Aurora: a Mestiça
4 CAPÍTULO 3: Unicórnio Primogênito
Sem que eu pudesse protestar, ela puxou a manga do seu sobretudo e mordeu o próprio pulso. Eu gritei espantada. A mulher machucou a si mesma! Ela tinha sérios problemas! Mas parece que minha reação foi vista como exagero pelos adultos da sala. Os outros não pareciam nenhum pouco surpresos. Sofia apenas riu de mim. O seu pulso pingava em sangue carmesim, mas não tinha o cheiro metálico, na verdade, não tinha cheiro algum.
— Tenho permissão para entrar, Plenluno.
Ao dizer aquelas palavras, o sangue no chão começou a se mexer como se ganhasse vida própria. A pequena gota flutuou e rodopiou no ar numa dança sangrenta, ela se debatia aumentando o seu tamanho a cada pulsação. De repente, surgiu diante de nós um grande círculo escarlate. Não parecia mais a gotícula vermelha, mas um grande portal carmesim, que nos levaria a um mundo desconhecido.
Não podia acreditar no que via, aquilo parecia magia! Sofia limpou o seu pulso que não sangrava mais, mas possuía pequenas marcas de presas, como os vampiros dos filmes. Ela nos convidou a entrar. Minha mãe pegou na minha mão. Fechei os olhos, temendo o que poderia acontecer. Juntas, demos passos em direção ao interior da passagem. Quando abri as pálpebras, estávamos juntas, mas em outro lugar. Em frente a uma enorme propriedade, que ocupava um quarteirão inteiro, senão mais. Tinha uma arquitetura gótica e era cercado por enormes muros de pedra, as árvores sem vida davam uma sensação assustadora ao ambiente. Olhei rapidamente sobre meu ombro e vi a passagem de sangue desaparecer.
Observei ao meu redor, havia neve espalhada pelo chão, as árvores não possuíam folha alguma, as casinhas que eu podia ver ao longe tinham uma arquitetura bem diferente das de minha cidade, pareciam casas americanas.
Sofia caminhou até o portão preto, apertou um botão que parecia ser um interfone e os portões se abriram automaticamente. Minha mãe, novamente, me puxou com ela. Sua mão suava frio, seus dedos apertavam os meus com firmeza e eu podia ver gotas de suor em sua testa. Ela andou todo o caminho de cabeça baixa, deixando seus cabelos castanhos cobrirem o rosto.
Ao entrarmos no local, havia uma passagem ao ar livre, decorada com plantas e flores. Pude observar um prédio gótico bem à minha frente, era escuro e parecia feito de pedras. Ao adentrarmos pela porta, pude ver diversos adolescentes vestidos de uniforme escolar. Usavam uma camisa branca de botões e uma gravata preta. O blazer, da mesma cor da gravata, possuía no peito direito, um brasão dourado. As meninas usavam saias de pregas, enquanto os meninos usavam calças pretas. Os sapatos por outro lado, não combinavam em nada com a vestimenta, eram dos mais variados modelos e cores.
As luzes amareladas iluminavam com fraqueza os corredores. Fiquei receosa que minha mãe topasse em alguma coisa, ela andava de cabeça baixa. Alguns dos jovens uniformizados nos olharam com curiosidade, enquanto a maioria deles não se importavam. O relógio em meu celular marcava vinte e três horas.
O que adolescentes de uniformes faziam às onze horas da noite? Sofia passava de maneira plena entre os jovens, dando tapinhas de leve no ombro de alguns distraídos que se beijavam nos corredores.
Caminhamos até uma porta onde estava escrito diretoria. Entramos na sala, que era enorme e tinha um cheiro amadeirado. Todos os móveis eram de madeira, haviam diversas fotos penduradas nas paredes com mensagens de incentivo aos alunos brilhantes.
Diante de nós estava uma mesa larga acompanhada de duas poltronas. Também possuía um sofá encostado na parede. Acomodamo-nos nas poltronas.
— O que achou da ambientação da escola? — Sofia perguntou a mim.
Parei um momento para pensar, aquele lugar era uma escola e aqueles adolescentes eram mesmo alunos. Sobre a mesa havia um quadro escrito Diretora Sofia Znaide. Ela era a diretora!
— Espero que tenha gostado — continuou ela. — É aqui que ficará nos próximos três anos.
— Três anos?! — Me levantei surpresa. — Não posso! Já tenho uma escola, sempre estudei lá desde pequeninha, não posso mudar assim.
— Sua mãe não te contou nada, não é mesmo?
Tanto Sofia quanto eu olhamos para minha mãe que até o momento não disse nada. Suas mãos mexiam-se de maneira nervosa, entrelaçando os dedos.
— Aurora, infelizmente você terá que ficar aqui por três anos antes de ir para casa. — Minha mãe disse ainda com os olhos baixos.
A diretora acenava com a mão pedindo para que eu me sentasse novamente. Joguei-me na poltrona, emburrada, com os braços cruzados e aguardei a fala da diretora.
