Autópsia
15 Capítulo 14-Sangue
Uma dádiva da qual somos presenteados pela vida é o sangue. Quando ele cai, é um sinal de vida perdida. Ao longo da vida, vamos amadurecendo em relação ao sangue, quando éramos crianças, bastava uma simples gota para nos amedrontarmos, mas a vida nos ensinou, que o sangue é mais do que isso.
***
Os corredores são imensos. Tudo que há neles são uma espécie de parede lisa, e um piso de mesma maciez.
São longos e não há como saber que lado é a saída, mas tenho pressentimento de que vim pela esquerda. Mas e quanto aos homens de preto que me trouxeram até aqui? Onde eles estão?
Meu quadro aparece na minha frente, revelando que Amanda me enviou uma chamada de vídeo. Eu toco na tela e Amanda aparece na minha frente, ela está sorrindo e está totalmente desengonçada, seu cabelo está bagunçado e ela mal consegue falar.
–Amanda... você está bêbada?-só Amanda consegue estar bêbada enquanto estou presa num lugar que nem sei o que é ou onde é.
–Olha, eu vi sua mensagem, mas aqui tá muito barulho e as pessoas ficavam me empurrando enquanto dançavam, então tem problema se você me falar aqui? Estou no banheiro, aqui o barulho é menor.
–Certo-suspiro-Amanda, como você sabe, eu fugi de Nova Aliança. Tudo estava muito bem lá-minto, escondendo de Amanda o fato de eu ter deixado uma garota demente-Mas Cassandra me pegou. Ela me levou até um lugar que não sei onde é, só sei que é perto de Nova Aliança. Te enviei minha localização. Amanda... por favor, precisa me ajudar-digo-Já enviei minha localização para você.
–Espera... está me dizendo que foi sequestrada por Cassandra? Certo, eu vou ligar para a polícia.
–Para a polícia? Ficou louca! A polícia me quer morta desde que fugi para Velho Desastre. Eu nunca deveria ter saído de lá...
Ouço passos vindo pelo corredor e me escondo ao lado de uma parede, olho pelo canto dos olhos e vejo um dos homens de preto.
–Amanda, preciso sair. Tchau-desligo o quadro antes que Amanda possa falar alguma coisa.
Tento me agachar mais a sombra, para que ele não me veja. O homem passa reto e sou levada pelo ímpeto de uma chance em mil.
Atiro duas vezes nas têmporas do homem, fazendo-o cair. Eu corro até ele, praticamente abismada por ter atirado em alguém que sequer conhecia, embora ele tenha me trazido até aqui.
Eu arranco a máscara do homem e vejo um senhor de cabelos grisalhos. Eu arranco o resto da sua roupa de preto, mesmo que esteja um pouco ensanguentada na parte lateral da cabeça.
Eu visto sua máscara e vou vestindo o resto da roupa, que fica um pouco grande em mim, então tenho de dobrar as barras da calça militar para que não vá até o chão.
Agora, só preciso achar os outros e me induzirem a me levarem embora.
Eu caminho pelo corredor por onde o homem veio, o contrário pelo qual eu estava indo. Provavelmente ele estava fazendo ronda, e acabou morto.
Finalmente, a minha percepção sobre a infinitude do corredor vira uma mentira. O fim do corredor dá para uma porta de metal. Eu empurro a porta e vejo uma pequena sala com um elevador no meio.
O elevador abre quando aperto o botão e entro nele. O elevador é quente, ventilado por apenas um tubo ventilador. Há vários botões neles... mas não há vários. Há inúmeros botões.
***
Eu aperto o último botão do elevador, e a caixa de metal desce com veemência. O impulso me leva a cair no chão.
O elevador desce muito rápido, o que é justo devido a quantidade de botões.
Mas só o que consigo pensar agora é em como sair desse inferno, já que Amanda está bêbada e sempre que isso acontece ela não volta cedo para casa. Só espero que ela não tenha se metido com gente perigosa.
O elevador para bruscamente e a porta se abre. O espaço a minha frente é, eu acho, a portaria desse...
Eu olho para o prédio e quase fico tonta ao vero tamanho. Não vejo seu topo, então, deve ser muito alto. É um arranha céu, só que muito maior do que qualquer outro prédio que já vi.
Há um imenso portão de ferro a minha frente com dois homens de preto guardando o portão, a única coisa que terei de fazer é mentir para eles.
–Guardas-digo.
Eles me encaram com suas máscaras e tento cobrir o sangue que sai da minha.
–Cassandra deu ordens. Precisamos ir até Nova Aliança buscar um remédio-digo-Ela disse que é urgente, ou então o soro não irá funcionar nos dois rapazes que estão lá em cima-minto.
Um deles desce uma ladeira que não havia notado que fica no canto desse espaço, já o outro, está preocupado em abrir o portão com seu molho de chaves.
Vejo luzes vindo da ladeira e logo entendo que aquilo é uma garagem, e o homem que desceu vem subindo com um carro, que parece ser o que eles me trouxeram até aqui. O carro é um cubo de ferro, praticamente. Como esperado, tem uma parte traseira enorme, suficiente para caberem dois corpos lá dentro.
Eu entro na parte de trás do carro e o homem que destrancou o portão para nós, nos espera até sairmos de lá, para trancar o portão de novo.
Ele entra dentro do carro e nós partimos numa estrada escura e estranha.
Deus, isso parece um cenário de filmes de terror. Que tipo de lugar é esse? Alguém teria coragem suficiente para vim aqui? Arrisco uma pergunta.
