Aurora: a Mestiça

34 CAPÍTULO 33: Por favor me empurre fora deste inferno


Enquanto caminhava pelos corredores escuros, tendo minha sombra como minha única companheira, me perguntei se a diretora estaria na escola. Ela não tirava férias nem quando os alunos e professores voltavam para casa? Talvez eu devesse pedir o seu número, se é que ela tivesse um, de acordo com Chie, muitos vampiros não gostavam da modernidade e preferiam se manter presos em seus tempos antigos favoritos.

Respirei fundo ao chegar no corredor da diretoria, a porta a minha frente me convidava a entrar, antes que eu pousasse minha mão na maçaneta, ouvi uma voz, pensei que seria a diretora já sabendo da minha presença, mas era uma voz masculina gélida e afiada como uma estalactite.

— … deveria me dar os nomes dos pais da mestiça, Sofia.

Congelei, quem falava sobre mim? Sua voz de inferno invernal congelou minha alma e arrepiou os pelos da minha nuca, de tal forma que eu não conseguia nem me mexer. Sentia meus instintos alertando que o perigo estava próximo.

— Não tenho os nomes. Aurora foi abandonada, sem saber de seus pais. — A diretora, como sempre, mantinha sua voz calma e sóbria.

— Será que não é possível um exame de DNA? — Uma voz estridente e feminina invadiu o ambiente.

— Não podemos deixar que um Valaya saia impune de um crime que cometeu — continuou o homem. — Prometemos que não faremos mal a ela, não há leis que puna mestiços no clã Valaya, já que nunca houve algum, decretos poderão ser criados para sua proteção, apenas queremos os nomes para punirmos os pais.

— Isso mesmo! A criança não tem culpa de nascer de uma relação pecaminosa — disse uma outra voz feminina.

Sofia se mostrou resistente as tentativas das pessoas presentes na sala. Meu coração queria fugir de mim. Milhares de perguntas passavam pela minha cabeça. Quem era aquele homem e as duas mulheres? O que queriam comigo e com minha família? Por que sentia que eram tão perigosos?

— Sinto muito, mas não tenho os nomes.

— Sofia, nós nos conhecemos há séculos, eu sei que você sabe — disse o homem. — Apenas esconde isto de nós, por quê? Eu gostaria de saber. Será que devo lembrá-la de que sou o rei Valaya?

— Talvez eu deva lembrá-lo que as leis dos clãs não se aplicam a Plenluno, portanto, não há reis ou rainhas aqui com poder. Este lugar é livre.

Um silêncio cortante tomou conta da sala.

— Tem razão, este foi nosso acordo há mil e quinhentos anos atrás, mas saiba que um Valaya cometeu um crime e deve ser punido. E esta menina provavelmente tem uma família, se eles a quiserem…

Mais uma vez o silêncio se manteve. Ouvi a cadeira de Sofia se arrastar pelo chão, a diretora pediu que eles se retirassem, caso não tenham nada mais para falar. Mais cadeiras se afastaram, passos se aproximaram da porta. Eu me afastei, com os pés ainda congelados de tensão. Ao abrirem a porta, as vozes adquiriram rostos.

Um homem, vestido num terno elegante, com os cabelos negros penteados para trás, saiu da sala acompanhado de duas mulheres loiras, que usavam lindos vestidos que destacam as suas curvas, uma delas tinha o cabelo liso e olhos verdes, a outra, cabelos cacheados e olhos azuis. Uma terceira mulher saiu atrás deles, seus saltos altos faziam barulho ao andar, ela tinha longos cabelos castanhos e se vestia de maneira sexy como as outras duas, esta última mulher, virou o rosto e olhou para mim. Seus olhos azuis se arregalaram por um momento, depois ela voltou a acompanhar o trio.

Vi Sofia sair da sala logo após os outros irem embora, me aproximei dela. Ela tomou um susto ao me ver e soltou um riso nervoso.

— Não esperava que voltasse cedo. Confesso que tive medo que ao ver sua mãe, resolvesse não voltar.

— Eu também, mas sei que preciso estudar os três anos completo antes de voltar.

Sofia pareceu satisfeita com a minha resposta e me convidou a entrar. Pegou uma garrafa do seu freezer e dois copos para nos servir, pude ver seus dedos tremularem, apesar do rosto possuir um sorriso muito bem disfarçado. Se aquele homem dava medo até mesmo em Sofia, eu devia temê-lo também, não é? Será que devo perguntar a ela sobre o que aconteceu agora a pouco?

Tomei um gole da bebida com o intuito de tomar coragem. Eu não tinha nada a perder, como prometi a mim mesma que iria me cuidar mais para poder sobreviver aos próximos anos, resolvi que gostaria de saber de tudo.

— Diretora, quem era aquele homem? Por que falavam de mim? Eu não quis ser bisbilhoteira, mas…

Ela não se incomodou de eu ter escutado a conversa.

— Ele é o rei do clã Valaya, Sebastian.

Rei?! O copo quase escapou das minhas mãos, ele não me parecia um rei, estava mais para um CEO elegante de um livro top 5 da Amazon do que um rei! Lembro de ter estudado sobre ele nas aulas, mas era tão diferente pessoalmente… e ele tinha uma aura tão… sombria…

— A Kaila contou a ele sobre você, então, logo foi investigar sobre seu passado, mas não encontrou nada, obviamente. Os nômades do Sul nunca a acolheram e ele não sabe sobre a outra dimensão. Então veio me cobrar informações pessoalmente.