— Nós não estamos mais no lugar onde você mora, Aurora. Digamos que estamos em um mundo paralelo, que chamamos de Ziamli. O portal que eu criei para virmos para cá, você também tem a habilidade de fazê-lo, você tem poderes que estavam adormecidos, e que agora despertaram.
Queria rir do que ela havia acabado de falar. Era absurdo demais! Poderes?
— Quando um jovem vampiro faz dezesseis anos, seus poderes finalmente, despertam. — Sofia continuou. — Isso provoca-lhes um desejo incontrolável por sangue, portanto precisam ser isolados dos humanos e aprender suas habilidades. É para isso que a Escola Plenluno serve, ensiná-los a ter controle da sua sede de sangue e de seus poderes. E é por isso que você está aqui.
— De novo essa história de vampiros! — Resmunguei. — Essas criaturas não existem! Não me lembro de nenhuma vez de ter sido mordida por uma criatura da noite.
A diretora me respondeu com uma risada baixa que ela tentou segurar.
— Eu conheço as histórias de vampiros do seu mundo. E somos diferentes deles, alho não nos incomoda, não morremos com estacas no coração, apesar de ser bem desconfortável, e é impossível transformar um humano em vampiro. O que temos em comum, é que, de fato, não envelhecemos e morremos se nos expusermos à luz do sol.
— Então isso prova que não sou uma vampira. Consigo sair durante o dia sem problemas.
O sol só me queimou uma vez, quando fui à praia sem protetor solar, o mesmo que acontecia com qualquer ser humano.
— Mas você é um tipo de vampiro diferente. Você pode andar no sol porque é uma mestiça, nascida da união de um humano com um vampiro.
Eu olhei para minha mãe, que novamente, desviou seu olhar. Perguntei-me se ela era uma vampira, mas quem sanou minhas dúvidas foi Sofia.
— Sua mãe é humana. Os mestiços e os vampiros são diferentes em alguns aspectos. Por exemplo, você pode andar no sol, eu jamais poderia fazer isso, mas em compensação eu tenho um poder de cura incrível, você levará um tempo para se curar de algum machucado. Eu tenho presas. — Ela abriu um enorme sorriso mostrando seus dentes pontiagudos. Não tinha reparado antes, mas era verdade. Seus caninos eram maiores que o normal. — E você não tem. São pequenas diferenças que existem entre os vampiros e os mestiços.
— E por eu ser diferente não posso ficar em casa com minha mãe?
— Não. — Ela respondeu tão pontualmente e com um sorriso no rosto que me deu raiva. — Quando um vampiro completa dezesseis anos, fica difícil controlar seus instintos de caça. Se sentir cheiro de sangue vai atacar humanos sem pensar duas vezes, isso inclui você. Seria muito perigoso morar num lugar cheio de humanos, não? Imagine-se atacando seus amigos. A sua ausência de presas não te torna menos perigosa, você só terá mais dificuldade em morder alguém e nada a impede de usar uma arma.
Aquela fala foi como uma estaca em meu peito. Eu poderia me tornar tão violenta assim? A cena do ataque voltava à minha mente. Se eu tivesse uma faca em minhas mãos. com certeza, a teria usado. Minha sede era maior que qualquer pensamento racional.
Sofia notou minha angústia. Era muita informação para a minha cabeça. Eu não conseguia engolir essa história de que eu era uma vampira, pior do que isso, uma subcategoria de vampiro. Pra mim, essas coisas só existiam em filmes e séries de televisão.
Olhei para minha mãe novamente. Se estávamos em um mundo paralelo ao que sempre vivi, como minha mãe conhecia aquela mulher? Era verdade que meu pai era um vampiro? Eu iria conhecê-lo? Só de pensar nisso, meu estômago embrulhou, sempre que perguntava do meu pai não recebia respostas.
— Meu pai era um vampiro? — A pergunta que fiz foi dirigida à minha mãe.
Ela me olhou entreabrindo os lábios, seu rosto se contorcia de dor, a mesma cara que fazia quando perguntava do meu pai todas às vezes, mas desta vez, não iria aceitar uma resposta vaga, precisava saber. Com os olhos cheios d’água, ela apenas concordou com a cabeça.
— Como vocês se conheceram? Por que existe esse mundo paralelo?
Minha mãe estava tão abalada que não conseguia me responder, deixando ao cargo da diretora Sofia.
— Sua mãe nasceu e viveu aqui até descobrir a gravidez. Eu a mandei para o seu mundo para poder ter uma vida em segurança.
— Vida em segurança?
— Os vampiros aqui vivem em clãs. Há reis e rainhas que comandam certos países. Cada um deles tem suas próprias leis. O clã do seu pai, o clã Valaya, proíbe relações de humanos com vampiros. A punição para um relacionamento do tipo se paga com a morte e foi o que aconteceu com seu pai.
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