Aurora: a Mestiça

12 CAPÍTULO 11: Hey-o, aí vem um perigo para este clube


Fomos até a seção de doces, que era algo menos constrangedor. Ali observou a estante de balas por alguns minutos até pegar três pacotes de uma embalagem verde. Para que tanto doce?

— Você quer alguma coisa? — Ele me perguntou, inesperadamente.

Respondi que não com a cabeça, ainda constrangida. Ele deu um meio sorriso antes de continuar caminhando até outra seção. Tentei acompanhá-lo, sempre olhando para os lados, torcendo para não ser uma armadilha. Às vezes me distraía com as pessoas no local, tudo parecia tão normal quanto no meu mundo.

Depois de pegar alguma coisa ele foi para mais uma outra sessão, a de bebidas. Ele estava olhando bebidas alcoólicas? Seria barrado no portão. Ali não respondeu ao meu olhar acusatório e pegou uma garrafa de vinho. Nem quis ficar perto dele no caixa, não queria ser barrada por estar comprando algo ilegal. Eu não tinha uma identidade, de qualquer forma. Afastei-me indo em direção à porta dizendo que o esperaria ali.

Parece que ele não teve nenhum problema com as compras. Ao me encontrar, tirou algo da sacola e me entregou. Quando peguei, vi que era um spray de pimenta.

— Pra caso de mais algum idiota tentar algo. Mire bem nos olhos, vai atordoá-lo por alguns segundos, tempo suficiente pra você correr. Ah! Toma isso também, é gostoso. — Ele me entregou um dos pacotes de doces.

Apesar de seu sorriso sempre parecer malicioso em seu rosto moreno, ele estava sendo legal. Agradeci meio envergonhada e ele falou que iria me levar de volta para a escola. Caminhamos em silêncio, com ele à minha frente. Não sabia o que pensar dele. Num momento ele debochava de mim e no outro era um cara normal.

Ao chegarmos à escola, os portões já estavam fechados. Droga! Ali olhou para mim, dizendo que não tinha problema, poderíamos pular o muro. Encarei aquelas paredes de pedra, era tão alto! Impossível conseguirmos!

Ali me pediu para segurar sua sacola. Ele caminhou até o meio da rua e correu em direção ao muro. Esperei que ele batesse com a cara nele, mas me surpreendeu com um salto. Apoiando seu pé nas pedras, conseguiu alcançar o topo. Fiquei impressionada com sua destreza e ele me disse pra fazer o mesmo. Eu não sabia se conseguiria e relutei em tentar. Ali me gritava incentivos.

— Você consegue! Vai! Tenta!

Respirei fundo e lhe entreguei a sacola. Fiz o mesmo que ele: corri para pegar impulso e pulei, mas acabei escorregando e caí de bunda no chão.

Sorry — disse ele, abafando o riso com a mão.

Sentado no muro, Ali estendeu suas mãos para mim.

— Apoie seu pé em uma pedra mais firme — pediu ele. — Isso mesmo. Agora segure firme nas minhas mãos e dê um impulso que eu te puxo.

Fiz o que ele pedira. Ele me segurou firme enquanto eu apertei seus braços, e quando me senti segura, coloquei meu pé no muro em busca de alguma pedra em que eu pudesse encaixá-lo bem.

— Pula! — Ele ordenou.

Pulei, colocando todas as forças que eu tinha em minhas pernas e nos meus braços. Ali me puxou, talvez tenha me puxado forte demais, porque vi seu corpo caindo para trás. Nós atravessamos o outro lado do muro, caindo um sobre o outro. Minha queda foi amortecida pelo seu corpo macio, enquanto ele caiu direto no chão.

— Está tudo bem? Você se machucou? — perguntei, desesperada.

Ele me encarou com o rosto levemente corado. Depois que percebi que estava em cima dele, com as mãos em seu peito e nossos rostos estavam tão próximos que eu podia sentir o seu hálito de baunilha. Levantei-me rápido e, novamente perguntei se ele estava bem. Impossível não perceber a vermelhidão da minha face.

