Aurora: a Mestiça

16 CAPÍTULO 14: Que diabos é que eu estou fazendo aqui?


Méilie esbarrou sem querer em Chang que ia assinar seu nome. O garoto quase caiu no chão.

— Está tudo bem? — Ele perguntou a ela, pegando-a com delicadeza pelos ombros.

Eu juro! Que se isso fosse um desenho animado, os olhos dela estariam em formato de dois corações. Ela se recompôs e agradeceu por ele a ter segurado para não cair. O menino deu um sorriso de leve e voltou a escrever seu nome.

— Eu adoro teatro! — Méilie não perdeu tempo em dizer.

Cruzei os braços e a encarei. É sério? Desde quando isso te interessa?

— Confesso que não vejo muito teatro. — Chang confessou, envergonhado. — Mas parece ser bem divertido.

Ao entregar a caneta à Méilie, ela tocou em seus dedos de propósito enquanto sorria. O rosto do garoto adquiriu um tom rosado antes de se despedir da gente e sair do meio da multidão junto dos amigos. Méilie deu um enorme sorriso e escreveu seu nome no clube de teatro e disse que eu devia entrar junto com ela — Opa, espera aí!

— Você viu que sou uma péssima mentirosa — murmurei — Eu já chamo muita atenção por aí, não é melhor que eu faça algo mais discreto?

Souple! Eu não quero fazer sozinha! — Ela fez cara de cãozinho abandonado.

Méilie me convenceu quando falou que talvez pudéssemos fazer papel de uma árvore no cenário e daí não chamaríamos tanta atenção. Eu não queria ficar sozinha em um clube e, pelo menos, nesse não haviam os idiotas do Oliver e Thomas. Assinei meu nome.

Saímos do meio da multidão. A maioria das meninas já havia se dispersado agora que os meninos saíram do caminho. Encontramos com Chie assim que nos afastamos dos painéis, ela veio em minha direção com um sorriso. Já fechei a cara, não acredito que ela iria insistir na entrevista outra vez.

Konbanwa! — Chie nos cumprimentou. — Já escolheu o clube?

— Graças a Méilie, estou no clube de teatro.

Ela nos olhou com curiosidade e apresentei minha colega de quarto a ela.

— Confesso que, quando eu soube que o príncipe e seus amigos se inscreveram em teatro e dança, fiquei tentada. Uma pena que já sou líder do clube de jornalismo. — Chie riu. — O Thomas é muito kawaii!

Non! — Gritou Méilie surpreendendo a nós duas. — Thomas e Oliver não prestam!

Majide? Por quê? — Chie arregalou seus olhos em choque.

Eu olhei bem para Méilie. As pessoas já me olhavam de maneira estranha por eu ser o que sou, se souberem sobre o ataque de Oliver e Thomas, não sei como aqueles alunos iriam reagir. Confesso que no fundo eu tinha medo. Sentia que alguns alunos ainda caminhavam com os olhos vidrados em mim. Será que planejavam me pegar em algum momento?

— Eles podem ser bonitos, mas são podres por dentro — disse Méilie sem revelar detalhes.

Chie demonstrou curiosidade, porém não perguntou mais nada. Ela se virou para mim e perguntou se eu havia pensado sobre a entrevista, se iria topar, respondi com um não bem alto que pareceu ofendê-la. A garota se despediu tristonha, mas ainda convencida de que eu iria aceitar em algum momento.

Os olhinhos de Méilie brilharam ao saber que fui convidada para ser entrevistada no jornal da escola. Logo cortei seus devaneios. Ela era uma garota romântica demais, que sonhava acordada e achava que tudo que acontecia na vida era lindo e maravilhoso. Nem pensar que eu aceitaria tal proposta. Os alunos iriam me achar ainda mais estranha. E tudo o que eu queria era passar despercebida durante os três anos.

O sinal tocou, indicando o final do intervalo.

Fomos vestir nosso uniforme de educação física no vestuário. Era composto por uma camisa branca de manga curta, com o bordado do símbolo do clã no peito esquerdo, bermuda preta, tênis esportivos e meias curtas. Não era permitido o uso de acessórios como pulseiras, brincos e colares. E, aqueles que tinham os cabelos longos, eram obrigados a prendê-los.

Todos os alunos do primeiro ano já se encontravam na quadra. O professor nos chamou para nos reunirmos à sua frente. Ele também se vestia de maneira esportiva e disse que queria ver como estavam as nossas habilidades. Mostrou vários halteres colocados no chão, cada um deles tinha um peso diferente. Começava por um quilo, indo para dez, vinte, até quinhentos quilos — Meu Deus!

Observei os outros alunos. Havia tantas meninas de cintura fina e meninos magricelos, que eu duvidava que eles fossem capazes de levantar tanto peso. Nem mesmo o quarteto popular, que tinham os corpos mais definidos, seria capaz de tal façanha.

O professor fez uma pequena demonstração. O encarei em dúvida. Ele não era um homem musculoso, não acho que conseguiria levantar os pesos facilmente. Meu queixo quase caiu quando o vi levantar o peso de quinhentos quilos sem nenhuma dificuldade. O homem nem suava!

— Quem quer ser o primeiro? — perguntou Radesh, colocando o haltere de volta no chão.

Oliver caminhou para a frente, todo orgulhoso, mostrando os seus braços fortes para as meninas que o olhavam com admiração. Méilie e eu fizemos cara de nojinho e rimos discretamente.

