Aurora: a Mestiça
37 CAPÍTULO 36: Você tem que atravessar a linha
Na noite seguinte demos nosso primeiro passeio pela cidade, conhecemos o comercio local e como as ruas eram organizadas, os professores nos contaram que os nomes das ruas vinham de figuras históricas importantes, alguns ainda vivos. Méilie se maravilhou com as lojas de produtos relacionados a Idols. Méilie era apaixonada pelos cantores e atores.
O passeio nos levou a lojas de chá, onde pudermos comprar alguns sachês para levarmos para casa, além de artigos de decoração. No segundo dia de passeio, saímos da era moderna para o clássico, visitamos um museu que abordava a história do país, a imperatriz Naomi não foi a primeira escolha do clã, mas a imperatriz anterior foi morta durante a guerra, sem deixar descendentes. Ouvi os meninos murmurarem sobre como história era muito chato e preferiram estar no hotel do que no museu.
Então, chegamos no terceiro dia do passeio, o que deixou Méilie mais empolgada, se pudesse, ela teria se arrumado para uma festa, mas infelizmente foi obrigado o uso do uniforme. Era o dia de irmos ver A Grande Árvore Mágica do Amor, que descobri ser uma atração turística bem popular. Filmes, canções e novelas foram feitos usando a árvore e sua magia como temática. O lugar era considerado mágico, onde muitos casais se formavam.
Não pude discordar de como o lugar parecia mesmo mágico, era uma enorme cerejeira que cobria um bairro inteirinho! Suas folhas cor-de-rosa reluziam a luz da lua e em seus galhos, abrigavam milhares de fios vermelhos. Os alunos se maravilharam ao olhar para cima, os fios enrolados pareciam nos levar a direções diferentes do inimaginável, as folhas de cerejeira caiam sobre nossas cabeças.
Suspiros de surpresa foram expressos ao chegarmos no grande tronco da árvore, que também era coberto de fios vermelhos. Pequenos animais se abrigavam dentro de tocas de madeira. Os professores nos juntaram para narrar uma história.
Um casal de apaixonados, que os pais não permitiam a união, prometeram se encontrar embaixo daquela cerejeira, quando ela ainda era pequena, amarraram fios vermelhos sobre ela para simbolizar seu amor, após anos de separação, com a árvore já grande, eles buscaram o fio vermelho e se encontraram um ao outro, como um sinal de que eram almas gêmeas inseparáveis, se beijaram. Assim surgiu a lenda, que casais que se encontram através do fio vermelho e se beijam, se tornam amantes eternos.
As meninas suspiraram com a história de amor e sonhavam em encontrar seu príncipe encantado, os meninos já pensavam em beijar garotas naquela noite.
— Se eu puxar dois fios, posso beijar duas? — Ouvi um deles perguntar.
Os professores nos liberaram para explorarmos o bairro da cerejeira.
Méilie se animou com a possibilidade de encontrar a sua alma gêmea e me pediu para me juntar a brincadeira. Confesso que eu não tinha interesse em beijar nenhum garoto naquela noite, eu tinha um namorado, de quem gostava muito, fora que, eu não quero ter relacionamento com nenhum vampiro. Credo! Já imaginou se eu encontrasse Thomas ou Oliver do outro lado? Tive arrepios só de imaginar.
— Eca! — Méilie fez careta ao imaginar a cena. — Mas não serão eles do outro lado do seu fio, será a sua alma gêmea.
— Méi, não me leva a mal, mas não acredito em almas gêmeas. As pessoas se apaixonam pelas outras, mas nem sempre é para sempre, e eu gosto do Vítor.
— Mas e se o Vítor for sua alma gêmea? Talvez você não se encontre com ninguém!
Não adiantava o que me dissesse, eu não iria participar da brincadeira. Observar os adolescentes olhando para cima enquanto caminhavam era uma cena um pouco constrangedora, os meninos tentavam ver se a menina do outro lado era bonita ou não. Como almas gêmeas poderiam ser definidas por um fio vermelho? Isso soava mais como um conto de fadas e não algo real.
Cansada de insistir, Méilie resolveu ir sozinha, ela desamarrou um fio próximo ao tronco e o seguiu após me dar tchauzinhos no ar.
Economizei um bom dinheiro com o meu trabalho na sorveteria. Como eu não tinha muito com o que gastar, já que a escola oferecia comida, quartos, etc. Pensei em comprar algumas lembrancinhas, quem sabe, presentes para minha mãe e amigos, quando voltasse para casa depois desses três anos. Sentiria falta da Méilie e das poucas coisas boas que viviam aqui.
Fui na direção das lojas, uma vendia refrigerantes de sabores estranhos como ameixa e chá-verde, isso estragaria antes de eu poder levar para meus amigos provarem. Os doces tinham uma aparência muito fofinha, não resisti em comprar para mim, um doce com um rosto de urso fofinho, muito gostoso! Comprei umas estatuetas de gatinho, que de acordo com a vendedora da loja, traziam boa sorte e fortuna. Ótimo, precisava de ambas as coisas. Vamos ver se esses gatinhos dão sorte mesmo.
Passei um bom tempo explorando as lojas, que se provou ser mais cansativo do que eu pensava, comprei um pão doce de chocolate e resolvi descansar sobre uma ponte vermelha que avistei, embaixo dela vivia dois cisnes apaixonados que nadavam com tranquilidade, nunca tinha vistos cisnes pessoalmente! Eram muito bonitos! Peguei o pão doce e o mordi, mas cuspi na hora ao perceber que não era recheado com chocolate e sim com feijão! Ruim!
