Aurora: a Mestiça

17 CAPÍTULO 15: Quando chegar em casa, eu irei assar um bolo feito com todos aqueles olhares


Tive um pesadelo horrível naquela noite. Sonhei com Kaila, aquela piriguete vinha em minha direção, andando de maneira sexy, vestida com a mesma roupa da noite em que jogou o sorvete em mim. Ela pegava meu braço, seu olhar de joia negra expressava voracidade e não demorou muito ao morder meu pulso. Gritei de dor! Duas sombras apareceram em minhas costas.

Oliver e Thomas me agarraram por trás. Tentava me soltar, mas os três juntos eram muito fortes. O loiro mordeu o pulso do meu outro braço. Eu já não tinha forças para lutar. Thomas mordeu o meu pescoço. Senti toda a minha vida esvair. Até que ouvi uma voz familiar.

— O que diabos vocês estão fazendo?

Ali interrompeu o ataque dos três Valayas. Seus olhos negros os fuzilavam. À medida que o Jad se aproximava, os Valayas recuavam. Ali estava tão perto que eu podia sentir o mesmo cheiro de baunilha daquela noite, um sorriso malicioso estampou seus lábios.

— Achou que eu iria deixar que a bebessem e ficar sem nada?

Seu rosto mudou de expressão, não era mais o meu salvador, era o meu ceifador! Ele puxou os meus cabelos e senti os seus dentes pontiagudos penetrarem no meu pescoço.

Acordei assustada, com o coração acelerado. Toda a enfermaria estava escura, não havia nenhum raio de sol impedido pelas cortinas pesadas e escuras, também não se ouvia barulho algum, o garoto que eu ouvi tossindo na noite anterior dormia profundamente.

Sentia-me sem ar. Corri até a janela e abri um pouco as cortinas, apenas o suficiente para que eu enxergasse o exterior. O céu já não estava mais escuro, tinham tons de amarelo e rosa, os raios do sol ainda não eram fortes, o suficiente, para iluminar todo o ambiente.

Fui até a cama do menino que dormia na maca, cutuquei seu braço e ele não me deu respostas. Com vergonha, me abaixei até seu ouvido e gritei, ele nem se mexeu. Tinha aprendido nas aulas de Biologia Vampírica que os vampiros sentiam um forte sono durante o dia e dormiam profundamente até o anoitecer, o que significava que eu estava segura até lá.

Pensei de verdade em fugir, ir para algum lugar distante ou ficar na sala da diretora e esperar que ela me mandasse de volta para casa, já não queria mais ficar aqui. Abri as portas da enfermaria e saí. Os corredores ainda eram iluminados com as luzes fracas e todas as janelas foram cobertas.

Precisava de ar fresco, sentir o vento, não suportava mais ficar trancafiada. Comecei a correr. Meus pés descalços sentiam a textura do chão frio da escola, enquanto procurava a saída. Para a minha sorte, a porta da frente estava aberta e eu pude sentir a brisa fresca da manhã sobre a minha pele. Finalmente podia ver a luz do dia, ouvir os pássaros cantando logo cedo e ver borboletas voando pelas flores.

Pude sentir minha respiração normalizar e já não precisava mais correr. Caminhei sem rumo, apenas apreciando a vista. Era tudo tão diferente quando claro e tão cheio de vida! Infelizmente minha caminhada solitária foi interrompida por alguém me chamando com um “Ei!”. Quem diabos poderia estar acordado durante o dia? Seria algum humano?

Ao virar, me deparei com Ali, ele usava a mesma roupa da última aula e segurava um guarda-chuva. Como podia estar acordado cedo de manhã? Era impossível! Ele, nem ao menos, parecia sonolento.

— O que está fazendo aqui? Não devia estar em sono profundo?

— Você é tão curiosa! — A malícia brotou em seus lábios. — Se quer saber, eu estava com Kaila e estou voltando pro meu quarto agora.

Fiquei vermelha ao me lembrar da noite em que me salvou. Isso o fez sorrir mais, mostrando seus dentes pontiagudos. Ele se aproximou de mim, e essa sua abrupta aproximação me lembrou do meu sonho. O sorriso malicioso, os seus dentes brilhantes e afiados, a sensação deles perfurando o meu pescoço… fiquei assustada e dei passos para trás, ele podia me atacar agora, estávamos sozinhos e nenhum outro vampiro iria acordar para detê-lo. Percebendo meu medo, ele parou de se aproximar.

— A Kaila me contou que você não conheceu seus pais, foi encontrada por um bando de humanos. Agora entendo sua dificuldade nas aulas. Bom, se quiser, depois das aulas posso te ajudar a treinar as habilidades básicas.

Ele disse aquilo de maneira séria, não parecia estar brincando.

— Desculpa, mas não confio em você.

Ainda pensava no meu sonho. Ele podia muito bem estar mentindo, se passando por bom moço, só esperando que eu baixasse minha guarda e me atacasse. Ali levantou as sobrancelhas.

