Aurora: a Mestiça

38 CAPÍTULO 37: Esta noite você é minha


Quase não acreditei naquelas palavras proferidas. Estaria sonhando? Ali disse que nosso beijo não significou nada. Não consegui descrever o que aconteceu comigo naquele momento. Todo o ambiente era propício para o romance, a música lenta que tocava, as cores da cerejeira, o lago com os cisnes, era impossível não se deixar levar.

Balbuciei palavras incompletas, sem conseguir formar uma única frase com sentido, minha mente era um embaralhado de peças que não se encaixavam. Só conseguia pensar naquelas mãos firmes na minha cintura, me puxando para perto do seu corpo, minha mão apertou o seu blazer, podia sentir o seu coração pulsar como um cavalo selvagem desbravando o mundo, o meu devia bater com a mesma intensidade.

Ali acariciou o seu rosto no meu, deixando-me embebedar do seu perfume de âmbar. Com as nossas testas coladas uma na outra, o vi entreabrir os lábios, sem avançar sobre mim, apenas sussurrou uma pergunta.

— Seria errado desperdiçar uma tradição, não acha?

Meu coração disparou. Ele queria me beijar? Seus olhos suplicavam por uma resposta minha. Meu peito queimava, não sabia dizer exatamente por que, apenas agi por puro instinto naquele momento.

— Sim. — Foi tudo o que eu disse antes de ele esbarrar seus lábios nos meus.

O beijo era bem diferente do da peça, que foi bem tímido, este, por outro lado, era atrevido e deixava meu corpo em brasas. Sua língua indomável expressava um desejo voraz de luxuria. Seus braços fortes me puxaram para mais perto de si, como se fossemos nos transformar em um só, me agarrei ainda mais forte em suas roupas. Mal conseguimos nos separar, toda vez que parávamos para recuperar o fôlego, nossos lábios ansiavam pelo encontro um do outro, num encaixe perfeito.

Me afastei a contragosto quando percebi o que fiz. Por acaso tinha ficado louca? Como podia beijar tão apaixonadamente um garoto que não fosse Vítor? Fiquei horrorizada com a minha atitude. Ali mantinha um sorriso cheio de malícia no rosto, por mais que suas bochechas rosadas demonstrassem que ele também sentia um pouco de vergonha de sua atitude insana.

— Não devíamos ter feito isso — falei. — Você tem namorada! Eu tenho namorado! Lembra?

Relax, foi só um beijo de brincadeira, nada demais.

Ele sabia tão bem quanto eu que aquilo não foi um beijo de brincadeira, foi… alucinado! Não tinha nem palavras para descrever o que aconteceu aqui, era como um beijo super-romântico dos filmes de cinema. Culpo esse maldito lugar! Para que criar uma atmosfera tão romântica? Assim, a gente acha que vai mesmo encontrar a nossa alma gêmea. E não, com certeza, Ali não era a minha alma gêmea. Nem pela eternidade!

— Não gostou do beijo?

Por um segundo, vislumbrei um pingo de insegurança em seu olhar.

— Não é isso. É só que… não devíamos…

Quem eu queria enganar? O beijo foi bom até demais! Ele se aproximou de mim novamente, puxou o meu rosto com as mãos e me beijou mais uma vez. O retribuir com ardor, passando meus braços sobre seu pescoço e puxando alguns fios do seu cabelo ondulado. Só que de repente, ele parou, pegou no meu pulso e me puxou para trás de alguns arbustos.

— O que tá acontecendo? — Gritei em protesto.

Ele pôs o dedo indicador sobre os meus lábios, pedindo que eu ficasse em silêncio. Observamos duas pessoas se aproximarem no mesmo local em que estávamos a pouco. Quase deixei meu queixo cair ao ver quem eram. Méilie e Chang se encontraram com um largo sorriso de felicidade.

O rosto de Chang ficou vermelho como o fio que carregava, Méilie brincou com a sua linha carmesim entre os dedos.

— Então era você o tempo todo? — Ele falou primeiro.

— Você também sentiu?!

— Quando eu te vi? Hǎo! Senti desde o primeiro momento que você era a garota certa para mim.

As mãos de Chang tomaram as mãos pequeninas de Méilie, eles se balançaram com delicadeza. Os dois pareciam dois jovens apaixonados de um mangá shoujo.

Sabia muito bem que Méilie o desejava mais do que tudo, ele era a sua obsessão durante todo o ano, mas senti que fiz um bom papel de colocar bom senso em sua cabeça, ao vê-la tirar suas mãos da dele.

— Então por que continua com a Elis? — Ela perguntou.

Boa, garota!

— Eu não sabia se você sentia o mesmo que eu — Chang se justificou. — A Elis é uma garota legal, não queria magoá-la, mas… — Ele tomou suas mãos novamente. — Agora que sei que você gosta de mim, não preciso mais namorar a Elis, eu quero você, você é o meu destino, Méilie. — Ele segurou o rosto dela com as mãos. — Desde o momento em que te vi, percebi que você era para mim. Como num conto de fadas, um amor à primeira vista.

