Aurora: a Mestiça
32 CAPÍTULO 31: O que está feito, está feito
Teria que voltar para a escola em breve. Desanimo total! Por mais que gostasse de Méilie e Chie, de ter poderes e tudo mais. Preferia a minha casa e família. Tudo o que vivi nos últimos meses parecia um passado distante que eu não gostaria de reviver. Observei o sol através da janela do meu quarto, um passarinho voou de uma árvore para outra.
Será que eu poderia simplesmente não voltar? Nem Sofia ou Rodrigo podiam me obrigar, não é? Eu consegui me controlar, não ataquei ninguém durante todo o mês. Vítor descobriu o meu segredo, já não tinha que mentir para ele, Paloma e Renan descobririam com o tempo, só precisava de um bom momento para contar. Com ajuda deles, eu não teria que me preocupar com ataques, certo?
Minha mãe bateu na porta e entrou no quarto, me afastei da janela e a recebi com um abraço. Senti tanta falta dela! Só de imaginar que eu a deixaria para trás por mais meses, me dava vontade de chorar.
— Por que toda essa tristeza? — Ela perguntou, acariciando os meus cabelos.
— Eu não quero voltar, mãe. Lá os Valayas me detestam por eu ser uma mestiça, eu não sou boa nas matérias e sou vista como uma coitada pela história ridícula que a diretora inventou.
— Vampiros são difíceis, minha filha. Eles têm uma personalidade diferente… não são humanos… e os Valayas são terríveis mesmo. — Seus olhos adquiriram um tom sombrio. — Mas sempre tem aqueles que são diferentes dos outros. — Ela acariciou o meu rosto. — O seu pai, apesar de um Valaya, gostava muito dos humanos. — Um sorriso nostálgico invadiu o seu rosto.
Era a primeira vez que ela falava do meu pai de maneira tão espontânea e com tanto carinho. Dava para perceber que ela o amou muito e que sua perda causou uma dor terrível. Me senti mal, prometi a mim mesma que não iria mais abordar este assunto com ela. Nem queria imaginar o quanto ela sofreu com os Valayas.
— Que tal aproveitar seus últimos dias comigo no shopping? Vamos comprar uma roupa nova para suas amigas de Plenluno ficarem com inveja!
Eu ri com seu entusiasmo. Ela correu até a penteadeira e pegou um pente, soltou seus cabelos do rabo de cavalo e começou a penteá-los, me ofereci para ajudar. Contei tudo a ela como foi o meu primeiro semestre em Plenluno. Ela sabia de Méilie e Chie, eu apenas ocultei o fato de que as duas sabiam a verdade, e que quase deixei essa verdade escapar para Ali e Chang.
Após a escovação, a ajudei a escolher uma roupa para sair, assim como eu, ela também preferia vestir camisetas e calças, lhe dei uma das minhas jaquetas para que ela ficasse um pouco mais estilosa. Estava feliz com o nosso momento de mãe e filha, não havia melhor encerramento para as férias!
No shopping, observamos as lojas, ela amava coisinhas fofinhas e pelúcias, gostaria de comprar para ela alguma coisa, mas infelizmente o dinheiro do meu trabalho não valia nada aqui. Pobre em um mundo, pobre no outro também. Que destino trágico! Ok, vou anotar que preciso comprar algo para minha mãe quando voltar para a escola, nas próximas férias eu traria.
Enquanto olhávamos algumas araras de roupas, uma mulher abordou a minha mãe, não era uma vendedora, mas uma bela mulher esbelta, de cabelos curtos e pele dourada.
— Gabriela? Ah! É você, Gabi! Quanto tempo!
Reconheci aquela mulher como sendo Cecília Garnier, a mãe de Laura. Ela deu um abraço apertado em minha mãe, os olhos da minha progenitora pediam socorro a mim. Sorri antes de decidir ajudá-la, apesar de Laura e eu não sermos mais amigas, Cecília ainda nutria carinho pela minha mãe. As duas se conheciam porque na infância, Laura e eu vivíamos na casa uma da outra.
— Nunca mais a vi! Tantos plantões! Vamos marcar alguma coisa!
Me aproximei das duas mulheres, Cecília foi muito gentil comigo, ela era muito carismática. Perguntou como estava meus estudos na Europa e elogiou minha inteligência por ter passado em uma bolsa para Portugal. Durante todo o seu monologo, apenas sorri e concordei com a cabeça, não queria me comprometer.
— Mãe, que tal esse vest…
Opa! Laura também estava aqui?! Que dia! A expressão do rosto da garota se transformou, de feliz com suas compras para frieza ao me ver.
— Laurinha, minha bebê! — Cecília puxou a filha para perto de si. — Estou tão feliz de ter encontrado a Gabi e a Aurorinha! Como nos velhos tempos! Voltaram a ser amigas? Eu gosto tanto da Aurorinha! Ela é uma boa influência pra você, é inteligente! Conseguiu uma bolsa para a Europa! Você podia estudar mais, o seu pai não lhe consegue nada na França! É por isso, Gabriela, que lhe digo, não case, casamento só gera divórcio. Se eu soubesse como seria meu marido… teria gerado a Laurinha sozinha…
Cecília começou mais um longo monologo interminável. Misturando assuntos que não se encaixavam. Laura colocou a mão no rosto, com vergonha da sua mãe, tentou explicar que não voltamos a ser amigas, mas tudo o que Cecília fez foi tirar da bolsa algumas notas e pedir para comprarmos lanche para quatro.
