Autópsia

4 Capítulo 3-Confiança


A confiança, é um pequeno laço que vai aumentando sempre que alguém pode contar cada vez mais com você. Esse laço vem sendo tecido cada vez mais. Sempre que a sua confiança é maior que o seu ego, as pessoas começam a adorar você por ser uma pessoa justa. Mas as vezes, esse laço pode ser rompido. E sempre que ele se rompe, não há mais volta. Quando esse laço é cortado, é um sinal de desapego, de traição, de vingança ou de ódio.

***

–Cyrus?-começo a gritar seu nome pela sala. As pessoas tentam me falar a verdade, mas ela dói demais para mim ouvir-Cyrus?

Ele tinha deixado tão claro que não iria se mudar, e agora, não consigo mais vê-lo. Cyrus era um dos meus amigos de confiança, mas sei que ele nutria mais do que apenas um forte laço de amizade. Ele me amava e isso estava bem claro, ele deixou bem claro que me amava hoje, justamente hoje. No dia em que ele desistiu da vida aqui.

Meus pais não se preocuparam tanto comigo perante ao teste pois sabiam que eu não tinha motivos para abandoná-los. Eu os amava, sim, pois a lei diz que o amor só é permitido numa família e não pode ser exposto. Eu posso amar meu pai e minha mãe, mas não posso amar Cyrus ou qualquer outra pessoa. Isso destruiria a sociedade.

Mas e quanto a Cyrus? Ele não tem uma família, mas tem uma consciência. Ele tem tantos amigos que apoiaram-no desde o incidente com sua vida, até hoje...

Não posso me enganar. Cyrus me amava. Pode até amar outras pessoas. Ele é cuidadoso demais para ficar aqui. Sabe que se permanecer aqui, mesmo com o amor em seu corpo, iria ser pego pelo sistema.

–Cyrus...-essa foi minha última tentativa.

Um segurança do colégio apertou meu antebraço, na tentativa de me acalmar. Mas não me acalmou.

–Não me toque!-me livrei dele o mais rápido que pude.

Logo, me lembrei de Amanda. Amanda. Não. Ela não pode ter escolhido outro destino.

Eu saio da sala, mesmo sem permissão e entro na sala em que ela está, mesmo não sendo permitido. A sala ainda está em testes e a professora reclama comigo por invadir a sala, mas não ligo.

Sei perfeitamente em que cadeira ela está e estou de frente para esta cadeira, que ainda está revestida pelo tubo de metal. Eu sussurro seu nome várias vezes, torcendo para que o pior não aconteça. Primeiro Cyrus. Agora, não pode ser Amanda.

O tubo começa a abaixar e a garota de lápis de olho de cabelos loiros está a minha frente. Eu a abraço e ela me abraça. Outros adolescentes vão entrando na sala e abraçando seus amigos que não se foram. Aperto Amanda com mais força, agradecendo por ela não ter me abandonado. E abandonado a sua família. E abandonado o mundo ao seu redor.

–Eu nunca faria isso. Nunca sairia daqui. Tenho negócios inacabados com algumas pessoas, sem contar que seria muito injusto sair daqui... bem no dia do seu aniversário! A propósito, vamos comemorar. Olha, tem um café aqui próximo, é ótimo. Vende ótimos cupcakes.

Ela agarra minha mão, com medo, e começa a me arrastar para fora da escola. Não entendo porque está tão aflita. Mas decido ignorar e não discuto com ela, pois estou com vontade de comer cupcakes.

Quando nós passamos pela portaria, meu coração congela. Algo em torno de cinco pessoas vestidas de preto estão na frente do portão de ferro, conversando com o porteiro. Sei exatamente quem são. São os governantes que controlam o sistema. Cassandra, a mulher ruiva de cabelos lisos om cachos nas pontas olha fixamente para mim. Seu olhar me amedronta. Mas ignoro a ideia de estarem procurando por mim.

Passamos por eles junto a um outro monte de adolescentes e Amanda me arrasta pela rua. Poucos carros passam por aqui. O desespero de Amanda é notável, ela segura mais forte o meu pulso e começa a correr. O café que ela disse, fica do lado leste da rua, e estamos indo para o lado leste.

Ela me leva até uma pequena rua, pouco iluminada. A rua é semelhante a um beco e não entendo porque ela está fazendo isso.

–Amanda?-eu começo a puxar minha mão da dela.

–Você precisa vir comigo ou eles vão nos pegar. Eles já começaram a caçada-ela fala de maneira estranha. Ela suspira por um momento-O sistema... Eles estão caçando. Eles sabem que há pessoas com amor no sangue. Pessoas que estão apaixonadas. Lara... Você é um desses.

***

Minha mente foi invadida por perguntas sem respostas. Como ela sabia disso? E se o sistema me pegasse? Mas... será que eu realmente estou apaixonada?

–Precisamos sair daqui. Você sabe que todo ano, no dia da mudança, eles fazem uma cobertura pela cidade. Lara eles não podem te achar. Se isso acontecer, pode gerar uma revolução na cidade. Pode acontecer várias coisas. Eles vão notar que o sistema está falho e vão reconfigurar ele, pessoas irão morrer, eles matarão quem virem pela frente... Você fez uma má escolha.

–Eu não iria abandonar minha família e meus amigos. Amanda! E se tudo isso for um alerta falso? E como você sabe disso?

–Lara, quando tínhamos dez anos, no ano em que iriam matar nosso amor, Cassandra me pegou pela mão e me alertou. Ela disse que desconfiava de você. Até hoje não esqueço. Lara, eu sou sua guardiã. Já te salvei de tantas coisas...

–Isso é loucura. Eu não estou apaixonada. Eu não amo ninguém fora meu pai e minha mãe nesse mundo-eu sei que estou enganando a mim mesma.

É horrível mentir para sua consciência. Ambos sabem que está errado. Eu amei Cyrus, muito tempo antes, e amo ele agora. O amor não foi totalmente tirado de mim. O que está acontecendo?

–Precisamos sair daqui. Eles podem voltar. Vamos, Lara-ela puxa minha mão.

–Vamos?-sinto meus olhos se encherem de lágrimas-Vamos para onde? Não... vou ficar aqui e enfrentar meu destino. Se eles em querem, me entregarei a eles.

–Não seja tola. Se eles te pegarem, seus pais também morrem. Isso é uma lei. Mas não importa agora. Você fará o que eu vou dizer: precisa achar um disfarce. Iremos programar sua saída de Nova Aliança.