Autópsia

14 Capítulo 13-Desastre


–Cyrus!-eu começo a socar o tubo de vidro, mas é um tipo de vidro resistente.

As lágrimas começam a cair em minhas bochechas. Eu soluço e não me importo de Cassandra ouvir isso. Cassandra é uma pessoa cruel, ela matou um inocente. Cyrus era minha única chance de vida hoje, agora, essa chance fora tirada de mim e nem sei onde estou.

–O que diabos há de errado com você, Cassandra?-eu pergunto. Meu olhar para ela é inofensivo.

–Eu não diria errado. Eu diria certo. Tudo o que eu quero é a ordem. Essa ordem estava andando muito bem até você fugir de Nova Aliança. Não sei porque não se mudou para Velho Desastre enquanto ainda tinha tempo. Poderia não ter arriscado a si mesma e não estaríamos aqui-ela diz.

–Cassandra, onde estou e porque estou aqui?-pergunto para ela.

Ela não me responde, mas tecla algumas coisas em seu computador e o tubo de vidro se abre. O corpo de Cyrus cai no chão e cubro minha boca ao ver o sangue saindo de sua boca. Seu corpo é duro como aço, e as veias que quase saltam para fora de sua cabeça estão totalmente visíveis. Seus olhos estão totalmente brancos.

–Oh meu Deus...-deixo escapar.

–Agora, como combinado, entre no tubo.

–Oh, Cassandra, cale a boca. Não entrarei nesse tubo nem se eu tivesse a chance de ver novamente minha família. Até porque... não serei sua cobaia humana. Se quer alguém para ser sua cobaia, seja você mesma-digo, segurando a cabeça de Cyrus em minha mão.

–Não seja banal. Entre nesse tubo agora, ou terei de apelar-ela aponta a pistola para mim.

–Vá em frente. Me mate. Mas será uma pena que tomaremos rumos diferentes-digo. Isso a fez rir.

–Ah, por favor. Rumos diferentes? Você me atacou no porão da sua casa com uma faca, e aposto que fez coisas bem piores-ela diz-Então, nos veremos no inferno-Cassandra ameaça apertar o gatilho.

–Tenho uma ideia melhor-digo.

Me lembro que guardei o pano cheio de remédio que usaram para me dopar durante a viagem até aqui. Puxo o pano da minha cintura e começo a formular uma ideia em minha cabeça. Não entrarei naquele tubo de jeito nenhum.

–Que pano é esse?-ela pergunta. Cassandra encara o pano como se fosse um animal estranho.

–É o pano que tive de usar para ser dopada durante a viagem até aqui-respondo.

–Como pode me garantir que não se fingirá de morta e usará o outro lado do pano, que não está remediado?-ela pergunta.

–O remédio está deste lado do pano. Sinta o cheiro-digo.

Caminho até ela, vagamente. O pano em minha mão. Cassandra aproxima seu nariz do pano e eu enfio o pedaço de tecido em sua face. Ela agarra meus pulsos mas já inalou o remédio.

–Seja mais inteligente, Cassandra-digo, enquanto ela cai.

Depois que tiro o pano de seu rosto, Cassandra ainda não dormiu, mas estava prestes.

–Trancar portas-ela diz, antes de ser dopada totalmente.

Ouço um bipe ecoando na sala e o barulho da porta metálica se trancando. Uma placa de metal desce sobre a porta e engulo em seco.

Droga.

***

Quando Cassandra acorda, já não sou eu mesma. Estou sentada na cadeira dela, de pernas cruzadas, usando luvas para não deixar digitais na arma que acabei de pegar.

–Cassandra. Ei. Depois de algumas horas você acordou? Então quer dizer que esse lugar é muito longe, não? Ainda bem que tem um bebedouro aqui, ou teria morrido de sede.

Cassandra tateia o chão, como se estivesse desorientada. Depois, olha para mim com um olhar frio. Estou apontando para ela a arma que ela mesma deixou.

–Abra a porta-digo.

–Não... não abrirei a porta. Essa porta só abre com o meu comando vocal, e se eu não disser para que a porta se abra de novo e você atire em mim... nem uma bola de canhão irá destruir essa porta e morreremos juntas-ela diz.