— Está tudo bem. — Ele me respondeu ao se levantar, sem um arranhão ou osso quebrado. Pegou a sacola que ainda estava no muro. — Challo! — Fez um sinal com a cabeça para que eu o seguisse.

Eu o segui logo atrás. Quando encontramos alguns alunos próximos aos dormitórios, ele me perguntou se eu conseguiria me virar sozinha dali para frente. Respondi que sim. Então, ele se despediu e desapareceu bem diante dos meus olhos. Que mania feia que essas pessoas têm de sumirem assim!

Fui para o meu quarto, torcendo para não encontrar Kaila ou Elis pelos corredores. Se bem que pelas compras que o garoto fez, Kaila deveria estar esperando por ele em outro lugar. Só de lembrar, meu rosto ficou vermelho novamente. Devia parar com isso! Parecia uma criancinha na puberdade, como se Vítor e eu nunca tivéssemos feito isso também…

Consegui entrar em meu quarto sem ser abordada. Encontrei Méilie deitada no beliche de cima. Ela estava de costas para a porta com as cortinas já fechadas, achei que dormia, mas percebi seus ombros tremularem. Chamei por ela, aproximando-me da cama, ouvi-a fungar, ela chorava. Subi no beliche e sentei ao seu lado.

— Méilie? Se você precisar conversar, estou aqui.

Ela virou a cabeça em minha direção, com os olhos marejados e o nariz vermelho de tanto chorar. Pedi desculpas por demorar a voltar, havia perdido o caminho de volta, isso fez ela dar uma risadinha e concordei que era engraçado.

Méilie se sentou na cama, encostando as costas na parede. Aproximei-me dela e fiz o mesmo. Olhei-a esperando que contasse o que a angustiava. Os minutos se passaram silenciosamente. Aprendi que pra algumas pessoas o melhor era só ter a companhia de alguém e palavras eram desnecessárias. Talvez Méilie, aquela garota tão alegre, tivesse dificuldades em se abrir nos momentos difíceis. Segurei em sua mão para lhe dar forças, demonstrando um pequeno sorriso no canto da minha boca.

— Eu não tenho nenhuma chance com ele, não é? — Ela finalmente falou.

— Ei! Aposto que tem um monte de garotos legais na escola, você logo vai encontrar um melhor.

— Você não entende! Foi amor à primeira vista! — Ela soltou a minha mão e a pousou em seu peito, em direção ao coração. — Algo dentro de mim diz que ele é o garoto certo!

— Méilie… ele anda com aqueles garotos desagradáveis e namora aquela Elis, que é amiga da Kaila, você viu do que eles são capazes…

— Você não entende, não é? — Méilie me interrompeu. — Chang é um nobre de um clã grande, é óbvio que ele vai andar com outros nobres como ele. Sei que ele não é mau. Eu vim de um clã pequeno e ele não me tratou mal, pelo contrário… — Seu rosto começou a ficar rosado. — Quando eu cheguei aqui, havia poucos alunos. Fui uma das primeiras a chegar, acabei me perdendo e Chang me ajudou. Ele me levou pra conhecer a escola, e não me orgulho do que vou dizer, mas, uma vez derrubei meu material de propósito perto dele e ele me ajudou a recolhê-los. É um doce de pessoa!

Não sabia o que dizer com aquela resposta. Méilie foi capaz de reproduzir uma cena clichê com o garoto para ver como ele iria reagir. E pela sua descrição, ele parecia mesmo um garoto gentil. O problema era que ele riu de mim naquele vídeo e andava com aqueles idiotas. Dois deles tentaram abusar de mim esta noite. Lembrei-me de Ali, mesmo andando com aqueles dois meninos, ele fez os rapazes se afastarem e me acompanhou até a escola. Pulamos o muro e mesmo caindo sobre ele, ele não tentou nada comigo. Até me deu um doce. O doce!