–E então? Como está a ronda?-pergunto.
–Os canibais estão mais ao sul, então não será problema.
Canibais?
–Mas os doentes que fugiram do hospício, aquele que foi queimado, já estão mais próximos. Mas mandamos alguns guardas lá para a zona onde eles estão. E era para você estar informado sobre tudo isso, Phillips.
–Desculpem-me-digo.
Canibais e doentes alucinados? Mas que tipo de lugar é esse? Por quê Nova Aliança, que é tão perto daqui, nunca sofreu esses ataques? Que tipo de pessoas são eles?
Meus pais devem saber disso tudo, e irei perguntar para eles quando chegar em Nova Aliança. E depois, terei de voltar para Velho Desastre, que é meu lugar, mas isso não será um problema.
***
Passamos uma hora dentro do carro, até que enfim chegamos em Nova Aliança. Pude ver as luzes dos postes iluminando as ruas, as pessoas conversando... mas tudo isso muda quando o carro entra na cidade. As pessoas começam a nos olhar com um olhar de medo.
Estamos agora no bairro da minha casa, e como já são em torno de quase dez horas da noite, não há ninguém na rua. Decido fazer o que sei que será melhor para mim.
Atiro duas vezes em cada um, as luzes do fogo iluminam o carro quando eu disparo as armas. Eu engulo em seco para não chorar.
Meu Deus... no que estou me tornando?
Algumas vezes, para que você salve a si mesmo, precisa destruir qualquer coisa que há em sua frente, e só depois, precisa vencer as mágoas.
Eu abro a porta do carro e pego a arma dos dois. A falta de iluminação na rua não permite que qualquer um que passe por aqui veja o corpo dos dois cadáveres no carro.
Eu corro até o fim da rua, então, dobro a direita e vejo os prédios da cidade. Mas a casa de meus pais só ficam no fundo da rua.
Ando correndo até lá, sinto meu cabelo balançando e batendo nas minhas costas a medida que corro.
Eu bato na porta várias vezes, até que se torne um incômodo para eles e venham aqui reclamar. Continuo batendo.
Ouço alguém destrancar a porta com raiva e meu pai aparece de roupão, ele engole em seco ao me ver e só então me lembro que estou de máscara e roupa militar.
Eu arranco a máscara da minha cabeça e ele vê meu rosto, e é quase um alívio para ele. Sua expressão se torna calma e ele ma abraça o mais forte que pode.
Eu entro e ele fecha a porta.
–Lara... como saiu de lá? Eu e sua mão ficamos tão preocupados quando saiu daqui... você foi um dos assuntos mais comentados enquanto esteve fora. Venha-meu pai me arrasta para dentro de casa, onde minha mãe está amarrando seu roupão.
Ela me vê e corre para me abraçar. Reprimo um choro ao vê-la também.
–Preciso da ajuda de vocês-digo-É urgente, agora mesmo irei voltar para Velho Desastre, não se preocupem, já sei exatamente como vou sair daqui. Mas antes, quero apenas que saibam que Cassandra não é uma boa pessoa.
–Sabemos disso-diz meu pai.
–Vocês sabem superficialmente, mas ela matou um garoto inocente, apenas para testar alguma coisa, e tem mais. Ela me sequestrou e me levou até um lugar para servir de cobaia para ela, junto a um amigo meu, que ela matou. Aqui estão as fotos. Mostre as fotos, por favor.
O quadro se materializa a minha frente, em formato de foto, mostrando a prova do crime. As fotos mostram Cassandra e o corpo de Cyrus a seu lado.
–Oh Deus. Como essa mulher...
–Pai, mãe... terão de fazer uma coisa para mim. Essas fotos precisam ser divulgadas, precisamos acabar com o sistema de Cassandra-digo.
Eles me encaram, como se tudo que eu disse fosse banal.
–Querida... o sistema, não é de Cassandra-diz minha mãe.
Suas palavras foram quase como um tapa em minha cara.
–Esse sistema existe há muito mais tempo, antes mesmo de Cassandra existir. O amor estava impregnado nas pessoas há muito tempo, e essa era a causa da destruição da sociedade, então, foi preciso construir esse lugar-minha mãe fala vagamente.
O sistema existe há muito tempo?
–Mãe... pai... vocês estão em Nova Aliança há quanto tempo?-pergunto.
–Toda nossa vida estivemos aqui.
–Então... então o sistema é confuso. Como se apaixonaram?-pergunto de novo, forçando-os a me contar tudo que sabem.
–Querida, nos apaixonamos no colégio, na sua idade-meu pai diz
–E como o sistema não pegou vocês?-a pergunta soa como uma lamentação.
–Larissa, acho que você ainda não percebeu que esse sistema é falho, e que o amor sempre vai existir, por mais experimentos científicos que ocorram. Eles apenas acreditam que devemos achar alguém com quem somos aliados para nos casarmos e termos um filho, eles acreditam que isso não é um ato de amor, é um ato de lealdade ao próximo-meu pai responde.
–Mas apenas você foi a mais corajosa em desafiar toda a totalidade ao fugir daqui. Você foi forte, Larissa.
A última coisa que sinto são as lágrimas caindo de meus olhos. Todo momento eu pensava que era diferente dos outros por ser a única que fugiu de Nova Aliança e desafiou o sistema, mas agora que sei a verdade, as coisas parecem ter se colocado em seu devido lugar.
O amor sempre vai existir.
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