–Não me importo-digo.

–Bem... estou surpresa que não tenha me aprisionado no tubo e ativado o mesmo comando que matou o garoto-ela diz.

–Ah, Cassandra. Seria muita ingenuidade minha. Se quero te matar, terei de te matar com minhas próprias mãos.

–Sabe, quando te conheci, era mais inofensiva. Sua aparência era como a de um anjo, diferentemente de sua amiga estranha.

–Não ouse falar de Amanda. Amanda é tão mais generosa e gentil do que você já foi algum dia.

–Ah, sério? É uma boa observação. Generosidade é um ato que coibimos em Nova Aliança. Você mesma sabe que o altruísmo, a generosidade e coisas do tipo são atos de amor ao próximo. Sua amiga será a próxima a morrer da minha lista.

Eu contraio minha boca e disparo, impulsionada por um ímpeto de raiva. A bala não atinge Cassandra.

Cassandra materializou um escudo tecnológico em sua frente, e a bala ficou presa ao escudo. Ela desativou o escudo e a bala caiu no chão, levando Cassandra a rir o mais alto que ela pode.

Ela ativou um escudo. Só quem pode fazer isso são os quadros tecnológicos. E os quadros só funcionam em Nova Aliança. Então estamos em Nova Aliança.

–Cassandra, entre no tubo-digo.

–Por que eu entraria?-ela pergunta.

–Não vou te matar. Apenas quero privacidade, quero pensar alto. Entre ou atiro-digo-Como disse, não me importo de morrer aqui mesmo.

Cassandra se arrasta até o tubo e se senta lá dentro, totalmente relaxada.

Eu me viro para o computador e vejo uma parte no teclado destinada ao tubo. ''FECHAR. ABRIR'' são teclas uma ao lado da outra.

Aperto a tecla de fechar e o vidro se envolve no tubo, com Cassandra lá dentro. Ela olha para mim com ódio.

–Certo, quero que me dê a minha localização-digo.

O quadro se materializa a minha frente e começa a mudar de forma, mostrando a minha localização. Não estou em Nova Aliança, nem em Velho Desastre. Estou numa área fora de Nova Aliança, mas muito perto.

–Envie minha localização para ams13diddy. E envie uma mensagem. Diga a ela que fui sequestrada.

O quadro envia a minha localização para Amanda. Agora, só preciso que Amanda colabore. Amanda é forte, e espero que ela possa me ajudar.

Eu aperto para abrir o tubo e aponto a arma para Cassandra, que permanece lá dentro, me encarando. Ela esboça um sorriso e debruça suas pernas, apertando-as contra seu peito. Ela envolve as pernas com os braços.

–Agora, Cassandra, quero que abra essa porta-digo.

–Não irei abrir de jeito nenhum-ela diz.

–Então, acho que terei de anunciar para toda Nova Aliança de sua situação, já que está bem perto de Cyrus morto.

–Por favor, fotografe a cena a minha frente-digo, para o quadro.

O quadro se materializa e tira uma série de fotos de Cassandra próxima ao corpo de Cyrus, incriminando-a de tê-lo matado.

–Você tem mais uma chance. Ou você abre a porta, ou enviarei a todos de Nova Aliança com quem tenho contato essas fotos. Primeiramente, seu governo irá cair, assim como o sistema. Depois, será incriminada por homicídio. Suas escolhas definem quem são.

Cassandra me fita e contrai os lábios, ela suspira e vejo que ela está reprimindo um choro, como se tivesse sido vencida.

–Abrir porta-ela diz, em alto e bom som.

A porta se abre a minha frente a me dirijo ao teclado do computador. Aperto o botão de fechar o tubo de vidro.

–Adeus Cyrus. Adeus Cassandra. É como você mesma disse. Nos vemos no inferno. Ah, a arma fica comigo.

Eu digo e saio pela porta, olhando para os dois lados do corredor.

Você pegou ela. Agora, só falta escapar daqui.

***

Um desastre de verdade, só é feito, quando ambas as partes se destroem. Um desastre começa subitamente, composto por ódio e descompaixão. E quando as coisas começam a se corromperem, é sinal de que uma das partes está prestes a cair.