Ava & Os Bluebirds
5 Quatro
Donald Carroll mal teve tempo de ver sua filha entrando em casa, a garota atravessou a longa sala principal com apenas três passadas e tomou seu rumo em direção às escadas no canto direito da cozinha acoplada, subindo os inúmeros degraus até o seu quarto.
— Lisa, querida? – ele foi atrás dela, subindo os dois primeiros degraus com o jornal que antes lia na mão, e ouviu a porta do quarto bater com ferocidade, o que só pôde significar uma coisa.
Não pense em entrar aqui.
Ele foi obrigado a dar de ombros, voltando ao pequeno jardim de inverno logo em frente a uma porta dupla de vidro que se encontrava aberta para a mesma sala que Lisa atravessou em poucos segundos. Ele era praticamente proibido de se intrometer quando a garota batia a porta do quarto, e poderia só começar o questionário paterno assim que ela resolvesse aparecer naquele primeiro andar novamente.
Mal conseguiu se acomodar com o seu jornal ao se sentar em uma das cadeiras trançadas, quando ouviu os passos fundos de Lisa descendo as escadas. A garota parou diante dele antes de se sentar ao seu lado e cruzar os braços.
Donald sorriu torto.
— Posso saber o que foi? – disse, abrindo o enorme jornal em seu rosto.
— Você pode adivinhar, se quiser.
— Blake?
— Não – Lisa encarou seus pés cobertos pelas meias brancas – Dessa vez, não foi só ele.
O pai de Lisa franziu as sobrancelhas, tirando o jornal do rosto e percebendo os olhos negros de sua ex-mulher pairando sobre ele, mas que pertenciam a sua filha. Donald e Lisa tinham apenas a pele alva em comum. Os olhos, os cabelos, o queixo fino e basicamente todo o rosto de Lisa eram da mãe, Jena, que naquele instante estava bem longe dali em algum lugar da Europa ou da América do Sul, com um bando de hippies malucos e drogados – pelo menos era o que Donald pensava. Enquanto isso, ele era dono de uma empresa de festas e eventos, a Hemingway, que ficava a poucos minutos de Newport Beach, na cidade de Fountain Valley, ainda na Califórnia. Com o rosto novo demais para ser pai, Donald também era dono de belos olhos azuis, tinha a estatura média e o rosto oval, o que acabava fazendo dele um homem de várias mulheres, e sua filha sabia muito bem disso.
A mãe de Lisa abandonara ela e o pai há quase treze anos. Lisa já tinha quase dezessete, e aquele número era a prova viva de que fazia muito tempo desde que a garota sabia o que era ter uma família inteira. Era filha única, e mesmo tendo esse peso em suas costas com a falta da mãe, não sentia saudades dela. Na verdade, a garota pensava que era melhor assim, só ela e Donald, sem mais ninguém para incomodá-los.
— Quando é que você vai castrar esses garotos por fazerem tanta besteira? – ele franziu o cenho ao dobrar o jornal em seu colo.
A garota deu uma risada sem graça.
— Preciso parar de ser tão boazinha.
— O que aconteceu dessa vez? – ele perguntou seriamente, repousando as duas mãos juntas em seu torso coberto pela camisa azul-claro.
Lisa respirou fundo, olhando para suas mãos pálidas antes de começar a confessar.
— Angus escreveu uma música nova, e nós fomos lá pra ouvir – ela ergueu o rosto para o pai, que a encarava sem piscar – Eu sabia que alguma coisa sobre a Ava ia sair, eu tinha certeza, mas decidi dar uma chance pra ele, você sabe, ele é meu amigo.
Ele semicerrou os olhos bonitos.
— Ava Bennett?
— Sim, a própria.
— O Gus ainda gosta dessa menina? – aquela pergunta soou quase indignada, e o tom de sua voz fez com que Lisa desse uma gargalhada breve e espontânea.
