Aurora: a Mestiça

8 CAPÍTULO 7: Este é o Meu Primeiro Esforço Imperfeito


Quando Méilia terminou o relato entusiasmado sobre sua série, seu olhar alterou-se para uma boba apaixonada. Virei-me para ver para quem ela olhava. Os meninos populares estavam juntos numa mesa, eles conversavam e riam enquanto bebiam. Ouvi Méilie suspirar. Oh céus! Ela estava mesmo apaixonada por um daqueles idiotas.

Tentei fazê-la desviar atenção perguntando novamente da série, ela falou que podia me mostrar o primeiro episódio quando voltássemos pro quarto depois da última aula, e eu concordei. Méilie ficou triste por não termos a próxima aula juntas. Tive que vasculhar na minha mochila e pegar os horários. Seria mais uma aula de História, só que desta vez voltada para o clã Valaya. Méilie disse que a dela seria sobre os Semitochis, parece que todos os alunos tinham aulas sobre os seus respectivos clãs.

A atenção dela voltou para os garotos ao ver três meninas se aproximando do grupo. Duas loiras Valayas sentaram-se ao lado de Oliver e do rapaz de cabelos castanhos, uma garota negra que tinha o símbolo de uma cruz em seu blazer sentou-se ao lado de Chang. Assim que a menina sentou-se ao seu lado, ele deu-lhe um beijo delicado na bochecha. Isso fez Méilie desviar o olhar. Era dele, então, que ela gostava?! Sinceramente, eu não sabia o que fazer. Sempre detestei o tipo de garotos que eles eram, cercado pelas garotas só por serem bonitos e não terem nenhum atrativo a mais. Qual é?! Um deles falou que morcego era um pássaro! Quão burro os outros não poderiam ser?

O sinal tocou e precisávamos nos separar. Eu ainda não sabia me localizar muito bem, então segui os alunos que tinham o mesmo brasão que o meu. Nenhum deles prestava atenção em mim e era solitário entrar na sala sem conhecer alguém. Sentia falta de ficar nos corredores conversando com meus amigos enquanto o professor não chegava.

Sentei no meio, como sempre, e um garoto sentou-se ao meu lado. Ele tinha os cabelos negros com uma franja cobrindo um de seus olhos azuis, sua gravata estava frouxa e ele usava munhequeira nas mãos. Achei que a moda dos emos havia acabado há muitos anos, pelo visto, por aqui eles ainda continuavam ativos. Tentei puxar assunto com o garoto, odiava estar sozinha e quanto mais amigos, melhor!

O garoto me olhou de cima a baixo quando o chamei, não sabia bem como interpretar o seu olhar. Ah, por favor! Podemos falar de música emo, eu gosto de algumas, como My Chemical Romance ou Panic At The Disco.

— Sou Aurora — insisti.

Ele cerrou seus olhos antes de se apresentar como Kaio. Comecei a perguntar a ele que tipo de música gostava e quais eram seus grupos favoritos. Música era o meu assunto! Por mais que eu não soubesse tocar nada, era apaixonada pelos sons de um bom rock n’ roll.

O garoto falou de maneira tímida e desconfiada os nomes de algumas bandas que eu nunca ouvi falar.

— Você não conhece nenhuma? — Ele arqueou as sobrancelhas e soltou uma risadinha. — Bem que você tinha cara de poser.

Meu sangue ferveu quando ele disse aquilo! Tinha me esquecido que eu não sou daquele mundo, as bandas que ouvia jamais fizeram uma turnê naquele lugar.

Antes que eu pudesse me enfurecer ainda mais, uma mulher entrou na sala, a qual imaginei ser a professora. Era estranha a roupa que vestia. Usava meia-calça num tom que deixava sua pele bronzeada, andava num salto quinze, sua saia ia até seus joelhos, mas era bem colada ao corpo e a sua camisa amarela tinha um decote. Senti-me constrangida ao vê-la assim.

Good evening, classe. — Ela disse, caminhando até a frente da sala. Apesar da roupa provocante, sua voz estava longe de ser sexy. — Eu me chamo Hilary Valaya e hoje nós teremos História do Clã Valaya. Vocês devem estar se perguntando pra quê duas aulas de história se vamos aprender sobre isso na aula anterior, não é mesmo? Saiba que aqui aprenderão a história do nosso país e líder de forma mais profunda, para que valorizem suas origens.

Ela ligou o computador enquanto os meninos comentavam o quanto a professora era hot. Inclusive ouvi comentários obscenos às minhas costas e notei que eram os dois meninos Valayas do grupo dos populares. Oh céus!

— Se vocês vão comentar sobre minhas coxas, sugiro que se retirem da aula. — A professora comentou apontando a caneta digital para Oliver e seu amigo.

Segurei um riso de satisfação e os dois meninos ficaram em silêncio durante toda a aula. Ela era bem mais rigorosa do que o professor anterior, chamou atenção de duas meninas que trocavam bilhetes. Seus sentidos eram bem alertas e ela podia ouvir qualquer sussurro.