O garoto também levantou o maior peso sem dificuldades, assim como os outros três do quarteto popular. As meninas os aplaudiram e babaram. Eu as segui nos aplausos por educação, enquanto cutucava Méilie com o cotovelo. Não queria ela com os olhos vidrados nos braços musculosos dos garotos.

Depois deles, Kaila se voluntariou. Essa eu queria ver! A loira pegou o haltere de quinhentos quilos e o levantou sem reclamar. O quê?! Como?! Foi a vez dos meninos comemorarem e aplaudirem. Tive que aplaudir junto com eles, porque até eu estava impressionada.

Muitos voluntários animados surgiram. Não parecia em nada com as aulas da professora Hilary, onde todos tinham medo de serem chamados para a frente.

Com o tempo, vimos que nem todos tinham a capacidade de levantar o haltere mais pesado. A maioria conseguia levantar até o de trezentos quilos. Alguns alunos riam daqueles que eram mais fracos. O professor os repreendia.

— Não tem problema em não conseguir levantar o mais pesado de primeira, é por isso que estão todos aqui. Para aprender.

Méilie conseguiu levantar o peso de duzentos e cinquenta. Nada mal! Eu a elogiei, e ela torceu por mim quando chegou a minha vez.

Estava nervosa. Eu era a melhor aluna de Educação Física na escola. Mas não lembro de termos que levantar halteres tão pesados. Esperava ficar na média. Respirei fundo e tentei levantar o de duzentos e cinquenta, sem sucesso.

Ouvi risadinhas vindo do fundo, torci para que Oliver não estivesse me filmando novamente. Comecei a diminuir o peso e quando cheguei nos cinquenta quilos, Radesh já me olhou preocupado.

— Você está se sentindo mal? Como anda sua saúde?

Os risos se tornaram mais altos. O professor tentava controlar a turma em vão.

— É que ela é uma mestiça criada por lobos, não sabe nada de vampiros! — disse um dos alunos em meio às risadas.

Os alunos riram ainda mais. Meus olhos se encheram de lágrimas. Ah não! Eu não queria chorar na frente de todo mundo. Eu odiava isso! Odiava ser vista como um bichinho exótico digno de pena. Eu nem devia estar aqui.

Saí correndo por uma direção aleatória. Ouvi Méilie e o professor me chamarem, mas os ignorei completamente. Corri como nunca antes e parei apenas quando fiquei cansada. Olhei para os lados e não havia ninguém. Minha única companhia era uma coruja empoleirada em um dos galhos de uma grande árvore.

Encostei minhas costas no tronco e me permiti chorar. Não pedi pra estar ali, queria voltar para casa, queria ver a minha mãe e meus amigos. Enterrei minha cabeça entre meus joelhos para abafar o meu choro.

Não me importava de estar sozinha, se alguém quisesse me matar, que o fizesse! Eu só queria acordar deste maldito pesadelo.

Senti alguma coisa tocar o meu ombro e dei um pulo, era Méilie. Sentou-se ao meu lado sem fazer perguntas. Tentei me segurar, mas não consegui e acabei me jogando em seus braços para chorar.

— Tudo vai ficar bem, as coisas vão melhorar — disse ela enquanto acariciava meus cabelos.

Depois de chorar bastante. Méilie enxugou as minhas lágrimas com os dedos.

— É melhor irmos para a enfermaria ou vamos ser punidas por faltar aula.

Ela me ajudou a levantar e caminhamos até a ala médica. Seus dedos entrelaçados no meu como se dissesse que estava comigo em qualquer situação.

Não imaginava que os vampiros pudessem precisar de médicos já que eles tinham uma cura super rápida, pelo visto, me enganei. Ao entrarmos na enfermaria, vi um menino tossindo em uma maca, acho que eles podem ficar doentes, sim. Uma enfermeira nos abordou.

— Ela passou mal durante uma aula prática e a trouxe aqui. — Méilie mentiu com tanta perfeição que eu não duvidaria que ela fosse bem no clube de teatro.

A mulher me olhou de cima a baixo, depois me fez sentar numa cadeira. Seus dedos finos deslizaram no ar em minha direção, ela me olhou atentamente e deu seu diagnóstico, de imediato, como se tivesse me escaneado com o olhar.

— Estresse — concluiu.

A enfermeira digitou alguma coisa no tablet que carregava e saiu, voltando dois minutos depois com um comprido e água.

— Com esse remédio e um pouco de repouso, você logo vai melhorar.

Tomei o comprimido e me deitei na maca. A enfermeira avisou que em meia-hora me traria sangue para beber e se retirou, fechando as cortinas.

Méilie continuou ao meu lado, explicou que os enfermeiros ali eram todos do clã Genesi, que tem habilidade de curar e criar remédios. O brasão dos alunos daquele clã era de uma cruz. Agradeci a sua explicação, mas minha cabeça dilatava com qualquer menção de algo que parecesse difícil, só queria descansar. A noite chegava ao fim e pedi para que Méilie voltasse para seu quarto.

— Vai ficar bem sozinha? — Ela me perguntou, com seus olhinhos preocupados e fazendo biquinho.

— Não precisa se preocupar, vou ficar bem. Daqui a pouco, irei dormir. — Disse a ela, forçando um sorriso.

Ela me deu um forte abraço e se despediu, de maneira hesitante.