— Pois é – respondeu ela – Ele ainda gosta. E daí ele escreveu uma música pra ela, e todo mundo sabia que ia ser sobre ela, mas ele exagerou no que se referia a gostar de alguém, de uma garota, se é que me entende, e acabou me excluindo completamente da banda quando escreveu aquela música, porque só pensou na obsessão dele pela Ava e em como todo mundo é garoto na banda, o que, então, não seria um problema, mas é um problema, porque eu sou uma garota. E daí, quando eu pensei que não tinha como piorar, eles foram pra janela e ficaram observando a vida chata dela, com uma cadela maior do que a própria casa e a sua obsessão por fazer nada. Ela fica trancada o dia inteiro em um quarto, porque a mãe é uma psicopata, e desde quando isso faz dela alguém especial? Porque, sinceramente, eu... –
— Lisa! – o patriarca explodiu, erguendo-se na cadeira – Dá pra você respirar, por favor?
A garota piscou seus olhos negros e marejados para ele, sentindo seu peito inchar de aflição e angústia, além de muita raiva.
— Você não acha que está exagerando? – ele franziu o rosto para a filha, e ela engoliu em seco.
— Não é o seu namorado que ficou espiando outra garota pela janela – cuspiu, revirando os olhos – Uma garota que não é tão gostosa pra ser espiada.
— Eu sei que não, e sei que é errado e você deveria chutar as bolas do Blake por isso, ou eu posso chutá-las pra você... –
— Pai – ela interrompeu, fechando os olhos – Direto ao ponto, por favor.
Donald respirou fundo.
— O que eu quero dizer é que... – ele se inclinou para frente, olhando diretamente nos olhos negros de Lisa – Vocês ficaram por muito tempo procurando uma música, e finalmente apareceu uma, então, eu acho que você devia dar uma chance pro Angus. Ele só quer salvar a pele da banda, Lizzie, quer fazer o negócio alavancar, nós temos que fazer alguns sacrifícios pelas coisas que gostamos, faça este dessa vez, aceite a música pela banda.
A filha única de Donald encarou-o com as sobrancelhas franzidas e um bico enorme em seus lábios pálidos, ficando em silêncio. Não queria admitir que ele estava certo e que estava sendo ridícula quanto ao assunto da música, mas era como ele havia dito, ela tinha que sacrificar algumas coisas por outras mais importantes.
— Tudo bem, mas só porque você me disse pra fazer isso – ela apontou um dedo para o rosto do pai, que fechou os olhos espontaneamente, dando uma gargalhada gostosa de ouvir. – E também pela minha integridade como tecladista profissional e única mulher do grupo.
O patriarca sorriu, voltando a encarar a filha com os seus belos olhos azuis, mordendo a vontade de sorrir para os cantos levantados dos lábios da garota, que deu uma leve gargalhada.
— Vem cá, me dá um abraço – ele disse de repente, abrindo os braços para Lisa, que não hesitou em levantar-se e abraçá-lo de volta, apertando-se contra ele como não fazia nem com Blake. Tinha um carinho especial pelo pai, talvez porque só tivesse ele como sua família, talvez porque ele basicamente havia lhe criado sozinha, e ela não tinha como agradecê-lo da forma correta. Talvez porque Donald sempre dizia o que ela não queria ouvir, e, de uma forma irritante e quase impossível, não a tirava do sério. Os dois não eram apenas pai e filha, eram também melhores amigos e companheiros de casa, e sabiam muito bem como melhorar o dia do outro apenas com um sorriso.
∆∆∆
— vai mesmo encarar a leoa?
Aquela pergunta retórica de Owen só serviu para irritar Blake ainda mais. Os dois estavam dentro do Vega 1974 de Ângelo, enquanto Owen dirigia até a Coral, onde ficava a casa de Lisa.
