Aurora: a Mestiça
18 CAPÍTULO 16: Bem-vindo ao grupo de pessoas
Méilie sugeriu de nos inscrevermos nos empregos de meio-período após as aulas. Eu tinha que focar nisso, estava cansada de não ter um celular. O meu antigo estava bem escondido na mala, desligado, não queria que sua bateria acabasse e ninguém iria me ligar, de qualquer forma.
Fomos para a sorveteria de Ruan, ela se despediu de mim com beijinhos no rosto e disse que iria tentar a sorte numa loja de roupas. Mostrei o papel de indicação, que a aquele que a diretora me deu. Ruan explicou que queria alguém para a limpeza, nada muito difícil e eu concordei. Ele fez algumas perguntas e consegui respondê-las sem me tremer toda.
Ruan sorriu ao me contar a notícia que o emprego seria meu. — Tão rápido? Não teria aquela coisa de ligar daqui alguns dias e eu nunca receberia retorno? Olha, até que esse lugar tem suas vantagens!
— Eu moro aqui há cinquenta anos e nunca conheci um mestiço, posso me considerar sortudo. — Ele disse. — Será ótimo dois mestiços trabalhando juntos!
Cinquenta anos? Ele não tinha cara de velho, não parecia ter mais que vinte e cinco anos. Então me lembrei da sua foto estampada naquele livro, no livro sobre os mestiços tinha a data de nascimento e morte daquelas pessoas e parando para pensar agora… Aquele homem com roupas coreanas morreu com cerca de cinquenta e poucos anos, a mulher indiana tinha mais de mil anos… Céus! Como não percebi isso antes? De alguma maneira isso era meio assustador.
Ao voltar para meu quarto, fiquei pensando sobre essas diferenças de idade. Imaginei que quando os três anos acabassem e eu retornasse para casa, veria minha mãe e amigos envelhecerem e eu continuaria jovem como Ruan, para sempre. Se por algum motivo o destino decidisse me unir com Vítor e nós nos casássemos, ele seria um velhinho de cabelos brancos enquanto eu continuaria como uma jovem adulta. Isso doeu em meu peito. Era tão surreal.
De alguma forma, pensar que eu veria meus amigos envelhecerem; que veria os netos dos meus amigos envelhecerem e eu continuaria viva e jovem, me fez parecer que eu não pertencia ao mundo que nasci. Mas, se nem em Plenluno eu me sentia em casa… onde seria o meu verdadeiro lar?
***
Era o dia das audições do clube de teatro. Méilie parecia confiante e já sonhava ser a mocinha da peça ao lado de Chang, como um príncipe encantado pronto para resgatá-la. Fingir achar graça para disfarçar o meu nervosismo. Ao chegarmos à entrada, avistamos uma enorme fila indiana, milhares de meninas se agitaram animadamente, descrevendo o mesmo sonho de Méilie. Queria sair dali e procurar outro clube, mas infelizmente, já era tarde demais.
A bancada era formada por três estudantes veteranos que iriam decidir se entraríamos ou não, um deles era um menino cujo emblema em seu uniforme era de uma cruz, ou seja, um Genesi. Ele era negro com os cabelos castanhos encaracolados e olhos castanhos.
O segundo membro, era uma menina de cabelos rosas presos num coque, seus olhos eram azuis muito claros. O emblema do seu uniforme era três espirais, não sabia dizer a qual clã ela pertencia.
O terceiro e último membro era uma garota negra com os cabelos ondulados e olhos rosados, era uma Semitochi.
Nós entramos na sala de teatro e nos sentamos. Assim que todos estiveram em seus lugares, os veteranos começaram a nos chamar pelo nome.
Ali foi o primeiro a se apresentar, os três membros entregaram-lhe um pequeno roteiro. Ele levou alguns minutos para ler e subiu no palco ainda com o papel em mãos, pigarreou antes de começar a interpretar. Ali se transformou em outra pessoa, não possuía mais o sorriso brincalhão em seu rosto, seu olhar era intenso e focado nos veteranos. Não aparentava nervosismo, seus movimentos eram precisamente calculados, fluídos e naturais. Era como se ele já interpretasse a vida inteira. Ao final de sua apresentação, o garoto foi aplaudido por todos, tive que fazer o mesmo por concordar que ele foi muito bem.
Um menino muito bonito se apresentou logo depois, as garotas também ficaram encantadas com ele. Infelizmente o rapaz ficou bem nervoso e gaguejou nas falas, quebrando todo o encanto; não foi aprovado. Então, foi a minha vez.
