Autópsia

7 Capítulo 6-Alianças


O amor é mais poderoso do que o poder, e é preciso que o poder controle o amor. A ignorância não pode ser tomada pelo amor, muito menos o espírito de altruísmo. E quando uma pessoa deixa sua vida ser corrompida pelo ato de amar, novas alianças surgem com o intuito de parar isso, mas numa cidade tomada pelo caos, nem aquele mais sem coração consegue criar uma barreira para tal doença que é amar. Estamos todos perdidos.

***

Caminho mais alguns passos até o campo de grama se tornar estrada de ferro. O enorme muro de aço que divide Nova Aliança já está quase invisível, andei demais de lá até aqui. E claro, consigo ver a cidade.

Eu vejo a cidade, e tudo aquilo parece ser a natureza humana implantada numa só coisa. Oh meu Deus.

Há queimadas mais ao oeste, e com o dia nublado, parece um cenário de filme de suspense. Só assistimos há um tipo de filme lá em Nova Aliança, filmes que mostram uma sociedade utópica perfeita, e claro, lá as pessoas não sentem amor por aqueles que não conhecem. Mas o pai de Amanda foi diretor de cinema e tem vários filmes em casa, que ele mantem escondidos, as vezes ela pega para vermos. Sinto falta de Amanda, mesmo que não passei nem um dia sem vê-la.

Eu materializo o quadro azul tecnológico na minha frente.

–Quero saber onde posso encontrar Cyrus e os outros que foram para lá.

O quadro me mostra o mapa da cidade e minha localização. Ele usa como referência o muro de aço. Cyrus, Noah e os outros estão no centro da cidade, num abrigo chamado Meyurfield, um abrigo que já ouvi muito falar na escola. Sempre no dia da mudança, os jovens que saem de Nova Aliança e vão para Velho Desastre tem que ficar naquele abrigo por um dia, lá eles vão saber tudo sobre a cidade, até que eles possam estar preparados para enfrentar a própria sociedade.

Eu passo da estrada de ferro e há uma ladeira de terra a minha frente, se eu passar essa ladeira e andar mais um pouco, chegarei na cidade. Pulo na ladeira e começo a deslizar, ignorando a dor que sinto em meu ombro e em meu joelho. Quando chego ao fim da ladeira, meu campo de visão em relação a cidade parece ter aumentado.

Já estou aqui. Mãe, pai, Amanda... sentirei a falta de vocês.

***

A cidade é tumultuada e bem diferente de Nova Aliança. Aqui as pessoas sempre estão correndo para seus empregos, casas ou escolas. Aqui todos falam no telefone, coisa que só podemos ter em Nova Aliança aos vinte anos. E tudo aqui é muito lotado, o comércio, principalmente.

–Certo. Quero que me mostre minha localização em relação ao abrigo-digo para o quadro que aparece em frente ao meu rosto.

O quadro de novo projeta o mapa da cidade, e me mostra que estou há quinhentos metros do abrigo. Não aguento andar mais, estou sangrando e algumas partes do meu corpo se recusam a se mexer. Eu me sento num beco escuro que fica ao lado de um prédio. Eu me sento ao lado de uma lata de lixo que provavelmente estava pegando fogo para aquecer alguém.

Só mais tarde, agora que estou em meio a escuridão, percebo que não sou mais a antiga Larissa. Que vivia presa em si mesma, pensando sempre no futuro da sociedade, na família, nos amigos... que sempre valorizava seu intelecto e odiava lutar. Odiava ter que reagir a algumas coisas. Eu saberia se ainda fosse a antiga Larissa se eu recusasse vir para cá. Se quando eu tivesse tropeçado no muro de aço enquanto corria nele, eu tivesse parado e pensado que o melhor seria me entregar... tudo mudou.

Eu poderia usar os serviços do quadro para me curarem, mas provavelmente não funcionaria já que não estou mais em Nova Aliança, e o sistema controla todos os quadros, provavelmente me rastreariam.

Respiro fundo e decido seguir em frente. Saio do beco e ando mais algumas dezenas de metros. Sei que o abrigo está um pouco longe, mas preciso seguir em frente, ou não chegarei lá nunca. Cyrus deve estar se acostumando, mas conheço Noah, ele já deve ter feito amizade com todos lá.

Estou há cem metros do abrigo. Já posso ver uma parte sua daqui. Um imenso galpão de madeira, quase isolado da cidade. Há alguns jovens na frente da porta, mas não consigo ver Cyrus. Corro até lá para gastar o resto de energia que me resta. Mas vai valer a pena, pelo menos. As coisas só valem a pena quando você dá tudo que tem para conseguir.

Quando passo pela porta do galpão, um súbito frio toma conta da minha barriga. Não pensei que haveria tanta gente, e todos olham fixos para mim, como se eu fosse matá-los.

–Quem é você?-uma mulher pálida de cabelos castanhos claros usando rabo de cavalo caminho em minha direção.

–Sou...-não posso comentar meu nome de verdade. Se viverei aqui, preciso ser uma nova pessoa-Krystal Chapelle.

Os murmúrios acabam quando digo meu nome falso. Outra garota se levanta. Já essa, tem cabelos escuros e uma aparência angelical. A garota fica ao lado da outra de rabo de cavalo, a minha frente.

–Por quê está aqui?-pergunta a garota de cabelos escuros.

–Olhem... se tiverem tempo, preciso que ouçam minha história.

***

–Então... Krystal. Você fugiu de Nova Aliança. É um ato corajoso, digno do amor-diz Jade, a garota de rabo de cavalo-Mas Nova Aliança agora deve estar um caos, provavelmente, já que você fugiu de lá. E devem saber que está aqui, afinal, para onde mais um jovem apaixonado iria ao sair de sua cidade natal e vir pra cá? Obviamente para nosso abrigo. E é por isso que não pode ficar aqui, é uma ameaça para nós.

–Olha, eles não sabem que estou aqui. E nem saberão, mas se me localizarem, prometo me entregar. Mas garanto, que se depender de mim... meu paradeiro será praticamente inexistente nesse mundo.