Na aula, ela falou sobre a formação do clã Valaya. O nome país se chamava Daiyra e a capital era A Cidade que Nunca Dorme, um nome excêntrico, eu diria. O líder do clã se chamava Sebastian e o clã Valaya é conhecido por ter o maior e melhor teatro do mundo e que são apaixonados por esportes como futebol, beisebol e basquete. Também são responsáveis pelos maiores entretenimentos televisivos, como filmes e séries. Aprendi um pouco sobre a cultura do país e me sentia mais orientada ao fazer minhas leituras sozinhas.

***

Na noite seguinte, Méilie e eu tivemos que nos separar logo cedo. Caminhei até a sala, era a mesma da última aula da noite anterior. Os alunos continuavam agitados como de costume e ao entrar, vi o menino emo sentado no mesmo lugar. Eu não iria mudar de canto só porque ele estava ali. Sentei-me ao seu lado novamente e ele me respondeu com uma cara feia.

Peguei os meus horários para conferi-los mais uma vez. Hoje teria apenas uma única aula durante todo o horário escolar e a matéria era de Habilidades Valaya — isso não soava bem para mim.

A professora não demorou a chegar, era a mesma mulher da aula anterior, e ao contrário do professor de História Geral, ela era bem pontual. Todos os alunos correram para os seus lugares quando ela chegou. Hilary esperou que todos estivessem acomodados para desejar um boa noite.

— Hoje teremos a nossa primeira aula prática — anunciou ela.

Após ela dizer aquilo, a maioria dos alunos se agitou. Os garotos populares trocaram high fives animados, enquanto o garoto emo do meu lado resmungou, colocou seus braços sobre a mesa e apoiou sua cabeça neles.

— Antes de começarmos o primeiro exercício, gostaria de saber se alguém aqui ainda não sabe invocar o círculo?

De maneira instintiva eu levantei a mão. Mesmo que tenham se passado duas noites naquele mundo, parecendo um longo sonho muito louco, não sabia nada sobre poderes mágicos e nem mesmo achava que os tinha. Mas se tudo não passava de um devaneio, por que não tentar? E, se fosse verdade? Seria muito maneiro ter habilidades mágicas! E eu só teria que aprender e sobreviver por três anos.

— Mais alguém? — Os olhos avelãs da professora caminharam por toda a sala.

Nesse momento, eu percebi que eu fui a única a levantar a mão. Meu rosto ficou extremamente vermelho. Todos os alunos olhavam para mim, alguns riam baixinho. A professora suspirou e pediu que eu fosse à frente da sala, estava relutante em ir, mas não podia dizer não aquele olhar penetrante de Hilary. Caminhei com a cabeça baixa ouvindo os meninos rindo atrás de mim.

— Certeza que não há mais ninguém que não saiba? — Ela deu uma última olhada antes de continuar. — Great! Qual seu nome, garota?

— É… Aurora — respondi baixinho.

— Aurora, terá uma aula particular durante o primeiro horário. — Ela falou tão alto que tinha vontade de me enfiar num buraco, não precisava gritar meu nome!

Ao dizer aquilo, todos os alunos começaram a se levantar para conversar uns com os outros. Eu era a única da turma que não sabia usar os “meus poderes” e juro ter visto Oliver com um celular me filmando.

— Quem disse que vocês podiam se levantar? A aula não está vaga! Vocês vão ler o capítulo um para a aula após o intervalo.

Os alunos reclamaram e voltaram aos seus lugares de cabeça baixa, todos abriram seus livros, alguns fingiam ler, outros falavam baixinho uns com os outros.

Hilary chamou a minha atenção e pediu que eu me concentrasse ao invocar o círculo. Primeiro ela fez uma demonstração, estalou os dedos e, de repente, um círculo dourado surgiu ao seu redor no chão, era tão cintilante quanto a luz do dia. Uau! Incrível! Ela queria que eu fizesse o mesmo. Por mais que estalasse os meus dedos, nada acontecia. Dava vontade de ir até a sala da diretora e dizer: — Eu falei que era humana!

A professora não desistiu de mim e continuou me guiando, dizendo que eu não estava me esforçando, que precisava me concentrar. Ao ver sua perseverança decidi levar as coisas a sério agora, quanto mais cedo eu fizesse aquilo, menor seria o pesadelo.

Fechei os olhos, seguindo suas orientações. Procurei no meio da escuridão por algum raio de luz, até avistar um brilho dourado, não era uma visão comum, eu podia sentir! Sentir o calor e o poder que aquela pequena luz brilhante emanava. Estava pronta! Estalei os dedos e o círculo dourado apareceu debaixo dos meus pés, e desapareceu após alguns segundos. Mas não acabou com meu choque, eu tinha feito mesmo aquilo! Achei que seria impossível!