Austin Saunders Era o Meu Melhor Amigo
5 Capítulo 4
Notas iniciais
— O que você pretende fazer agora? — A morena pergunta me observando atentamente. Provavelmente minha cara revelava que eu estava me segurando para não surtar.
— Essa é uma boa pergunta. Se você achar a resposta para ela, por favor não esqueça de me dizer, pois eu também quero saber. — Digo exasperada.
— Olha amiga, provavelmente foi algum aluno desesperado por views que postou isso. Logo, logo todo mundo já esqueceu disso.
Talvez Lexie estivesse certa. Logo eles achariam outra fofoca para espalhar e esqueceriam de mim.
— Fora que você sabe que não poderá fugir dele por muito tempo, né? — Ela completa.
— Quem disse que estou fugindo? — Minha amiga que lança um olhar de “É sério isso?”
— Claro. Falou a garota que demorou um século para pegar o celular que caiu embaixo da mesa só por que ele estava se aproximando.
— Obrigada, amiga. Me sinto bem melhor ouvindo isso. — Ironizo.
— O prazer é todo meu em te dizer a verdade e fazer você cair na real. — Ela rebate fazendo uma reverência tosca.
O sinal toca e Nancy — a enfermeira que cuidou do meu curativo — entra.
— Bom, essa é a minha deixa amiga. — Lexie levanta num salto. — Tenho que voltar para a aula. Depois eu te passo minhas anotações e os trabalhos — E, após me lançar um beijo pelo ar, ela sai.
Depois de conferir se estava tudo certo com minha bandagem, a enfermeira me libera para ir para casa. Estranho o fato de não exigirem autorização do meu responsável, mas não ouso protestar, agradecendo internamente por não ter que enfrentar os olhares curiosos nos corredores o resto do dia. Queria apenas esquecer o que aconteceu, esquecer que aconteceu, esquecer o site de fofocas, arrancar esse curativo patético da minha cabeça e me enfiar debaixo das cobertas.
Mesmo não tendo minha bicicleta para pedalar até em casa estava disposta a percorrer o trajeto de vinte minutos a pé, mas meus planos são frustrados quando vejo Austin encostado no carro de seu pai assim que saio no estacionamento. Quando estava a alguns passos de onde ele estava, meu amigo começa a andar em minha direção.
— Ei, Lis. Pronta para ir para casa? — Ele pergunta girando as chaves no indicador. O encaro com uma expressão confusa. Pensei que ele estaria recuperando o tempo perdido de aula que ele ficou na enfermaria comigo.
— Não deveria estar na aula, Saunders? — Ou em qualquer outro lugar menos aqui? Eu já tinha me exposto a humilhação o suficiente por alguns anos, mas algo me dizia que não me livraria dele tão fácil assim.
— Há! Imaginei que diria isso, mas a verdade é que garanti a tia Maggie que te levaria sã e salva para casa, depois, é claro, mexi uns pauzinhos e consegui que te liberassem sem a autorização do responsável. — Arregalo os olhos, incrédula. Austin tinha falado com a minha mãe?
Ele encolhe os ombros e completa:
— Acho que posso ser bem convincente quando quero.
Balanço a cabeça negativamente sem poder acreditar em todo o esquema armado pelo meu amigo.
— O que?! Não achou mesmo que eu deixaria você voltar sozinha para casa a pé com os miolos mexidos, né? — Um sorriso fraco escapa de meus lábios sem permissão.
— Ah, que bonitinho! — Zombo apertando sua bochecha. — Pode admitir que não consegue ficar longe de mim, Saunders. — Austin abre a porta para mim e dá a volta no veículo entrando em seguida na parte do motorista.
— Depois do que a enfermeira falou fiquei preocupado que você pudesse desmaiar na rua sozinha, sem ninguém para te ajudar. — E lá estava o velho Austin com seu jeito super protetor. Uma sensação quentinha se alastra pelo meu peito. Ele ainda se importava comigo.
Isso me faz relaxar instantaneamente. Era como se toda a tensão que vinha se acumulando em meus ombros depois da noite do jantar se dissipasse. Austin também parecia mais relaxado que o normal, cantarolando baixinho com o braço esquerdo apoiado na janela aberta enquanto sua outra mão conduzia o volante. O silêncio entre nós já não era tão desconfortável, no entanto eu resolvo o quebrar ao lembrar de um fato interessante.
