Aurora: a Mestiça
35 CAPÍTULO 34: Aqui estou eu de novo
O tempo passou mais rápido do que eu esperava, era difícil me sentir sozinha quando Méilie me enviava mensagens todos os dias. O país de Chie tinha um fuso horário nada compatível com Plenluno, então, nunca nos falamos em tempo real, mesmo assim, quando acordada, ela me mandava mensagens e vídeos engraçados.
Faltava apenas dois dias para as aulas começarem, Chie chegou. Nós saímos para beber, conversávamos sobre as nossas expectativas para o segundo semestre, já que fizemos um acordo de não falarmos sobre nossas férias até Méilie chegar, e a menina chegou no dia seguinte.
Méilie correu para me abraçar assim que entrou no quarto. Em alto e bom tom, exaltou toda a sua felicidade em estar de volta a escola, perguntou sobre minhas férias e quase começou um discurso sobre as suas, mas consegui avisá-la a tempo do pacto que fiz com Chie. Então, ela logo ligou para nossa amiga, que chegou em nosso quarto mais rápido que uma bala, e trouxe alguns doces e bebidas para nós.
Sentamo-nos no chão enquanto ela distribuía a bebida, Méilie abriu um refrigerante de limão, eu preferi os salgadinhos. Méilie, por ser a mais exaltada, relatou primeiro as suas férias, seu irmão passou algumas semanas na casa dos pais, ele levou seu filho, que de acordo com a minha amiga, era uma peste. Nós rimos com as coisas que o garoto dizia e aprontava na casa dos pais de Méilie. Após falar sobre sua família, Méilie nos disse que fez passeios na praia, nos campos e nos shoppings, onde avistou o professor louco por cobras.
— Também fiz um grande progresso com um certo alguém. — Méilie comemorou.
— Chang-kun?! — Chie se exaltou. — Você ficou com ele?
— Achei que tivesse desistido dele. — Lancei um olhar sério a Méilie.
— Não é nada disso! Nós conversamos todas as noites, na medida do possível, por conta do fuso horário e tudo mais. Nem acredito que ele me respondia e mandava vídeos engraçados! Ele deve receber mensagens de tantas garotas e responde logo a mim!
— Majide! Você está conseguindo fisgá-lo!
— Ou ele te responda porque te considera uma amiga. — Novamente, eu a fuzilei com o olhar. — Méilie, nós todos ficamos próximos de Chang no clube de teatro, vocês atuaram juntos a maior parte do tempo, ele pode ter apreciado sua amizade.
— Estraga-prazeres! — Méilie me mostrou a língua.
Com o fim do relato das suas férias, foi a vez de Chie. Ela deu um tempo no jornal e viveu aquele mês como uma garota “comum”, também fez vários passeios românticos com Tatsu, os dois foram juntos para um lugar chamado A Grande Árvore Mágica do Amor. Um lugar que dizem ser encantado e que revela amores verdadeiros. Ela nos mostrou a foto dos dois juntos com folhas de cerejeira sobre suas cabeças.
— Também dormimos juntos — disse ela. — Era a primeira vez dele na vida! — Soltou uma risadinha. — Mas ensinei a ele tudo direitinho e conseguiu se sair muito bem para uma primeira vez.
Méilie soltou algumas risadinhas safadas e eu me senti um pouco envergonhada, pois relembrei o meu momento com Vítor no chuveiro. As meninas notaram a vermelhidão da minha face e insistiram que eu contasse o que pensava. Relatei a elas o meu momento quente e molhado com o namorado e as duas sorriram com malícia.
— Vocês são duas safadinhas! — Méilie falou. — Ah! Que inveja! Eu ainda nem tive o meu primeiro beijo. — Ela cruzou os braços.
— Não se precipite, Méi. As coisas acontecem no momento certo, eu tive meu primeiro beijo no ano passado com Vítor, se não fosse ele, talvez eu ainda fosse BV.
— Que romântico! Você teve seu primeiro beijo e primeira vez com o seu namorado atual. Vocês são tão apaixonados! Precisam se casar! E eu quero ser uma das madrinhas.
Ri com o seu romantismo. Eu adoraria que as coisas fossem tão simples como ela fazia parecer, mas infelizmente não eram. Mesmo quando voltasse para casa após três anos neste lugar, não era garantido que Vítor e eu nos casaríamos, isto era um plano a longo prazo. Eu gostaria de me formar em uma universidade antes, de ter o meu emprego, até lá, muitas coisas podiam acontecer. Vítor poderia se interessar por outra garota, talvez, tomássemos caminhos diferentes que nos afastariam. Fora que… se a minha família de vampiros descobrirem sobre mim, estarei perdida, de acordo com Sofia.
