Aurora: a Mestiça
31 CAPÍTULO 30: Nunca será o mesmo
Me senti revigorada após beber o sangue, agora sim, meu estômago estava saciado. Ao voltar para dentro, vi uma cena vergonhosa. Renan, muito bêbado, cantava no karaokê músicas melodramáticas e xingava Yago, seu ex, na frente de todos. O que era uma ótima oportunidade para muitos filmarem e jogarem na internet. Paloma me pediu ajuda para tirar Renan de lá, nós duas, e Vítor, nos unimos em uma força tarefa para tirá-lo de lá.
Laura se mostrou prestativa, compadecida da situação de Renan, chamou um uber para ele e Paloma, e disse que eles poderiam vir buscar suas bicicletas depois. Renan dormiu no ombro da nossa amiga quando partiram.
Sem os meus dois amigos comigo e após todo esse constrangimento, achei melhor ir embora e Vítor me acompanhou. Ainda assim, não queríamos nos despedir, por isso resolvemos aproveitar o crepúsculo na praia.
Colocamos nossas roupas nas mochilas e caminhamos pela praia com as roupas de banho. Vítor empurrava a sua bicicleta e eu andava segurando seu braço, descalços sentíamos a textura da areia entre nossos pés, era tão bom ter aquela sensação novamente! O vento quente do verão balançava meus cabelos e aquecia o meu rosto.
Soltei seu braço e corri pela praia. Aquele lugar era meu verdadeiro lar, eu não trocaria por nenhum lugar sombrio e frio como Plenluno. Vítor soltou a bicicleta junto com as mochilas e correu atrás de mim, numa grande brincadeira de pega-pega.
Quando ele me pegou, caímos no chão e rolamos, nos cobrimos de areia e risos. Paramos sem fôlego, Vítor por cima de mim, o reflexo da pouca luz sobre seu corpo, lhe dava um tom sobrenatural e sedutor, seus olhos adquiriram um belo tom de castanho. Não resisti quando ele encostou seus lábios nos meus, em um beijo intenso e voraz. Enrosquei minha perna na sua, não desejando que ele me soltasse de seus braços.
Paramos para recuperar o fôlego e observamos um ao outro. Sorri, ao me sentir sortuda por tê-lo em minha vida e por ter voltado para casa. Ele se levantou e me ajudou a levantar, resolvemos observar os últimos momentos do pôr-do-sol sentados na orla, antes de irmos para casa. Me entristeci ao lembrar que minhas férias logo chegariam ao fim, queria passar mais tempo com ele.
— Vamos para casa — disse Vítor, após o céu ficar escuro.
Tristonha, caminhei ao seu lado até chegarmos à pista e subir na garupa. Assim que ele me deixou em casa, fiz a cara mais depressiva que conseguia, pude sentir seu coração partir ao me ver daquele jeito.
— Não faça essa carinha. Eu fico triste.
Impossível que eu o deixasse escapar naquela noite, nosso beijo na praia foi cheio de desejo e volúpia, queria repeti-lo e ir além. O puxei para fora da bicicleta e lhe beijei mais uma vez, para que captasse a minha mensagem mental.
— Durma aqui, minha mãe saiu para trabalhar hoje a noite, você vai embora de manhã cedo.
Sem nenhuma boa desculpa para recusar, ele entrou em casa. Vítor pediu para tomar banho, já que estávamos cobertos de cloro, água e areia. Eu o levei até o banheiro e fui ao quarto buscar uma toalha, quando voltei, ouvi a água do chuveiro caindo sobre o seu corpo, abri a porta devagar, pude ver sua silhueta esquia e alta pelo vapor. Seus cabelos molhados sobre o rosto lhe davam uma aparência tão sexy!
Vítor não me ouviu abrir a porta, entrei no banheiro com uma ideia obscena presente na minha cabeça, desamarrei o meu biquini e me juntei a ele no box. Ao invés de ficar com raiva por invadir sua privacidade, ele sorriu ao me ver e me puxou para um beijo.
Tomamos banho juntos, Vítor me ajudou a ensaboar as minhas costas, suas mãos percorreram o meu corpo, os seus dedos me massagearam, os seus lábios resolveram fazer parte da brincadeira e beijaram meu pescoço. Já não nos limitamos mais as mãos, nos entrelaçamos em um só enquanto deixamos a água correr sobre nossos corpos.
***
Não era a primeira vez que Vítor dormia lá em casa, então eu tinha algumas roupas dele guardada em meu guarda-roupa. Ele as vestiu e resolvemos assistir a um filme. Deixamos que a Netflix nos recomendasse uma comédia, queria me afastar ao máximo possível da temática de vampiros. Nos primeiros vinte minutos do filme, Vítor resolveu fazer pipoca, tudo bem, esperei por ele no sofá enquanto mexia no celular. Paloma me mandou mensagens informando que deixou Renan com a mãe dele e que agora dormia com tranquilidade.
