Aurora: a Mestiça
5 CAPÍTULO 4: Bem, Aguente Firme, Porque é um Longo Caminho
Um silêncio mórbido tomou conta da sala. Não sabia como reagir. Sempre achei que meu pai estava morto como minha mãe disse, mas não achei que o motivo de sua morte fosse algo tão medieval como um amor proibido. Sentia-me num filme de terror.
— Antes de morrer, ele veio até mim e me pediu para proteger sua mãe, então a mandei para o seu mundo, onde só há humanos, para ela viver de forma tranquila. — Sofia continuou a história. — Sinceramente, nenhuma de nós esperava que você fosse ser uma mestiça. Um filho de um humano com um vampiro, na maioria das vezes, nasce humano. Mestiços são extremamente raros. Tirando você, só há mais um mestiço no mundo.
Eu coloquei minhas mãos na cabeça tentando processar toda aquela informação. Acabava de descobrir que meu pai era um vampiro e ele morreu, minha mãe havia sido ameaçada de morte e essa mulher a ajudou? Para piorar, eu não era apenas uma subcategoria de vampiro, era uma raridade, mas não sei se isso significava algo bom.
A diretora esperou pacientemente até que me recuperasse do surto. Ainda era difícil de acreditar. Era informação demais em tão pouco tempo. Eu iria morar num mundo desconhecido, controlado por vampiros e viver em sociedade com eles para eu poder voltar para casa daqui a três anos.
— Aurora, eu sei que é muita coisa, mas agora você precisa fazer o que é certo. Serão apenas três anos, você só precisa se adaptar às regras da escola e procurar se dedicar nos estudos. — Sofia disse, dando-me um olhar solidário.
— Eu tenho escolha? — perguntei, sentindo meu rosto ficar molhado.
— Não. — A diretora balançou a cabeça.
Minha mãe pegou na minha mão. Todo aquele mundo parecia doloroso para ela. Entendia agora o motivo de ela nunca falar sobre o papai. Correspondi ao seu aperto em minha mão e dei-lhe um sorriso forçado. Não queria ficar, mas não seria nada bom eu ser uma louca descontrolada, eram apenas três anos, eu voltaria logo.
— Bem, já se passou da meia-noite. — Sofia nos alertou. — Na sua casa já devem ser uma da manhã.
Peguei o meu celular para confirmar, uma hora e quinze minutos para ser mais exata. Olhei para minha mãe com carinho, não queria me despedir dela, pulei em seu pescoço e choramos juntas feito duas crianças. Amava-a mais do que qualquer coisa e só de imaginar que não a veria por três anos, sentia meu coração se partir.
Sofia mordeu seu pulso novamente, no mesmo lugar de antes. O sangue que escorria levitou e transformou-se em um portal no momento em que ela disse: — Tenho permissão para entrar, casa de Gabriela Batista. Eu podia ver a minha casinha azul através daquele portal sangrento. Senti um mix de emoções perambular pelo meu peito. Segurei a vontade incessante de chorar. Minha mãe se despediu de mim com um beijo na testa e atravessou o portal, que se fechou assim que ela passou.
Sozinha, apenas com Sofia e minhas malas de companhia, sentia-me perdida. Adoraria voltar para casa e ficar com a minha mãe. Rezei em silêncio para que tudo isto não passasse de um sonho.
Voltando a se sentar à sua mesa, a diretora começou a falar:
— Sei que vai se acostumar, mas antes de levá-la ao seu quarto preciso pedir uma coisa.
Eu olhei para ela, receosa, enxugando as lágrimas com as costas das minhas mãos.
— Ninguém deve saber sobre o mundo que você veio ou sobre sua mãe. Nenhum vampiro deve saber da existência de um mundo alternativo de humanos além de mim. Está claro?
Concordei com a cabeça.
— Ótimo, não deve contar nada sobre sua mãe também, é perigoso para ela. Por isso precisamos inventar uma história convincente. — Ela pousou a mão no queixo, pensativa. — Existem humanos no mundo de Ziamli também, vamos dizer que você veio de um grupo nômade do sul, eles a encontraram quando bebê, e aos dezesseis anos descobriu ser uma mestiça. Seu grupo a abandonou e eu fiquei sabendo sobre você, encontrei-a e trouxe para a escola. Tudo bem pra você? Vai ser uma ótima forma de encobrir o por que você não sabe muito sobre os vampiros.
— Eu tenho escolha? — perguntei novamente, ainda atordoada com tanta informação.
Sofia sorriu, satisfeita. Ela caminhou até um armário, pegou alguns livros e um uniforme para mim e disse que esperava que servisse. Meus dedos passaram pelas capas duras dos livros, eram didáticos, sobre história e poderes mágicos. Vendo que eu não conseguia carregar a quantidade de livros e as malas ao mesmo tempo, Sofia se ofereceu para me ajudar.
