Aurora: a Mestiça
33 CAPÍTULO 32: Animal Que me Tornei
Não consegui dormir naquela noite. Todas as vezes que fechava meus olhos, o rosto horrorizado de Laura vinha a minha mente, o que me apavorava. Me levantei da cama, cansada de esperar que Morfeo me levasse ao mundo dos sonhos. Caminhei até a janela e deixei que a brisa fresca invadisse o ambiente.
Como pude ser tão tola de imaginar que estava bem controlada? Ataquei outra pessoa… meus planos de não voltar à Plenluno foram por água abaixo. Eu devia completar os três anos e depois voltar para casa, sem causar riscos a ninguém. Me sentia um animal descontrolado.
Talvez eu devesse aceitar a escuridão e viver no mundo dos vampiros para sempre, abandonar o meu lado humano pela eternidade. Me entregaria à Kaila para me punir, como puniram meu pai, ou quem sabe, deixar que Oliver e Thomas me saboreassem. Não! Estou sendo dramática demais! Preciso pensar positivo!
Vítor não me temeu, minha mãe confia em mim, não posso decepcioná-los! Não aguento mais sentir culpa e temia atacar mais alguém, então, peguei a minha mala e arrumei as minhas coisas.
Não queria mais ouvir os meus pensamentos, que me invadiam com os gritos de Laura, coloquei música alta para ouvir enquanto pegava as minhas roupas e mais livros, quanto mais grossos, melhor, queria pensar menos e ler mais.
Eu não consigo escapar desse inferno
A letra da música expressava o que eu sentia enquanto jogava minhas coisas com força dentro da mala.
Fui até a sala de casa e procurei pelo celular da minha mãe, que deixava todas as noites carregando na mesinha de centro, o desbloqueio e procurei pelo número de Rodrigo. Liguei para ele, era óbvio que ele estaria acordado.
— Alô? Aqui é a Aurora, o senhor pode me levar para Plenluno de volta?
Ele não esperava minha ligação naquele dia, mas eu queria voltar logo e evitar que mais acidentes acontecessem. O homem me passou o endereço, coloquei a localização no celular e agradeci.
Alguém poderia me tirar desse pesadelo?
Voltei para o meu quarto e finalizei a mala. Peguei do meu guarda-roupa, um moletom de Vítor, que o cheirei, ainda tinha o seu cheiro de desodorante. Aquilo me deu forças para voltar e encarar a minha realidade. Eu daria o meu melhor durante estes três anos e voltaria para casa.
Cobri a cabeça com o capuz do moletom, levei minhas malas até a porta da casa com cuidado, fazendo o mínimo de barulho, tendo superforça agora, tudo se tornou mais fácil. Olhei o ambiente uma última vez, antes de deixar que uma lágrima escapasse.
— Talvez eu não venha nas próximas férias. Então… até daqui três anos.
Saí de casa e tranquei a porta. Ao estar do lado de fora do portão, deixei que o vento frio me banhasse, o moletom me deixou aquecida, apesar do frio não me afetar mais. Coloquei os fones novamente e escutei a canção de antes repetidas vezes. Caminhei pela calçada puxando a mala.
Eu não consigo escapar de mim mesmo
Não temia mais a noite, eu poderia encarar com facilidade qualquer malfeitor que me enfrentasse. Assombrações? Como fantasmas e lobisomens? Eu era uma vampira, se tais criaturas existiam, eles temeriam, não ao contrário, pois eu… não consigo domar esse animal dentro de mim.
Cheguei ao meu destino, não precisei bater palmas, Rodrigo já me aguardava. Retirei o capuz e agradeci. O homem pareceu notar o meu rosto triste e se ofereceu para fazer um chocolate quente, recusei.
— Insisto.
Ele me levou até a cozinha. Enxuguei o meu rosto com as mangas do moletom, ele deve ter notado meus olhos marejados. Com rapidez, ele ligou o fogão e esquentou o leite, me sentei na cadeira e coloquei a música novamente para tocar enquanto aguardava a bebida.
Ninguém jamais mudaria
Esse animal que me tornei
Nada mais será normal, não é? Eu não poderei ser a mesma de antes? Por que minha mãe me obrigou a viver entre os humanos se sou assim? Por que não tornou a história absurda de Sofia verdadeira e me abandonou à humanos nômades?
O achocolatado quente foi posto sobre a mesa, Rodrigo puxou uma cadeira e se sentou, ofereceu o copo a mim e pediu que eu bebesse. Parei a música novamente e tomei um gole, um chocolate sempre acalmava os nervos. Aproveitei, agora que me sentia melhor, para observar o ambiente.
A cozinha de Rodrigo não tinha nada de diferente das outras cozinhas comuns, ninguém diria que ele era um vampiro, meus olhos pararam em um ponto fixo na geladeira, tinha uma foto dele acompanhado de uma mulher com ombreiras e cabelos volumosos, como dos anos 80, no meio deles uma menina alegre exibia seus novos aparelhos nos dentes. O homem percebeu que eu observava a foto.