— E a Kaila tem tanto poder assim sobre um rei?

Sofia riu, ela segurou seu copo com as duas mãos e bebeu.

— Mais ou menos, afinal, ela é a filha caçula dele.

Meu queixo caiu. Ela era a filha do rei Sebastian?! Quer dizer, então… que ela é uma princesa?! Oh céus! Agora o casamento arranjado dela com Ali fazia todo sentido. Ele é um príncipe! E ela uma princesa! A diretora sorriu mais uma vez, ao me ver abasbacada.

— Por que a senhora me ajuda? Se o rei agora já sabe sobre mim… não é perigoso para a senhora se recusar a falar?

— Eu a ajudo porque seu pai pediu para mim.

Sofia deixou o copo sobre a mesa e se levantou, ela pegou uma chave de um dos seus bolsos e abriu um pequeno armário em um canto da sala, lá dentro, havia uma grande quantidade de arquivos separados em pastas, alguns troféus e fotos. Ela pegou uma caixinha velha, escondida no fundo do armário, de lá retirou uma foto, sentou-se novamente e me entregou a fotografia de um jovem muito bonito, com cabelos castanhos e olhos negros como obsidianas.

— Este é seu pai, Aurora, quando ele era estudante aqui. Ele tinha a sua idade nesta foto.

Passei os dedos pelo seu rosto, ele era muito bonito, não é à toa que minha mãe se apaixonou por ele, imagino que naquela época, ele devia pertencer ao grupo dos populares, as meninas faziam fila para vê-lo jogar algum esporte. Me perguntei como ele teria conhecido e se apaixonado pela minha mãe.

Apertei a foto em meu peito, tive vontade de chorar, sempre achei que não queria saber sobre meu pai, mas ao ver aquela foto, saber como ele era, me deu uma tristeza profunda. Sua morte tinha sido real e aquilo doeu, eu jamais o teria em minha vida. Como eu podia sentir falta de uma pessoa que nunca conheci? Era um sentimento confuso demais, me senti uma idiota.

Pacientemente, Sofia esperou que eu parasse de chorar, ela me entregou um lenço e a agradeci imensamente. Meu pai pediu a ela para me proteger? Isso não soava nada com um Valaya mauricinho, ele era diferente, com certeza. Tal ideia deixou meu coração quentinho.

— Aurora, tenho algo importante a dizer. Sebastian é um homem perigoso, enquanto você estiver em Plenluno, estará segura, mas a partir do momento em que descobrirem a verdade sobre os seus pais, nem mesmo eu serei capaz de protegê-la, os únicos que são capazes disso é a sua família, no caso, os pais do seu pai.

— Pais do meu pai? Quer dizer meus avós?

Olhei para a foto novamente. Como seriam meus avós? A minha mente sempre formava imagens de um casal de idosos como representação de avós, mas sabia que vampiros não envelheciam mais do que vinte anos. Sofia era muito mais velha que a minha mãe, ela teria idade suficiente para ser minha avó. Meus avós seriam jovens, mas como seriam? Seriam iguais aos outros Valayas? Ou mais benevolentes como meu pai? Se meu pai era legal, talvez meus avós também fossem.

— E quem são eles? — Perguntei.

Sofia balançou a cabeça.

— Se a sua família souber de você, temo que será impossível fazê-la sumir após os três anos de estudo. Eles irão procurá-la pela eternidade e só descansarão quando a encontrá-la, talvez possam descobrir sobre o seu mundo. Por isso, você tem uma escolha a fazer e é somente sua.

A diretora arrumou a postura na cadeira, antes de continuar.

— Deseja conhecer a sua família vampírica? Isso significará que não poderá a ver a sua mãe, pois será perigoso para ela, você terá que abandonar o seu mundo e viver aqui para sempre. Ou, vamos continuar com o nosso plano inicial? Fique aqui apenas os três anos e voltará para casa, a protegerei de Sebastian até lá, você voltará para casa e a sua história ficará esquecida com o tempo.

Como seria uma família de vampiros? Eu nunca tive uma família completa, era apenas eu e minha mãe. Os meus amigos reclamavam das festas de Natal com primos e tios chatos e incômodos, mas os avós eram divertidos e gostavam de contar histórias.

Uma família de vampiros me parecia diferente do normal que eu conhecia, os pais de Méilie possuíam uma aparência jovial, eram modernos e estilosos. Os dois eram muito apaixonados mesmo após muitos anos de casados. O pai de Ali parecia um pai divertido, riu das brincadeiras de Chie o tempo inteiro e ele demonstrava carinho pelo filho. E… Kaila citava bastante o pai dela, talvez eles fossem muito apegados.

Como seria o Natal em uma família de vampiros? Teriam os tios e primos chatos? E os avós? Se eles viveram milhares de anos, talvez tenham histórias bem divertidas para contar.

Se minha família de vampiros fosse grande? Sofia me disse que eles me protegeriam de Sebastian, eles podem não concordar com essas leis injustas. Confesso ter curiosidade de saber sobre meus avós após todos esses pensamentos, mas, eu já tinha uma família, uma família perfeita que eu não trocaria por nenhum outro tipo.

— Que pergunta é essa? Eu já conheço a minha família e eles estão esperando que eu complete os meus estudos e voltar para casa. Minha mãe e meus amigos são a minha família. Os Valayas? Nunca foram e nem serão a minha família.