Autópsia

5 Capítulo 4-Anjos


Na natureza humana, não existem anjos, apenas demônios. O fogo arde como uma ferida que não foi cicatrizada, mas apenas o fogo criado pelos demônios é capaz de ensinar a suportar a dor. O amor é suave como um vento crepuscular, mas seu efeito é um caos, os anjos criaram o amor para mostrarem que nem tudo que é belo por fora, é belo por dentro.

***

Nós corremos até minha casa. Durante todo o percurso não parei de pensar em tudo que Amanda me disse. Que eu sou uma ameaça ao sistema e que eu tenho que sair daqui.

Ela abre a porta da minha casa com força, como se isso dependesse de tudo. Ela se esbarra em meu pai, que me abraça. Ele olha para Amanda com cara de interrogação, minha mãe também.

–Senhor O'Connor...-ela trava enquanto fala-Eles estão perto de descobrir.

Meu pai olha para mim, com a visão turva. Ele segura minha mão e me conduz até a sala da nossa casa. Ele arranca o tapete do chão e começa a tateá-lo. Ele acha alguma coisa que não consigo ver e puxa. Cubro minha mão com a boca ao ver o enorme porão escuro a minha frente. Ele me manda entrar e eu o obedeço. Ele empurra a porta de madeira para fechá-la e ouço ele prendendo o cadeado.

Também posso ouvir a aflição de todos lá em cima, preocupados comigo. Começo a me questionar sobre como me apaixonei tão subitamente.

Claro. Começo a me lembrar de sete anos atrás, quando iriam aniquilar o amor de mim. Nos trancaram numa sala escura. Eles lançaram um gás que fez com que todos lá caíssem e perdessem a consciência. Mas eu não. Eu estava consciente e sã. Talvez esse tenha sido o problema. O gás não funcionou em mim.

***

Minutos depois de aprisionada no escuro, começo a bater no porão para me soltarem. Nem sei porque fizeram isso, talvez por segurança, mas paro de bater quando ouço uma voz que não é nem de meus pais e nem de Amanda. A voz está dialogando com minha mãe. Está perguntando por mim. Sei exatamente quem é. Sei quem quer me ver.

Cassandra.

Ela provavelmente está desconfiada e quer me ver. Não, não, não, não.

Eu desço mais afundo no porão, até encontrar o chão. Não consigo ver nada, mas estou aflita. Tateio a parede até achar o interruptor da lâmpada. Quando ela acende, vejo algumas bonecas minhas, ursos de pelúcia, carrinhos de brinquedo velhos-provavelmente do meu pai-e até mesmo patins. É um lugar pequeno, não muito grande, mas há uma outra porta ao oeste.

A porta está trancada. Mas esse não é o pior. O pior é que a porta do porão está começando a abrir. Primeiro, ouço o som do cadeado, o segundo som... não quero nem saber de onde vem. Apenas corro pelo porão o mais rápido que posso, a procura de algo que possa me ajudar.

Tudo que acho é uma faca de arremesso. Seguro o punhal com a maior força que consigo e mordo minha língua.

Você deve estar realmente muito apaixonada para cometer um crime como esses, Lara. É o meu primeiro pensamento.

Quando a porta abre, eu desligo a luz e me escondo atrás da escada. Eu mordo minha língua o mais forte que posso enquanto ouço os passos de salto alto descendo as escadas. Mas não é só um passo, são vários. Eu olho o degrau da escada e vejo o primeiro sapato preto. Depois, é um pé descalço. Amanda. Depois, sei que são meus pais.

–Bem, não que eu desconfie de vocês mas sabem que temos de fazer isso e sua filha sempre apresentou sinais de... bem, vocês sabem. Acredito em vocês quando disseram que ela havia saído, mas preciso verificar tudo, é uma regra até mesmo para mim.

Ela se aproxima da escada e minha respiração se torna difícil. Prendo-a para evitar problemas.

