gus – ouviu Owen chamar.
— Agora não, cara – ele estendeu uma palma na direção do primo – O que eu quis dizer é que essa música surgiu do nada, às duas da manhã. Não é a música mais elaborada do mundo, mas é o que a gente tem por enquanto... –
— Angus – o garoto de cabelos e olhos negros chamou com mais intensidade, fazendo Angus bufar.
— Não deu pra perceber que eu tô tentando falar com a Lisa? – ele disse, aumentando seu tom de voz – Espera!
— Mas... –
— Eu sei que você pode esperar.
— Ele pode – Blake interrompeu – Mas ela, não.
Angus virou o rosto para os dois, vendo que ambos estavam em frente à sua janela, forçando as persianas para baixo ao tentar ter uma visão do quarto de sua vizinha.
— O que foi? – perguntou inconscientemente.
— Ela abriu a janela – Owen olhou de relance para o primo, voltando sua atenção para o vidro.
Gus piscou várias vezes, esbarrando nos amigos e aumentando o espaço entre as persianas com os dedos. Lisa grunhiu alto, revirando os olhos e cruzando os braços por cima do vestido branco.
Theo aproximou-se de Owen e Blake passivamente, tentando ter alguma visão da garota de olhos azuis.
— Abre essa cortina, Angus – Owen soltou uma lufada de ar.
— Mas ela vai ver...
— Não vai coisa nenhuma! É só abrir com calma – Blake estava tão curioso, que conseguia sentir seus joelhos tremendo – É melhor outra pessoa fazer isso, o Gus é um retardado na hora de ser delicado. Theo?
— Por que você não faz?
— Porque tenho trauma de persianas.
— Besteira – cuspiu o ruivo em meio a uma risada debochada.
— Eu falo sério, meu pai puxou uma dessas na minha cara quando eu era menor – o garoto de pele morena e olhos esverdeados disse, erguendo suas sobrancelhas ao tentar exagerar a história.
Owen gargalhou.
— Isso me lembra de como você sempre foi um idiota.
— Vá se foder, Owen.
— Calem a boca – Angus cuspiu.
A única garota do quarto encarava aquela cena com desprezo, ficando completamente em silêncio para ver se eles ainda notavam a presença dela ali, sentada naquela cama, com aquele vestido branco e bonito. Até mesmo Blake estava lá, lutando por uma vista decente do quarto de uma garota esquisita e completamente desconhecida, enquanto ela, sua namorada, estava deitada em uma cama.
Aquilo era inacreditável.
Theo decidiu puxar a persiana, levantando-a com destreza e rindo não só do desespero de Angus, mas do dos outros, que se esbarravam para pegar o melhor ângulo daquele lugar. Ele mesmo também empurrava o corpo de Blake para o lado, tentando encaixar-se em frente à janela. O quarto dela estava com a porta fechada, mas Angus tinha certeza de que a garota estava ali em algum lugar. Ela nunca saía de lá, nem mesmo quando ficava sozinha em casa – o que era raro, pois Dakota nunca estava em outro lugar a não ser dentro de seu próprio lar.
— Acho que alguém abriu a janela pra ela – Blake concluiu.
— Não – o dono da casa respondeu – Ela tá ali sim, eu sei que tá.
Foi quando viram o rabo de Yoko atravessando o quarto, e Owen deu um passo para trás, espantando-se ridiculamente.
— Que porra foi aquela?!
— Foi a Yoko – Angus sorriu torto. – A cadela de Ava.
Blake abafou um riso.
— Yoko – repetiu, balançando a cabeça várias vezes – Quem coloca o nome da esposa do John Lennon em uma cadela?
— Ela – Theo cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha ruiva – Mas faz sentido, Yoko era mesmo uma cadela.
— Parem de merda – o primo de Angus resmungou alto.
De repente, Ava imitou Yoko, atravessando o quarto lentamente, como se soubesse que estava sendo vigiada, e não se importasse com aquilo. Como se quisesse ser vista por alguém, mesmo não fazendo ideia de que quatro garotos paravam em frente a uma janela só para observá-la daquela forma. Ela tinha um vestido azul com flores vermelhas em seu corpo, e seus cabelos – como sempre – estavam soltos e amassados. A garota mexia em algo parecido com uma coleira, que obviamente pertencia à Yoko, e estava distraída demais para notar oito olhos acompanhando todos os seus movimentos.