— Você sabe que é a minha única alternativa – respondeu, se controlando para não ignorar Owen, que havia se oferecido para dar uma carona a ele naquele final de tarde. O rapaz que dirigia franzia seus olhos negros na direção do para-brisa lustroso, tentando não desviar o carro da rota por conta dos raios solares intensos vindos do pôr-do-sol alaranjado do Condado de Orange e que invadiam a sua visão.
— Te desejo boa sorte, então – ele apertou os dedos no volante descascado do carro de Ângelo. Até meu cachorro é mais cuidadoso do que você, pensou, desprezando o trabalho do irmão de encerar a lataria preta do carro durante o final de semana inteiro.
— Você também fez merda em ter chamado o Angus – Blake virou o rosto para a janela ao seu lado e sentiu o vento salgado agitar os cachos castanho-escuros de sua testa.
— Opa, opa, não mesmo – Owen não hesitou em replicar –Você tem namorada, você quem deveria ter ficado na sua, sem olhar pra janela nenhuma. Nem eu e nem os caras temos culpa se você decidiu trocar a Lisa pela Ava.
— Eu não troquei ninguém por ninguém, tá legal? – Blake virou-se para encarar o amigo com seus olhos castanho-esverdeados – E eu nem disse nada tão direto quanto a Ava e nem nada.
— Você nem se lembrou da existência da Lisa depois que olhou pela janela.
— Vocês também não.
— Nós não namoramos a Lisa, seu idiota – o garoto de olhos e cabelos negros cuspiu, dando uma rápida olhadela para o rosto irritado do melhor amigo.
Blake calou-se, batendo a cabeça no banco de couro do Vega e esperando ver a casa de número duzentos e vinte aparecer bem na sua frente. Não gostava de levar lição de moral de seus amigos, muito menos de Owen, que parecia tão perdido na vida quanto ele. Sabia que tinha feito merda, sabia que tinha se esquecido de Lisa e sabia também que não deveria ter cedido às curiosidades que moravam na casa ao lado da de Gus, só não conseguia admitir para si mesmo.
E, bem, estava indo até a casa de sua namorada para ver se conseguia fazer isso na frente dela.
Sentiu o carro parar debaixo de seus pés, e se virou para encarar Owen, que tinha os lábios finos franzidos em sua direção, como se sentisse comoção diante do que estava prestes a acontecer com ele.
— Vá em paz, meu irmão.
— Valeu – ele abriu a porta do carro e saiu de lá, parando em frente aos degraus de pedra que o separavam de sua primeira discussão de relacionamento em um ano e meio.
Ouviu Owen acelerar, deixando-o, então, sozinho.
Não viu alternativa a não ser subir aqueles dois degraus, andando na direção da porta de vidro à sua frente. Tocou a campainha duas vezes como era acostumado fazer, e apertou suas mãos juntas em frente ao corpo, esperando que o senhor Carroll atendesse.
Não demorou muito, e o homem um pouco mais baixo do que ele apareceu para abrir a porta. Donald tinha as sobrancelhas franzidas enquanto destrancava a porta de vidro, e encarou Blake fixamente nos olhos ao abri-la finalmente, dando ao garoto uma imagem séria de seu rosto, uma imagem que o baixista nunca imaginou que existisse.
— Como vai, senhor Carroll? – ele murmurou, tentando não engasgar.
— Entre, Blake – Donald deu espaço para o garoto de pele morena e olhos quase verdes. Os dois atravessaram o meio da sala clara, que tinha uma lareira no seu canto esquerdo e duas pinturas penduradas nas paredes cor de creme, ilustrando barcos coloridos e bonitos que sempre chamavam a atenção de Blake quando este adentrava o cômodo claro – Vou chamar a Lisa para vocês conversarem, sente-se.
O moreno apenas assentiu, esperando Donald subir as escadas ao lado da cozinha para poder afundar o seu corpo no sofá macio em frente à lareira escura e apagada. Seu coração palpitava loucamente, e ele tentava não sair correndo daquela situação. Não, não podia fazer isso. Não podia fugir dela, tinha que enfrentar a situação o mais cedo possível, porque se não o fizesse naquele instante, nunca teria culhões para fazer depois.
