Aurora: a Mestiça
11 CAPÍTULO 10: Eu não sou como eles
Méilie tirou o seu blazer rosa e me entregou.
— E-eu acho melhor ir para o quarto. — Eu já não queria ficar mais aqui, não devia ter saído do quarto. Droga! Devia estar fazendo o trabalho da professora Hilary.
— Não vamos estragar o nosso passeio por causa de um sorvete na camisa. Ande, coloque a camisa por dentro da calça e veste o blazer. Viu? Nem dá pra ver. Agora vamos dar uma volta no parque, que tenho certeza que vai te animar!
Caminhamos com ela observando celular para saber a localização exata do lugar e nós conseguimos chegar sem mais acidentes. Diversos tipos de pessoas caminhavam pela praça e andavam de bicicleta, algumas mulheres faziam exercício e havia crianças brincando.
O parque era enorme e Méilie me levou para caminhar por ele. As árvores eram altas e ainda não tinha nascido nem uma folha ou flor. Apesar de parecer ser inverno, as pessoas vestiam-se de maneira esportiva e o parque estava bem limpo.
— Eu não disse que isso iria te animar? — Méilie disse sorrindo.
— Mas Méilie, você entendeu a reação daquela doida? — perguntei, ainda pensativa.
— A Kaila? Ela é uma Valaya, Aurora, é normal eles odiarem mestiços.
— Por quê?
— Os humanos com quem você convivia não tinham celulares ou televisão? Como você não conhece a Kaila Valaya?
Eu fiquei sem jeito para responder aquela pergunta. Eu não sabia como as coisas funcionavam por lá. A diretora me disse para falar que eu fui criada por humanos nômades e não me deu mais detalhes, acho que posso dizer que eles eram bem rudimentares.
Nesse momento fomos interrompidas por gritos animados de garotas, pareciam que assistiam a um show da sua boy band favorita, oh céus! Não me diga… Méilie me puxou pela mão e fomos em direção aos gritos.
As meninas se aglomeraram em volta de uma pequena quadra, o que elas observavam e admiravam eram os meninos populares jogando vôlei.
Oliver e Thomas estavam em um time enquanto Ali e Chang estavam em outro. Os meninos levavam a brincadeira a sério, eram bem competitivos. As meninas não paravam de tirar fotos dos garotos, elas olhavam com admiração os seus braços e pernas expostos. Ali e Thomas vestiam regatas, enquanto Chang e Oliver usavam camisetas de manga curta, todos vestiam bermudas.
Chang era o mais alto dos garotos e conseguia bloquear os ataques dos outros mais facilmente. Oliver, dessa vez, jogou a bola com tanta força, que Chang não conseguiu bloquear. Ali se jogou na areia e não conseguiu rebater. O time que fez o ponto trocou um caloroso high five. Ali se levantou do chão, pegou a bola e a lançou, Thomas conseguiu pegar e a rebateu, mas Chang bloqueou fazendo mais um ponto. Eu vi Méilie pulando em comemoração. Nós iriamos mesmo assistir ao jogo dos garotos?
Os meninos continuaram jogando até que duas meninas chegaram próximos à rede que protegia a quadra. Era Kaila e Elis, as duas patricinhas que me fizeram passar raiva mais cedo. Os garotos falaram que o próximo ponto seria o último, decidindo o ganhador. Thomas sacou a bola, Chang rebateu, Oliver conseguiu segurar e quando ia lançá-la, Ali deu um enorme salto e a rebateu, fazendo o ponto final do time.
— Isso não é justo! — Thomas reclamou.
— As meninas atrapalharam a gente! — Oliver concordou.
Os outros dois garotos comemoravam a vitória. Os Valayas foram em direção à multidão das garotas que os observava, muitas meninas não se importaram em pegar em seus corpos sujos de areia, e algumas até tiraram fotos com eles.
Enquanto Ali e Chang foram em direção das duas patricinhas. Elas estavam com dois milk-shakes nas mãos e cada uma delas entregou um copo a um dos rapazes. Kaila entregou o seu a Ali enquanto Elis entregou a Chang, os meninos pegaram o copo e agradeceram às meninas com um beijo. Eu me lembro do Chang beijando a Elis no refeitório, mas Kaila e Ali? Eca! Os dois se merecem!
Olhei para Méilie e ela pareceu triste ao ver aquela cena. Eu ainda não conseguia compreender como uma garota tão legal quanto ela podia gostar de um menino daqueles.
Seus olhos encheram-se de lágrimas quando Chang segurou na mão de Elis e os dois caminhavam juntos atrás do outro casal. Méilie correu para longe do parque chorando e sumiu diante dos meus olhos, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa.
Fiquei sozinha no parque. Deveria procurar por ela. Caminhei na direção que a vi correndo, entrei nas lojas, nos becos, em todos os lugares e não havia nem um sinal de Méilie. Perdi a noite inteira procurando por ela, agora ela devia estar na escola, pelo menos, esperava.