— Depois daquela noite, você ainda não confia em mim? Thik, acho que no seu lugar, eu também não confiaria. — Ele suspirou, frustrado. — Melhor você voltar pro seu quarto e descansar, vou fazer o mesmo agora.

Ele deu um tapinha de leve no meu ombro e caminhou rumo ao dormitório masculino. Os raios de sol já alcançavam o muro da escola e ele apressou o passo sem correr, olhando para os lados, admirando todo o amanhecer. Que garoto estranho! Como ele poderia estar acordado e tão cheio de energia logo tão cedo de manhã?

Sentia-me cansada e decidi voltar para a enfermaria, sem conseguir pensar muito. Deitei na maca e não tive mais nenhum sonho durante todo o dia.

***

Apesar de ter dormido bastante, acordei me sentindo cansada e, para piorar a situação, todos os alunos me olhavam mais descaradamente agora. Estava de tão mau-humor que perguntava se eles perderam algo na minha cara. Méilie tentava me acalmar.

Não prestei muita atenção na aula teórica daquela noite. Adormeci durante a metade dela e, quando minha amiga e eu fomos nos sentar no lugar de sempre no refeitório, tivemos a surpresa de Chie sentando-se em nossa mesa.

Konbanwa, meninas! — Ela nos cumprimentou, animada.

Apenas revirei os olhos, não se podia confiar em quem acordava animado.

— Parece que Aurora-Chan se tornou mais popular agora, todo mundo está comentando de você! — disse Chie. — Todos já sabem que você é uma mestiça e alguns tão dizendo que você foi criada por animais.

— Que rudes! — exclamou Méilie.

Não queria retornar a essa conversa e pedi que Chie não abordasse tal assunto no nosso jantar. Para minha surpresa, a garota concordou. Méilie começou a falar dos empregos de meio-período na escola. Chie comentou que não iria se candidatar a nenhum, ser líder do clube de jornalismo já era bem cansativo.

— Estou pensando em conseguir um emprego em alguma loja de roupas ou algo que tenha a ver com moda, e você, Aurora?

— Sofia me disse que o Ruan precisava de alguém pra ajudar com a sorveteria, estou pensando em me candidatar à vaga.

Méilie comemorou, acreditava que dois mestiços juntos nos fariam se sentir menos solitários. Forcei um sorriso sem saber se era mesmo uma boa ideia, mas não queria deixar Méilie de mau humor também.

— Aurora?

Ouvi uma voz feminina me chamar, virei e encontrei Kaila. Ela estava de braços cruzados e de nariz empinado.

— Podemos conversar? — Ela pediu.

Olhei para as meninas em dúvida se deveria ir com ela ou não. As duas mexeram a cabeça, como se dissessem que eu devia acompanhá-la. Suspirei, me levantei e a segui. Todos os alunos no refeitório viram a cena e começaram a cochichar. Fomos para o corredor, onde haviam alguns estudantes que Kaila mandou irem embora, deixando apenas nós duas agora.

— Diga! — Eu disse fazendo a mesma pose que ela, tentando soar tão esnobe quanto.

— Você não sabe mesmo quem são os seus pais? Toda a escola já te conhece e sabe o que você é, logo isso vai chegar aos ouvidos do meu pai, e ele não vai ser nada bonzinho na punição deles ou mesmo na sua.

— Qual o seu problema, garota? O que seu pai tem a ver com os meus pais? Eu nunca os conheci, não sei quem são, se você descobrir sobre eles adoraria saber!

Ela se aproximou de mim, me colocando contra a parede. A lembrança do meu sonho veio a minha mente e o medo tomou conta de mim, minhas pernas fraquejaram.

— Se me contar quem são os seus pais, eu posso dar um jeito de amenizar a fúria do meu pai, mas se insistir em dizer que não os conhece, não vou poder fazer nada.

Aqueles olhos negros e o sorriso de gente esnobe só me deu nojo. Eu a empurrei com força, mesmo com medo. Ela me olhou com raiva, mas não fez nada. Disse que tinha nojo de mim antes de ir embora. Garota doida!

Ao voltar para o refeitório pude perceber os olhares de todos, parece que alguns deles escutaram a conversa e já murmuravam uns para os outros, como um enorme telefone sem fio.

Fui o assunto mais comentado daquela noite. Os Valayas riam de mim e diziam que eu não devia existir, alguns outros alunos me olhavam com pena. Que raios! Eu não pedi nada daquilo, não queria ser atormentada e também não queria ser vista como uma coitada. Acho que a história da diretora foi a maior furada. Até mesmo Méilie estava com dó de mim.

Três anos, três anos, eu tinha que colocar isso na minha cabeça, só seriam três anos aturando esses insuportáveis e eu voltaria a ter minha vida perfeita de antes. Nunca mais eu reclamarei da minha vida quando voltar para casa, aqui é muito pior!