Aurora: a Mestiça
27 CAPÍTULO 26: Eu sou um pouco de solidão, um pouco de negligência
As horas pareciam passar mais rápido quando nos divertíamos, entre uma cerveja e outra, o tempo voava. Alguns alunos foram para casa, outros voltaram para escola. Ítalo e Kenichi dormiam sobre a mesa, totalmente bêbados. Sobrando, assim, Méilie, eu e os garotos populares. Porém, Méilie estava perto de se juntar ao mundo dos sonhos, tive que pedir um copo de sangue para ela se manter hidratada e sóbria, mas após beber do copo, ela pediu licença com uma certa urgência e correu para o banheiro.
Só havia silêncio na nossa mesa com a ausência de Méilie, Ali parou de comer há algum tempo e ficou apenas na cerveja. Os dedos de Chang batiam na madeira da mesa, seus olhos se dirigiram por todo o ambiente, mas não parecia olhar para nada ou ninguém.
— Acho que eu devo conferir se Méilie está bem — disse, por fim. Oh, ele estava preocupado com Méilie? Que gentil!
— Talvez eu deva ir, ela está no banheiro feminino — falei, mas ele insistiu em ir, prometeu que se fosse necessário alguém entrar, ele me chamaria.
Permaneceu na mesa apenas Ali e eu. O observei beber a cerveja, a visão dos seus lábios molhados me causou um embaraço. Não conseguia parar de pensar no beijo que aconteceu na peça, me perguntei por que ele não comentou nada, ele sabia muito bem que não foi isso que ensaiamos. Ao notar o meu silêncio constrangedor, ele parou de beber, e deu um enorme sorriso malicioso.
— No que você está pesando? — perguntou.
— É… — Fiquei ainda mais vermelha. — Eu queria pedir desculpas, por ter beijado você daquele jeito na peça. Não era minha intenção… é… que…
— Não precisa se desculpar. — Ele colocou a bebida na mesa. — Foi só uma peça, não foi um beijo de verdade.
Apesar de querer concordar com ele, suas palavras me magoaram. Como aquilo não foi um beijo de verdade? Eu beijei de verdade! Era assim que eu beijava Vítor.
— Accha! Não me entenda mal. — Acho que ele percebeu minha repentina mudança de humor. — Você não beija mal, não foi um beijo ruim, apenas não foi um beijo de verdade.
Coloquei os dedos sobre as temporadas, aquela conversa me deixava cada vez mais confusa. Por que eu tive que abordar o assunto se ele nem se incomodou? Ok, Ali não considerou aquilo um beijo de verdade e eu devia ficar bem com isso, mas não, eu não estava bem. Ele não podia simplesmente aceitar minhas desculpas ao invés de falar se beijo mal ou não?
— Não se preocupe — disse ele. — Se eu fosse beijar de verdade, você saberia.
Repentinamente, Ali se inclinou sobre a mesa, seu rosto se aproximou, nossos lábios estavam a poucos centímetros de distância, eu podia sentir seu hálito de cerveja misturado com sangue. O gesto me deixou estática, eu não conseguia mover um milímetro do meu corpo. Ele ergueu uma das mãos e seus dedos tocaram o meu rosto, o que me causou arrepios, colocou alguns fios do meu cabelo para trás da minha orelha. Por instinto eu fechei os meus olhos e me deixei tomar pelo aroma instigante do seu perfume de âmbar, junto com o toque quente da sua pele no meu rosto. Seus lábios se aproximaram da milha orelha e o ouvi mordiscar seus lábios.
— Achou mesmo que eu ia te beijar agora?
O garoto voltou a se sentar e riu, pegou a cerveja da mesa e tomou um gole.
Meu rosto ardia de vergonha e raiva! Como eu queria fazê-lo engasgar-se com aquela cerveja! E antes que eu pudesse planejar qualquer coisa maligna, Chang nos interrompeu, Méilie ainda não saiu do banheiro.
— A ouvi vomitar, não está nada bem.
Fui buscá-la do banheiro, ela dormia sobre o vaso sanitário. Balancei a cabeça, oh Méilie! Você é muito fraca para a bebida, devia pegar leve. Tentei acordá-la, seus olhos demoraram a levantar, a ajudei a ficar de pé e caminhamos para fora. Os rapazes nos aguardavam com ansiedade. Chang se ofereceu para levá-la e a carregou em suas costas. Os braços da garota se agarraram ao pescoço dele e a vi soltar um leve sorriso nos lábios.
Retornamos para a escola em silêncio, como havia poucos alunos agora, a maioria voltou para casa, os meninos resolveram entrar no dormitório feminino para levar Méilie. Chang me perguntou onde era o nosso quarto e ao chegarmos no terceiro andar, apontei onde ficava nossos aposentos, o rapaz colocou Méilie na cama e tirou seus sapatos, depois a cobriu com um lençol. Confesso que me surpreendi, ele foi um verdadeiro cavalheiro, acho que Méilie tinha razão sobre ele não ser ruim.
Levei os rapazes para fora do quarto.
— Você vai pra casa? — Ali perguntou.
Bufei. Duvidava que a diretora pudesse me deixar ir para casa nem que fosse para passar as férias.