— São bonitas, não são?
— Quem são elas? — Perguntei.
Rodrigo se levantou e pegou a fogo, ele me mostrou mais de perto, os três pareciam muito felizes. A menina parecia com ele…
— Estas eram a minha esposa e filha.
Abaixei a foto e o encarei. Ele foi casado com uma humana? E teve uma filha com ela?! Mas… eu não lembro de ter visto nada sobre elas na casa. Se as fotos eram dos anos 80, elas ainda deveriam estar vivas, a filha dele seria uma mulher adulta! Como se lesse meus pensamentos, o homem me respondeu.
— Elas faleceram, em um acidente de carro. Kátia foi busca a Vanessa do balé, e… — Sua voz falhou. — …as duas eram humanas, não sobreviveram.
— Sinto muito.
— Não se preocupe. — Ele forçou um sorriso. — Quando me casei com a Kátia, sabia que nosso tempo juntos era curto, e se relacionar com um humano, significa que seus filhos serão humanos, então… eu teria que vê-los partir bem antes de mim, mas não é fácil.
— Como você sabia que sua filha era humana e não mestiça? — A pergunta pode ter soado indelicado, mas a minha curiosidade era maior, precisava perguntar.
— Os mestiços são muito raros, você deve ter aprendido na escola que além de você só teve uns três ou quatro, não lembro ao certo, mas não são muitos. A menarca dela veio cedo, com doze anos, não era uma vampira.
Ah sim… vampiras não menstruam…
— Elas sabiam que você era um vampiro?
— Sabiam, não teria como inventar uma desculpa para dormir e não sair de casa durante o dia.
— Deve ter sido complicado.
— No começo sim, mas com o tempo se acostuma.
— Não há outros vampiros morando aqui? Neste mundo.
— Não que eu conheça. As únicas pessoas que conheço que sabem sobre este mundo é Sofia e sua mãe. Mas chega de perguntas, me fale de você, por que voltar para a escola mais cedo? Com saudades de Plenluno?
A pergunta me causou desconforto. Eu não queria voltar, era obrigada a voltar. Havia uma diferença. Tive vergonha de admitir que ataquei alguém, mas minha mãe viu e provavelmente contaria para Rodrigo ou Sofia, eu pedi que ele não falasse para a diretora o que aconteceu, me sentia muito mal de ter falhado com ela. Rodrigo prometeu que não contaria, seria nosso segredo, apenas pediu que eu contasse quem era a pessoa que eu ataquei, perguntei por que ele queria saber.
— Sofia me pediu pra cuidar de você, se necessário, sou obrigado a apagar as memórias. Essa pessoa que você atacou, é melhor ela não se lembrar disso, não é? Caso não tenha notado, sou um Jad.
Quase deixei que um pouco do achocolatado derramasse sobre a mesa. Ele era um Jad! Lembro de Ali ter falado sobre seus poderes serem ligados a mente, não imaginava que apagassem memórias também! Perguntei se ele seria o motivo de meus amigos não se lembrarem do ataque no começo do ano, e sem surpresa alguma, ele respondeu que sim! Oh! Desejava fazer mais perguntas, mas ele me cortou ao falar sobre as horas.
— Está ficando tarde, melhor ir para casa.
Como todo vampiro, ele mordeu o polegar e transformou a gota de sangue em um portal, que me levou até a entrada da escola Plenluno. Agradeci pelos cuidados que ele teve comigo e pedi que cuidasse da minha mãe, ele prometeu que cuidaria. Atravessei o portal sangrento e encarei os muros da escola, que naquele momento, não se parecia nada com uma casa, mas com a minha prisão.
Voltei a colocar os fones de ouvido.
Eu não consigo me controlar
O silêncio era o barulho mais alto daquela escola vazia, o caminho para o dormitório feminino já não tinha mais os burburinhos, que antes achava irritante, agora sentia muita falta.
Cheguei ao meu quarto, joguei minha mala de qualquer jeito e me deitei na cama.
Alguém me acorde desse pesadelo
Aproveitei o meu tempo sozinha para chorar alto. Por que eu tinha que ser tão fraca? Por que os vampiros tinham que ser uns malditos? Caralho, mãe! Por que você se apaixonou por um vampiro e teve um filho com ele? Por que eu nasci?
Eu não consigo escapar desse inferno
Parei de chorar apenas quando fiquei sem forças. Já me expressei o suficiente, não podia ser fraca agora. Logo as aulas voltariam e eu tinha que ser mais forte do que nunca! Encarar os valentões, sobreviver pelos próximos anos e aí sim, seria digna de voltar para casa sem ser um monstro.
Tirei os fones de ouvido e desliguei meu telefone, o escondi na mala. Antes de ligar o meu telefone daquele mundo, eu precisava falar com a diretora, achei que seria bom ela ver que voltei antes do dia combinado.
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