Não se via mais nenhum colega nas ruas, e eu acabei descobrindo que não sabia o caminho de volta para a escola. Estava perdida. Tentei perguntar a algumas pessoas o caminho para Plenluno e eles me olhavam com curiosidade antes de me responderem.
Seguindo pelas ruas indicadas, encontrei-me com dois colegas, justo os dois que eu não queria ver. Os dois garotos Valayas do grupo dos populares vinham em minha direção, risonhos. Eles não deviam estar cercados pelas suas fãs? Por que iriam perder tempo comigo?
— Olha só quem está aqui sozinha — disse Oliver, aproximando-se de mim.
— Não deviam estar indo pra escola? Os portões já vão fechar. — Thomas perguntou.
Fuzilei-os com o olhar sem dar nenhuma resposta. Estava pronta para continuar meu caminho quando ambos seguraram meus braços. A raiva tomou conta de mim, tentei me soltar, mas não consegui. O rosto de Thomas aproximou-se do meu, ele deu uma longa fungada.
— Você tem um cheiro tão bom! — Ele me disse.
A minha raiva tornou-se medo. Suas mãos apertavam meus braços com força cada vez que eu tentava fugir. Olhei para os lados da rua, tão deserta… As lojas daquele quarteirão já fecharam. Eles poderiam fazer qualquer coisa comigo. Tentei lutar contra eles mais uma vez e me empurraram contra uma parede. Oliver puxou o meu braço para si, dando uma fungada profunda.
— Verdade! Será que o gosto dela é bom também?
Oliver levou o meu braço para perto do seu rosto. Deixando seus dedos anelar e indicador caminharem sobre meu pulso, como se fosse uma pessoinha passeando. Estava pronto para me morder quando uma voz atrás deles chamou nossa atenção.
— O que diabos estão fazendo?
Os meninos se viraram. Eu também olhei para o dono da voz, era Ali! Oh céus! Eu tenho uma puta sorte, viu? Os dois Valayas se entreolharam e, antes que pudessem dar alguma resposta, o outro garoto os mandou me soltarem.
— Estávamos nos divertindo… — Thomas tentou se justificar.
— Eu mandei soltar! — Ali continuou com autoridade.
— Olha, você não é meu príncipe, tá bom? A gente só tava brincando com ela. — Foi Oliver quem falou desta vez.
— Acho que sei bem o que vocês estavam tentando fazer e é um crime, sabia? Posso não ser o “seu” príncipe, mas tenho poder para punir vocês.
Os meninos me soltaram, lançando-me no chão com violência. Eles se afastaram resmungando e olhando feio para o terceiro. Que coisa mais estranha, achei que os três eram amigos, não riram de mim na noite anterior?
— Tudo bem com você? Quer ajuda? — Ali me estendeu a mão cheia de pulseiras.
O olhei bem antes de decidir se aceitava sua oferta ou não. Seu rosto parecia preocupado, mesmo assim, eu sentia que tinha que tomar cuidado. Se aqueles garotos tinham medo dele, eu também deveria ter, não é? Não deveríamos ficar sozinhos aqui. Levantei-me sem a sua ajuda, apoiando as minhas mãos no joelho.
— Não deveria ficar aqui sozinha. Challo!
Ele caminhou na frente e esperou que eu o seguisse, não o fiz. Ele suspirou alto e pegou na minha mão sem minha autorização, levando-me com ele.
— Como posso confiar em você? Não é amigo deles? — perguntei, tentando me soltar.
— Acredite em mim, eu sou o vampiro com quem você vai estar mais segura.
Continuei desconfiada. Ele me levou para uma rua mais movimentada, onde ainda havia um supermercado aberto e nós entramos nele. O que viemos fazer aqui? Sem me dizer nada, Ali pegou uma cesta e depois se virou para mim.
— Eu preciso comprar umas coisas. Pode ficar aqui e esperar, se quiser, tem muita gente, ninguém vai incomodá-la.
O garoto saiu caminhando. Ficar sozinha me deixou desconfortável, as pessoas não me eram familiares e ainda tinha aquela sensação de medo. Ficar com Ali era mais seguro, sabendo que aqueles dois respeitavam as suas ordens. Fui atrás dele e acabei esbarrando em suas costas sem querer.
Encontrei Ali na área de higiene e o vi pegando um pacote de camisinhas. Nesse momento, fiquei vermelha como uma maçã e ele apenas deu um grande sorriso malicioso.
— A bravinha está com vergonha disso? — Ele balançou o pacote, fazendo-me ficar ainda mais constrangida. Para, por favor! — Não se preocupe. Um dia sua hora vai chegar. — Ele jogou as camisinhas na cesta enquanto segurava uma risada.
Ele gostava mesmo de me provocar! Aquele garoto merecia outro tapa! Mas como ele foi meu salvador esta noite, iria dar um desconto. Continuei seguindo-o mesmo que eu estivesse envergonhada, esperando que ele não fizesse mais gracinhas ou pisaria em seu pé!
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