Aurora: a Mestiça

9 CAPÍTULO 8: Você não vai conseguir calar essa garota


Meu coração palpitava com força! Para mim tudo isso era apenas um sonho maluco, um lugar no qual eu não pertencia e era obrigada a ficar. Aceitava o fato que eu não tinha as famosas “habilidades”. Mas naquele momento, o mundo pareceu parar ao meu redor, eu fiz uma coisa que parecia mágica! Mesmo que não fosse nada impressionante.

Hilary me chamou e eu voltei a ouvir suas orientações. Consegui invocar o círculo por cerca de dois minutos antes do sinal tocar indicando que era o horário do jantar. Mesmo assim, a professora pareceu satisfeita com meu o resultado, peguei minha mochila e corri para fora.

Os alunos riam mim quando saí da sala. De cabeça baixa, andei apressada pelos corredores em direção ao refeitório. Méilie me esperava sentada à mesa já bebendo. Eu peguei a minha bebida e fui em sua direção, sentei à sua frente e bebi direto da garrafa, tremia de raiva!

— Tá tudo bem? — Méilie perguntou estranhando o meu comportamento.

Contei a ela o que tinha acontecido na sala.

— Não acredito nisso! São todos uns bandos de enbesil!

Ela conseguiu acalmar a minha raiva e me fez rir relatando o que tinha acontecido em sua sala hoje. Falou que o professor era um homem bem engraçado e fazia muitas piadas durante as aulas. Ela me contou algumas delas e devo admitir que poucas tinham graça.

O sinal tocou e eu não queria voltar para minha sala, tinha vontade de ficar mais tempo com Méilie. A garota me disse que sentia o mesmo, mas acabamos por nos despedir. Voltei para a minha sala, de cabeça baixa, os alunos continuavam me olhando e rindo.

Em um dos corredores encontrei Oliver mostrando algum vídeo para seus amigos: Os quatro riram e depois olharam para mim, voltaram a rir. Tinha algo errado, então fui até lá e descobri que Oliver filmou o meu desastre durante a aula! Malditos! A raiva tomou conta de mim e tentei roubar seu celular.

— Não te dei autorização pra me filmar! Muito menos espalhar o vídeo! — gritei.

— Olha só! Ela é bravinha. — Ele provocou.

— Apague o vídeo agora!

— Por que ele deveria fazer isso? — perguntou Ali.

— Ele me filmou sem autorização! Isso é bullying!

— Isso não é bullying, só estamos nos divertindo. A culpa não é dele que você é uma sonsa que não sabe fazer o mínimo. — O garoto tatuado deu um enorme sorriso malicioso.

Aquele maldito sorriso tornou seu rosto tão atrativo para um soco que avancei em cima dele, mas outro menino me impediu. Chang me levantou suspensa no ar. Comecei a me debater tentando soltar de seus braços enquanto os outros três riam de mim. Rangi os dentes de raiva! O sorriso de Ali se desfez e vi seus grandes olhos negros se arregalarem

— Chang, solta ela! — Ele ordenou.

O menino que me segurava o olhou de maneira apreensiva, mas obedeceu. Eu ainda estava com raiva, e fui em sua direção, dando-lhe um tapa. Os outros dois meninos avançaram para cima de mim, cada um deles segurando um dos meus braços.

— Como ousa bater no príncipe, sua…? — O rapaz de cabelo castanho perguntou.

— Oliver, Thomas, deixem ela! — Ali pediu novamente. — Esse tapinha nem doeu. — Ele disse aquilo, mas a sua bochecha estava levemente avermelhada. — Não vou brigar com uma mestiça.

Ali deve ter notado a minha ausência de presas, sua fala fez os rapazes se entreolharam surpresos, e me encararam como um animal exótico. Os dois Valayas relutaram em me soltar, apertaram mais ainda os meus braços, o que me fez gemer de dor. Ali olhou bem para os meninos e exigiu novamente que eles me soltassem. Os garotos me largaram de maneira brusca e quase caí no chão.

— Você, ao menos, devia pedir desculpas ao príncipe — disse Oliver, rangendo os dentes.

Príncipe? Eu olhei para o garoto em quem dei um tapa. Seu rosto já não estava mais vermelho, ele tinha um olhar tão arrogante! Ali era mesmo um príncipe? Isso existia naquele lugar? E um príncipe frequentaria uma escola? Não me lembro de ter aprendido sobre monarquia na aula de História Geral. Ou isso é apenas um apelido pro garoto?

— Deixa pra lá. Vou voltar pra aula — disse o “príncipe”.

Ali e Chang caminharam juntos pelos corredores. Na direção contrária, vinha a professora Hilary. Todo mundo se apressou em entrar e se sentar, fiz o mesmo, sentei-me ao lado do garoto emo e eu juro que ouvi ele me perguntar alguma coisa.