Caminhamos para fora do prédio, já não haviam alunos andando pelos corredores, passamos por um jardim adormecido até chegarmos em outro prédio que tinha corredores enormes cheios de portas com números. Entramos no elevador que nos levou em direção ao terceiro andar.
Fomos até em frente a porta de número 372. Ela pegou uma chave em seu bolso e a abriu. Era um quarto. Havia nele um beliche que parecia já estar ocupado, com roupas espalhadas na cama de cima e alguns livros sobre a única escrivaninha que havia ali. Também notei alguns pares de meia em cima do tapete felpudo cor-de-rosa.
— Este será seu quarto e você terá uma colega para dividi-lo — disse Sofia.
A diretora apontou para dois guarda-roupas. Disse que um deles seria meu e pediu que eu ficasse à vontade para desfazer minhas malas. Fizemos um pequeno tour. Ela me apresentou a escrivaninha, me mostrou o banheiro, do qual teria que dividir com minha futura colega de quarto. E, por último, ela me mostrou um frigobar. Perguntei-me o que aquela coisa faria em um quarto. Assim que ela abriu o freezer, eu compreendi. Pude ver diversas garrafas de vidro com um líquido vermelho dentro, só podia ser sangue.
— É reposto de tempos em tempos, vocês precisam beber bastante, então fique à vontade. — Sofia disse aquilo com um sorriso no rosto.
Ainda não me acostumei com o fato de que eu teria que beber sangue a partir de agora. Sempre vivi bem de churrasco e batatinha frita. Olhar para aquele líquido avermelhado me causava um pouco de ânsia.
Sofia começou a apalpar os bolsos de sua roupa até encontrar um papel e me entregar. Ao lê-lo pareciam horários de escola, ela me respondeu de imediato que era exatamente isso, os horários das minhas aulas. Não haviam matérias como Matemática ou Literatura, apenas História, Educação Física, Biologia Vampírica e de Habilidades, o que quer que isso significasse.
— Posso deixá-la agora? — Ela perguntou. — Preciso resolver algumas coisas e a sua colega de quarto vai chegar às duas da manhã, assim que as aulas acabarem. Sei que vai ser um pouco difícil, mas relaxe.Beba alguma coisa e descanse. Amanhã será um longo dia.
Ela saiu do quarto e ouvi os sons de seu salto sobre o piso até cessarem. Senti que podia respirar de novo. Era muita coisa para absorver naquela noite. Já era uma e meia da manhã e ficava sonolenta, não queria ir dormir sem antes conhecer a minha colega de quarto.
Dei leves tapinhas em meu rosto para acordar e comecei a desfazer minhas malas. Ao abrir um dos guarda-roupas notei que ele continha roupas de diversas cores, sapatos coloridos, vestidos de todos os tamanhos, ok, pareciam roupas de uma garota normal. Eu esperava que todos os vampiros se vestissem como a diretora. Fechei e abri o outro guarda-roupa que estava vazio.
Abri a minha mala de roupas e comecei a colocar minhas vestimentas lá dentro. Era estranho como eu, que não era uma vampira de verdade, seguia mais o estereótipo de um com todas as minhas roupas pretas do que a minha futura colega de quarto que vestia shortinho e cropped.
Bem, a diretora me disse que havia outro mestiço além de mim, será que era minha colega? Por isso ela não tinha ninguém com quem dividir o quarto? Baguncei o meu cabelo tentando me acalmar. Como posso está comprando essa ideia de que sou mesmo um ser sobrenatural? Tudo era muito irreal! Me belisquei na esperança de tudo ser um sonho e doeu! Ainda estava naquele quarto escuro, não me teletransportei para o meu antigo quarto.
Assim que terminei de arrumar o meu guarda-roupa, abri o plástico onde o uniforme estava embalado. Precisava ver se servia. Ainda bem que ela não se parecia em nada com a antiga farda do meu colégio, que eu particularmente, achava feio. Mas a ideia de usar uma saia não me agradava. Abotoei a camisa branca, coloquei a saia e o blazer preto e com dificuldade consegui amarrar a gravata.
Me olhei no espelho. O uniforme serviu bem. Parecia alguém da série Rebelde, versão gótica. O que se destacava naquela roupa era o brasão de um círculo dourado. Passei meus dedos pelo bordado, era realmente muito bonito. Era o símbolo da escola? Antes que eu pudesse pensar mais sobre isso, ouvi a porta abrir.
Minha colega de quarto finalmente chegou. Era uma menina negra de cabelos crespos tinjidos de roxo. Ela tinha um laço branco na cabeça. Seu tênis era rosa assim como a cor dos seus olhos. Fiquei hipnotizada ao olhar para seu rosto. Não conseguia desviar. Aquelas cores de olhos, nunca antes, eu tinha visto igual, será que ela usava lentes? Poderia muito bem ser uma cosplayer, afinal ela sabia se maquiar, a sua pele era perfeita e os seus cílios eram enormes, usava uma sombra lilás e seus lábios estavam pintados com um batom matte.
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