— Ninguém tem o direito de te proibir de visitar os seus amigos ou família, mesmo que sejam humanos. — O rapaz continuou. — Fale com a diretora, ela vai concordar. Qualquer coisa, você é bem-vinda em Tiwi, se não quiser passar as férias sozinhas, minha família e eu ficaríamos muito feliz em recebê-la.
Dei um meio sorriso e agradeci pelas suas palavras e oferta, mas no momento eu só queria cuidar de Méilie. Os meninos partiram, voltei para o quarto, Méilie logo iria para casa e eu estaria sozinha na escola. Será que a diretora me deixaria voltar para casa apenas para as férias?
***
A noite seguinte levou a minha melhor amiga, os pais de Méilie a levaram através de um portal, já que seu país possuía um fuso horário semelhante ao de Plenluno.
Percorri o meu quarto vazio mais de dez vezes, o silêncio era assustador, a falta de roupas espalhadas pelo quarto me causava claustrofobia. Me acostumei tanto a presença de Méilie, que a sua ausência soava como algo sobrenatural. Continuei a me questionar se a diretora permitiria que eu fosse para casa, e se dizer não? Bem, poderia aproveitar esse tempo na escola para treinar mais minhas habilidades. Mas e se ela disser sim? Tal possibilidade fazia meu coração cavalgar de esperança. Rever minha mãe, meus amigos e Vítor seria a melhor coisa do mundo! Tomei coragem para tentar.
Com os corredores somente para mim, caminhei acompanhada da solidão, ainda encontrava um aluno aqui e ali, mas não era nada comparado com as noites anteriores. A minha sombra tomava formas gigantescas e assustadoras sobre a luz fraca. Ensaiei novamente todo o discurso que eu faria para a diretora, ela iria concordar!
Em frente à diretoria, engoli em seco antes de bater. Será que eu deveria dizer que vi Vítor no Dia dos Namorados? Eu não me descontrolei naquele dia, o que significa que eu estava melhorando. Bati mais uma vez, não obtive nenhuma resposta do outro lado da porta. Oh céus! Não me diga que ela estava de férias?! Justo hoje? Justo agora?! Sua ausência me deu vontade de chorar.
Sem evitar, as lágrimas rolaram pelo meu rosto, solucei sem conseguir me controlar. Tentei enxugar meu rosto com as mãos, imaginei Méilie se divertindo com sua família, Chie brincando com seu novo irmãozinho, e eu… era a única sem a minha família. Talvez estivesse com inveja das minhas amigas, mas que caralhos! Claro que eu estava com inveja! Eu só queria a minha mãe!
A diretora chegou justo nesse momento sensível.
— O que aconteceu? — Ela correu na minha direção. — Machucou algum humano?
Não conseguia respondê-la, a dor era tanta que prendia a minha garganta, só consegui dar pequenos soluços como resposta. Ela me levou para a sua sala, me colocou no sofá e esperou até que eu me acalmasse.
Não sei quanto tempo se passou, não parei para contar. A dor não diminuiu, mas eu estava me sentindo exausta. Sofia pegou uma garrafa de sangue do freezer da sua sala e me entregou um copo. Sem pensar duas vezes, bebi com vontade, o que acalmou meu corpo, o deixou quente e confortável, como se os problemas fossem embora.
— Você está melhor? — Ela me perguntou, dando tapinhas de leve nas minhas costas.
Inspirei profundamente e depois soltei o ar tentando me acalmar. Ela perguntou o que tinha acontecido, respondi que estava com saudades da minha mãe e que eu adoraria vê-la. Todos voltaram para casa nas férias, e eu era a única que fiquei na escola.
A olhei fazendo o melhor olhar de cachorrinho abandonado que podia. Ela suspirou.
— Bom, já que você foi uma boa menina e ninguém sabe nada sobre você ser de uma outra dimensão, posso te deixar passar as férias com sua mãe, se prometer não atacar mais ninguém, ok?
— Eu prometo! — Eu disse, tão agradecida e animada que a tristeza já não me pertencia mais.
Pulei em seus braços para um abraço forte, beijei seu rosto e depois corri até meu quarto para arrumar as malas. Eu iria ver minha mãe de novo! Poderia sair com meus amigos e beijar Vítor de verdade dessa vez! Estava tão animada que mal podia me conter! Eu tinha vontade de dançar e de gritar!
Após arrumar minhas malas, a diretora entrou no quarto e perguntou se eu já estava pronta. Mesmo que não estivesse, não me importaria de ir somente com a roupa do corpo. O mais importante era ver a minha mãe! Sofia me entregou uma grande sacola térmica, perguntei o que era.
— Vai passar as férias em um mundo cheio de humanas sem sangue para beber? Eu jamais permitiria isso. Tem suprimento para o mês inteiro, não faça besteiras ou não poderei mais permitir que você volte para casa nas próximas férias.
Agradeci por todo o cuidado que ela teve comigo e jurei que não iria atacar mais ninguém, seria uma boa menina. Confiando em mim, Sofia abriu um portal, antes de partir, ela reforçou que só ficaria para as férias, no final do mês eu deveria ir até Rodrigo e pedir para ele criar um portal de volta. Confirmei mais uma vez antes de voltar para casa.
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