Aurora: a Mestiça
24 CAPÍTULO 22: Voltas e voltas
Finalmente a entrevista foi colocada no jornal. Meus dedos não paravam de se mexer de nervosismo, sentei com Méilie em um banco nos jardins e abrimos o aplicativo para lermos juntas. Chie fez um excelente trabalho, não alterou nada da nossa conversa. Meu único pensamento agora era como os outros alunos iriam reagir.
Para a minha surpresa, muitos alunos leram aquilo com positividade. Durante a semana, diversos colegas de clãs distintos vieram pedir desculpas pelo comportamento que tiveram comigo, outros falaram que um parente namorava ou era casado com um humano.
— Você é uma vampira como eu — disse uma menina a mim.
Senti um alívio por me tratarem com normalidade, exceto os Valayas, que ainda me olhavam com desdém. De acordo com Kaila, eu era uma criminosa que não merecia respeito, enquanto Oliver e Thomas ainda queriam me beber, o que era assustador.
Em uma das noites, a piriguete derrubou sua bebida em mim, de propósito, ela se fez de santa preocupada dizendo que tinha sido sem querer. Pegou guardanapos para limpar a minha camisa branca, aquilo manchou ainda mais o meu uniforme, não era assim que se limpava sangue!
Tive que manter a pose diante daquele constrangimento, mas meu sangue fervia por dentro e minha vontade era de puxar aqueles cabelos bem escovados e arrancar fio por fio. Dei um empurrão de leve enquanto ela tentava me limpar.
— Não precisa se esforçar tanto! — Falei, rangendo os dentes.
A minha camisa agora tinha uma enorme mancha vermelho-escuro e não conseguiria lavá-la até o começo da próxima aula. Aquela vaca me devia um uniforme novo! Méilie sugeriu que eu usasse outra camisa e foi o que fiz, vesti minha camiseta dos Beatles. Os meninos populares e Kaila personalizavam seus uniformes, por que eu não poderia fazer o mesmo?
Ao retornar para a segunda aula daquela noite recebi diversos elogios pela minha camiseta e até me perguntaram quem eram os quatro rapazes nela. Para o azar de Kaila, a minha alteração de estilo me tornou mais descolada e legal, enquanto ela só revirou os olhos.
***
Os meses se passaram até chegarmos em junho, agora ninguém mais falava nada naquela escola a não ser sobre o Dia dos Namorados. O dia em que as pessoas tomavam coragem para se declarar para os outros e os casais se presenteavam.
— Mês de junho é um mês cheio pra mim — desabafou Chie. — Milhares de alunos mandam mensagens se declarando para o crush. Pretendem mandar para alguém? — Ela nos perguntou. — Prometo pular a fila por vocês.
— Isso não é brega? — Questionei.
— Ah! Eu quero! — Ao contrário de mim, Méilie ficou empolgada.
— Vai se declarar pro Chang assim? Ele é comprometido! — Eu a repreendi.
— Não vai ter problema. — Chie disse. — Eu recebi muitas cartinhas das meninas se declarando pro quarteto popular. O da Méi-Chan só seria mais uma.
— Só mais uma? – Méilie entoou, tristonha.
Méilie virou o rosto e nós seguimos o seu olhar. Naquela noite quente, resolvemos jantar nos jardins, muitos outros alunos tiveram a mesma ideia, inclusive o quarteto popular, que estavam sentados na grama com suas namoradas, em um piquenique noturno. Os olhos de Méilie se encheram de lágrimas ao ver Elis esfregando o rosto em Chang como um gatinho manhoso.
— Tem muitos garotos na escola, aposto que vai encontrar um bacana. — Eu disse, tentando animá-la. — Aliás, o Ítalo não se declarou pra você?
— Ele é bonito e tudo, mas…
— Está obcecada pelo Chang-Kun. — Chie falou rindo.
— Fala baixo!
— Méi-Chan, eu super acho que vocês formariam um casal kawaii! Não teve nenhum progresso no clube de teatro?
— Você vai apoiar isso? — Perguntei, encarando Chie.
— O amor não tem hora para acontecer. Ela gosta dele há tanto tempo que não consegue enxergar outros garotos, acho que ela deve tentar. Se eu fosse recomendar algo, diria para fazer uma cartinha a mão e entregar a ele, se ele corresponder, ótimo, se não, é uma ótima oportunidade para seguir em frente e deixá-lo para lá.
Gostei do conselho de Chie, talvez isso funcionasse para fazer Méilie desistir do garoto, ela, ao menos, prometeu pensar sobre o assunto. Chie tinha uma vasta experiência sobre relacionamentos, era paqueradora, toda semana a encontrávamos com um namorado novo, também era responsável por dar conselhos amorosos no jornal da escola.
— E você, Aurora-Chan? Nenhum garoto à vista? — Chie perguntou, me dando um olhar ardiloso.
— Nenhum deles me interessa. — Falei, ríspida.
A verdade é que por mais que estivesse longe, meu coração ainda pertencia à Vítor. Passei a sua foto para meu celular novo, e todas as noites eu observava sua imagem, imaginando como ele estaria, se pensava em mim ou se já me esqueceu.
Chie notou minha tristeza e perguntou qual era o problema. Apenas respondi que eu tinha um namorado humano antes de me descobrir vampira, desde então, eu não o via mais. A garota compadeceu da minha dor.