Os cisnes olharam para o meu pão com desejo, joguei um pedacinho para eles e apreciaram a comida com prazer. Procurei por alguma placa que proibisse de alimentar as aves, mas não havia nenhuma, tudo o que eu vi foram crianças correndo, pessoas visitando as lojinhas, casais apreciando o luar e os alunos uniformizados seguindo o fio vermelho.
Voltei a jogar pão para os cisnes e os observei, os dois curvaram-se um para o outro, encostando suas testas, os seus longos pescoços formavam um coração. Uma rajada de vento balançou os galhos, que fez com que houvesse uma chuva de pétalas cor-de-rosa. Todo aquele cenário era romântico, acho que por isso chamavam de A Grande Árvore Mágica do Amor, as pessoas se apaixonavam pela atmosfera que aquele lugar proporcionava.
Senti algo encostar minha nuca, achei que fosse uma aranha ou um inseto. Ao me virar, vi que era apenas um fio vermelho. Meus olhos se direcionaram para cima, o cordão era longo e o galho da qual ele se prendia estava levemente curvado, de alguma forma parecia ter um tom diferente de vermelho, mais brilhante, quase escarlate.
Por algum motivo, me senti extremamente atraída por aquele fio. Enrolei o fio entre meu dedo indicador. A textura era macia e emanava calor naquela noite fria, muitos alunos participaram da brincadeira, eu não seria a única, também não era obrigada a beijar o menino que encontrasse do outro lado, não é? Talvez não fizesse mal, se fosse Oliver ou Thomas do outro lado, eu chutaria as suas bolas e sairia correndo.
Fechei os olhos e puxei o fio vermelho, que se desfez em um puxão. Decidida em busca da minha possível alma gêmea, me perguntei quem seria o garoto do outro lado do meu fio. Conhecia poucos garotos na turma, se fosse o garoto emo? Deus me livre de encontrar o Chang do outro lado! Méilie me mataria! Se bem, que ele tem namorada, duvido que participasse da brincadeira. Se eu encontrasse a Méilie do outro lado, eu morreria de rir e diria para ela que era tudo besteira, ou ela interpretaria como almas gêmeas da amizade? Vindo dela, isto era bem possível.
Atravessei a ponte dos cisnes. Com o rosto virado para cima, apenas vi o brilho prateado da lua atravessando as folhas rosadas, alguns alunos se esbarraram em mim, mas estavam tão concentrados em suas próprias linhas vermelhas, que nem se incomodaram em falar comigo, apenas uma breve “desculpa” bastava.
Não sei por quanto tempo caminhei, o fio era tão longo que parecia não ter fim. Por um momento parei quando senti um puxão do outro lado. A pessoa do outro lado do meu fio não estava tão longe. Senti meu coração palpitar com força, quem seria do outro lado? Apertei a linha entre meus dedos com mais força, era tarde demais para voltar, agora queria saber quem era. Impaciente com aquele infinito, acelerei meu passo, senti a vibração da linha, a pessoa do outro lado também se demonstrava impaciente para descobrir quem seria sua possível alma gêmea.
Finalmente nos encontramos, um rapaz alto, de pele morena, com os cabelos negros ondulados, de olhos grandes e escuros possuía um fio vermelho enrolado em sua mão tatuada. Não acredito! Não pode ser!
Sem conseguir me mexer ao avistar a figura na minha frente, deixei que ele se aproximasse, com um sorriso malicioso nos lábios, exibindo suas presas tão brilhantes quanto os brincos de ouro que usava. Por que Ali estava do outro lado do fio? Justo do meu?!
Estávamos a centímetros de distância um do outro, podia sentir o cheiro devasso do seu perfume de âmbar. Levantei minha cabeça para encará-lo nos olhos.
— Não esperava encontrar você. — Ele me disse ainda com um sorriso no rosto. — Quer dizer que está atrás de um amor? E o seu namorado?
— E você? Já não tem namorada?
A pergunta pareceu incomodá-lo, ele olhou para o fio vermelho enrolado em sua mão e suspirou.
— Só quis experimentar a brincadeira, não importa quem seja a garota do outro lado, já estou de casamento marcado com a Kaila. — Ele passou a mão pelos seus cabelos negros, parecendo irritado.
Não sabia interpretar as suas palavras, em alguns momentos, ele e Kaila pareciam um casal apaixonado, estavam sempre juntos, ele a ajudou a carregar as malas quando viemos para Taekon, se preocupou em presentes de aniversário, mas… naquele momento ele não parecia o garoto apaixonado por sua namorada. Estaria enganada? Quais eram seus verdadeiros sentimentos? Talvez a obrigatoriedade do casamento o faz se sentir indeciso? Deve ser ruim estar em um casamento arranjado.
Em meio aos meus devaneios, Ali se aproximou ainda mais, tocou o meu rosto com as suas mãos, ele tinha a pele quente e macia. Senti meu rosto esquentar com o seu toque inesperado, as suas pulseiras de pano acariciavam minhas bochechas, ele afastou alguns fios do meu cabelo e olhou bem para os meus olhos. Era como se eu tivesse caído em uma hipnose, Ali me parecia mais uma miragem, numa espécie de sedução tântrica que eu não conseguia escapar.
— Eu não consigo parar de pensar naquele beijo que você me deu na peça. — Ele me revelou.
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