Alguém bateu na porta dela, e Ava logo foi abri-la, revelando Aaron Bennett adiante. Ela virou de costas para o irmão de cabelos loiros, enquanto este parecia dizer algo, mantendo a expressão serena e tranquila.
— Aaron Bennett? – Owen pareceu surpreso.
— Não sabia nem que eles conversavam – Blake murmurou em resposta.
Angus entortou os lábios grossos em um bico.
— É... não dá pra acreditar, mas eles se falam bastante.
— Pra mim, ele nem sabia que ela era sua irmã – Theo bufou seriamente.
Owen deu uma gargalhada sem humor, vendo Ava fazer o contrário e rir exageradamente, mexendo em seus cabelos ressecados com as mãos e passando-os de um lado para o outro, enquanto conversava com o irmão um ano mais velho. O primo de Gus sentiu seu pulmão falhar ao vê-la rindo daquela forma, parecendo feliz, e gentil, e meiga, e humana, e bonita com seus ombros curvados, seus olhos azuis e seus seios e quadris escondidos por baixo de todo aquele pano estúpido.
— Caramba – ergueu as sobrancelhas – Aquela é mesmo Ava Bennett?
Angus lambeu os lábios carnudos e franziu as sobrancelhas, virando o rosto para encarar Owen por alguns instantes.
— É sim, é ela.
— É só que ela não parece aquela garota do colégio, você sabe, aquela Ava.
— Mas é ela.
Theo riu, querendo dizer algo, mas não sabendo se deveria. Queria mandá-los calarem a boca, pois tentava ouvir o que Ava e Aaron tinham para conversar, já que nunca eram vistos conversando, apenas juntos e em um silêncio quase assustador. Queria dizer que aquela era sim Ava Bennett, mas não sabia da reação de Angus, muito menos o que gostaria de mostrar ao dizer, de fato. O que ele queria, na verdade, era mostrar que Ava sempre foi ela mesma, mas ninguém nunca parara para notar o quanto ela tinha para oferecer, e Theo só notara tal fato após ouvir a música de Gus. E mesmo tendo vontade de dizer coisas parecidas, não queria, porque aquela não era sua tarefa, e sim a de Angus, e este já falava sobre ela o tempo inteiro, fazendo-o chegar à conclusão de que um Angus já era muito, dois, então, seria insuportável.
Os quatro ouviram a porta do quarto de Angus bater, e se viraram simultaneamente, encontrando a cama do dono da casa vazia e bagunçada, a porta fechada e nenhuma Lisa de cara emburrada e braços cruzados por ali.
— Que merda, Lisa – Blake resmungou esperando que a namorada pudesse ouvir, mesmo sabendo que ela já poderia estar dentro de seu Mini Cooper, indo para casa.
— Acho que ela ficou irritada – Owen não hesitou em comentar.
Angus conteve um riso sarcástico.
— Você acha? – disse então, erguendo uma sobrancelha – Ela odiou a música, capaz até de se recusar a tocar quando conseguirmos a versão final.
— Foda-se a Lisa – Theo resmungou, sem deixar de olhar para a janela, com sua atenção voltada para Aaron e Ava sendo irmãos de verdade.
— Cuidado com suas palavras, gafanhoto – Blake retrucou, olhando para o perfil de Theo com seus olhos castanho-esverdeados.
— Foi mal – o ruivo disse pausadamente com um sorriso bobo nos lábios, sem tirar os olhos da janela de Ava.
— Ela não é tão esquisita assim – a voz de Owen se intensificou na palavra tão, voltando para o assunto Ava e fazendo com que Angus sorrisse torto, mas ao mesmo tempo, ficasse inquieto. – Na verdade, é bonitinha.
Naquele momento, a garota deu um belo sorriso aberto e surpreendente, como se tivesse ouvido o que Owen havia dito, fazendo com que os garotos mergulhassem em um silêncio profundo por quase dois minutos.
— Não posso, tenho namorada – Blake murmurou para si mesmo de repente.
Os garotos não se manifestaram, ainda bobos com a espontaneidade que se mostrava presente no rosto de Ava – uma coisa que todos, menos Angus, tinham certeza de que ela não tinha. Os olhos de Blake mal piscavam, Owen não sabia como fechar a boca, Gus – mesmo estando acostumado em vê-la sorrir – ainda conseguia se encantar com a cena, e Theo sorria sem perceber, lembrando-se inevitavelmente da primeira imagem que tivera de Ava, e que conseguia ser idêntica a que ele estava tendo naquele instante.
Eles podiam não saber, mas estavam apaixonados.
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