Autópsia

1 Prólogo-Resistência.


Estou dentro de uma sala de concreto, para apenas os alunos da minha turma. Estamos esperando o pessoal do sistema que virá a qualquer momento.

A luz desaparece, deixando mais de trinta pessoas imersas numa escuridão apavorante. Nós nos mantemos calados, pois sabemos que gritar de medo é fútil, já que há coisas piores para se ter medo do que apenas a omissão da luz.

Um barulho semelhante ao chocalho de uma cobra perpetua no espaço e quase posso ver o gás vagando a minha frente. Agora sim, os gritos começam. Inclusive eu.

Mas não duro muito tempo. Quando aspiro o gás praticamente invisível, sinto náuseas, em seguida, uma dor começa a latejar em meu cérebro, depois, minhas veias começam a saltar para fora. Sei disso pois meu braço está muito machucado, e sinto o relevo das veias com meus dedos.

Primeiro, meu pé direito perde o movimento, depois, o esquerdo desaba, junto comigo. Eu tento me recompor e me levantar, mas não consigo, perdi o movimento total das minhas pernas, embora meus braços ainda estejam intactos, fora pelo fato de estarem inchados pelo gás.

Quando a luz é ligada novamente, vejo todos eles caídos, com os olhos fechados. Estão apagados. Mas isso não aconteceu comigo, estou consciente. Estou viva.

Depois, as pessoas entram pela porta de aço. Uma mulher loira usando um jaleco branco de aparência em torno de quarenta anos. Atrás delas, homens vestidos com roupas do exército de Nova Aliança carregam um grande recipiente de plástico.

Eles abrem o recipiente para ela e ela puxa um líquido com uma seringa, com uma grande agulha. Ela vai injetando em cada um dos meus amigos derrubados. Ela injeta na veia do pulso.

Quando ela finalmente chega para me injetar a seringa, eu fecho os olhos e finjo que estou dormindo. Mas quando o líquido entra em meu sangue, o ardor percorre todo o meu corpo, como se a veia levasse essa ardência e como se o líquido fosse ácido. Eu reprimo um grito, mas não consigo mais, pareço que estou sendo queimada viva. Eu grito o mais forte que posso e os três se viram para mim. Eu grito socorro, mas tudo que fazem é borrifar algo em minha cara, que por essa vez me faz cair.