Cassandra se aproxima mais de mim. Ela não me vê, pois estamos no escuro. Mas ela gira cento e oitenta graus e eu agarro-a por trás. Prendo minha mão em sua boca e a faca em sua garganta.

–Se você reagir, vai ser seu último gesto-digo. Ela coloca a mão em meu braço, na tentativa de fugir, mas para.

Empurro ela para longe e ignoro a tudo e a todos. Subo as escadas o mais rápido que posso, quando atinjo a porta, empurro-a, os outros gritam meu nome.

Ignoro outro ponto chave da história. Os seguranças que ela disse estão bloqueando a porta.

Um deles agarra meu pulso e eu corto o antebraço dele com a minha faca. Chuto a barriga do outro e saio correndo pela porta.

Liberdade.

O vento de liberdade agrava em meu rosto. Preciso sair daqui, preciso sair de Nova Aliança. Mas não posso simplesmente ir até Velho Desastre sem a ajuda de alguém, especificamente de Amanda. Ela disse que iria me ajudar a sair da cidade, sendo que é a única alternativa agora.

***

Eu começo a me afastar da cidade urbana. Vejo os prédios se tornando pequenos a medida que vou adentrando a grama que dá pro Muro que divide a cidade. O muro foi criado para dividir Nova Aliança de Velho Desastre. É praticamente impossível escalar ele já que é um parede lisa de metal.

Ouço os helicópteros no céu me procurando. Agacho-me atrás de um arbusto para que não me vejam. Não sei como vou passar pelo muro, mas Amanda prometeu me ajudar. Nem sei o que farei a partir de aqui, mas não posso me deixar levar por um simples ímpeto. Tudo a partir de agora tem que ser extremamente calculado, pois não vão aniquilar o sangue do meu corpo de novo. Vão me aniquilar. Eles me querem morta.

–Amanda, cadê você?

***

A noite se prolonga, estimo que seja quase onze horas e estou dormindo no mesmo arbusto que estava há algum tempo atrás. A tarde, eu andei um pouco pela floresta para ter uma noção melhor, mas as árvores não são tão curtas assim, e o muro é extremamente alto, então eu posso ser fácil de achar.

Eu me escondo quando vejo a luz correndo de um lado para o outro. Alguém sussurra meu nome. Não identifico a voz, mas também não posso sair daqui de um jeito ou de outro. A lanterna aponta para o meu lado leste, até que a pessoa se aproxima. Aperto o punhal com a maior força que consigo. Se alguém for me atacar, eu morro, mas essa pessoa morre junto a mim.

–Lara? Cadê você?-a pessoa parece impaciente-Sou eu... Amanda.

O nome desperta em minha mente. Eu me levanto subitamente e encaro Amanda. Ela fica feliz ao me ver. Ela coloca as duas mãos em meus ombros e começa a falar:

–Olha, o que você fez foi inteligente. Mas você perturbou Cassandra, a cidade vai estar lotada de helicópteros e carros da polícia amanhã, Por isso vou te tirar daqui. Apenas por você, Lara, eu correria esse risco-ela suspira e nossos olhos se enchem de lágrimas. Ela começa a chorar, mas eu me seguro-Olha, eu vou entrar no prédio de controle amanhã. Vou abaixar o muro de ferro e você vai passar. Trouxe isso pra você.

Ela me entrega um walkie-talkie um pouco antigo. Ela pega o dela e nós testamos nossos aparelhos, que funcionam muito bem.

–Certo. Preciso que você seja corajosa. Você pode ter muito amor no sangue, mas você é brava e corajosa. Eu confio em você. Tchau, preciso ir, vão notar minha falta na cidade. Seus pais estão bem, estão lá em casa. Darei notícias, o.k? Amanhã de manhã, você vai sair daqui. Tchau.

Ela corre o mais rápido que pode, até que sua silhueta se junte a escuridão da noite.