Pôde ouvir os passos fundos da namorada, e levantou-se rapidamente, voltando seu rosto para a escada ao canto direito da cozinha. A garota descia os degraus um por um como se estivesse com medo de ver o rosto do namorado, sem saber que este também se encontrava amedrontado. Blake colocou as mãos nos bolsos do jeans escuro, respirando audivelmente para que Lisa pudesse ver que ele estava com o dobro de nervos a flor da pele se comparado com ela. A garota o encarou com as sobrancelhas erguidas, os olhos negros brilhando e os lábios entreabertos. Vestia um suéter rosado e felpudo – ainda que não estivesse frio naquele dia – e uma calça jeans dobrada até o começo de seus tornozelos. Seus pés estavam descalços, e Blake logo pôde reparar no esmalte azul que Lisa usava em suas unhas pequenas.
Esboçou um sorriso na direção da garota, que cruzou os braços.
— Acho que vou para o meu quarto – Donald interrompeu a cena sem terminar de descer os degraus junto da filha. Lisa apenas virou o rosto para assentir para o pai, que voltou para o segundo andar da casa, pulando alguns degraus.
Ela fitou Blake, que distraído e aparentemente angustiado, encarava o chão. Aproximou-se dele, sentando no sofá ao seu lado e colocando os pés para cima.
— Senta – ordenou, e ele não hesitou em obedecer. Encarou-a nos olhos, percebendo nenhum resquício de maquiagem daquele dia em seu rosto alvo. Os lábios macios da namorada quase nunca estavam preenchidos por algum tipo de batom, enquanto seus olhos tinham sempre a marca de alguma sombra bem clara, e quase imperceptível. Blake gostava da beleza natural dela, na verdade, preferia Lisa daquela forma, sem maquiagem alguma.
Ele suspirou pesadamente, sentindo as palavras se juntando em sua língua.
— Olha, Lisa... –
— Não, eu vou falar – ela ergueu a palma na direção dele, que antes de pegá-la no ar, encarou-a com perplexidade. Blake entrelaçou seus dedos nos dela, esperando pelo discurso que Lisa preparava – Nós vamos usar a música, e eu não vou dizer nada, e eu prometo fazer o meu trabalho corretamente.
Ele piscou várias vezes, não acreditando no que ouvia.
— Sério? – arregalou os olhos – Isso é ótimo, Lisa, isso é... –
— Mas – Lisa continuou, passando uma mão pelo cabelo curto – Você não vai nem tentar chegar perto da Ava, e não vai pensar em nenhuma possibilidade de sequer pensar nela enquanto estivermos tocando essa ou qualquer outra música que a envolva, entendido?
O baixista a encarou por alguns instantes, processando aquele acordo em sua mente um pouco falha. Havia entendido, era óbvio que havia, e era óbvio que ele não chegaria perto de Ava, afinal, ninguém ali era louco o bastante para conversar com ela, nem mesmo Angus. Não havia nada ali que ele não cumpriria ou que não fosse capaz de cumprir.
Então, ao invés de concordar verbalmente ou assentir com a cabeça, inclinou seu rosto em direção ao de Lisa, tocando o seu queixo fino e beijando-a ternamente. Lisa correspondeu logo após perceber que estava sendo beijada, apertando os cachos de Blake delicadamente contra os seus dedos. O garoto puxou-a pela cintura coberta pelo suéter macio, levando-a até o seu colo, e sentindo a namorada aprofundar o beijo delicadamente. Os dois pareciam desligados o bastante para ignorar o fato de que Donald ficava lá em cima em seu quarto – ou no vão da escada, espiando aquilo que deveria ser uma discussão de relacionamento séria e longa.
Ela quebrou o beijo, encarando o nariz bonito do namorado antes de dar um pequeno selinho no canto de seus lábios, sorrindo em sua direção.
