Aurora: a Mestiça

28 CAPÍTULO 27: Voltando pra casa


Quase que minhas pernas pararam de funcionar. Não conseguia acreditar que bem a minha frente, estava a minha casa. O lugar onde cresci e morei por toda a minha vida. Andei devagar até os portões, deixei minhas mãos sentirem o ferro frio. Que saudades! Olhei ao redor, ainda sem acreditar, a rua iluminada pelos postes me impedia de ver a maior brilho das estrelas, apesar de ser madrugada, ainda tinham algumas pessoas conversando na rua, sentadas em cadeiras de plástico.

Observei a minha casa com admiração mais uma vez, o mesmo muro azul que eu amava, nem acredito que sentiria falta daquela pixação sem sentido, ainda era a mesma da última vez. Eu não podia ficar parada na rua, precisava entrar. Bati palmas, torcendo para que minha mãe estivesse em casa. Quase caí para trás ao ver sua figura magricela e cansada abrindo a porta.

Seus olhos castanhos encheram-se de brilho e lágrimas, ela correu para me abraçar e nós duas choramos de emoção e felicidade. Ela não aguentou o peso do próprio corpo e caiu no chão, me juntei a ela num abraço apertado em meio aos choros e risos.

— Você é real? — Ela me perguntou com a voz trêmula.

— Sou sim, mamãe. Estava morrendo de saudades!

Não queria soltá-la dos meus braços. Minha mãe enxugou as lágrimas e me levou para dentro.

O interior da casa ainda era o mesmo que me lembrava, corri até o meu quarto, meu VERDADEIRO quarto. Pulei na minha cama de solteiro com lençóis em tons escuros intocada por meses. Amava o cheiro do amaciante que minha mãe usava, amava a cor azul do meu quarto e sentia falta dos pôsteres das bandas que admirava. Meu notebook velhinho estava na escrivaninha, do mesmo jeito que o deixei. Fui até ele e apertei o botão de ligar, ainda funcionava! Olhei minhas redes sociais e percebi que tinha milhares de mensagens dos meus amigos e de Vítor. Não tive coragem de abrir nenhuma delas, pelo menos, não agora.

Minha mãe entrou no quarto.

— Sei que são mais de quatro da manhã, mas quer comer alguma coisa?

Desde que comecei a minha nova dieta com sangue, não sentia mais tanta fome de comida humana, comíamos apenas por prazer. Só de me lembrar da minha comida favorita comecei a salivar, mas seria pedir demais assar carne às quatro da manhã, não? Não para minha mãe, que teve o maior prazer de preparar bife na manteiga, acompanhado de arroz e macaxeira, minha segunda refeição favorita! Comi com gosto e cheia de felicidade, era a comida mais gostosa do mundo!

— Vamos assistir Orgulho e Preconceito mais uma vez? — Eu perguntei.

Era o filme favorito dela, confesso que romances não eram a minha praia e sempre reclamava quando minha mãe pedia para eu assistir junto com ela, desta vez eu fazia questão de assistir e até de me emocionar com o senhor Darcy.

— Eu nem acredito que te deixaram voltar. — Ela disse, sonhadora.

— Só durante as férias.

— Tempo mais que suficiente pra ter você pra mim. — Ela me abraçou e deu-me um beijo no rosto

Abri a mala térmica que Sofia me entregou e peguei uma garrafa para beber. Mamãe me ajudou a guardar as outras no congelador. Depois nós duas nos sentamos no sofá da sala para assistir ao filme juntas, não havia nenhum outro lugar que eu gostaria de estar que não fosse aqui.

***

Acordei com o sol em meu rosto, fiz questão de dormir com a janela aberta para que os raios solares entrassem em meu quarto, parecia que fazia anos que eu não sentia aquele calor em minha pele. Acordei me sentindo energizada mesmo dormindo pouco.

Peguei o meu celular antigo, que carregava na tomada e comecei a ler as milhares mensagens que mandaram durante os meses de ausência. Meu celular travou de tantas notificações, meus amigos perguntaram sobre uma viagem para Europa, pelo que entendi, minha mãe inventou que fui estudar em Portugal. Nas conversas com Vítor, ele me enviou diversos vídeos de gatinhos e cachorrinhos engraçados, além de mensagens de saudades. Um fofo!

Olhei para as horas, marcava dez da manhã, eu não dormi tão pouco quanto pensei. Tomei um banho rápido e resolvi ligar para Paloma primeiro. Pelas suas mensagens, ela não parecia mais chateada comigo pelo incidente do começo do ano. A garota me atendeu aos gritos e falou tão rápido, que eu não conseguia entender o que dizia.

— Sua mãe disse que você tava na Europa! — Ela gritou.

— Eu voltei para as férias — disse, fazendo parte da mentira.

Era horrível mentir para os meus amigos, mas depois de ter que mentir para uma escola inteira de vampiros, e das aulas de teatro, mentir estava se tornando fácil para mim.

— Ah meu Deus! Renan e Vítor vão surtar! — Ela falou, eufórica.

— Devíamos fazer uma surpresa pra eles, você é a primeira com quem falo desde que cheguei.

— Claro, ótima ideia! Vou sugerir da gente sair hoje à noite pro nosso passeio de bicicleta e então você estará nos esperando no Açaí do Valter.

Fiquei feliz de ver que ela não estava zangada comigo e aceitei sua sugestão do ataque surpresa. No cair da noite, bebi mais uma garrafa de sangue antes de sair, não queria que acontecesse a mesma coisa da última vez. Minha mãe teve que trabalhar naquele dia, como uma enfermeira ela não poderia tirar folga.

