Aurora: a Mestiça
10 CAPÍTULO 9: Assombrada pelas memórias
Naquela noite sonhei com meus amigos. O sol brilhava alto no céu.
— Vamos a praia! — Renan pediu. — Quero pegar um bronzeado de impressionar o crush!
— Ah não, Renan. — Paloma reclamou. — Só gostou de ir à praia a noite, sou sombria você sabe.
— Vamos, vamos! — Ele implorava. — Vai tá cheio de homem bonito pra admirarmos lá!
Com aquele argumento, ele a convenceu. Tive que rir. Apesar de ter um estilo roqueira, eu adorava a praia, não aquela praia lotada de gente, mas a calmaria da praia deserta, com apenas a natureza como companhia. O som do mar era tão calmo, e a textura da areia nos pés era uma delícia!
Quando chegamos à praia, Vítor estava lá. Ele vinha na minha direção e me dava um beijo romântico de cinema, enquanto suas mãos estavam em minha cintura, eu passava as minhas pelos seus cabelos castanhos.
Nesse momento, acordei. Abri meus olhos e observei ao meu redor. Senti que ainda sonhava. Lembrei-me que não estava mais em casa, no meu quarto, na minha cama, e sim, estava numa escola louca e sobrenatural com pessoas de nomes e aparências estranhas. Conseguia ver todos os objetos no quarto, os livros jogados de forma aleatória na mesa, camisetas e saias espalhadas pelo chão, se passaram somente três dias que morava aqui — e agora eu já enxergava bem no escuro.
Levantei-me da cama, um pouco tonta. Aquele sonho mexeu comigo e só tinha um jeito de melhorar minha vertigem. Olhei para o freezer do quarto. Geralmente, evitava usá-lo, mas era inevitável, quando a fome me abatia, era a única coisa que a saciava. Caminhei até o frigobar e peguei uma garrafa. Era tão estranho o quanto eu relutava beber e tinha aversão de até mesmo pegar na garrafa, mas assim que eu sentia o gosto da bebida, todos esses pensamentos iam para longe.
Méilie saiu do banheiro com uma toalha nos cabelos. Ela vestia uma camisa branca por baixo de um blazer cor-de-rosa, calça skinny e calçava tênis brancos.
— Bonswa, Aurora! — Ela me desejou, com um sorriso radiante. Ligou o secador e começou a mexer em seus cabelos.
Era sábado, não tínhamos aula hoje. Méilie estava tão arrumada. Provavelmente, iria sair, mas com quem? Eu não a via conversando com ninguém além de mim, a não ser que ela fosse sair com algum daqueles meninos idiotas. Eu contei a ela sobre o que eles fizeram comigo e ela tinha concordado que eles foram babacas!
— Você não vai se arrumar? — Ela me perguntou quando terminou de secar o cabelo.
— Pra quê? Não vamos ter aula hoje. Vou ficar aqui dentro fazendo o relatório que a professora passou.
— Non, non! — Ela balançou o dedo, em negação. — Nós vamos sair, passear e conhecer a cidade. Esse relatório é só pra sexta-feira e hoje é sábado! Você pode fazê-lo outro dia. Sempre quis conhecer Plenluno!
Eu nem queria estar aqui e tinha bem menos vontade de conhecer a cidade, só desejava que esses malditos três anos se passassem o mais rápido possível. Méilie não se convenceu dos meus argumentos e continuou insistindo para que eu tomasse um banho e trocasse de roupa para irmos passear.
Olhei para a escrivaninha do quarto. Talvez sair me fizesse bem. Continuava pensando no sonho. A risada de Paloma ainda ecoava na minha cabeça, eu conseguia lembrar das piadinhas de Renan e da sensação dos lábios de Vítor nos meus. Sem pensar, levei os dedos à boca. Sentia tanta falta deles e eu nem poderia mandar uma mensagem. Como será que estavam?
Méilei notou minha expressão triste.
— Ei! Não fique assim. — Ela colocou as mãos nos meus ombros. — Tenho certeza que um passeio vai animá-la.
Realmente… ficar dentro daquele quarto tentando fazer um trabalho podia não ser produtivo, levando em conta o meu estado de espírito. No fim, concordei com ela e fui me arrumar. Ela comemorou.
Vesti minha camiseta da banda Nirvana e calças jeans de cor escura, calcei um coturno e passei um pouco de batom preto nos lábios. Méilie terminou de se maquiar enquanto eu me preparava por inteira, ela também colocou brincos em formato de lua.
Méilie pegou uma bolsa redonda de cor rosa com branco e passou pelo seu braço direito, com o esquerdo entrelaçou o seu braço por debaixo do meu.
— Tenho a sensação de que faremos um ótimo passeio! — disse ela.
Ao passar pelos corredores do dormitório feminino, avistei muitas meninas. Nenhuma delas usava o uniforme e a maioria vestia pijamas com os cabelos despenteados. Passavam de porta em porta como se fosse uma festa do pijama. Ao sairmos do prédio e caminharmos pelos jardins, vimos alunos bem vestidos e alguns com roupas antigas e tradicionais, parecendo que estavam em um livro da Jane Austen ou do Japão feudal.