— Será que o Yago viu algum vídeo? — Ela me questionou.
— Espero que ele seja um cara legal e ignore. Puxa! Renan estava bêbado, tadinho!
— É, eu sei. Ele tem que superar esse ex logo! Faz meses que terminaram!
— Foi o primeiro namorado dele, não é fácil…
Ouvi um grito vindo da cozinha, que me fez derrubar o celular. Cacete! Com a tela virada para o chão…
— Que porra é essa?! — Vítor gritou.
Corri até ele e o avistei bebendo de uma das minhas garrafas de sangue. Opa! Ele limpou a boca, não consegui dizer nada, o encarei paralisada.
— Fui beber achando que era vinho, mas tinha um cheiro e gosto estranho. Que horrível! Parece sangue — disse ele.
Eu apenas coloquei a mão sobre minha boca. Aquele cheiro metálico adentrou pelas minhas narinas. Ignorei as perguntas de Vítor e avancei sobre a garrafa, sentei-me na bancada da cozinha e bebi direto da boca. Alguns filetes de sangue escorriam pelo canto dos meus lábios e o garoto me olhou assustado. Limpei o sangue que escorria com os dedos e os lambi.
— Amor, isso parece sangue porque é sangue — respondi.
Nós dois nos amávamos, não é? Acabamos de transar no chuveiro, um lugar extremamente desconfortável, mas fizemos dar certo. Podíamos fazer nossa relação dar certo mesmo sendo de espécies diferentes. Cansei de mentir para ele.
— Eu sou uma vampira — soltei de uma vez.
Esperava que ele risse de mim ou fosse embora com medo, mas sua reação foi fora do normal, apenas ficou parado com cara de bobo, esta foi a pior reação possível! Se ele risse, podíamos rir juntos, se ele fosse embora, eu teria entendido que tudo acabou entre nós, mas ele estava lá, sem dizer nada, totalmente estático eu não sabia o que esperar.
— Diga alguma coisa! — Exigi.
— Não sei o que dizer… Vampiros não existem.
— Eu também achava isso até…
— Talvez você tenha sonhado que era uma vampira, não? Você assiste e lê sobre vampiros o tempo todo.
— Então como você explica que eu bebi isso? — Ergui a garrafa.
— Pode ser alguma bebida europeia com um cheiro e gosto estranho. Sei lá! Eles comem até pombos.
Revirei os olhos, indignada!
— Se você é uma vampira, por que não me transforma?
Olhei para ele, surpresa, não esperava esse tipo de pedido. Transformá-lo em um vampiro? Não era essa reação que os humanos tinham nos filmes e livros quando se encontravam com uma criatura das trevas.
Vítor pegou na minha mão e a beijou, seu rosto se aproximou do meu, ele não tinha medo de mim, ainda podia sentir que me desejava, seu coração palpitava com a força de um trovão.
— Eu quero você pra sempre, Aurora. — Seus olhos cor de avelã emanavam um brilho intenso. — Porque te amo! Se você puder me transformar, para assim ficarmos juntos para sempre, eu vou aceitar. — Suas mãos apertaram as minhas com ternura.
Meu coração quase saiu do peito. Por impulso, o beijei para que ele esquecesse tal ideia. Eu odiava ser vampira e não aprendi nada sobre transformar um humano em um vampiro na escola. Até onde eu sabia, um vampiro nascia normalmente como um humano, na união entre dois vampiros ou entre um vampiro e um mestiço.
— Me deixa ser como você. — Ele pediu novamente.
— Não posso. Vampiros não são como nos filmes.
Tive que explicar para ele tudo o que aprendi na escola, este era o meu motivo de ter sumido por todos esses meses.
— Quer dizer que se eu me cortasse agora você ficaria enlouquecida e me mataria? — Perguntou ele, curioso.
— Professor nos disse que se estivermos bem alimentados poderíamos conseguir nos afastar da pessoa, mas assim que bebíamos sangue “direto da fonte” seria difícil conseguir se conter e parar.
Não acredito que meu namorado queria virar vampiro para ficar comigo para sempre! Me senti emocionada, feliz. Se eu pudesse escolher, gostaria de ser humana para nós dois vivermos uma vida comum, mas a ideia dos dois serem vampiros e vivermos para sempre juntos, não me parecia má ideia.
Virei seu rosto para mim, mesmo que eu não possa transformá-lo, mesmo que sejamos muito diferentes, eu ainda o amava e iria amá-lo por toda a minha vida. Encostei seu rosto no meu e fiz carinho em sua bochecha.
— Obrigada por me aceitar do jeito que sou e não ter medo de mim — sussurrei.
— Eu jamais teria medo de você.
Nós finalizamos a nossa noite com mais um beijo de amor. Nunca me senti tão em casa! Definitivamente aquele era meu lugar. O abraço de Vítor era o meu lar.
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