— Você é um idiota – murmurou – Da próxima vez que fizer isso, meu pai disse que chuta o seu saco.
— Como é? – ele franziu as sobrancelhas longas e escuras, sentindo certo desespero cair sobre seus ombros.
— E eu falo sério! – ouviram Donald vociferar do segundo andar, e tanto Blake quanto Lisa não conseguiram conter a gargalhada.
∆∆∆
theo soltou uma lufada de ar entre as frestas da persiana.
— Essa garota não come? Não saiu desse quarto o dia inteiro, vai acabar sumindo daqui a pouco.
— Você com certeza se mostrou mais preocupado com ela do que qualquer um dos Bennett – Angus fechou a porta do banheiro de dentro do seu quarto e foi até a janela, puxando a cadeira de couro para perto e se sentando nela. Theo saiu de perto da vista por alguns instantes e subiu na cama do amigo, enquanto Angus tomava seu lugar, separando as partes da persiana com os dedos. Ele franziu os olhos negros para o vidro sujo, percebendo o cotovelo de Ava apoiado na mesa ao canto esquerdo da janela, e prevendo que ela provavelmente fazia algum exercício de Trigonometria deixado pra trás.
— Preciso de um binóculo – Gus murmurou, sentindo a vista embaçar e sua cabeça doer.
— Você não sabe o quanto isso soou desesperado – Theo passou seus cabelos ruivos para trás com uma mão enquanto ria.
O dono da casa fez uma careta para o amigo, voltando a observar a janela.
— É só isso que você soube fazer em dois anos? – continuou o ruivo – Olhar essa garota fazendo as coisas dela enquanto você não faz nada?
— Não – ele disse, com o tom de voz um pouco indignado demais – Eu tenho a Tonkin e os meus livros, e tenho vocês, também.
Theo abafou uma risada sarcástica.
— Poderia ter ido falar com ela, sei lá, isso é só uma ideia – Gus virou-se para encará-lo, e ele apenas revirou os olhos verdes – Qual é, Angus, você sabe que não pode ficar pendurado nessa janela pelo resto da sua vida.
— Meu Deus, às vezes você se parece com o meu pai falando.
— E não é pra parecer? – o ruivo aumentou seu tom de voz sem perceber – Seu pai é um gênio, Gus, um gênio. Você deveria ouvi-lo mais vezes.
— Menos, Theo – suspirou o rapaz de cabelos castanhos e pele quase bronzeada. Desistiu de olhar para a janela ao ver Ava levantar-se da cadeira giratória e abrir a porta, saindo do seu quarto apressadamente. Virou-se, descendo da cadeira de couro para sentar-se corretamente nela, e respirou fundo.
— Eu não quero ficar assim pelo resto da minha vida – murmurou emburrado.
— Finalmente algum parecer sobre o assunto – Theo ergueu os braços se sentindo vitorioso. Apontou na direção da janela – Agora vá falar com ela.
— Não é tão fácil – Gus apoiou o cotovelo no braço da cadeira.
— Não precisa ser agora – o ruivo bateu as costas nos travesseiros apoiados na grade da cama – Segunda-feira vocês têm aula juntos.
— Não dá – Angus quebrou o clima – Não quero interromper ela, você não faz ideia do quanto ela presta atenção. É como se ela desligasse do mundo, mas na verdade, tá mais alarmada do que nunca.
— Eu sei, tenho aula de Latim com ela – ele cruzou os braços – Aquela garota é uma máquina de estudos, mal dá pra acreditar que ela existe.
— É.
Eles ficaram em silêncio, enquanto Angus batia a cabeça incansavelmente no encosto de couro da cadeira, sentindo-se um completo idiota por conseguir beijar cinco meninas em uma noite, mas não ter o mesmo estômago pra poder falar com uma só garota.
— Às vezes eu tenho vontade de socar vocês dois, mas eu não posso fazer isso – resmungou Theo, como se tivesse lido os pensamentos do amigo. – Não com ela, seria covardia.
