Autópsia

2 Capítulo 1-Mudanças


A mudança. A única coisa que é permanente.

A mudança vive conosco, come conosco, toma banho conosco. Tudo muda, menos a mudança. Ela é certeira, e quando vem para nós, destrói nossa vida. As pessoas temerão as mudanças, porém, não podemos ceder a elas.

***

O céu de Nova Aliança estava como um azul cinza. A manhã começou bonita, e tenho certeza que minha vida seria a mesma coisa de sempre, se não fosse o fato de que hoje é meu aniversário.

Eu me olho no espelho da minha casa. Meu cabelo escuro está desarrumado. Meus olhos verdes estão brilhando. Mas meus cabelos ainda estão desarrumados.

Eu aperto o botão da parte de beleza no quadro que se materializa a minha frente. Logo meu cabelo começa a melhorar. Os fios que estavam levantados começam a cair, ele se bota em ordem e fica liso de novo. O quadro se desmaterializa e eu começo a caminhar.

Saio de casa, respirando o ar puro. Visualizo todo meu bairro. Aqui, todas as casas são de concreto, pintadas de azuis. Em outros bairros, as casas são pintadas de vermelho, e em outros, amarelo... há várias coisas.

Aqui, cumprimos um horário. As seis e meia, todos devemos estar acordados. Nas aulas de história, eu descobri que eles impõem essa regra para que tentem ao máximo erradicar um dos problemas da natureza humana: a preguiça. Qualquer um que acorde depois disso, eles aumentam a quantidade de amor no sangue. E como toda regra diz, se alguém que resistiu a vacina aos dez anos e começa a revelar sinais de amor, mesmo que seja o próprio sistema que aumente a dose como punição para algumas leis, essa pessoa deve ser deportada de Nova Aliança e ir até Velho Desastre, onde vivem as pessoas que amam, as pessoas miseráveis.

E é assim. Qualquer lei ou regra que não seja cumprida, a quantidade de amor no sangue é aumentada como punição, até que chegue um tempo, que a pessoa terá tanto amor, que não poderá mais viver aqui, conosco.

A rua está deserta e gelada, como em toda manhã. As folhas balançam com o vento gélido. Em pouco tempo, as pessoas começam a aparecer. Ainda não são seis e meia, mas há em torno de três ou quatro pessoas agora na rua.

Eu volto para casa e visto uma roupa azul, como o sistema do nosso bairro pede. Meus pais se levantaram agora, eu me despeço deles e pego a minha mochila e vou para a escola, onde me encontrarei com Amanda. Ela está ansiosa para o meu aniversário, cujo nem haverá festa.

As pessoas não costumam fazer festas, aqui em Nova Aliança. Já que festas, elas transmitem vários problemas humanos. E quando acontecem, são festas apenas para celebrar feriados, ou afins.

Eu caminho mais alguns passos e chego até a escola do bairro, onde todos esperam na portaria. A escola é um enorme prédio de vidro. Cada andar é uma série, estou no penúltimo andar junto a Amanda. E claro, ela vem correndo em minha direção, gritando parabéns.

Ela me abraça e eu abraço ela. Amanda está muito ansiosa, e é por isso que estou com medo de desapontá-la, ela disse que queria que eu fizesse pelo menos alguma celebração, mas estou sem vontade alguma para coisas assim. Aniversários são dias comuns aqui. Mas não para amizades que duram há sete anos.

–Amanda, eu não posso prometer nada. Mas é muito gentil da sua parte se preocupar comigo.

–Você sabe que hoje é um dia muito especial, Lara. Precisamos fazer alguma coisa. Chama sua família!

–Tudo bem, Amanda. Vou pensar.

O sinal toca e os portões se abrem. Eu entro no prédio e seguimos por um elevador em direção ao último andar. O elevador é extremamente rápido. Há apoios de mão para que não caiamos. No elevador está eu, Amanda, Diana, Peter, Craig e Rose. Ainda não estão todos.

Quando o elevador para, nós todos saímos. Quando a porta do elevador se abre, a porta da nossa sala está a nossa frente. Nós a abrimos e a professora Christina está sentada em sua mesa. O espaço é grande suficiente para cinquenta pessoas, mas não há tantas assim. A matéria já está no quadro. Me sento no meu lugar e começo a copiá-la. Os alunos vão chegando a cada cinco minutos-horário de ida e volta do elevador.

–Bem, alunos. Hoje deve ser um dia especial para aqueles que já tem dezessete anos. Talvez nunca mais nos veremos, ou talvez vocês continuem conosco. Para os esquecidos: hoje é o dia de mudar de cidade. Se você não está se adequando a vida aqui, se adequará lá em Velho Desastre. Bem, não posso influenciar em nada, mas espero que façam uma boa escolha-a professora diz depois que todos já chegaram.

Claro, hoje é o dia mais especial do ano. E não estou nem aí. Vou continuar aqui de um jeito ou de outro. Não vou abandonar minha família, nem Amanda e meus outros amigos. E lá, parece ser uma sociedade que beira o desastre.