Obrigadas a obedecer às suas ordens, fomos juntas pedir calzone. Enquanto aguardávamos, Laura questionou como eu teria conseguido uma bolsa para a Europa, era uma das piores alunas de inglês.
— Fui para Portugal, é português lá. Apenas fiz o teste, passei e fui, sem segredos.
— Isso é tão suspeito! Você não é tão inteligente assim. Será que você não usou seu amigo macumbeiro pra fazer alguma coisa? Porque você consegue tudo! Isso é tão injusto!
Aquela sua fala me lembrou de Kaila, as duas falavam como se eu conseguir as coisas fossem uma injustiça com elas! Qual é! Eu só existo e dou o meu melhor! Se acham as coisas injustas, lutem vocês para melhorar! Já tive que lidar com uma patricinha vampira, não quero lidar com uma patricinha humana.
Levamos nosso lanche para a mesa, comemos enquanto ouvíamos Cecília comentar dos seus casos como advogada, dos homens com quem se encontrava no Tinder e como nenhum deles era bom o suficiente para um novo casamento. Laura se levantou da mesa e disse que precisava ir ao banheiro, e saiu.
— Aurorinha, pode ir com a Laurinha? — pediu Cecília. — Ela anda tão tristinha desde o aniversário. O pai dela não foi para o aniversário. Por que me casei com aquele traste? O que vi nele? O sotaque francês irresistível? — Ela revirou os olhos. — Fale com ela.
Novamente, não dava para recusar os pedidos de Cecília.
Fiquei feliz de naquele horário não ter ninguém no banheiro, as pessoas preferiam ir ao shopping ao final da tarde e a noite. Ouvi um choro baixinho vindo de um boxe. Bati e perguntei se era Laura, reconheci a sua voz estridente, agora trêmula, me mandando ir embora.
— Sua mãe está preocupada.
Ela continuou me ignorando. Bati na porta mais uma vez, mas ela continuou quieta. Suspirei, me senti uma idiota por me preocupar com ela naquele momento, não gostava de vê-la assim, apesar de não sermos mais amigas, os nossos anos de amizade não se apagaram. Perguntei o que tinha acontecido e se eu poderia ajudar. Novamente, ela me mandou embora. Ok, a minha pena se foi. Bati no boxe repetidas vezes até que ela saísse do box.
— Diga a minha mãe que vim apenas passar maquiagem. — Laura ignorou a minha presença e se dirigiu para a pia, pegou um delineador da sua bolsa e começou a passar nos olhos.
— Olha, Laura, se você quiser conversar… sei que não somos mais amigas como antes, mas… sei que sente falta do seu pai.
— Sabe? — Ela me olhou com cara feia.
— Eu o conheci, ele era muito legal. O divórcio dos seus pais foi difícil, você era muito apegada a ele… bem, eu sei como é não ter um pai presente.
A garota parou de se maquiar e apontou o dedo para mim.
— Você não sabe! Seu pai não teve escolha, não tá com você porque ele morreu! O meu escolheu me abandonar! Eu devia odiá-lo! É o segundo ano que ele não vai para o meu aniversário! Eu o odeio!
A sua raiva foi tanta que ela esmagou o delineador em sua mão, sujando-a toda de tinta preta. Os caquinhos de vidro se espalharam pela pia, alguns entraram em sua pele. A menina colocou sua mão com rapidez em baixo da pia, tentando se livrar da tinta preta e do sangue que escorria.
Eu apenas observei o líquido vermelho se misturar ao preto, dando uma beleza especial. A puxei pelo pulso, Laura reclamou e tentou puxar a mão dela de volta, mas eu era muito mais forte. A forcei abrir a mão, retirei um caquinho de vidro, em meio aos seus protestos, lambi a sua mão. Laura gritou de nojo, e eu também! O sangue se misturou ao gosto da tinta, o que deixou tudo horrível!
Laura aproveitou o momento para acertar o joelho no meu estômago. Eu caí no chão de dor e ela saiu correndo para fora do banheiro. Malditas aulas de karatê quando criança! Me deitei no chão com dor, me amaldiçoando por não ter a resistência de um vampiro, ao mesmo tempo, que odiava a sede de sangue de um ser das trevas.
Poucos minutos depois, minha mãe veio me resgatar. Ela me viu agachada e um canto e me acudiu, disse que Laura chegou a mesa suja de tinta e apenas com um dos olhos pintados, estava muito assustada e implorou a Cecília para levá-la embora.
— Eu fiz de novo, mãe. Ataquei outra pessoa, ataquei a Laura. — A abracei.
Queria tanto ficar em casa que acabei esquecendo a minha verdadeira de um monstro sedento de sangue. Eu não poderia ficar aqui, pelo menos, não nos próximos anos.
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