— Sinto muito, deve ser difícil esta separação.
Lhe dei um sorriso agradecido. Nós três terminamos o nosso jantar e seguimos para nossas aulas.
***
Os murmurinhos sobre o Dia dos Namorados se tornaram irritantes à medida que a semana passava. Todos os dias, depois das aulas, Chie lia os recados de amor através dos alto-falantes, e, como ela mesma havia dito, Ali, Chang, Thomas e Oliver receberam mais mensagens do que qualquer outro aluno.
Isso fez Méilie lacrimejar, Chang recebeu mais mensagens do que ela imaginava. Minha amiga se levantou da mesa e andou a passos apressados para fora da cantina. Deixei nossas bebidas na mesa e fui atrás dela, chamei-a várias vezes, mas fui ignorada, ela correu até o dormitório feminino e a segui.
Em nosso quarto, ela foi até a gaveta do seu guarda-roupa e retirou um envelope cor-de-rosa com adesivos de coração e o rasgou em pedacinhos.
— Ele jamais terminaria com a Elis pra ficar com alguém como eu. — Ela começou a chorar.
Corri para abraçá-la, disse que ela não deveria pensar desta forma, era uma menina gentil, legal, divertida e muito bonita. Se um rapaz não a queria, era porque não era bom o suficiente para ela.
— Acredite em mim, o Chang não te merece. Você merece muito mais.
A deixei chorar por alguns minutos em meus braços. O sinal tocou indicando o início da segunda aula, Méilie lutou para parar de chorar e foi ao banheiro retocar sua maquiagem. Me agachei no chão e peguei os papéis espalhados, Méilie se esforçou no trabalho. Sua caligrafia era perfeita, ela usou diferentes tons de cores de caneta e fez milhares de desenhos de corações.
Aquele menino não vale seu esforço, minha amiga.
***
Na noite de Dia dos Namorados, Chie jantou conosco, quem leu as mensagens daquela noite foi Tatsu Musta, do clube de jornalismo. O mesmo garoto que a ajudou com as sacolas na noite em que fomos beber com os veteranos.
Chie tinha um sorriso de orelha a orelha e não ficou nada contente ao ver a nossas caras emburradas.
— Parece que as duas não estão felizes com o Dia dos Namorados.
— Eu desisti do Chang. — Méilie disse, chateada. — Ele nunca vai olhar pra mim. Preciso olhar para os garotos mais compatíveis comigo.
— Méi-Chan… o problema não é você, ele tem um milhão de garotas atrás dele, é meio normal que ele não note ninguém. — Agora os olhos vermelhos de Chie dirigiram-se a mim. — E você, Aurora-Chan? Ainda pensando no garoto humano?
Eu não respondi. Aquele ano seria o nosso primeiro Dia dos Namorados juntos, nem sabia se ele esperava por mim ou teria seguido em frente com outra garota. Não posso culpá-lo, o deixei sem dar notícias.
— Olha amiga. — Chie se inclinou sobre a mesa e se aproximou de mim. — Se você quiser, eu posso te levar até ele — sussurrou. — Aprendemos recentemente a abrir portais. Vocês podem se ver!
Meu peito se encheu de emoções como fogos de artifício ao me lembrar de Vítor. Eu desejava vê-lo, mas como Chie poderia fazer isso? Eu menti para ela, disse que vinha de um grupo de humanos nômade, não de um mundo paralelo. Como eu iria negar tal pedido se era algo que eu desejava? Comecei a suar frio.
Um som estridente vindo dos alto-falantes interrompeu os meus pensamentos, todos os alunos tamparam suas orelhas sensíveis.
— Gome—Gomenasai… — A voz de Tatsu soou pelos alto-falantes. — Eu nem sei por onde começar. — Riu, nervoso. — Hoje é a noite de dia dos namorados, e… e… só um minuto…
Alguns alunos riram por ouvi-lo tão nervoso, Méilie o achou fofo e Chie escutou com atenção e curiosidade.
— Eu gostaria de fazer uma declaração a uma pessoa especial… — O garoto tentou ser mais confiante. — Tudo começou quando entrei no mesmo clube que essa pessoa, ela me ensinou tudo o que eu preciso saber sobre jornalismo. Seu entusiasmo e amor pelo clube fez crescer uma coisa dentro de mim.
— Sei bem o que cresceu. — Thomas brincou, fazendo todos rirem.
Chie mandou todo mundo calar a boca.
— E com o tempo percebi, que apenas não me ensinou sobre o clube… — Tatsu continuou sua declaração. — …, mas também sobre o que é amor. Chie Musta, estou apaixonado por você e queria saber se quer sair comigo!
Chie ficou vermelha como um pimentão e todos os alunos a olhavam com expectativa. As meninas gritavam para que ela respondesse à declaração. Os meninos assobiaram. A Musta saiu correndo para fora da cantina e em pouco tempo podíamos ouvir a sua voz saindo pelos alto-falantes.
— Hai! Eu quero sair com você! — Ela disse.
Os alunos no refeitório comemoraram com palmas. Méilie e eu fizemos o mesmo. Os alto-falantes foram desligados e todo mundo resmungou. Será que se beijaram? Onde seria o primeiro encontro? Chie nos contaria tudo quando nos encontrássemos novamente.
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