Peguei o pacote de balas e abri. Méilie me olhou e entreguei uma das balas a ela. Doces sempre melhoram o humor de qualquer garota quando ela está triste. Minha colega aceitou a bala e fez uma pequena careta.

— Quem chupa bala de baunilha? — Ela colocou a língua para fora.

Eu ri e peguei uma bala colocando na minha boca, curiosa com o sabor. Tinha mesmo gosto de baunilha e não era ruim quanto minha amiga fez parecer.

— Achei que você não tinha dinheiro pra comprar qualquer coisa e essas balas são meio carinhas. — Méilie disse levantando a sobrancelha.

— Não comprei, foi… — Relutei em contar. — …Ali quem me deu.

Méilie quase engasgou com a menção do nome. Sua tristeza foi substituída pela curiosidade. Ela perguntou o que tinha acontecido para que ele me comprasse um doce. Seus olhos rosados brilhavam de animação.

Se ela pôde se abrir comigo sobre seus sentimentos por aquele garoto e também me contou uma coisa tão vergonhosa como forçar uma cena entre eles, decidi contar o que aconteceu mais cedo. Ela pareceu chocada e disse que eu devia contar para a diretora.

— Eles iam matar você!

— Me matar? — perguntei.

— Eles estavam tentando beber você!

— Por que eles iriam querer me beber?

Era tão estranho falar “me beber”. Sentia-me em Alice no País das Maravilhas.

— Você não sabe nada sobre vampiros, né? Onde sua família nômade vive? Dentro de um buraco? É impossível você não saber de coisa alguma. — Méilie cerrou os olhos, me encarando.

Sei que sou uma péssima mentirosa. Mas prometi a diretora não contar a ninguém, nem mesmo sabia em quem confiar. Méilie parecia uma menina doce, gentil e que nunca contaria nada a ninguém. Ainda sim, eu preferiria não me abrir com ela, nem seríamos amigas por muito tempo de qualquer forma. Só ficaria ali por três anos e iria embora para sempre.

Méilie suspirou e continuou:

— Beber sangue de um vampiro nem sempre é considerado crime. Por exemplo, se você tem um namorado e, no meio dos amassos, ele te morde, não é um ato violento, pelo contrário, pode até ser muito prazeroso. — Ela disse, corando e eu não pude evitar de ficar vermelha também. — Mas se um vampiro morde outro de maneira violenta ou bebe sangue suficiente pra causar a morte de alguém, é claramente ilegal.

— Por que eles iriam querer me matar? Por que briguei com eles por conta do vídeo? Não tem sentido algum!

— Não é por isso. Você é uma mestiça, esse é o verdadeiro motivo. Sangue de mestiço tem poderes para nós vampiros. Nos deixa mais fortes, ágeis e melhora nossa cura, mesmo que beba apenas um pouco. Diz uma lenda, que se um vampiro beber todo o sangue de um mestiço, ele se torna a criatura mais poderosa do planeta. Fica imune à luz do sol e seu sangue torna-se tóxico para qualquer outro vampiro, então ninguém pode matá-lo.

— Eles estavam querendo queriam beber meu sangue pra se tornarem imortais?

— Provavelmente. Isso é considerado um crime. Se alguém descobrisse, seriam presos. Meio burros atacar você no meio da rua, né?

Eu me lembrei da rua deserta. O jeito que eles me pegaram a força… Era difícil acreditar que eles planejavam me matar. Nunca passei por uma experiência de quase morte antes. Todo aquele cenário tornou-se pior na minha mente. Agora foi a vez dela de me confortar. Méilie me abraçou, passando as suas pequenas mãos pelos meus cabelos lisos e negros.

Mesi por me partilhar isso. Ainda acho que Chang tem um bom coração e o Ali também, já que ele te salvou. Mas vou passar a odiar os outros dois garotos daqui pra frente. — Ela disse.

Nós pegamos mais uma bala e Méilie se animou em ver mais um episódio da sua série comigo.