— Ainda não consigo acreditar que jantou com George Clooney — Digo, observando o movimento nas ruas pela janela enquanto o vento bagunça meus cachos. Lanço um olhar de soslaio para Austin.
Meu amigo abre um enorme sorriso com a lembrança. Ele tinha comentado sobre esse e outros encontros com famosos em diversos lugares de Los Angeles.
— Bom, na verdade apenas estávamos no mesmo restaurante ao mesmo tempo, mas ele foi muito bacana ao aceitar tirar uma selfie comigo. — Seus olhos brilham em divertimento. Austin simplesmente adorava o trabalho dele em Onze Homens e Um Segredo.
Um milhão de outras perguntas sobre suas aventuras na outra cidade surgem em minha cabeça e eu as disparo para ele. Passamos o resto do trajeto conversando e rindo até a barriga doer.
— Senti sua falta. — Solto em um tom tão baixo, mas me arrependo quase instantaneamente ao sentir meu coração acelerar. Observo meu amigo de soslaio que se mostrava concentrado no trajeto a frente, duvidando se ele tinha escutado ou não.
— Também senti a sua falta, Chewie. — Ele completa com um dos sorrisos mais lindos, direcionando seu olhar para mim. Retribuo o sorriso torcendo para que minhas bochechas não estivessem vermelhas. Sinto as borboletas que nem sabia que moravam em meu estômago dançarem freneticamente.
Eu ainda estava um pouco confusa do por que meu amigo estava fazendo tudo aquilo, mas iria aproveitar até o último segundo daquele momento.
A algumas quadras da minha casa, o garoto vira em uma outra esquina.
— Espera, nossas casas ficam para lá — Aponto para a entrada que ficou para trás.
— Eu disse que te levaria para casa só não disse que horas. — Ele encolhe os ombros tentando conter um sorriso.
— Pra onde está me levando? Sequestrar os amigos não é legal, Saunders.
— Quem disse?
— EU disse. — Austin irritante acionado, penso.
— Ah, então não conta.
Eu estava prestes a perguntá-lo novamente onde estávamos indo quando vejo a fachada do Johny’s crescer a nossa frente. Lanço um olhar interrogativo garoto.
— Só achei que você fez por merecer um milkshake de chocolate com cobertura de caramelo do Johny’s
— Se “fez por merecer” você se refere a bater a cabeça em uma mesa e desmaiar no meio da biblioteca fazendo total papel de ridícula então sim, fiz sim. — O melhor era rir da minha própria desgraça mesmo. — Só não sei se seria uma boa ir com essa blusa manchada de sangue. — Digo analisando minha própria roupa.
— Ah, sem problemas — Ele estala a língua e estende o braço para procurar algo no banco de trás. — Pode usar isso se quiser. — Meu amigo me estende seu moletom, e coincidentemente era o que eu mais gostava. Hesito por alguns milésimos de segundos, mas resolvo aceitar sua oferta e o vestir. Logo sou contagiada pelo seu perfume inebriante.
Depois de estacionar em frente ao estabelecimento, decido por o capuz do moletom para esconder o curativo.
O barulho do pequeno sininho no topo da porta soa assim que a abrimos.
O lugar tinha uma pegada meio retrô. O chão era composto por azulejos brancos e pretos intercalados como um grande tabuleiro de xadrez, mesinhas altas e redondas forradas com toalhas vermelhas quadriculadas, acompanhadas por banquetas de ferro com estofado vermelho, nas laterais perto das janelas e nos fundos alguns sofás com listras vermelhas e brancas substituem as banquetas.
Aquele lugar despertava tantas emoções diferentes em mim. Foi ali que gritamos iguais uns loucos quando Austin recebeu a ligação da gravadora, era ali também que passávamos a maior parte da nossa tarde às sextas-feiras jogando conversa fora e falávamos sobre Star Wars. Depois que meu melhor amigo partiu, não consegui mais pisar naquele lugar, era simplesmente doloroso estar ali sem ele, por mais bobo que isso pudesse parecer.
— Dois milkshakes de chocolate com cobertura de caramelo, por favor — Meu amigo faz o pedido com um enorme sorriso, no balcão de atendimento e depois passamos a procurar um lugar para nos sentarmos — o que tinha de sobra dado o horário.