Quase que Méilie desaba ao chão, suas pernas falharam por um segundo, mas ela caiu nos braços de Chang. Próximos um do outro, tomaram a atitude mais insana que podiam e deram um beijo de novela das noves. Fiquei sem reação ao ver como a minha amiga podia ser ousada! Seu primeiro beijo foi de arrasar!

Após o beijo, os dois não se afastaram, permanecendo abraçadinhos como os dois cisnes apaixonados que vi no lago. Eles sorriram e gargalharam em gostosuras um para o outro, felizes. Chang pegou na mão de Méilie e a puxou para correrem juntos, toda a ambientação romântica do lugar os fez parecer que fugiriam para casa, se pensar em Méilie… era a cara dela fazer algo assim.

Ali e eu saímos do esconderijo.

— Você sabia? Que ela gostava dele? — Perguntei.

Nahi! Mas ele me disse que gostava dela. Fico feliz de ele estar com alguém que goste, você não está feliz pela sua amiga?

— Eu achei que Chang e Elis eram um casal feliz e perfeito.

— As aparências enganam.

— Por que ele não terminou logo com ela?

— Chang é meio bobo, ele tinha medo de magoar a Elis, mas ele nunca gostou dela. Eles começaram a namorar por insistência da Kaila. Bem, acredito que com a Méilie as coisas serão diferentes.

— Eu espero que sim. Se ele magoar a minha amiga vai se ver comigo!

Ali riu.

— Gosto do seu jeito protetor.

— Nem tente flertar comigo! — Eu disse, lhe dando uma cotovelada.

Ele não pareceu ofendido, pelo contrário, se deleitou com as minhas provocações. Decidimos que era hora de nos separarmos, ele avisou que faria umas compras antes do horário de voltarmos para o hotel. Me deu um aceno no ar antes de me dar as costas, mas virou-se para mim um segundo depois.

— Obrigado pelo beijo, foi melhor que o da última vez. — Ele deu uma piscadela, antes de sair rindo.

Que idiota! Tive vontade de pegar um dos gatinhos da sorte e acertar em sua cabeça, mas ele desapareceu da minha vista num piscar de olhos. Idiota! O xinguei mentalmente enquanto passava os dedos pelos meus lábios, ainda sentindo o seu sabor de baunilha e volúpia.

***

Durante o jantar, ao voltarmos para o hotel, percebi que casais se formaram naquela noite. As pessoas levaram mesmo a sério a história da árvore. Alguns meninos comentaram sobre os beijos que deram, já outros alunos falaram que seus fios não foram entrelaçados. Bem, para mim, isto provava que a árvore não era mesmo mágica.

Méilie cantarolava e se controlava para não olhar para Chang, o menino também disfarçava o olhar, sentado ao lado de Elis, não seria de bom tom que encarasse outra garota. Ali e eu fingimos que nada entre nós aconteceu, ele era um bom ator até fora dos palcos, então, fiquei bem.

— Está tão feliz — falei para minha amiga. — Encontrou algum garoto do outro lado do fio?

Fiquei um pouco chateada por Méilie não ter me contado nada. Ela sabe que não aprovo seu relacionamento com Chang, mas podia me falar o que aconteceu, ficar de fora e saber de tudo ao mesmo tempo era angustiante.

— Ah! Encontrei um rapaz bèl anpil! — Ela riu. — Vamos ver se isso vai dar certo.

— É mesmo? Quem é ele?

Méilie ficou sem jeito, ela cobriu o rosto com as mãos e riu, disse que não queria revelar agora. Como eu gostaria de dizer que sabia de tudo…

— Sendo assim, não conto quem eu encontrei no outro lado do meu fio. — Eu disse, fazendo o mesmo jogo.

Os olhinhos cor-de-rosa dela brilharam como mil estrelas, me perguntou várias vezes quem eu havia encontrado, mas permaneci muda assim como ela, a menina resmungou e prometeu que ao chegarmos no quarto, ela me revelaria quem era. Terminamos nosso jantar com rapidez e seguimos para nossos aposentos.

Ficamos feliz em saber que Kaila e Elis não voltaram ainda. Em completo êxtase, Méilie me perguntou quem era o garoto com quem me encontrei e por que resolvi participar se tinha dito que não o faria.

— Só respondo depois de você. — Interrompi seu interrogatório.

— Isso não é justo!

Cruzei os braços e com um enorme sorriso aguardei que ela começasse.

— Eu me encontrei com o Chang…

Méilie foi interrompida pelo bague que a porta fez ao se abrir, Elis entrou correndo e se jogou em sua cama, chorando com o rosto no travesseiro. Kaila surgiu logo atrás para acalmar sua amiga, ela se sentou ao lado da cama e acariciou os cabelos da garota. Elis chorava pelo fim do seu relacionamento com Chang, Méilie já não parecia mais tão feliz, olhamos uma para a outra e ficamos quieta.

— Ele disse estar apaixonado por outra! — Chorou.

— Ei! Mas você não disse que achava que nem gostava tanto dele assim? E o garoto que encontrou na brincadeira da árvore? Não é mais interessante?

A Genesi enxugou os olhos e se virou para nós, tinha certeza de que ela odiava demonstrar fraqueza na nossa frente. Elis se sentou na cama e apontou para Méilie, a minha amiga arregalou os olhos, surpresa.

— Foi por ela que ele me trocou, por uma olhos-loucos.