Peguei a minha bicicleta purpura e pedalei. O mar calmo e o vento fresco da noite me traziam tranquilidade, apesar do calçadão estar agitado, no mês de julho a minha cidade ficava cheia de turistas. Me perguntei quem seria o gringo por quem Paloma teria um crush de verão. Estacionei minha bicicleta e entrei no açaí.

As mesas de plástico na cor roxa eram as mesmas de que eu lembrava. Valter e sua esposa também não mudaram nada, era como se tudo tivesse congelado no tempo. Sentei-me na mesa que costumamos ficar e esperei meus amigos chegarem para prepararmos nosso doce.

Paloma logo entrou acompanhada dos rapazes, os olhares dos dois ao me ver era impagável! Renan pulou no meu pescoço chorando de emoção, eu retribuir o seu abraço.

— Achei que você tinha ido embora para sempre! — Ele chorou.

Tive que pedir para Renan se acalmar, todos pararam para nos olhar. Paloma também se emocionou, mas me deu um abraço mais discreto. Eu amava os meus amigos! Mas de quem eu sentia mais falta era Vítor, que permaneceu parado na porta, me olhando, sem saber o que dizer.

Afastei meus amigos e caminhei em sua direção. Gentilmente, peguei em suas mãos, ele ainda me olhava como se estivesse vendo um fantasma, dei um pequeno sorriso para ele e beijei-lhe a bochecha direita.

— Você é real! — Ele disse com um brilho em seus olhos cor de avelã.

— Claro que sou, seu bobo.

Sem pensar nas pessoas ao nosso redor, ele me beijou na boca. Senti tanta falta daqueles seus lábios macios nos meus! Nem acreditei que ele estive esperando por mim por todo esse tempo!

Nos separamos quando alguns adolescentes no estabelecimento começaram a assobiar e bater palmas, nós rimos constrangidos e fomos preparar o nosso açaí. Nos sentamos na mesa de sempre e todos começaram a me perguntar como era estudar na Europa. Perguntei exatamente o que minha mãe tinha dito para eles, eles falaram que quando iam na minha casa, ela falava que fui estudar fora e não deu mais detalhes.

Eles eram meus amigos, meus melhores amigos, odiava mentir para eles, sei que por mais absurdo que fosse a história eles acreditariam em mim, mas eu não podia contar. Tinha prometido a Sofia, e não sabia como Paloma e Renan ainda se sentiam sobre eu ter lambido e mordido a perna dele, essa cena vergonhosa nunca iria sair da minha mente!

— Foi muito estranho — disse, contando uma meia-verdade. — Tinha alunos de vários lugares do mundo. Fiquei amiga de uma menina de cabelos roxos e de uma japonesa. A do cabelo roxo era caidinha por um garoto chinês que namorava uma patricinha chata, e era amigo de um indiano e de dois europeus babacas.

— Caramba! E como vocês se comunicavam se eram de países diferentes? — Vítor perguntou.

— Você conseguiu conversar com todo mundo em inglês? Achei que você só sabia o verbo to be. — Foi a vez de Paloma.

— Tem algum contato de gringo bonito pra mim? Estou solteiríssimo! — Renan brincou.

Todos nós rimos com os comentários de Renan.

— Pelo menos, nenhum gringo te conquistou, não é? — Vítor perguntou, segurando na minha mão.

Seu toque deixou meu coração quentinho e dei-lhe um selinho. Paloma e Renan se entreolharam e perguntaram se não gostaríamos de um tempo sozinhos, falei que estava morrendo de saudades dos meus amigos e queria que passássemos o tempo juntos. Nós nos divertirmos até ficar tarde, quando tivemos que sair.

— Antes de ir, gostaria de pedir desculpas. — Falei, ainda envergonhada.

— Por ter sumido? É, tinha que pedir mesmo.

— Não, por ter atacado Renan e assustado você.

Paloma pareceu confusa.

— Quando foi isso?

— Você não se lembra? No começo de fevereiro, estávamos andando de bicicleta, um carro veio em alta velocidade, Renan caiu e eu… eu… — Meu rosto corou. — …mordi ele.

A garota deu uma gargalhada, falou que lembrava do acidente, mas que eu não fiz nada que o prejudicasse. Quem ficou confusa agora foi eu, ela não se lembrava de nada? E pelo visto nem ele, pois Renan não tinha medo de mim. Paloma e eu nos abraçamos antes de ir embora. Vítor se ofereceu para me levar em casa.

Fomos pedalando e rindo, ao chegar em minha casa, me deu um beijo de despedida. Não queria me separar dele, todos aqueles meses em sua ausência me deixaram com saudade de seu gosto, não o deixei escapar de meus lábios, o empurrei contra a parede do muro, fazendo-o se surpreender com a minha força, mas os meus beijos o deixaram enlouquecidos demais para que achasse qualquer coisa suspeita.

— Fica comigo esta noite — murmurei. — Minha mãe não está em casa.

— Eu não trouxe camisinha. — Ele me respondeu, ofegante.

Nossos lábios se encontraram mais uma vez.

— Podemos pedir por delivery ou não precisa rolar nada, só não quero ficar sozinha, preciso de você.

Meu olhar suplico e meus beijos ardentes o convenceram a ficar, ele pegou na minha mão e me puxou para dentro de casa.