As meninas chamaram a minha atenção pela minha expressão triste e silêncio mórbido. Então contei tudo a elas, sem esconder detalhes, de como voltei para casa, o tempo que passei com meus amigos, minha mãe e meu namorado, quando retornei para Plenluno, vi o rei Sebastian e fui alertada sobre ter uma família neste mundo. Ocultei apenas o fato de ter uma foto do meu pai, era algo que eu gostaria de manter em segredo, por enquanto. Eu ainda não conseguia acreditar que aquele menino era meu pai quando tinha a minha idade.
— Você viu o rei Sebastian! Majide! Dizem que é tão raro vê-lo por que ele só vai para eventos da nobreza! Ele nem mesmo veio para assistir a apresentação da Kaila, acho que por isso ela foi embora cedo… E você o viu aqui na nossa escola! Por que eu não voltei mais cedo? Quando vi o imperador Jad quase tive um treco!
— Amiga, você não tem mesmo vontade de conhecer a sua família vampírica? — Méilie me perguntou. — Se eles forem nobres?! Você iria vestir roupas chiques! Frequentar festas da alta sociedade! Já imaginou se Sebastian não tivesse apenas filhas mulheres? Você poderia ser prometida a um príncipe!
Um conto de fadas vivia na cabeça de Méilie. Tive que explicar, mais uma vez, que se eu descobrisse sobre os meus parentes vampiros, eles iriam me impedir de voltar para a minha verdadeira casa e eu não poderia abandonar minha mãe. Não importava se eles fossem nobres, já tinha uma família que valia mais do que ouro.
— Mas sua mãe e seu namorado não podem vir morar em Plenluno? As leis dos clãs não se aplicam aqui, então estariam seguros…
— Por favor, Méi, não insista. — Coloquei minhas mãos sobre seus ombros. — Eu prometo que darei um jeito da gente se ver com segurança quando eu voltar para casa, mas a diretora e a minha mãe me disseram que Sebastian era um homem perigoso.
As duas não conseguiam acreditar que alguém diria que um rei era perigoso, ainda mais a autoridade do clã Valaya. Bem, eu prefiro acreditar na diretora, ela parecia ter uma certa intimidade com o rei, eles se conheciam, fizeram acordos no passado, deve conhecê-lo melhor do que nós três.
— Não pretendo conhecer a minha família vampírica e nem vou. — Dei um ponto final no assunto.
***
O primeiro dia de aula começou agitado. Os amigos se reencontraram com abraços grupais acompanhados de gritinhos eletrizantes ou high fives. Casais marcaram seus reencontros com beijos rápidos e mãos dadas.
Apesar dos alunos parecerem radiantes com o retorno das aulas, eu bufei ao me lembrar que naquele dia teria aula de Habilidades Básicas, minha pior matéria. Será que faria mal se eu faltasse? Só uma vez… Méilie não permitiu que eu ficasse mais tempo na cama.
O professor Radesh entrou empolgado como os alunos. Me questionei por que os vampiros ficavam tão animados com os retornos das aulas? Eu era a única que me sentia desanimada? Radesh chamou nossa atenção, com um sorriso de orelha a orelha perguntou como foram nossas férias. Em um coro, os alunos responderam situações distintas, boas e ruins. Ele se saboreou da felicidade que aquela turma transmitia e deixou que todos desabafassem até cansarem.
— Vejo que estão bem empolgados — falou o professor. — Imagino que todos já sabem que todos os anos, no segundo semestre, a turma faz uma viagem para um país…
Os alunos voltaram a conversar entre si. Viagem? Me virei para Méilie, que rapidamente me explicou que a cada ano, as turmas viajavam para países diferentes, era mais um dos projetos da escola de irmandade entre os clãs. Os países eram escolhidos aleatoriamente, para não ser injusto com nenhum deles. Mesmo que não pudessem escolher, ter uma semana de viagem sem aulas era o sonho de qualquer estudante. Isso explicava por que todos estavam animados logo na primeira segunda-feira do mês.
— Não pensem que a viagem é férias. — Radesh riu. — Vocês terão que fazer um trabalho final sobre o passeio e a cultura local, é nota obrigatória, então não esqueçam!
Tatsu levantou a mão, o professor lhe permitiu a palavra, o rapaz perguntou onde seria a viagem da nossa turma. Com enorme alegria, o professor nos revelou que naquele ano iriamos para Taekon, país do clã Musta.
De imediato, Méilie se virou para mim, com seus olhos cor-de-rosa brilhando mais do que uma noite estrelada.
— Vamos ver A Grande Árvore Mágica do Amor!
A viagem deixou todos os alunos alvoroçados. Ninguém mais falava de outro assunto, Méilie preparou as suas melhores roupas para a viagem até descobrir que o uso do uniforme era obrigatório, o que a deixou muito furiosa. Chie nos deu algumas sugestões de lugares para jantar, nos falou das lolitas, que eram garotas fofas que rondavam a cidade e falou dos pontos turísticos. Sua turma iria para Yerava, país do clã Ukidan.
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