Autópsia

8 Capítulo 7-Memória


O passado é uma dádiva inquebrável, tentamos destruí-lo, reparti-lo, matá-lo... mas ele sempre nos volta com precisão e poder. O passado não é nada mais que um pandemônio pelo qual estamos sempre em desvantagem, e quando essas memórias voltam, nossas vidas são quebradas e somos obrigados a nos escondermos dele, pois quando a faca do passado atinge nosso peito, só o presente poderá curar o corte.

***

–O.K, como expliquei para vocês, temos uma espécie de centro de treinamento que vocês já viram quando chegaram aqui. Bem, hoje usaremos o centro. Eu, como líder, fui ordenada a fazer com que todos treinem suas habilidades, seja com facas, lutando, ou até matando. Não, não matar, mas... enfim, vocês entenderam-Jade tenta explicar enquanto nós a seguimos pela floresta que fica atrás do galpão.

Quando nós subimos uma ladeira, vemos o que ela estava falando. É um centro no meio da floresta, cheio de alvos de madeira e há até um ringue para lutas. Não sou boa em lutas, muito menos em atirar facas. Ela nos deixa explorar mais o centro e nos avisa para não irmos mais ao longe, pois há uma cerca eletrificada que nos impede de passar para onde quer que seja.

Eu ando mais ao norte, viro ao leste e vejo algumas pessoas fazendo fila. É uma fila para um manequim usando roupas velhas. É um tiro ao alvo. Ouço os barulhos das balas atingindo o manequim, que quando ferido libera uma plumagem.

Uma mão toca meu ombro. Jade.

–Oi. Você tá meio tensa. Olha, eu te aconselho a ir no arremesso de facas, é o menos perigoso. Claro que não é obrigada a fazer nada disso, mas eu te aconselho a fazer, Krystal. Velho Desastre não é que nem Nova Aliança. Aqui, você pode ser assaltada se andar por lugares desconhecidos, pode entrar no meio de um tiroteio... pense no pessoal do sistema de Nova Aliança vindo até aqui para te pegar e você não ter nenhuma segurança. Bem, vá logo, garota. Eu te acompanho.

Ela me conduz até uma pista de grama, onde há um balde de facas e ao fim da pista há um alvo. Pego com cuidado uma faca do balde.

–Boa sorte aí, preciso ajudar os outros que estão começando. Nos vemos mais tarde.

–Jade. Espera. Que horas termina o treinamento?

–Meia noite, claro-ela sorri para mim e sai.

***

Eu aperto uma faca com mais força e arremesso. De dez facas que joguei, apenas uma acertou o alvo. E foi em sua clavícula.

Tento mais uma vez. Agora, eu uso toda minha concentração. Foco no centro do alvo e atiro. A ponta da faca entra com precisão no centro do alvo e cubro minha mão com a boca. Eu sorrio o mais timidamente possível para que ninguém veja.

–O.K, você precisa estabelecer uma meta, Lar... Krystal-digo para mim mesma- Já acertei duas vezes. Se eu acertar mais três e completar cinco eu vou ao tiro ao alvo.

A tarde se prolonga e eu só acertei quatro vezes. A última vez parece nunca chegar. Mas não deixo de tentar, há milhares de facas nesse balde. Eu atiro de novo e a faca atinge o alvo. Eu suspiro de alívio e vou até o alvo para pegar as facas que caíram ou que ficaram presas. Eu pego todas que ficaram no chão.

Quando me levanto para pegar as que eu acertei, meu sangue fica frio e sinto que tudo, até o tempo, parou.

Uma faca atinge o alvo, passando raspando em minha barriga.

–Mas que diabos...

Eu me viro e vejo os cabelos ondulados e escuros de Cyrus. Ele sorri para mim e eu reviro os olhos. Jogo todas as facas de volta no balde e me aproximo de Cyrus.

–Ficou louco?-pergunto para ele.

–Eu que te pergunto. Ficou louca?-ele retruca.

–O quê?-eu falo, bem baixinho.

–Me refiro a saída de Nova Aliança. Por quê foi fazer aquilo?

–Não é da sua conta, Cyrus.

Eu saio da pista de arremesso de facas e vou para o tiro ao alvo. Sei perfeitamente que Cyrus está me seguindo. Quando ele quer alguma coisa, ele faz de tudo para conseguir, mesmo sabendo que será rejeitado. Eu entro na fila de tiro ao alvo.

Minutos depois que uma menina negra de cachos muito bonitos sai da fila, eu sou a próxima. Pego uma arma e coloco os óculos necessários.

–Quer uma dica? As chances de você voar para trás usando uma só mão para atirar são maiores do que as chances de você acertar qualquer parte do alvo. Use as duas mãos-diz Cyrus.

Eu suspiro e faço o que ele diz. Aperto a arma com as duas mãos e puxo o gatilho duas vezes. As balas penetram no boneco, uma no pescoço e a outra no rosto.

Olho para Cyrus com olhar inocente, como se o agradecesse.

Repito o ato de novo. Com as duas mãos eu atiro no boneco e voam espumas. Faço isso de novo mais algumas vezes, até que as balas acabam e sou obrigada a sair da pista.

–Você é boa-diz a menina que conheci hoje no abrigo de aparência angelical-Sou Matilda-ela aperta minha mão e me ajuda a sair da pista de tiro ao alvo.

–E então? Não vai experimentar o ringue?-ela pergunta, apontando para o ringue, onde há duas pessoas lutando.

–Não... luta não é pra mim. Se eu tiver de matar alguém algum dia, prefiro que seja a queima roupa-digo.

–Tenho uma ideia. Por quê você não luta comigo? Vamos.

Ela me arrasta até o ringue, mesmo sem eu ter falado nada. Nós nos aproximamos do ringue de luta e Matilda anuncia:

–O.K pessoal, será que poderiam dar um espaço? Krystal e eu vamos lutar agora. Prometo sermos rápidas.

Algumas pessoas bufam e outras que estavam na fila cruzam os braços. Matilda sobe no ringue e eu subo também, sem nenhum pouco de confiança. Matilda fica em posição de luta, mas como não sei lutar, apenas copio ela.

Eles fecham a porta do ringue e Matilda acerta seu punho em meu nariz. Ela aproveita o tempo em que estou me recuperando e acerta seu cotovelo em minhas costas. Eu caio e ela começa a chutar a lateral da minha barriga. Ela me vira e acerta seu pé em minha cara. E é aí que eu desmaio.