— Você é maluca ou o quê?

— Quê?

— Você foi a única a levantar a mão quando disse que não sabia usar os poderes. Estão espalhando um vídeo seu. Sabe que vai ser alvo de risadas o ano todo, né? Mas antes você do que eu.

Isso só me lembrou de novo do maldito vídeo! Os alunos não paravam de rir de mim, as risadas só cessaram quando a professora entrou. Ela perguntou se todos tínhamos lido o capítulo que ela havia ordenado na aula anterior. Responderam em coro que sim.

Great! Vamos começar a aula.

Ela pegou um dado da sua bolsa, colocou-o no chão e invocou o círculo dourado ao redor do objeto que de repente ficou enorme! Fiquei impressionada!

— Quero que todos façam o mesmo — disse a professora para a classe. — Para quem leu o capítulo não deve ser difícil. Quem quer ser o primeiro voluntário?

Me encolhi na mesa, o garoto ao meu lado escondeu-se debaixo da carteira, a maioria dos alunos estavam receosos, incluindo Oliver e Thomas.

— Quem será o primeiro voluntário? — Ela perguntou mais uma vez. — Se ninguém se oferecer, irei escolher alguém.

Nesse momento, a porta da sala se abriu. Uma garota surgiu na entrada, a menina vestia um curto vestido dourado com um decote V cravejado de brilhantes, seu salto era preto com a sola vermelha e usava o blazer da escola por cima do vestido. Seus cabelos eram longos até a cintura e seus cachos eram de um loiro brilhante como ouro, os seus olhos eram negros como obsidianas. Poderia dizer que aquela menina estava tão bem maquiada que podia se passar por uma mulher adulta devido ao seu corpo escultural.

A professora a fuzilou com os olhos.

— Não é porque a senhorita pertence à realeza que deve chegar atrasada e vestindo qualquer roupa. Está inadequada para a aula. Veja seus colegas, estão todos de uniforme. — Hilary chamou atenção da menina.

A professora falando que a roupa dela era inadequada?!

Sorry professora, mas eu estava no casamento da minha irmã, acabou agora e eu estou usando o paletó. — Ela apontou para o brasão em seu peito.

— Se a senhorita acha que tudo bem faltar às aulas para ir a uma festa, por que não vem demonstrar suas habilidades?

Eu esperava que a classe inteira risse, mas todos continuaram calados. Por que ela é confrontada pela professora e ninguém ri? Mas, quando sou eu, todos tem que me provocar? Será que é pelo fato dela ser uma garota padrãozinha?

A loira foi para a frente em direção ao grande dado, ela invocou o círculo com rapidez e fez o objeto ficar do tamanho original, para provocar ainda mais a professora, ela abaixou no chão para pegá-lo e entregou nas mãos de Hilary. A menina foi se sentar no único lugar vazio na frente, saltitando e mexendo em seus cabelos.

Ninguém disse absolutamente nada, até mesmo a professora ficou muda. Gostaria de saber o que estava acontecendo. Hilary jogou o dado no chão novamente e chamou pelo próximo. Todos pareciam ter virado estátuas, nem mesmo o comum burburinho das meninas era audível. A professora suspirou e chamou o garoto emo ao meu lado. O menino se levantou rápido, tremia de nervoso. As risadinhas puderam ser audíveis novamente e Kaio não conseguiu nem mesmo invocar o círculo. Furiosa, Hilary bateu sua mão na mesa fazendo todos saltarem.

— Vocês mentiram pra mim! — Ela apontou para toda a classe. — Disseram que todos sabiam invocar o círculo e agora ninguém levanta a mão para mostrar suas habilidades. Eu sabia! Pensaram que podiam me enganar? Pois, agora, quero que todos vocês leiam o capítulo um e dois e façam um relatório para a próxima semana. Todos farão esse dado crescer e diminuir na próxima aula, entenderam?

Os alunos resmungaram e a professora bateu na mesa novamente, os jovens se calaram e começaram a abrir seus livros.

Mesmo que eu tenha sido punida junto com todos na sala, ver o garoto emo pagar um mico e descobrir que eu não era a única zero à esquerda nessa sala, me causou satisfação! Mal podia esperar para ir correndo contar à Méilie.

***

Quando cheguei no quarto, Méilie já estava lá, ela me esperava ansiosa para que pudéssemos assistir à série juntas.

Após nos trocarmos, deitamos no beliche de baixo para assistirmos a mais um episódio pela tela do seu celular. Já que o meu não funcionava naquele lugar e ela nem poderia vê-lo ou saberia que eu não era dali.