Autópsia

13 Capítulo 12-Vitória


A única vitória que todos desejam é o medo dos outros. Quando se é temido, o mundo conspira a seu favor. E a vitória menos desejada, é aquela que se conquista, e em pouco tempo, outro alguém conquista a mesma. Mas a vitória que poucos conseguem, é a vitória ganhada a partir da luta. Derramar suor e usar seus punhos para conseguir algo, é quase uma batalha vencida.

***

Eu estava dormindo na casa de Cyrus, depois de um dia muito cansativo nas lavouras que optamos como trabalho quando tudo aconteceu.

Eu ouvi a porta se arrombando e vários homens de máscara pretos entraram. Dois foram para o quarto de Cyrus e os outros me seguraram. Não vi quantos tinham, pois logo apaguei. Apenas senti alguma coisa muito pesada na minha cabeça antes de desabar.

***

Quando acordei, estava no porta-malas de um carro. O porta-malas estava aberto, então pude ver que já estava amanhecendo. Um homem de preto estava a minha frente, ele segurava algo como um vidro e um pano. Ele me encarou.

–Use isso-ele diz-Ou farei eu mesmo.

Sua voz é irreconhecível, é notável que não é uma voz normal, provavelmente a máscara modificou sua voz. Decido não questioná-lo.

Agarro o pote de vidro e o lenço, sei de fato o que contém no pote. É um remédio usado para dopar as pessoas. Respiro fundo e derramo o líquido grosso de cheiro suave no lenço.

Olho uma última vez para o homem, como se estivesse fitando-o.

Cubro meu nariz com o lenço e em alguns poucos segundo eu apago totalmente.

***

Não abro meus olhos, apenas sinto o movimento do carro, que balança. Provavelmente é uma estrada esburacada, o que é notável, pois estradas assim só se nota em lugares afastados da cidade. Mas por que estão me levando embora? E quanto a Cyrus? Estão levando-o também?

Essas perguntas repercutem em minha mente. Abro meus olhos e vejo a escuridão do porta-malas. O carro é grande, assim como a bagagem em que estou. Eu tateio o lugar a procura de alguma coisa, mas nada acho.

Eu dobro minhas pernas e entrelaço minhas mãos sobre ela, encarando a vasta escuridão.

O carro para e ouço a porta se abrindo e segundos depois ouço a batida. Mais alguns segundos se passaram e alguém abre o porta-malas. Esse alguém segura uma venda. Ele me entrega o pedaço de pano e coloco em meus olhos.

Eles me puxam de lá e colocam minhas mãos para trás. Amarram alguma coisa nela enquanto andamos, de forma que não consigo mexê-la. Meu coração palpita a medida que ouço a bota dos homens de preto batendo no chão. O chão.

Tiro minhas sapatilhas de borracha, o mais discretamente possível e começo a sentir o chão. Sua aspereza é notável, é um chão de ferro, não há buracos.

Mudo de cenário. Agora, meus pés tocam um piso de porcelana, provavelmente. É liso.

Finalmente, os homens de preto reagem. Eles abrem alguma porta, pois ouço o barulho da maçaneta se abrindo, e me jogam lá dentro. Caio de quatro e não consigo levantar. Minhas mãos estão atadas e isso me impede de me erguer. Mas a situação muda quando alguém toca meu braço, é uma mão lisa e posso sentir o perfume de rosas.

Essa pessoa me ajuda a levantar e me vira. Ouço o barulho de uma serra cortando a corda que ata minhas mãos, e logo, elas estão livres, mas não serei incompetente.

Tiro a venda e Cassandra está a minha frente. O lugar é uma espécie de laboratório digno de Cassandra, cheio de macas metálicas e objetos de medicina.

–Olá, Larissa-ela me cumprimenta.

Eu respiro fundo e não respondo ela, apenas me preocupo com o espaço ao meu redor. Não serei tão burra a ponto de atacar Cassandra, ela está segurando uma faca e há vários homens lá fora.

–Onde estou?-pergunto para ela.

–Não se preocupe em fugir para casa, sua casa está muito longe daqui. Mas seria uma tortura te deixar aqui sozinha. Onde está o garoto?-ela grita para alguém.

