Austin Saunders Era o Meu Melhor Amigo
6 Capítulo 5
Notas iniciais
Sossego. Era o que eu mais precisava e o que menos teria naquele momento. Que ótimo momento para ser escalada como guia turística de alguém, penso. Agora teria que perambular nos corredores da escola com esse loirinho pretensioso.
Olho fixamente para a mão do garoto parado à minha frente que estava estendida no ar, alguns segundos depois, ao perceber que eu não iria corresponder ao cumprimento ele apenas a recolhe e deposita dentro do bolso da calça.
— Bom, vou deixá-los à vontade, queridos. — A professora Delaney cantarola, como de costume, e sai sem esperar por uma resposta me lançando um último olhar cheio de segundas intenções pelas costas do novato. O que ela estaria tramando?
— Prazer em conhecê-lo, sr. Walker. Sou Lisa Keynes. — Digo, tentando soar o mais simpática possível, observando o garoto à minha frente. Alto, cabelos louros como o trigo, ombros largos, queixo bem definido e uma barba por fazer na mesma coloração de seus cabelos. Sua postura exalava confiança e seus lábios estampavam um sorrisinho zombeteiro.
— "Sr. Walker"? Eu pareço ter o que, cinquenta anos? Pode me chamar de Ryan, Lisinha. — Comprimo meus lábios até se tornarem apenas uma linha fina, engolindo as poucas e boas que eu queria lhe dizer. Quem ele pensa que é? Nos conhecemos há apenas 5 minutos e já achava que podia me tratar por apelido? UM APELIDO QUE EU ODIAVA AINDA POR CIMA.
Nesses poucos minutos que estamos juntos um sentimento forte começa a crescer em mim: RANÇO.
Eu estava tentando ser legal, mas o loiro não estava facilitando as coisas e algo me dizia que aquele seria um longo e exaustivo tour pela escola.
— Certo, sr. Walker. Como quiser. — Provoco e ele revira os olhos, mas aquele sorrisinho idiota não se desmancha. — Vamos acabar logo com isso. — Digo sem nenhum ânimo.
— Deixou a simpatia em casa, querida? — Ryan parecia ter sempre uma resposta na ponta da língua.
— Sim, junto com a sua noção — Rebato, sustentando seu olhar provocativo.
— Há, gostei de você — Ele diz com um largo sorriso que exibe seus dentes perfeitamente alinhados.
— Pena que não posso dizer o mesmo. — Lhe lanço um sorriso amarelo. — Agora vamos por que não tenho o dia todo.
A Avery High, era composta por três andares. O térreo era onde ficavam o saguão e as entradas, aos fundos um pequeno jardim com um laguinho e alguns bancos, as quadras de esportes abertas e cobertas na parte norte, o refeitório, o auditório, a sala dos professores e a diretoria.
No primeiro andar ficavam as salas do primeiro e segundo ano, sala de vídeo, laboratórios de ciências e química e ateliê de artes.
O segundo andar era exclusivo para as salas de aula do terceiro ano. O terceiro andar ainda continham algumas salas do terceiro ano, mais laboratórios, sala do grêmio, de música e o laboratório de informática.
— Tem algum lugar onde as pessoas podem fumar? — Suas palavras me fazem parar bruscamente e voltar meu olhar para ele, perplexa.
— Claro! Como pude me esquecer de te apresentar o cantinho dos fumantes? — Levo a palma da mão a testa. — Ah, é... POR QUE NÃO TEM UM! — Gesticulo exasperada.
— Ainda bem. Cigarro faz mal à saúde, sabia? — Era óbvio que ele estava tentando me provocar, o pior era que estava funcionando. Apenas balanço a cabeça negativamente enquanto continuo andando tentando ignorar o quanto aquele garoto me irritava.
Depois de apresentar cada canto a ele voltamos ao nosso ponto de partida.
— Agora vamos encontrar o seu armár... — Interrompo minha frase e instantaneamente sinto meu corpo todo tencionar, era como se o chão se abrisse sob meus pés ao pousar meus olhos em uma versão bem grande da famosa imagem que assombrava os meus pensamentos que estava colada na porta do meu armário.
Talvez, se fosse qualquer outro maluco daquela escola me carregando aquela foto não teria significado nenhum, mas era Austin que estava nela e só esse fato já levava tudo a um novo nível de drama, causando um grande rebuliço e resultando em olhares curiosos para mim. Alguns achavam que eu tinha me jogado nos braços de meu amigo de propósito, outros apenas diziam o quanto Austin tinha sido um grande cavalheiro. Tudo isso por conta do meu lado desastrado. Eu tinha analisado cada centímetro daquela foto por horas e horas.
— Essa aí é você? Não sabia que era do tipo "donzela em apuros" — O loiro aguado zomba me fazendo lembrar de sua presença. Arranco a foto sentindo uma súbita raiva borbulhar em mim. Quando levanto meu olhar percebo que há várias cópias dela espalhadas pelos corredores. Não, não, não. Aquilo não podia estar acontecendo comigo.