— Agora chega de falar sobre mim. O que você tem feito desde que parti? Continua desenhando? — Escolho meu lugar de costas para a janela. Não gostava da sensação de estar sendo observada ou de comer com as pessoas da rua passando e observando a cena — que, cá entre nós, não era muito agradável. Eu sempre arrumava um jeito de me sujar inteira.
— Estou tentando pintar algumas telas mas ainda não consegui terminar — Austin se acomoda no lugar a minha frente.
— Terá que me mostrá-las depois.
— Talvez. Veremos se você será digno — Ele põe a mão no coração fingindo estar ofendido.
A garçonete com uniforme à caráter surge com os nossos milkshakes.
Felizmente consigo voltar a atenção da conversa para Austin novamente ao perguntar sobre seus lançamentos de músicas. Ele me explicou que durante esses meses que ficará aqui em nossa pequena cidade as músicas de seu primeiro EP — que foram produzidas e gravadas nesse um ano que ele ficou em L.A — serão lançadas nas plataformas de streaming e que a única coisa que faltava era escolher o nome para o EP.
Conversamos por mais alguns minutos até meu amigo decidir que está na hora de me levar — dessa vez de verdade — para casa.
O garoto estaciona o carro em frente a minha casa e pega a minha mala sem me dar tempo para protestar e a leva para dentro. Ela nem estava tão pesada assim, eu poderia muito bem carregar uma mochila sem desmanchar em mil pedaços pelo chão. Acompanho seus passos até o meu quarto.
Meu amigo coloca a mochila em cima da minha cama de casal varrendo o ambiente com os olhos. Provavelmente por que tudo continuava no mesmo lugar de sempre. — se não contarmos com minha escrivaninha perto da cama que NADA nunca parecia em seu devido lugar em cima dela.
O tapete grande felpudo posicionado no meio do cômodo abafava nossos passos. Ele para perto da janela olhando para baixo, provavelmente lembrando do seu costumeiro trajeto de escalada que fazia em momentos de inspiração musical.
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Sentados no chão do meu quarto, estávamos absortos em nossa própria bolha com as lembranças de nossas aventuras quando crianças nem vimos a hora passar.
— Não acredito! Você guardou o velho Rocky esse tempo todo? — Os olhos de meu amigo sobre um ponto além da minha cabeça. Sigo seu olhar até uma capa preta que envolvia o velho violão surrado de cordas de nylon que Austin carinhosamente o apelidou de Rocky.
Alguns quase acidentes fizeram meu velho amigo ter a ideia de deixar um violão em meu quarto para quando quisesse ir até lá nas madrugadas de inspiração musical sem se acidentar ou acordar meus pais.
O garoto, tomado pela nostalgia, se levanta e tira o instrumento do canto entre o guarda roupa e a parede. Depois de se livrar da capa que o envolvia, meu amigo toma o violão em seu colo voltando a se sentar no chão ao meu lado e o dedilha.
A voz suave e rouca de Austin inundava meus ouvidos em melodias familiares. Letras que ele tinha cantado anos atrás naquele mesmo chão, daquele mesmo quarto. Nossa! Parecia que tudo tinha acontecido há vida. Era realmente um mix de emoções tê-lo ali depois de tanto tempo. No passado seria algo normal ter Austin sentado no chão do meu quarto dedilhando seu velho violão, mas ele já não era mais aquele garoto tímido e inseguro de anos atrás. Tudo nele refletia confiança e popularidade. Meu amigo estava mudado, ainda assim eu desejava ser aquela garota cantada em suas músicas. Um suspiro baixo escapa de meus lábios com esse pensamento.
— Lisa, querida! Está em casa? — A voz de minha mãe vinda do andar de baixo, corta meu pensamento.
— Estamos aqui em cima! — Grito de volta e alguns segundos depois ela aparece na porta do quarto.
— Austin, querido! Que bom te ver. — Ela o envolve em um abraço de urso. — Obrigada por trazer meu bebê para casa. Se não fosse por você, teria saído desesperada do trabalho para ir buscá-la — Sim, era bem provável que ela fizesse isso mesmo. Meu amigo me lança um olhar cúmplice como se soubesse o que estava pensando e respondesse com o olhar “Foi exatamente por isso que fiz o que fiz.”
— Não foi nada, tia Maggie. Também me preocupo com a Lisa. Ela é como uma irmã para mim. — Ouch! Essas palavras me atingiram como um soco no estômago.
— O que acha de ficar para o jantar? Lisa e eu podemos preparar alguma coisa. — O que?! Minha mãe só podia estar brincando.