— Qual é, Theo... –
— Eu falo sério, Angus, você é um bosta – ele deixou com que a irritação tomasse conta de seus sentidos. Gus ergueu o rosto para o amigo, esperando que este fosse dizer algo a mais – Não tem como te ajudar quando você não quer ajuda.
— Eu quero ajuda.
— Não, não quer! Você fica se lamentando e irritando os outros com o seu mau humor insuportável e com essa maldita história de que não tem como falar com ela, sendo que tem – Theo quase berrava com Gus, e este se perguntava se a sua mãe conseguia ouvi-los de onde estavam – A gente tenta te ajudar, eu tento te ajudar, mas como fazer isso sendo que você não se ajuda? A única coisa que sabe fazer é olhar pra ela e criar músicas que ela nunca vai ouvir na vida e... –
— Theo.
— Não, Angus...!
— Theo, cara!
— O que foi?! – berrou o britânico, demonstrando toda a frustração naquele ataque de raiva que não era nem um pouco raro para os meninos, principalmente para o que parava à sua frente.
Gus havia se erguido, e encarava Theo com seus olhos pequenos e negros. Tinha um sorriso leve no rosto e parecia arfar, pois seu peito subia e descia visivelmente, como se ele tivesse corrido quinze quilômetros na praia há pouco tempo atrás. Theo franziu as sobrancelhas claras para aquela imagem, parecendo confuso.
— Você é um gênio. – Angus finalmente concluiu.
— E você só foi entender isso agora? – o ruivo não hesitou em retrucar, piscando várias vezes.
— Eu tô falando sério – o garoto de um metro e noventa arregalou os olhos para ele – Você é demais, meu Deus!
Ele subiu na cama e chacoalhou os ombros de Theo incansavelmente, rindo como se aquelas gargalhadas altas e exageradas fossem salvar a sua vida.
— Você tá me assustando, cara – Theo insistia em falar enquanto Angus o abraçava e o chacoalhava como se ele fosse um brinquedo de fazer barulho – Porra, para de ser chato, para com isso, que merda!
O amigo parou na hora, sem deixar de encarar o amigo, parecendo extremamente feliz.
— O que eu fiz agora? – Theo cuspiu, ajeitando suas roupas e franzindo o cenho para ele.
— Você nasceu, cara – o britânico já estava começando a ficar irritado com aquelas declarações – Você simplesmente nasceu.
— Chega de ser babaca e me fala logo o que eu fiz pra você ficar todo feliz desse jeito.
Angus tomou ar, tentando se controlar para não surtar com o que tinha em mente. Era ridículo, ele sabia disso, mas era uma chance. Uma chance de se comunicar com ela, uma chance de poder finalmente conhecê-la de verdade, de conversar com ela, de ouvir sua voz.
E era como diziam: chances não são dadas para serem desperdiçadas.
— Você me deu uma ideia – respondeu, sem evitar deixar Theo ainda mais estressado com toda aquela cerimônia – E eu quero muito botar ela em prática.
— Qual é o plano? – mesmo irritado, se mostrou interessado. Queria verdadeiramente que Angus tivesse contato com Ava, mas também queria conhecê-la, queria poder chegar perto dela sem ter medo de ser esnobado ou qualquer outra coisa, queria poder tirar as conclusões sobre o que era tão especial e enigmático na personalidade quase obscura da garota.
Gus lambeu os lábios, esboçando um enorme sorriso em seu rosto marcado pelo nariz enorme e os olhos negros e pequenos. Não acreditava que estava prestes a dizer aquilo, mas estava, e queria ter certeza de que nada daria errado.
— Primeiro, nós vamos falar com ela – ok, isso é só o que te dissemos pra fazer o tempo inteiro, pensou Theo. Angus tentou não parecer exaltado com o que falaria naquele momento – Depois, nós vamos tocar pra ela.
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