Estava um pouco nervosa quando me entregaram o roteiro, achei que conseguiria interpretar. Respirei fundo, por mais que não quisesse estar ali, algo me dizia para dar o meu melhor. Coloquei todas as emoções que senti durante aquela tensa semana na interpretação, a vergonha por ter atacado um dos meus melhores amigos, o choque ao descobrir a verdade sobre meu pai, a raiva pelos olhares de pena, a frustração por ser péssima, no que antes eu era boa e o vazio no peito, por não saber a que mundo eu pertencia. Encerrei a apresentação sem ar, o auditório permaneceu em silêncio e os veteranos me encararam com uma expressão neutra.
Os três conversaram entre si enquanto eu recuperava o fôlego. A única que não gostou da minha performance foi a garota Semitochi. Os outros dois aprovaram a minha entrada e fiquei feliz por ter conseguido. Corri para abraçar Méilie. Eu nem queria entrar, mas saber que eu consegui alguma coisa nesse maldito lugar me deixava feliz.
Outros cinco alunos se apresentaram antes de Chang subir no palco e também mostrar que tinha talento para a arte de interpretação. Depois de esperar um pouco mais, vimos que era a vez de Kaila. Desde quando ela estava ali? A garota atuou muito bem, com certeza teria o papel principal. Por fim, era a vez de Méilie, que atuou com perfeição.
No final, entraram seis meninas e quatro meninos no clube. Os veteranos vieram até nós para se apresentarem.
O garoto Genesi se chamava Ítalo, estava no terceiro ano. A garota de cabelos rosa se chamava Ellen Ukidan, eu nunca tinha ouvido falar do seu clã, também era do terceiro ano. Por último, a Semitochi se apresentou como Mirela do segundo ano, ela parecia ser a líder do grupo.
— Todos vocês foram muito bem — disse Mirela para nós. — Para quem ainda não sabe, todos os anos, ao fim do primeiro semestre, a escola prepara uma atividade final para os clubes, que valem como uma nota extra na prova final, o que pode salvar a sua vida.
Os alunos do primeiro ano cochicharam entre si, Mirela sorriu ao vê-los empolgados, mas logo voltou a chamar atenção para seu discurso.
— Iremos apresentar uma peça na última semana antes das férias, por isso não temos tempo a perder. Darei três opções de peças para escolherem.
Ellen e Ítalo começaram a distribuir folhetos sobre as peças para nós.
A primeira opção se chamava O Vampiro e A Donzela, contava a história de um humano que tentou invadir a mansão de um vampiro e foi trancafiado para servi-lo como seu doador, a filha dele decide se entregar pela liberdade do pai, o vampiro e a humana se apaixonam no final. Ao ler isso, pensei que já tinha lido sobre algo parecido em algum lugar.
A segunda história era Sonhos de Uma Ilusão, o pai de uma jovem decide arrumar-lhe um casamento, mas ela já está apaixonada por outro e os dois decidem fugir pela floresta, o noivo da moça e uma outra garota decidem procurar por eles e acabam presos numa ilusão de um Ukidan que estava entediado. Esse título me era familiar e parece que a habilidade dos Ukidans era de criar ilusões.
A terceira e última história se chamava O Lago da Garça. Conta a história de uma órfã Pasu que gostava de se transformar em garça e passou a morar numa floresta, dois homens se apaixonam por ela e brigam pelo seu amor, no fim, a jovem decide tirar a própria vida. De novo, acho que já ouvi algo assim.
— A primeira história é um romance com final feliz, a segunda é uma comédia e a terceira uma tragédia. Três estilos diferentes de peças que podemos explorar, qual delas preferem atuar? — Perguntou Mirela.
As meninas votaram na primeira história e o motivo maior, além do romance, era que haveria um beijo, pois era importante para a trama, todas queriam beijar Ali ou Chang. Kaila e eu fomos as únicas a votar em O Lago da Garça, me pareceu a mais diferente das três e eu gostava de um bom drama, a parte ruim foi a de ter que concordar com essa piriguete. Os meninos votaram na segunda história por ser uma comédia. Chang foi o único dos garotos a votar em O vampiro e A Donzela, ouvi um menino chamá-lo de “do contra”.
— Então está decidido! — Mirela anunciou. — O Vampiro e a Donzela teve mais votos, vamos fazê-la.
— Espera! — Kaila chamou. — E, se eu mudar o meu voto para a segunda peça?
— Algum problema em fazer a primeira?
— Ya, há. Ela foi escrita por um humano e não vou interpretar peça alguma escrita por um humano.
Os alunos se entreolharam constrangidos, alguns abaixaram a cabeça.
— Bom, a maioria votou nesta peça e se tem problemas com isso, pode se retirar do clube. — Mirela disse apontando para a porta.
— Great! Eu não queria mesmo atuar numa peça dirigida por uma olhos-loucos.
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