— É uma oferta tentadora, mas terei que recusar. Preciso cuidar de alguns assuntos com meu pai. — Ele lança um sorriso educado sem mostrar os dentes.
Depois de conversarmos por mais alguns minutos o acompanhamos até a porta.
Ótimo. Dois foras em menos de cinco minutos. Acho que se houvesse algum recorde eu com certeza acabara de o ultrapassar.
— “Ela é como uma irmã para mim.”? — Repito. Esse era o que? O quarto fora indireto que eu tinha levado desde que meu amigo tinha voltado?
— Meu bem, poderia me ajudar com o jantar? — Sinto a mão quente de minha mãe apertar levemente meu ombro. Claro! Se ela achava que eu a deixaria sozinha com as panelas estava muito enganada. Isso seria a receita perfeita para o desastre.
Enquanto preparávamos a comida eu aproveitei para desabafar e inteirar ela de tudo que tinha acontecido desde que meu melhor amigo tinha voltado. Contei da sua ligação na noite do jantar, do término de Lexie, do meu desastre na biblioteca hoje de manhã. Tudo sem deixar nem um detalhe para trás.
Minha mãe e eu tínhamos nos tornado mais próximas depois que perdemos meu pai. Foi duro no começo para nós duas, mas descobrimos que compartilhar o fardo deixava as coisas mais leves e suportáveis. Ela até descobriu sua profissão dos sonhos, se tornando conselheira estudantil para ajudar os adolescentes que passam por traumas.
Nossa conversa rendeu até a madrugada — fazia tempo que não passávamos esse tempo juntas — e depois, dormi no aconchego de seus braços que me trazia tanta segurança que todos os meus medos pareciam insignificantes.
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— Lisa, cuidado. Vai acabar babando desse jeito. — Minha amiga zomba me fazendo desviar o olhar para ela.
— Muito engraçadinha. Há quanto tempo está ai? — Minha amiga, que estava encostada no batente da porta próxima aos vestiários, me observando com um olhar divertido, se junta a mim na arquibancada.
Os garotos jogavam futebol concentrados embaixo do sol castigante do meio-dia.
— Tempo o bastante para perceber que você não para de encarar o seu príncipe encantado. — Reviro os olhos com sua afirmação. Com certeza Lexie estava exagerando, mas sinto minhas bochechas corarem. Talvez eu tenha perdido um pouco a noção do tempo enquanto observava atentamente Austin jogar futebol.
Eu provavelmente nem deveria estar ali, principalmente depois dos rumores que aquele site de fofocas postou mas simplesmente não conseguia evitar.
— EU?! — Digo com uma voz afetada.
— Não adianta fingir demência, querida. — Ela balança o indicador na frente do meu rosto.
— Nada a ver! Eu só estou assistindo ao jogo dos meninos! — Minto.
— Ah, é? Quem está ganhando? — Ela interroga, arqueando sua sobrancelha e cruzando os braços.
— Er...Os Falcões?
— Esse nem é um nome de time!
— Ok! Talvez eu estivesse um pouco distraída.
— “Um pouco” ? — Ela provoca com uma de suas sobrancelhas levantadas.
— Não consigo esconder nada de você, né?! — Respiro pesadamente.
— Não mesmo.
Lexie achava loucura da minha parte esconder meus sentimentos de meu amigo por todo esse tempo, mas a verdade era que eu precisava cair na real. Austin e eu nunca daria certo. Talvez fosse melhor deixar as coisas como elas estavam. Se eu me declarasse para ele corria o risco de perder sua amizade, fora o fato dele já ter encontrado seu alguém especial.
— Ah, a professora Delaney estava te procurando. — Ela completa quebrando o silêncio.
— Sabe sobre o que é que ela quer falar comigo? — Pergunto franzindo as sobrancelhas. Minha amiga balança a cabeça negando.
— Vou ver se a encontro.
Algumas voltas depois, pelos corredores da escola, encontro a professora de literatura que estava acompanhada de um garoto loiro e alto.
— Lisinha! Estava te procurando. — Céus, como eu odiava quando ela me chamava assim, mas gostava da professora então simplesmente tentava ignorar aquilo que ela achava que seria um apelido fofo. — Será que poderia apresentar a escola ao senhor Walker? — “Senhor Walker”? Pff, que bizarro. O garoto da um passo em minha direção.
— Prazer, sou Ryan Walker.
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