Aurora: a Mestiça
36 CAPÍTULO 35: Um olhar inquieto
No dia da viagem, fomos levados até o aeroporto, seria a primeira vez de Méilie e eu em um avião. Observamos os aviões gigantes da escola pelas janelas de vidro do aeroporto, estampavam o nome da escola em uma tipografia gótica e de cor arroxeada.
— Como algo tão grande pode ser capaz de voar? — Méilie se questionou.
Fomos chamados para formarmos uma fila, e um por um, os alunos foram entrando e se sentando em seus lugares. Infelizmente não ficaríamos juntas, cada aluno tinha seu lugar designado, meu assento era o vinte e sete B. Procurei pelo meu lugar e quase não acreditei quem seria meu colega de viagem.
Ali nem pareceu notar a minha presença, ouvia música de olhos fechados. Coloquei minha mochila no compartimento de cima e me sentei na cadeira do corredor. Resolvi fazer o mesmo que ele, peguei meus fones de ouvido e conectei ao celular.
— Quer uma bala? — Ali me perguntou estendendo seu pacote de doces.
Pelo visto ele tinha me notado, agradeci e peguei uma balinha, ele pegou uma bala para si e voltou a ouvir sua música. O observei mais um pouco, que tipo de música será que ele gostava? O que estaria ouvindo? Talvez fosse um podcast, mas seus dedos batendo em ritmo, mostrava que era claramente uma música. Preferi dirigir meus pensamentos para longe dele e coloquei minha playlist de rock para tocar, aproveitei as minhas férias para baixar mais músicas e passar para meu celular novo.
Os professores que iriam conosco na viagem entraram no avião, nos alertaram para colocar os cintos, falaram como a viagem seria tranquilo e que durante o trajeto citariam curiosidades sobre Taekon e o clã Musta. Durante a decolagem deveríamos ficar sentados e ao amanhecer todas as janelas seriam cobertas.
Chegou a hora da decolagem. Pude ouvir as turbinas do avião ligar, ele entrou em movimento e correu em alta velocidade, meu Deus! Como algo tão pesado podia ser tão rápido? Então, ele começou a tremer. Oh céus! Isso é normal? Será que algo vai dar errado? Apertei minhas mãos nos braços da poltrona, temendo voar do meu assento. Ouvi uma tosse ao meu lado, quando virei, notei que eu não apertava o braço da poltrona, mas o braço de Ali. Retirei minha mão e pedi desculpas. Em um movimento rápido, ele pegou a minha mão e entrelaçou seus dedos nos meus.
— Nervosa? Eu também fiquei na primeira vez que viajei de avião, pode segurar na minha mão, vai se sentir melhor.
Senti meu rosto esquentar, sua atitude foi muito gentil e agradeci com um sussurro. Seus dedos firmes nos meus tranquilizou-me. Aguardei com ansiedade que o avião se acalmasse, quando finalmente ele parou de tremer no ar, pude relaxar. Ali me chamou para observar a janela. Puxamos o braço da poltrona e me aproximei dele para ver a cidade, que naquela altura era apenas pontos brilhantes de luz.
Os professores se levantaram de seus lugares e chamaram nossa atenção para algumas aulas sobre Taekon, sobre seu líder, o símbolo da bandeira, seus poderes, e fatos culturais.
Após a aula, os professores deixaram que ficássemos à vontade. Peguei da minha mochila As Crônicas de Nárnia para ler, trouxe quase todos os livros que tinha em casa para cá, se ficaria aqui durante três anos, precisava me distrair.
O dia amanheceu, as janelas foram fechadas e os alunos começaram a bocejar e a dormir. Ao meu lado, Ali desligou seu celular e se acomodou, cruzou os braços e fechou os olhos. Eu continuei lendo, não tinha sono ainda, sabendo que todos dormiam profundamente, deixei que risos e expressões de surpresa escapassem da minha boca. Fazia um bom tempo que não me divertia com um bom livro!
— O que está lendo? — O colega ao meu lado perguntou.
Senti-me envergonhada de vê-lo acordado, ele deu o seu típico sorriso.
— Tenho sono leve e você ficou rindo aí, quero saber, a história é boa?
Mudei minha expressão ao me lembrar que Ali também conseguia permanecer acordado durante o dia, me perguntei se ele não se sentia solitário de ficar acordado enquanto dormiam, talvez, sua mãe tenha sido sua única companhia durante as manhãs.
— Você quer ver o sol? — Sua pergunta me fez fugir do mundo das ideias.
Ali se levantou da poltrona e me convidou para sentar no seu lugar, disse que eu podia abrir a cobertura da janela, apenas um pouco, para não machucar ninguém. Naquele mundo eu só tinha me permitido o dia uma única vez, era estranho ver o sol agora, mas abri, devagar.
A luz brilhou em meu rosto e pude ver o amanhecer sobre as nuvens. Sorri ao perceber como o céu era lindo e majestoso. Seria muito legal virar um pássaro e curtir esse percurso pelo ar! Fechei a janela, temendo que os raios solares adentrassem demais. Ao virar para trás vi o menino ainda sorrindo para mim, o que me deixou constrangida.
— Como você se sente? — A pergunta escapou dos meus lábios. — Poder ficar acordado durante o dia, mas não poder sentir o sol?