Os portões estavam abertos naquela noite. Méilie me avisou que eles o deixariam aberto até às três da manhã e não podíamos nos atrasar.
Nós caminhamos juntas pela cidade. A arquitetura do lugar era um pouco estranha, a escola tinha um teor gótico, enquanto as casas da vizinhança tinham um estilo americano. Apesar de ter um pouco de neve espalhado pelo chão, eu não sentia um frio de matar, apenas uma leve brisa fresca.
Havia pessoas de diversas etnias e para minha surpresa — humanos também. Percebi pelo tanto de agasalhos que vestiam para fugir do frio. Era um lugar realmente impressionante! Méilie me arrastou para uma sorveteria.
Nós entramos numa pequena loja colorida. Clientes sentavam em mesas brancas. Olhamos as opções, tinham vários sabores, desde os tradicionais aos mais exóticos. Eu não conhecia a qualidade do sorvete local, então optei pelo clássico de chocolate, não tem como errar no sorvete de chocolate. O homem atrás do balcão nos atendeu e entregou duas casquinhas, uma de chocolate para mim e outra de napolitano para Méilie.
A minha colega de quarto entregou a ele uma nota colorida com a gravura de uma figura histórica que eu não conhecia, oh céus! Eu não tinha dinheiro! Olhei para Méilie, nervosa.
— O que foi?
— Esqueci um pequeno detalhe. — Sussurrei, imaginando que o vendedor não nos ouviria por ser um humano. — Eu não tenho dinheiro. Lembra que vim de um grupo de humanos nômades?
Inicialmente, Méilie achou estranho, mas como ela era um doce de pessoa, pagou o sorvete para mim. Agradeci imensamente e prometi fazer seu dever de casa quando necessário, ela achou engraçado e disse que tudo bem. Nós voltamos a caminhar pela cidade enquanto tomávamos nosso sorvete.
— Sabe o dono da sorveteria? Ele se chama Ruan Dashu e é um mestiço como você. Ele sempre achou que fosse o único no mundo e agora temos você! Não vai mais se sentir tão diferente agora, não é?
Fiquei surpresa com o que a Méilie me disse. Ele parecia um homem jovem, humano, mas ele era como eu? Filho de um vampiro com um humano? Era estranho ser colocada no patamar de raridade e encontrar outra raridade como você. Não sabia muito bem como me sentir, mas ele parecia ter uma vida normal e pacata.
— Como você sabe disso se me disse que nunca esteve em Plenluno? — perguntei, curiosa.
— Ah! Todo mundo conhece o Ruan. Ele é o primeiro mestiço que nasceu de um casamento entre uma humana e um vampiro. Humanos livres são raros, ainda mais raros os que se casam com vampiros.
— O que você quer dizer com humanos livres?
Minha pergunta foi interrompida com a aproximação de duas garotas. Uma delas era a loira que chegou na noite anterior, no meio da aula. A outra, era a mesma garota que Chang tinha beijado no refeitório.
A loira vestia-se de maneira muito vulgar, na minha opinião. Ela usava um short jeans curtíssimo e um body que parecia uma lingerie super sexy. Enquanto a outra era mais comportada, usando uma camisa de manga longa rosa, mostrando um ombro, calças jeans azuis claras e tênis rosa.
— Good evening, meninas. — A loira nos cumprimentou. — Onde vocês compraram esse sorvete? Estou morrendo de vontade de um.
— Bonswa Kaila, Elis. — Méilie cumprimentou as duas. — Compramos no Ruan. — Ela apontou para a sorveteria que acabamos de sair. — São uma delícia!
— Ah! — Kaila fez uma cara feia. — Eu não vou comprar sorvete de um mestiço. A propósito…
Num movimento rápido, ela empurrou a minha casquinha, sujando toda a minha camisa de chocolate.
— Ei! Você é maluca?! — Gritei.
— Você não passa de uma mestiça nojentinha, garota. Não deveria nem ter nascido. Como assim você é uma Valaya? Impossível! Sabia que seus pais cometeram um crime? Então me diga quem são eles, eles devem ser punidos!
— Kaila, se acalma! — Méilie se posicionou à minha frente. — Ela não conhece os pais. Foi abandonada quando bebê e entregue à humanos nômades. Ela nem entende sobre o nosso mundo direito.
— Olha só! Nem os pais dela quiseram essa aberração. Pode não saber quem são, mas vou falar com a diretora sobre, não posso deixá-los sem punição e você vai se arrepender de ter nascido.
A menina nos deu as costas balançando seus longos cabelos dourados. Eu estava tanto com raiva quanto confusa. O que essa piriguete doida queria dizer com tudo isso? Méilie tentava me acalmar a todo custo e eu só pensava no que aquela vaca fez, manchou minha camiseta do Nirvana…
Fale com o autor