Instantes depois, a porta se abre e arremessam Cyrus lá dento. Ele está na mesma situação em que estive. Atado e usando uma venda. Ele se debate, mas tudo que faz é cair para o lado.

–Tome-ela estende a faca dela para mim-Corte a corda dele.

–Está confiando uma faca a mim?-digo.

–Suas escolhas definem quem você é. Se me atacar, as coisas serão piores para você.

Eu agarro a faca e me ajoelho ao lado de Cyrus, eu pego suas mãos e corto a corda que as prende. Cyrus se levanta e tira a venda, ele engole em seco quando vê Cassandra o encarando.

Eu fico ao seu lado. Cyrus está tremendo, ele está com o rosto vermelho.

–Era exatamente isso que eu queria. Dois apaixonados. Um, seguiu as regras corretamente-ela olha para Cyrus-Mas o outro, tentou derrubar o sistema-ela faz uma cara de decepção-Não deveria tê-la abrigado em sua casa, garoto. Essa menina é tão perigosa quanto acha que eu sou.

–Agora, eis o motivo de estarem aqui-ela aponta para um tubo de vidro-Entrarão naquele vidro. Primeiro, quero que você, garoto, entre lá-ela aponta para Cyrus-Irei erradicar totalmente o amor de seu sangue. Preciso de um sem amor, e o outro com. O que terá amor no sangue é você, Lara.

Eu e Cyrus permanecemos calados. Cyrus não quer entrar lá, é notável isso, seu rosto está suado e sua expressão está tensa.

–Agora, preciso que entre lá. A maquina irá lançar um gás. Você, garoto, irá respirar esse gás. Depois, não haverá mais amor para você.

–E se eu não quiser ir?-ele pergunta, encarando com a expressão dura Cassandra.

–Bem, então eu mesma terei de fazer você entrar.

Ela abre uma gaveta numa mesa e puxa uma arma. Ela aponta a arma diretamente para Cyrus, que expira o mais forte que pode. Ele fecha os olhos e olha para mim.

–Cyrus, ela não vai te matar... Cyrus não vá!-meu grito é estridente.

–Relaxe, vai dar tudo certo. Não me importo de não ter amor em mim. Mas saiba que, se eu perder toda a compaixão por você, entenda que no fundo eu te amo, mas sou impedido de expressar isso.

–Cyrus!

Ele solta minha mão e caminha até o tubo. Ele entra com receio, mas entra.

Cassandra caminha até sua mesa, onde apoia o computador para que ela escreva confortavelmente. Cassandra digita algumas coisas e o tubo se fecha com Cyrus lá dentro.

–Não ouse fazer isso, Cassandra-digo, a raiva é notável em meu ódio.

–Cale a boca, menina estúpida. Teve sua chance de sair de Nova Aliança, mas preferiu fugir e quebrar todo o sistema da cidade. Eu fui cobrada por causa disso.

–Se você apertar esse botão, eu juro que será o último gesto que fará em sua vida-ameaço-a, mas não soa convincente.

–Eu te aconselho a relaxar, porque sabe muito bem que é mais fácil você morrer perante a mim do que ao contrário-ela retruca.

–A culpa é sua e do seu sistema inútil. Não gostou de eu ter fugido? Ah, que pena. Isso só prova que o sistema é tão fraco quanto você. Agora, se acionar alguma coisa...

–Eu fui muito cobrada por causa disso. Os outros governantes me reclamaram muito e eu quase saí do governo. O sistema poderia ter ruído tudo por sua causa, você quase tirou uma chance de vida minha, e agora... agora você me fez mudar de opinião. Seu namoradinho não perderá apenas o amor do sangue, como perderá a vida.

Ela digita alguma coisa e vejo uma fumaça entrar no tubo que Cyrus está. Cyrus está calmo. Droga, Cyrus pensa que é a fumaça que Cassandra falou. Eu começo a chorar e a gritar seu nome.

Quase me recuso, mas preciso ver Cyrus antes de ele morrer. Cyrus inala o ar e começa a bater no tubo, como se sua vida dependesse disso. Ele começa a vomitar sangue, depois, vejo as veias saltarem de sua cabeça.

Depois disso, não vejo nada. A fumaça tomou conta do tubo e não consigo ver Cyrus. Mas também nunca mais o verei.