Seu sorriso malicioso se desfez em segundos, seus olhos grandes e escuros perderam o brilho, ele esfregou a mão no braço, procurando palavras para descrever o que sentia.
— É estranho — respondeu. — Como se eu pertencesse a dois mundos, mas ao mesmo tempo que sinto que não pertenço a nenhum deles.
Meus olhos focaram nos seus, era exatamente como eu me sentia! O mundo do dia e o mundo da noite, qual deles era o meu verdadeiro mundo? Durante o dia, eu era um monstro, durante a noite, eu era inferior. Como Ali, um príncipe vampiro podia se sentir da mesma forma?
— Uma vez, eu vi minha mãe nos jardins, apreciando o dia, eu tentei me juntar a ela e…
Ali apertou novamente o seu braço, sentir-me mal por ter perguntado, apenas abaixei a cabeça e o observei desabotoar o blazer do uniforme e tirá-lo, ele puxou uma manga da camisa branca e me apontou para uma de suas tatuagens coloridas, me pediu para olhar bem. Ao apertar meus olhos pude notar que…
— Quando tentei ir para a luz do dia, ganhei esta marca de queimadura.
Ele escondeu o braço e voltou a vestir o blazer.
— Você não tem super cura?
— Bobinha! — Ele sorriu. — O sol é a única coisa da qual não podemos nos curar, suas feridas são eternas. Eu tenho a minha.
Foi a minha vez de apertar a sua mão, num sinal de solidariedade, senti seus dedos esfregarem minha mão, num gesto de cumplicidade. Voltei para o meu lugar e peguei o livro, mostrei para ele o que lia. Ele se sentou e perguntou do que se tratava a história.
— Primeiro me diga o que estava ouvindo, fiquei curiosa.
Ali pegou seu celular e os fones de ouvido, colocou um em meu ouvido e o outro no seu. Ele deu play na música que ouvia, a música tinha um ritmo calmo com uma bela melodia de um violão, a voz de um homem ecoou apaixonada, o ritmo se animou e tudo se transformou em um indie rock. Ali gostava de indie rock?! Quem diria! Sorri para ele ao descobrir o gênero da banda.
Gostei tanto da banda que pedi para ele tocar mais uma, entre uma música e outra, não lembro quando adormecemos, com os ombros colados um no outro.
***
Finalmente, após uma longa viagem, anunciaram nossa chegada à Taekon. Pudemos descer e esticar as pernas. Me separei do meu colega de assento, que se juntou a sua namorada e amigos, Méilie veio até mim e reclamou o quanto sua colega era chata e não parava de conversar.
Os professores pediram para buscarmos nossas malas para colocarmos num ônibus. Kaila bufou e reclamou de não ter alguém que carregasse as suas coisas.
— Tudo bem se eu for de táxi?
— São as regras de Plenluno, todos os alunos devem ser tratados como iguais, independente da sua posição social — disse um professor.
— Não estamos mais em Plenluno. Aqui eu sou a princesa Kaila Valaya e tenho um alto status social.
Naquele momento, os professores ficaram sem jeito ao recursar e acabaram sedento. Cadê um Robespierre neste mundo? A menina continuou reclamando sobre ninguém carregar suas malas, Ali teve que ir com ela para ajudá-la com a bagagem.
— Ela é uma vaca, não é? — Méilie sussurrou para mim.
— Sim. E eu queria ser uma guilhotina.
Durante o percurso de ônibus, os professores deram mais explicações sobre o país. Era possível avistar a bandeira branca com um crisântemo hasteada em alguns prédios. Como Chie havia dito, havia bastante lolitas passeando pelas ruas. Alguns alunos filmaram e tiraram fotos.
Nosso ônibus parou em frente a um hotel, descemos e pegamos nossas malas. O táxi de Kaila parou logo atrás, Ali a ajudou carregar a bagagem. Ela observou o hotel de cima para baixo e depois resmungou.
— Que espelunca!
Revirei os olhos e preferi fingir que ela não estava lá. Os professores nos levaram até os quartos, divididos entre meninos e meninas, como na escola.
Méilie e eu fomos para nosso quarto designado, infelizes com as nossas colegas de quarto: Kaila e Elis. As duas patricinhas mais irritantes do planeta! Decidimos não trocar palavras com elas e fomos lavar nossos rostos para o jantar.
— Esse lugar tem banheira! Nunca usei uma. Vou experimentar amanhã! — Disse Méilie ao se deslumbrar com o banheiro.
— Acho que não vai dar tempo, já que temos que dividir com mais aquelas periguetes.
Méilie deu de ombros, irritada. Kaila me odiava por eu ser uma mestiça, não teve um pingo de vergonha ao contar sobre mim para seu pai, que de acordo com a diretora e minha mãe, era um cara perigoso, mas eu não iria deixar me intimidar, eu sobreviveria por três anos.
Durante o jantar foi nos ensinado sobre as comidas e bebidas típicas, além da etiqueta tradicional, alguns Mustas reclamaram por acharem chatos, já outros, eram acostumados por sua família ser formada por vampiros antigos e conservadores.
Voltarmos para o quarto ignorando nossas colegas, elas fizeram o mesmo, ainda bem, não aguentaria um ‘pio’ vindo de Kaila. Me deitei na cama e li mais um pouco de As Crônicas de Nárnia antes de pegar no sono.
Fale com o autor