Lágrimas começam a embaçar minha visão e tudo que consigo fazer é sair correndo sem direção pelos corredores e entrar na primeira porta que surge no meu campo de visão. E para a minha sorte — ou não — o que tinha atrás daquelas portas era nada mais nada menos que a biblioteca. Ando até o fundo entre a seção de ciências e literatura estrangeira e me sento no chão encolhida encostando em uma das grandes estantes de livros.
— Hum, não me lembro de termos passado por aqui — Ouço uma voz familiar vindo de trás de mim.
— Vai embora! Eu quero ficar sozinha — Digo com a voz embargada. Ele permanece imóvel. Não precisei olhar para saber que era Ryan. — Por que me seguiu até aqui? Veio se divertir me vendo em um estado deplorável? — Ele solta uma risada nasalada fraca.
— "Estado deplorável?" O que aconteceu com a garota durona de cinco minutos atrás? Olha se foi por que te chamei de donzela em apuros, foi mal não sabia que poderia ficar tão chateada — O garoto encolhe os ombros e enfia as mãos nos bolsos novamente, encarando seus sapatos. Era quase engraçado vê-lo sem aquele sorrisinho convencido dele.
— O que? Não estou chateada pelo que disse. — Eu nem prestei muita atenção no que ele tinha dito na verdade. Conversávamos entre sussurros para não sermos repreendidos.
— Então com que está chateada? — O garoto se apoia na prateleira à minha frente.
— É...complicado — Digo abraçando meus joelhos.
— Bom, não é como se eu tivesse algo melhor para fazer. — O garoto se senta ao meu lado no chão, fazendo perna de índio. — Então, desembucha.
— Você não desiste né garoto. — Mesmo com meu rosto tomado por lágrimas não consigo esconder um sorriso fraco.
— Nunca.
Conto a ele da minha amizade com Austin e dos meus sentimentos por ele, falo também de sua partida e de como me senti com tudo isso e agora com seu retorno o quanto ele tinha mudado. Ao finalizar encaro o garoto esperando que ele risse da minha cara e dissesse que eu era uma grande tola por deixar as coisas chegarem onde tinham chegado, mas ao contrário disso nenhuma palavra sai de sua boca e por longos segundos apenas mantém seus olhar profundo nos meus gerando uma onda de arrependimento por ter me aberto com ele.
— Desculpe, não sei onde estava com a cabeça para me abrir e falar sobre isso com um estranho. Deve estar me achando uma grande tola. — Respiro fundo e me levanto pronta para sair dali mas Ryan me impede segurando meu braço.
— Lisa, você é uma garota bacana, meio esquentadinha, mas é bacana. Se te traz alguma paz de espirito dizer ao seu amigo o que sente então faça isso e, se ele se afastar é por que é um grande idiota. Isso não vai te fazer ser menos do que é, talvez só falta você perceber isso — Fico sem reação com a fala de Walker. Realmente não esperava por essa. Era a primeira vez desde que ele tinha chegado que o via ser tão sincero.
— Uau, para alguém que estava sendo um completo idiota há alguns minutos atrás até que você sabe o que dizer de vez em quando. — Choco meu ombro com o dele levemente.
— Ei, eu sou um cara bacana, tá legal? — Ele finge estar ofendido.
— Bacana é uma palavra muito forte, eu diria "não tão chato quanto parece" — E naquele momento senti uma pequena admiração por ele crescer dentro de mim.
No dia seguinte, finalmente a sexta feira tinha chegado o que significava que eu teria dois dias inteiros de paz sem dramas escolares ou notas para se preocupar, ou olhares curiosos que me filmavam o tempo todo.
Austin e eu não nos falamos mais após aquele dia que ele me levou em casa. Eu nem sequer o via nos corredores, era como se ele estivesse me evitando.
No refeitório, caminho até a mesa dos fundos como sempre fazia — que normalmente ninguém nunca ocupava, além de Lexie e eu — segurando minha bandeja com as duas mãos e, ali espero por minha amiga. Alguns longos minutos e diversos olhares julgadores depois ouço passos se aproximando.
— Por que demorou tanto? — Reclamo sem olhá-la.
— Não sabia que estava com tanta saudade de mim assim — Um suspiro de frustração sai da minha boca ao ouvir aquela voz e constatar que não era ela.
— O que está fazendo aqui, sr. Walker? — Me dirijo ao garoto que se acomodava confortavelmente ao meu lado.
— Nossa Lisinha, pra que tanta grosseria? Pensei que fossemos amigos. — Ele leva a mão ao peito fingindo estar ofendido.
— Primeiro, pare de me chamar assim. Segundo não somos amigos. Eu apenas te tolero melhor agora.
— Só se prometer parar de me chamar de sr. Walker. — Cruzo os braços.
— Nunca.
— Então nada feito, Lisinha.
— Cheguei! — A voz de Lexie soa atrás de mim. — Estava entregando alguns livros na biblioteca. Quem é você estranho? — Ela fala dando a volta na mesa para sentar à nossa frente.
— Esse é...
— Lexie? — Ryan pergunta surpreso.
— Sim e voc... espera, Ryan? É você mesmo? — Ela franze as sobrancelhas estudando o rosto do garoto.
— Que ótimo! Vejo que apresentações não serão necessárias. — Digo, amarga Olhando de um para o outro sem entender que palhaçada era aquela que estava acontecendo.
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